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GONZAGA DUQUE


Uma das mais importantes figuras do simbolismo brasileiro e do período pré-moderno, foi romancista, contista e crítico de arte. Pode ser considerado o primeiro e verdadeiro crítico de arte sistemático no Brasil, tendo deixado textos fundamentais nesse campo. Seu interesse pelas artes plásticas levou-o também a realizar trabalhos como a ilustração de um livro de B. Lopes, Dona Carmen. Foi retratado por vários artistas de sua época, como Eliseu Visconti, Belmiro de Almeida, Rodolfo Amoedo, Presciliano Silva, além de caricaturado, entre outros, por Raul Pederneiras e Kalixto.

Luís Gonzaga Duque Estrada nasceu em 21 de junho de 1863 no Rio de janeiro. Iniciou-se cedo no jornalismo, fundando em 1880, com Olímpio Niemeyer, O Guanabara. Em 1882 colaborou na Gazetinha, de Arthur Azevedo, e em 1883 na Gazeta da Tarde, de José do Patrocínio. Em 1887, atuou como crítico de arte em A Semana. Fundou, em 1895, com Lima Campos, a Rio-Revistas em 1897, também com Lima Campos, a revista simbolista Galáxia; em 1901, Mercúrio; e em 1908, com Lima Campos e Mário Pederneiras, Fon-Fon. Colaborou ainda em numerosos outros periódicos, usando muitas vezes pseudônimos, como Alfredo Palheta, J. Meirinho, Diabo Coxo, Amadeu, o Risonho e André de Resende.

Casou-se em 1885 com Júlia Torres Duque Estrada, com quem teve quatro filhos: Dinorá e Haroldo, que morreram em criança, Osvaldo e Lígia Cristina que, de seu casamento com o poeta Murilo Araújo, lhe daria a neta Maryssol Duque Araújo.

Foi 2º oficial da Diretoria do Patrimônio Municipal; 1º oficial da Fazenda da Prefeitura, servindo neste posto como secretário do diretor-geral muito tempo. Em 1910, foi nomeado diretor da Biblioteca Municipal.
Morreu, no Rio de janeiro, em 8 de março de 1911.


BIBLIOGRAFIA

- A arte brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: H. P. Lombaerts & Co., 1888. Organização de Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

- A dona de casa (com o pseudônimo de Sylvino Júnior). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1894; 2. ed., 1903.
- Revoluções brasileiras: resumos históricos. Rio de janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1898; 2. ed., Rio de Janeiro: Laemmert, 1905; 3. ed, organização Francisco Foot Hardman e Vera Lins. São Paulo: Editora UNESP: Giordano, 1998. (Memória Brasileira, 9)

- Mocidade Morta. Rio de Janeiro: Officinas da Livraria Moderna, 1899; 2. ed., Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971; 3. ed. São Paulo: Editora Três, 1973; 4. ed., organizada por Adriano Gama Kury, Alexandre Eulálio e Homero Senna. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1995.
- Marechal Niemeyer. Rio de Janeiro: Maia & Niemeyer, 1900.

- Graves & Frívolos. Lisboa: Clássica, 1910; 2. ed., organizada por Vera Lins. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa e Livraria Sette Letras, 1997.

- Horto de Mágoas. Rio de Janeiro: Benjamin de Áquila, 1914; 2 ed., organizada por Vera Lins e Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1996.

- Contemporâneos. Rio de Janeiro: Typ. Benedicto de Souza, 1929. Está para ser publicada uma nova edição preparada por Vera Lins.

- Impressões de um amador: textos esparsos de crítica (1882-1909). Organização Júlio Castañon Guimarães e Vera Lins. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001.

A partir de 1880, Gonzaga Duque colaborou em diversos periódicos, alguns fundados por ele: Guanabara, Gazetinha, Gazeta da Tarde, A Semana, Pierrot, Revista dos Novos, Rio-Revista, Galáxia, Mercúrio, Brasil Moderno, Rua do Ouvidor, Rosa-Cruz, Vera-Cruz, Kosmos, Renascença, O Paiz, Diário de Notícias, Diário do Comércio, Atheneida, Os Anais, Revista Contemporânea, O Globo, Fon-Fon, A Avenida, Ilustração Brasileira, Revista da Semana, Revista Americana.

Postumamente, vários contos inéditos de Gonzaga Duque foram publicados pelo seu genro, Murilo Araújo, na Revista Souza-Cruz.

 

Textos:

CASTAGNETO (texto de crítica artística)

Gonzaga Duque

Neste silêncio de noite verânica, sem lua, sob o remoto e escuro opérculo borrifado de estrelas eu o evoco numa saudade. Vejo-o como outrora, no primeiro tempo de sua cálida mocidade sonhadora, espairecendo à porta de uma charutaria da movimentada Ouvidor.

Era, então, um rapaz de vinte e dois a vinte e cinco anos, de estatura meã, menos músculos que nervos nos membros secos, nariz em adunco de rapina, loura barba, que lhe emoldurava o rosto, bipartida ao queixo; olhos grandes e azuis, um sombrero negro, forçado um pouco à nuca, sobre a crespa cabeleira cor de tabaco turco.

Assim o tenho diante de mim, tal ele foi nesse tempo de insubmissão e utopias, exatamente o mesmo, no seu tipo físico e na sua inteireza moral. Eu bem o percebo nessa recordação amorável. Eu bem o percebo! Aí está ele, de ombro ao portal, em trajos de homem desprevenido de cuidados mundanos, uma ponta de cigarro mascado no canto da boca sensual, o espírito rebelado contra a convenção e a injustiça.

Às vezes, para dizer coisa insignificante, para exprimir idéia vulgaríssima, fosse um convite ao copo, fosse indagação sobre o paradeiro de alguém, contraíam-se-lhe as sobrancelhas na raigota do nariz, forçando-lhe a máscara numa carantonha de raiva e, quase sempre após o peso de um termo à Cambrone, tossia aquela inimitável risadinha cacarejada na güela, que lhe era particular, característica, intraduzível, pelo jogo fisionômico e que, começando por lhe dar as contrações de uma angústia, terminava por o fazer expressivamente ingênuo, mas dessa ingentudade que é dos sem-malícia e não lembra o infantil.

E nesse riso estava o Castagneto.

Ele foi um inculto e um puro, tinha violências e fraquezas, era desabrido, não raro demasiado àspero, ao mesmo tempo tímido como uma criança e como as crianças era móbil, incoerente e meigo. Dir-se-ia que a sua natureza participava das inconstâncias do mar. Em toda a sua curta existência nunca deixou de ser um filho de pescadores, com todos os sentimentos austeros dos não artificializados, e todas as incorruptíveis virgindades dos simples.

Começando muito cedo a vibrar aos impulsos do instinto estético, que lhe estavam na idiossincrasia por desconhecidas, mas supostas heranças sentimentais, talvez correntes estabelecidas por um indivíduo poeta na sua ascendência, que se acumularam nele com maior intensidade e mercê de outros fatores simpáticos, muito cedo também se fez pintor.

Ao terminar as primeiras letras numa escola desta cidade, porque seu pai, italiano de origem, para aqui o trouxera ainda criança, foi cursar as aulas da antiga Academia de Belas-Artes.

Mas, sua índole não se coadunava com a exigência dos estatutos do ensino oficial. João Batista Castagneto tinha vivido sempre na rústica liberdade dos barqueiros e matalotes, crescera e homem se fizera nas fadigas da pesca, ajudando seu pai no ganha-pão dos pobres, para se sujeitar aos regulamentos de uma academia. Por felicidade sua, e bendita coincidência para a nossa arte, havia chegado nessa ocasião o paisagista George Grimm, um robusto germânico que pintava com o mesmo vigor com que diariamente fazia léguas de jornada, batendo os sapatarros campônios no pó dos caminhos. Em torno de Grirrim formou-se um grupo de moços, ávido de aprender a paisagem por processo que não fosse o estiolante ou improdutivo sistema da cópia de pinacoteca, e logo Castagneto veio juntar-se-lhe para a peregrinagem cotidiana por esses morros e praias, ao sol do verão e aos nevoeiros de inverno, parco fardel no bolso e mochilo do estojo ao dorso.

Todavia a paisagem propriamente dita pouco o entusiasmava.

Do tempo passado num tugúrio às margens do Mediterrâneo, da infância desenvolvida sob o telhavã dos areais marinhos, onde respirou o tônico alcatrão da cordoalha e a maresia dos utensílios de pesca; da adolescência familiarizada com todos os atributos da profissão paterna, pois que sabia costurar as redes, trançar a taquara dos covos ou manejar a driça nos bordejos da guiga, ficou-lhe o amor desta existência independente e obscura, ou, para melhor dizer - o vínculo atávico da origem. O mar atraía-o portanto; mas, o mar batido e espumejante das regiões costeiras, não o largo mar isolado, nostálgico e bravio; não o solitário oceano reboante, imenso, convulsivo, sob o vasto céu tão misterioso como ele!

Toda a atenção do artista convergiu para a vida humilde dos pescadores, para os míseros recantos de beira-mar, onde a paisagem, se não houvesse colmo de gente da pesca, que traduzisse a poesia de sua existência obscura, pudesse lembrá-la pela proximidade da terra.

Esta tendência fê-lo afastar-se de George Grimm, apenas conseguiu copiar, com satisfatória segurança, o que lhe impressionava a retina e lhe vibrava a emotividade. Entretanto, abandonando as lições do mestre, de quem, como todos os discípulos, recebera o colorido e a maneira de interpretar, persistiu nos estudos do natural e com tanto afinco que, em pouco tempo, perdeu aqueles defeitos de involuntária imitação, para entrar na posse de sua individualidade.

A pintura de marinhas teve, no Brasil, poucos representantes. Foram esses - Eduardo de Martino, Gustavo James e Emílio Rouède. Dos três o que mereceu maior aceitação, sem dúvida exagerada por simpatias pessoais e complacência da crítica, embora tenha hoje vantajosa cotação no mundo oficial da Inglaterra, foi De Martino. Nenhum deles, porém, acusou um temperamento de eleição. De Martino era forte desenhista do aparelho náutico, conhecia bem a construção naval, mas pintava defeituosamente, com maneirismos e descuidos. Gustavo James, empolgado por uma vesania, teve o desenho correto, mas medíocre, e a palheta desvairada como lhe fora o cérebro. Emílio Rouède, contemporâneo de Castagneto, exerceu apenas uma das muitas habilidades que o tornaram conhecido: pintava marinhas como escrevia artigos para jornais e peças para o teatro, por mera diversão de um espírito apto a praticar a atividade que quisesse, sem lha sentir necessária à sua vida psíquica. Foi um curioso, tolerado pela comunicativa jovialidade de uma desmedida boêmia.

Castagneto apareceu inesperado, no tempo em que Emílio Rouède pintava marinhas elétricas, em cinco minutos, nas kermesses de caridade. As lojas de molduras encheram cavaletes e vitrines com suas tábuas, com os seus celebrizados tampos das caixas de charuto e pequenas telas de meio metro. Um grande sucesso o acolheu. Demais, seu nome era de fácil retenção mnemônica, guardava-se-o simpaticamente. Não constituíam, esses trabalhos, uma arte nova pelo assunto nem pelo flagrante do seu expressivismo; eram duma original feitura, como retidos à primeira impressão, espontâneos e vigorosos, com certos toques de efeito que os tornavam agradáveis por elegantes sem acabamento ou excesso.

O pincel lanhava a tela ao deixar a tinta; a espátula trabalhava nos empastelamentos rapidamente: em certos pontos percebia-se a passagem do polegar, ao modo dos escultores. E esse trabalho febril, alcançado de momento, num conjunto simplificado, fundia-se numa suave, delicada tonalidade azul-cinza, tirando ao pérola em suas dulcíssimas nuanças ora em laivos de amarelo, ou verde-água, ora no carregado do índigo com translucidez iriada em opacidade de penumbras.

Pelo sucesso obtido, apoderou-se dele uma febre de produzir, e as exposições se sucederam, a atividade tornou-se-lhe vertiginosa. Castagneto enchia telas sobre telas, tábuas sobre tábuas; qualquer objeto lhe servia para fixar uma recordação de passeio ou copiar um ponto de praia, e pintava em medalhões de faiança, em pratos de porcelana, de loiça ou de barro vidrado, em bojos de boiões de cozer, em cartões de estudos e de caixas...

Uma vez em seu quarto-barcaça, da praia de Santa Luzia, onde residiu por longos anos e que assim o denominei porque ali o artista dormia, cozinhava, recebia os íntimos e pintava, em meio duma confusão de redes, arpões, tarrafas, remos e velas, encontrei, dependurado à parede, um bacalhau seco que lhe servira de tela para um lindíssimo efeito de espumejo de onda sobre amontoado de pedras.

À proporção que trabalhava aquelas qualidades mais se acentuavam, devido ao constante exercício da mão e à completa liberdade da sua vontade.

Veio época em que, para se lhe atribuir um quadro, desnecessário nos seria correr o olhar pela assinatura.

Mas, à parte essa nota pessoal, que se caracterizava pela espontânea largueza de sua pincelada, e que, também recebia o concurso da sua originalidade na escolha do motivo, sempre tendente ao pitoresco, posto que surpreendido nas linhas dominantes, de modo a anular o detalhe, o próprio Castagneto sentia que lhe faltava "o quer que fosse" necessário à sua completação artística.

Em verdade, Castagneto possuía, como os improvisadores, a forma pronta e elegante; se fosse poeta, isto é - se escrevesse - daria para as redondilhas simples, para o verso correntio e musical; como pintor tendia para os motivos singelos expressos numa habilidade um tanto arrebicada, não obstante a firmeza da mão. A originalidade da sua obra está, conseguintemente, nessa maneira, em que há espontaneidade, em que entra um pouco de chique (faceta comum à habilidade dos improvisadores) e a sinceridade brusca do seu temperamento.

Mas tudo isso provinha da sua organização, melhorado pelo esforço em conseguir imitar o que via. Eram, pois, qualidades inatas que o desenvolvimento do instinto estético, concordante com a idade e com seu próprio aproveitamento, tinha apurado.

Considerando a percebida, porém indefinida falta resultante de seus primeiros estudos, planejou uma viagem à Europa, onde procuraria os conselhos de algum notável pintor de marinhas e o ensinamento dos museus. A sorte deu-lhe a alegria de realizar esse desejo.

Coadjuvado por amigos e admiradores, seguiu para a França e lá se agrupou a um bando de discípulos de célebre marinhista. E foi lá, no primeiro dia de estudo ao ar livre, que ele recebeu a mais dolorosa decepção da sua vida - contava Castagneto, desmesurando, imaginariamente, o fato.

Apenas acabava de escarvoar o assunto, o peso de uma manopla caía em seu ombro e já um vozeirão graceiador lhe aumentava a surpresa.

Aturdido, o discípulo levanta o olhar. Tinha a seu lado o mestre, apoplético de riso, roncando chacotas à sua imperfeição de desenhista. Era isso, portanto, o que lhe faltava!

É preciso descontar-se a parcialidade da concordância. Oque lhe faltava não era unicamente um rigoroso estudo de desenho, em que tantos mestres têm errado, também o conhecimento da técnica da sua arte, os segredos do colorido e um ensino que, por exemplos e exercícios, lhe houvesse educado a maneira de ver, de apreender, de sentir como profissional, porque o sentimento artístico lhe não faltava.

A prova de tanto tivemo-la na exposição realizada pelo artista pouco tempo depois da sua chegada. Aos progressos do desenhador correspondiam os progressos do colorista; contudo esta aplicação foi inoportuna. Se ele a tivesse conseguido no início dos estudos teria aproveitado a originalidade da sua índole artística, desenvolvendo-a e apurando-a até se tornar um pintor completo; porém, tarde como ela lhe chegou - seu resultado foi negativo, deu-lhe efêmero progredimento com prejuízo da espontaneidade do inculto e impressionado artista das pochades, o que equivale dizer do primeiro tempo.

Efêmero!... Infelizmente, sim, foi efêmero esse progresso. Aos poucos Castagneto perdeu a sensação da cor como lhe ensinaram a ver, sem mais encontrar sua antiga tonalidade, tão suave e harmonizadora! E com esta perda também se foi, aos poucos, a energia de trabalhar.

Uma moléstia traiçoeira minava suas forças, secundada por alegres desregramentos de vida que o podiam aproximar dos mais incorrigíveis boêmios dos cabarets e das brasseries. Rapidamente o rebelde artista estava aniquilado, e foi tão rápido seu aniquilamento que lhe não deixou tempo de avaliar o desamparo de sua mísera mãe viúva, que ele, de tão longe, colmava de santos cuidados!

- Uma caixa de charutos, disse-me o Castagneto um dia, me dá para os cigarros e o bife... as botas, essas, eu as faço para mandar dinheiro à velhinha...

As botas eram os quadros.

E quando a moléstia o tentaculou de vez, quando as rugas o estreitaram a boca do monstro, estava ele a desenhar barcos em reles papel d'embrulho, sobre a mesa duma cantina, em frente ao copo, o terrível copo de Musset, de Poe e Verlaine, para fazer dinheiro... Para quê?... Talvez não fosse para os cigarros.

 

Conto: MORTE DO PALHAÇO

Gonzaga Duque

Esguio, anfracto, torturado na rude anatomia muscular dos esboços miguelangelescos, laivos de zíngaro na máscara violenta e nua, William Sommers fora o galhardo clown do trampolim e do trapézio, empolgando, num salto, a barra baloiçante dos aparelhos aéreos.

Fora - grifava nos comentários a parceria acrobática - porque, dum contado tempo a então, William decaía em contorções estranhas, imprimindo aos trabalhos singularidades incompreensíveis, movimentos desordenados, em exercícios amorfos, obscuros, ininteligíveis, de músculos e nervos, estendimentos preguiçosos de jibóia sonolenta, tics e tremores nervosos de pantera, sacudindo a impertinência dos moscardos, ou meneios aduncos de corvo atalaiado e lúgubre, como a combinarem expressões ensaiantes e dúbias duma arte nova.

À proporção que se reproduziam essas bizarras manifestações de acrobatismo, esquisitices de hábitos afastavam-no da convivência dos companheiros, esgrouviavam-no, com tédios prolongados, em posturas extáticas prejulgadas; pelo esconso parvo dos ginastas que o alvejavam, às costas, com observações e esgares injuriantes. William contraía, em desprezo, a fria boca sarcástica e voltava à sua imobilidade meditativa.

Ele próprio não poderia explicar, se o quisesse, a transformação por que passava. Era uma necessidade que o movia impulsivamente, cuja origem ignorava. Começara por uma espécie d'enfastiamento, um cansaço dos velhos exercícios aprendidos, que executava sem orgulho, mesmo sem a consciência de encontrar neles a sua subsistência. Sobreviera-lhe, depois, uma displicência, quase a se confundir com o spleen, amarga e crescente, dessas cabriolas cediças, desse revolvido repertório de jogralices tradicionais, imutáveis, estafadas, remendadas com retalhos d'entremez e rebotalhos de burletas.

Sem saber por quê, sentia a aspiração de uma arte que se não agachasse na recolta do dichotes de bastidores, nem repetisse desconjuntos de títeros, mas fosse uma caricatura sintética de idéias e ações, o traço carregado e hilariante, dolorosamente sardônico, do delírio humano em todas as suas expansões, desde as que o rebaixam ao similar das lesmas viscosas, 'té as que o elevam ao icarismo dos condores arrogantes, uma forma não usada, não feita, da sátira gesticulada, delineando no exagero representativo o ridículo das intenções.

Não lhe bastariam, para tanto, os esfalfados recursos acrobáticos. Sommers queria febrilmente, procurava aflito, rebuscava delirantemente mais alguma coisa.

Que era?... Alguma coisa que devia existir, que ao certo existia, embrionária, ou completada, esparsa pelos seres ou reunida em alguma parte desconhecida, sonho ou realidade... talvez o inédito... Fosse o que fosse!... mas que o enfermava, que o enlouquecia quase, pela grandeza do almejo nos estreitos limites do seu espírito inculto.

E, atento, esmiuçador, tentaculado inteiro por sua idéia, procurava esse segredo, combinando e desfazendo planos, criando e desenhando mentalmente figuras várias, aspectos imprevistos, detalhes impressionantes, aproximando-se do vago debuxo duma harmonia bizarra, logo acentuada nas suas linhas componentes, logo aperfeiçoadas nas suas justaposições, mescla de tintas em correspondência reflexa de movimentos rítmicos, o gesto e a cor, a eterna Forma e o eterno Colorido completando-se reciprocamente.

Entrava, então, a avaliar, na mímica expressora duma determinada idéia, qual aflexão que lhe corresponderia, de que maneira conseguiria o acuso caricatural, qual a consonância colorida que deveria externar, por assim dizer: objetivar a intenção. Delirava em tomo do seu sonho, seguindo com o olhar doentiamente crepusculado em vagares de outono a marcha trôpega dos rafeiros churros e famintos, a ironia triste dos boêmios envelhecidos; perscrutava a pupila, a atitude, os movimentos dos desamparados, os macilentos das enxovias que riem como os orangos e têm a inquietação farejadora dos roedores, a concentração múrmura dos predestinados para as galés; fundia todo esse penoso estudo em torcicolos e mímicas, em esgares e trejeitos, a lhes descobrir a característica, o flagrante, a nota dominante e certa, a expressão exata sob o desmesurado da sátira, e, esgotado, alquebrado, volvia, impacientemente, a outras investigações, a outras análises, esquecido de tudo quanto não estivesse no disco fascinante dessa obsessão, alheiado dos seus deveres, de suas gloríolas de arena, da sua própria existência material.

Gradativamente, enquanto mergulhava nessa ambição, enquanto sonhava e tateava o tenebroso desse ignoto, perdia os favores dos empresários e a simpatia das platéias. Houve noite em que os silvos do desagrado lhe vararam o amor-próprio. William, vergou-se, cortado pelo desprezo da multidão que o afrontava com o riso alvar dos seus críticos, com o motejo idiota dos seus censores, e redobrou de esforços para estertorizar a expressão desejada, para precisar a mímica reveladora e emocionante com que sonhava. Mas, como conseguir essa coisa abstrata? Onde descobrir essa misteriosa forma inovadora, esse mágico, encantado novo que ele pressentia e por cuja conquista se cansava?...

Debatia-se, exausto, contra insucessos, já perdido e desanimado no angustioso torvelinho das quimeras, já iludido e alentado pela luminosa bruma de imagens promissoras.

Um dia acordou-se. A vida chamou-o à realidade: seus trabalhos não mais influíam nos lucros do seu bando; muitas vezes a fome adormeceu com ele, esmagando-lhe a cabeça delirante nos torniquetes nevrálgicos, após o suplício das vigílias inquietas, que lhe estendiam sombras de demência nos cansaços da idealização. E percebeu mais nitidamente, mais pungitivamente a indiferença que o cercava. Não era só a multidão que vinha todas as noites encher a bancada do anfiteatro, pontear de caras os círculos concêntricos do picadeiro, quem lhe ofendia o orgulho; mas a gente da companhia, a gente da sua profissão, que o insultava com escárnios a essas tentativas, vexada em seus respeitos pela arte aprendida e tradicional, abalada em sua mediocridade por se compreender incapaz de reformar os exercícios que supunha imutáveis.

William encurvava os ombros humilhado e ferido, mergulhava as mãos nas algibeiras e lá se ia, arrastando passos vadios pelo granito das ruas, horas e horas, entregue ao acaso. Às vezes despertava de suas meditações na muralha dum cais deserto, às vezes num pendor de estrada solitária fora da cidade, e com o olhar fito na planura agitada das águas ou nos barrancos das montanhas, indo para o ilimitado, para o desconhecido, pelo misterioso do horizonte oceânico; parado nos recalcos das ribanceiras ornamentadas de festões de avencas e redoiças floridas de madressilva, no emaranho das ramarias e docéis de frondes, esperava encontrar a forma desejada e rebuscada prevista num efeito de luz sobre a transparência corcoveante duma onda espumosa, num estranho golpe de sol sobre o mosqueado da vegetação exúbera.

E dia a dia, levado no deslizar dos cismares, foi penetrando, insentidamente, numa análise sutil de formas e cores, observando os reptis, estudando-lhes os rastejos, os distendimentos coleantes, as suas precauções investigadoras, os seus arremessos alucinados. Subiu com o olhar às alturas e atendeu aos movimentos cabalísticos dos corvos, a sotumidade de suas posturas, a expectativa presaga de seus olhares; alçou a vista ao interior das florestas e notou o soberano langor dos felinos, a volúpia dos seus espreguiços e harmônico nervosismo dos seus pinchos, a segurança dos seus saltos... Comparou-os aos gestos humanos, calcou-os, fundiu-os e dessa fusão intuitiva, resultou um lúgubre sardônico e mau, que correspondia a certas cores, a certas tintas tiradas do colorido decorativo das plantas raras, das enfermidades típicas das estufas - a prateada lepra das begônias, a gangrena asfixiante de algumas tuberosas, as escaras exóticas das orquídeas - e então combinou o seu maillot original, um tecido fulvo, à maneira de certos panos mesclados de púrpura e oiro da rica tecelagem d'Oriente; sobre ele, em sucessão ininterrupta, de modo a cobri-lo literalmente, minúsculos bocetes em placas translúcidas de tom plúmbeo, apenas presos por uma extremidade, formando escamosa superfície miúda e movediça. Assim vestido e assim fantasiado era um maravilhoso monstro de lendas, cuja cabeça a morte substituiria pela sua própria cabeça impressionante e fria.

E nessa noite, de repente, surdiu da farândola grasnenta dos palhaços, num arranco de trampolim - up! - que o levou à altura dos trapézios.

Foi inesperado. Um sussurro de espanto espalhou-se pelo circo. Quando ele galgou a barra do aparelho, sussurrou, retremendo o ar, um som seco e longínquo de asas de agoiro, o cascalhar indescritível de uma matraca de enterro que soa por noite alta, no silêncio de uma estrada, além... Pelo espaço coriscaram chamas vermelhas, num bafo de inferno. Os espectadores atordoaram-se e lá-cima, na oscilação do trapézio, viu-se o monstro acocorado, quedo, outra vez da translucidez plúmbea de aço horrível. Os grandes olhos ardentes brilhavam em órbitas escavacadas a bistre, na lividez de uma ossamenta artificial apenas ria imóvel, ria sem risos, a feia mandíbula descamada.

Agora, tomara-se mais perturbador, porque se lhe notavam os meneios arrepiados e duros dum fantástico, dum funéreo abutre notívago, de cujo pescoço flácido pendia a carcaça fatídica da Morte para a platéia estupefacta. A distância confundia-o com a probabilidade dum pesadelo. Havia pupilas que fitavam com terror; em rostos exangues, bocas descoradas retorciam gritos invocalizados. E Sommers respirou orgulhoso... Mas, se assim impressionava, porque lho não diziam pelo aplauso!...

Certo esperavam mais... Sim, talvez ele os arrebatasse numa outra prova... E o monstro sardônico, a caveira jogral, foi s'erguendo lentamente ao som de uma surdina ensaiada, foi s'erguendo como um pensamento mau que se levanta. Todo o seu esguio corpo acidulado acendeu-se vagaroso, em sulferino de carvões ardentes, tremeu como uma pequenina chama desperta. Mal se lhe via a máscara. Nessa lentidão crescente, era um crime que desponta num espírito em névoas negras de tortura. Devagar o clarão se alastrava, a tentação crescia; relâmpagos de labaredas bafejados corriam sob o palpitar sonante das escamas agitadas, num ou noutro movimento presto. De instante a instante, os gestos se sucediam, dilatados num espreguiço, aberto num aceno acolhedor; eram a languidez de um carinho, eram a posse num amplexo... Súbito, o incêndio lavrou: o palhaço redemoinhou no espaço, como se houvesse agarrado, aniquilado alguma coisa. A queda dum chuveiro de chumbo estalou, surdamente, refrangiu o ar, passou... E a caveira voltou à sua imobilidade lá no alto, escura e fria, a rir sem risos.

Um silêncio pesava.

Então o monstro começou a mover-se, ora em arremessos, ora aos recuos. E a barra do trapézio, compassadamente, oscilou em vaivéns mais fortes, mais longos, mais largos, 'té estender-se pelo vácuo, em baloiço.

Misteriosamente um agoiro soprou, álgido e penetrante, no íntimo de toda gente: A Morte voa!... A Morte voa... lá pelas alturas!... E pálpebras esgazearam-se, num pressentimento; ouvia-se o respirar ofegante de peitos que arquejam... E o corpo do clown voava d'extremo a extremo, voava vertical e rígido, de braços estendidos às amarras do aparelho, semelhante a um grífus estonteado, sob o teto do anfiteatro. Ao se avizinhar dos arcos do gás, acesos e pendentes como candelabros, reluzia todo em frias brancuras de metal polido, em sucedâneas e fulvas claridades de fornalha, fascinando e deslumbrando como ambições; mas, depressa esmorecia em deflagrações bruscas de calmaria tropical, transfigurando-se numa sombra negra e aterrorizante, de desespero vencido, ao se afastar da luz viva. Dir-se-ia que o mal pairava ali, procurando o poiso duma alma.

De repente, porém, um rumor entontecedor d'asas viris que se encolhem para flechar a distância em assalto súbito, o monstro varou para outra barra, adiante, e foi correndo, volteando de trapézio em trapézio por um círculo de vôos e redemoinhos, quase sem forma que o recordasse, já negro e inteiriçado, já rubro e serpentino, ou em tremente globo d'aço, ou poliformidade flamurante, lembrando rapina que se debate com o valor da presa, agonia que a vitalidade repele, demônio que o exorcismo afasta, e que persistem, e que volvem, relutam, sangram, escabujam, atropelam, perseguem e recuam, galgam e são galgados, ferem e são feridos, e mais se empenham em agarrar, estrangular, arrebatar... até que, num salto duplo, ganhou o seu mirante aéreo, num longo hausto de triunfo!

Rasgaram o sussurro das respirações sôfregas guinchos de goelas ressequidas; urna voz, rouquenha d´enfado e regougante de horror, estalou afronta inconsciente, pedindo que terminasse. William estremeceu, sacolejado no seu orgulho, mas logo deu de ombros com desdém. Que lhe importaria o entendimento da turba?... Sua alma estava toda na desejada perfeição deste trabalho. Fora ele que o criara, era ele o primeiro que o executava. Amava-o, pois, como um esforço seu. Agora queria completá-lo para sua própria satisfação, porque a inédita beleza resultante de cada gesto de seus membros, de cada flexão de seus músculos, só refletia no seu próprio espírito, convergindo para sua própria admiração. E que delícia em se sentir estranho, atormentador, horroroso!...

Ei-lo pelos ares, de pé, braços em cruz, voando na cadência baloiçante do aparelho. É uma rapina que se apruma nos espaços, o ente fabuloso e híbrido cuja cauda se biparte em pernas e se eleva invertendo a posição da cabeça; uma quimera que se contorce, se distende com as seduções das sereias e se concentra na tensão muscular de um polvo. Num momento todo este corpo chameja, e essa cabeça horrorosa, semelhante à base de um Y que tem as forquilhas presas ao trapézio, bamboleia ameaçadora, olhando da treva das órbitas com desvairadas pupilas úmidas... Depois a enorme letra viva, o grande Y aéreo, toda se enverga mole e desconjuntada; dela se desprendem braços que procuram apoio e se converte num hieroglifo e se metamorfoseia numa imagem indizível, que começa por lembrar um sapo e termina por tomar a forma mista de um homem, cujo corpo exumado tivesse perdido a máscara, tendo o torso e os membros transformados em partes de monstro... E mais sinistras luziam as suas pupilas. Ouviu-se o maillot, agitado, chocalhar num suspiro longo. E a Morte correu pelos ares relampejando claridade de tocheiros em procissão noturna, ondulações flamíneas de colgaduras fúnebres que se desdobram nas câmaras ardentes...

A Morte passou!... A Morte passou!... Zuniu por todos um frio de covardia e apreensão: A Morte passou!...

Nada mais se viu. Então, irrompeu do povo um urra de ovação, sob o barulho das palmas. Mas um baque seco repercutiu no extremo da galeria. Sommers perdeu num vôo a barra de um trapézio atravessou o vácuo, foi arrebentar o crânio numa arquitrave do teto.

Houve uma paralisia momentânea em todo o circo, gritos que se estrangularam em gargantas febris, olhares esgazeados numa alucinação extática. E os trapézios oscilavam, vazios, vagarosamente, em vaivéns sinistros.

Depressa o assombro se desfez, a multidão arrancou-se da perplexidade, numa angústia: moveu-se confusa, atropelada, em tumulto, para o lugar onde o palhaço caíra.

E lá estava ele, estatelado, inerte, sobre uma das bancadas. A caraça de caveira tornara-se-lhe horripilante. Um dos olhos esbugalhara-se-lhe da órbita escurecida a bistre e abria, desmesuradamente, a pupila sem luz para o Nada, num desespero inútil de ver, imóvel e medonha; na sua boca artificial, de dentuça descarnada, dilatava-se outra boca escura e ressequida, com um trejeito aflito, de dentes que, por contraste, pareciam alargar uma gargalhada paralítica, horrorosamente rindo.

E assim ficou-se o estranho clown caricaturando a Morte, tornando-a pavorosa pela ironia de ser a própria Morte que gargalhava por esta boca resfriada o desdém do seu triunfo, incontado e insentido, mas que nunca se apagaria da emotividade dos que o fitaram porque em seus pensamentos ou em seus sonhos a caveira continuaria a rir, a rir imóvel, sem risos, num desesperado, afrontoso ríctus de inexprimível sarcasmo.

 

(Apostila 4 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)