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VICENTE DE CARVALHO

Vicente Augusto de Carvalho

(Santos SP, 1866 - idem, 1924)

Publicou seu primeiro livro de poesias, Ardentias, em 1885. No ano seguinte, formou-se bacharel na Faculdade de Direito de São Paulo SP. Na época, colaborou nos jornais O Patriota, A Idéia Nova, Piratini, O Correio da Manhã e A Tribuna. Foi membro do Diretório Republicano de Santos SP e participou na Boemia Abolicionista, encaminhando escravos fugitivos para o Quilombo Jabaquara. Candidatou-se a deputado provincial no Congresso Republicano, em 1887, em São Paulo. Em 1889 foi redator do Diário de Santos, e fundou o Diário da Manhã em Santos. Tornou-se Deputado no Congresso Constituinte do Estado em 1891, vindo a participar na Comissão Redatora da Constituinte. Entre 1894 e 1913 foi colaborador em O Estado de S. Paulo, sob o pseudônimo de João d'Amaia. Fundou O Jornal, em Santos, em 1905, e colaborou na Revista dos Educadores, em 1912. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1909. No período de 1914 a 1920 foi Ministro do Tribunal de Justiça do Estado, em Santos. Em 1924 publicou Luizinha, comédia em dois atos. Fazem parte de sua obra poética os livros Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911) e Versos da Mocidade (1912). Vicente de Carvalho é um dos principais nomes da poesia parnasiana brasileira; em seus versos, tematizou com freqüência a natureza, principalmente o mar, alguns momentos da história brasileira e o amor.

Folha Solta

Eis o ninho abandonado
Dos sonhos do nosso amor...
É o mesmo o chão onde oscila
A mesma sombra tranquila
Dos arvoredos em flor.

É o mesmo o banco de pedra
Onde assentados nós dois
Falamos de amor um dia...
Lembras-te? Então, que alegria!
E que tristeza depois!...

Falamos de amor... E sobre
Minh'alma arqueava-se o azul
Do teu olhar transparente
Como o céu alvorecente
Das nossas manhãs do sul.

Quanta loucura sonhamos!
Quanta ilusão multicor!
Quanta risonha esperança
Nessas almas de criança
Iluminadas de amor!

 

Marinha

I

Eis o tempo feliz das pescarias — quando
Maio aponta a sorrir pela boca das flores.
Derramam-se na praia as gaivotas em bando...
Alerta, pescadores!

Crepusculeja ainda a aurora, mas quem pesca
Deve esperar o dia entre as ondas — enquanto
Sopra enfunando a vela a matutina fresca
E o sol não queima tanto.

Mulheres, fazei fogo! Ao alcance do braço,
Mesmo à porta do rancho a maré pôs a lenha.
Aprontai o café! Vibra já pelo espaço
A buzina roufenha.

Peixe na costa! O aviso erra de frágua em frágua,
Chama de rancho em rancho os pescadores. Eia!
As canoas estão ainda fora d'água
Encalhadas na areia:

Prestes, descei-as! Ide apanhar às estacas
A rede. Ide-a colhendo às pressas; colocai-a
Na canoa. Descendo agora nas ressacas,
Isso, fora da praia!

E é remar, é remar para o largo... As crianças
E as mulheres, em terra, esperam aguentando
O cabo que por sobre o azul das ondas mansas
A rede vai largando...

 

Palavras ao Mar

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras;
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro:
E as leves garças, como folhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...

É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...

Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.

Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noute,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...

Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu, como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.

(...)

 

Saudade
 
Belos amores perdidos, 
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos, sim: esquecervos
Fora demais, não o fiz.

Tudo se arranca do seio, 
— Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.

Roseira cheia de rosas, 
Roseira cheia de espinhos,
Que eu deixei pelos caminhos,
Aberta em flor, e parti:

Por me não perder, perdi-te:
Mas mal posso assegurar-me,
— Com te perder e ganhar-me, 
Se ganhei, ou se perdi...

 

Dona Flor
 

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crepúsculos do estio, 
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

 

Quando, nas alvoradas da alegria, 
A sua boca úmida floresce, 
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

 

Um rosto de anjo, límpido, radiante...
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

 

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
— Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer...

Velho Tema

I

Só a leve esperança em toda a vida

Disfarça a pena de viver, mais nada;

Nem é mais a existência, resumida,

Que uma grande esperança malograda.

 

O eterno sonho da alma desterrada,

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

É uma hora feliz, sempre adiada

E que não chega nunca em toda a vida.

 

Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

 

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos.

 

II

Eu cantarei de amor tão fortemente

Com tal celeuma e com tamanhos brados

Que afinal teus ouvidos, dominados,

Hão de à força escutar quanto eu sustente.

 

Quero que meu amor se te apresente

— Não andrajoso e mendigando agrados,

Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,

Muito de altivo, um tanto de insolente.

 

Nem ele mais a desejar se atreve

Do que merece; eu te amo, e o meu desejo

Apenas cobra um bem que se me deve.

 

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;

E vou de olhos enxutos e alma leve

À galharda conquista do teu beijo.

 

III

Belas, airosas, pálidas, altivas,

Como tu mesma, outras mulheres vejo:

São rainhas, e segue-as num cortejo

Extensa multidão de almas cativas.

 

Têm a alvura do mármore; lascivas

Formas; os lábios feitos para o beijo;

E indiferente e desdenhoso as vejo

Belas, airosas, pálidas, altivas...

 

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,

Mesmo às que são mais puras e mais belas,

Um detalhe sutil, um quase nada:

 

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,

E entre os encantos de que brilham, falta

O vago encanto da mulher amada.

 

IV

Eu não espero o bem que mais desejo:

Sou condenado, e disso convencido;

Vossas palavras, com que sou punido,

São penas e verdades que sobejo.

 

O que dizeis é mal muito sabido,

Pois nem se esconde nem procura ensejo,

E anda à vista naquilo que mais vejo:

Em vosso olhar, severo ou distraído.

 

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:

Ao meu amor desamparado e triste

Toda a esperança de alcançar-vos nego.

 

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;

Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,

Põe-se a sonhar o bem que não existe.

 

V

"Alma serena e casta, que eu persigo

Com o meu sonho de amor e de pecado;

Abençoado seja, abençoado

O rigor que te salva e é meu castigo.

 

Assim desvies sempre do meu lado

Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;

E assim possa morrer, morrer comigo

Esse amor criminoso e condenado.

 

Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito

Uma ventura obtida com teu dano,

Bem meu que de teus males fosse feito".

 

Assim penso, assim quero, assim me engano

Como se não sentisse que em meu peito

Pulsa o covarde coração humano.

 

A Flor e a Fonte

 

"Deixa-me, fonte!" Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"

Dizia a flor a chorar:

"Eu fui nascida no monte...

"Não me leves para o mar".

E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,

"Balanços do berço meu;

"Ai, claras gotas de orvalho

"Caídas do azul do céu!...

Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror,

E a fonte, sonora e fria

Rolava levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,

"Cantigas do rouxinol;

"Ai, festa das madrugadas,

"Doçuras do pôr do sol;

"Carícia das brisas leves

"Que abrem rasgões de luar...

"Fonte, fonte, não me leves,

"Não me leves para o mar!..."

As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor...

 

Sugestões do Crepúsculo

Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;

Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;

Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...

Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.

Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.

Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:

No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.

E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...

 

(Apostila 7 de Parnasianismo - Literatura Brasileira)