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Raimundo Correia

As Pombas...

Vai-se a primeira pomba despertada ...

Vai-se outra mais ... mais outra ... enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sanguínea e fresca a madrugada ...

 

E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada...

 

Também dos corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um, céleres voam,

Como voam as pombas dos pombais;

 

No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais...

 

O Vinho de Hebe

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

 

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

 

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

 

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho

 

Mal Secreto

 

Se a cólera que espuma, a dor que mora

N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,

Tudo o que punge, tudo o que devora

O coração, no rosto se estampasse;

 

Se se pudesse o espírito que chora

Ver através da máscara da face,

Quanta gente, talvez, que inveja agora

Nos causa, então piedade nos causasse!

 

Quanta gente que ri, talvez, consigo

Guarda um atroz, recôndito inimigo,

Como invisível chaga cancerosa!

 

Quanta gente que ri, talvez existe,

Cuja a ventura única consiste

Em parecer aos outros venturosa!

 

Anoitecer

A Adelino Fontoura
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.

 

Plenilúnio

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...

Plena nudez

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!

 

Ode Parnasiana

A Lucindo Filho

 

De cípreo mosto cheia

A taça ergui. Cogitabunda Musa,

Fuge os pesares. Eia!

Desta alma a flama viva afla, e enaltece-a!

Insufla-me o estro; e, à minha vista ilusa,

As prístinas grandezas patenteia

Da celebrada Grécia!

 

 

Musa, a Grécia, como antes

Do último heleno, dá que eu sonhe agora!

Pátria do gênio ousado; de gigantes

Berço de oiro e de luz; Grécia imortal!

Ria-nos, Musa, o mundo hodierno, embora;

Em rapto audaz, nas rêmiges possantes,

Transporta o meu ideal!

 

 

Mas, não; voa serena!

Longe da turba egoísta, que os meus gozos

Afeleia e envenena,

Leva-me a um doce e plácido recesso;

Como a Banville e a Mendes, gloriosa,

Levaste, além do inquieto e ovante Sena,

Às margens do Permesso!

 

 

Voa, serena! A pista

Do casquilho de Samos seguir deves,

De safira, esmeralda, ambre, ametista

E murice orna o olímpico painel.

A harpa acrisola só no amor; e, em leves

Tintas, menos incômodas à vista,

Mergulha o teu pincel!

 

 

De gesto ameno, e brando,

Faze que, sem amarujentos travos,

Borbote e, gurgulhando,

Mane a poesia - fonte clara e pura;

Quais na boca de Píndaro, os seus favos

Melisonas abelhas fabricando,

A encheram de doçura.

 

 

C’roa a jucunda fronte

De mirto e rosas, que eu assim te quero,

E amo inda mais, Musa de Anacreonte!

Pulsar, em márcio, horrísono arrabil,

Cordas de bronze, é para as mãos de Homero;

A ti, de Erato coube a lisa insonte

E a avena pastoril.

 

 

Fuge a cruenta pompa

De Belona, em que as fúrias tresvariem;

Troe e retroe a trompa

Belicosa; num som ríspido e agudo,

As disparadas frechas assoviem...

O atro tambor em roucos rufos rompa...

E Marte embrace o escudo!...

 

 

Na linfa cristalina

De Acidália, onde imerge as formas nuas,

Com as irmãs, a cândida Eufrosina,

Tempera a voz... Tu, Musa, que, ao sabor,

De Teos, tão docilmente os tons graduas,

Entoa antes, na cítara argentina,

A mocidade e o amor!

 

 

Sobe o Menalo, estranho

Às guerras; onde Pã, os tentadores

Contornos, vê no banho,

Da esquiva ninfa, e a rude frauta inventa;

Cuja ubérrima falda broslam flores;

E onde o zagal Arcádio o alvo rebanho

E os olhos apascenta.

 

 

Olha: de cada gruta

À boca, esbelta dríade sorri-se...

Estralam gargalhadas no ar, escuta:

Dentre elas a de um fauno sobressai;

É Sileno, e na eterna bebedice,

Deixa cair no chão a taça enxuta,

E, temulento, cai...

 

 

E Baco; ei-lo assentado

Sobre um tonel; ei-lo a empunhar virente

Tirso todo enramado

De cachos de uvas, de parreiras e heras;

E ei-lo a voltar das Índias, novamente,

No mole coche triunfal tirado

Por linces e panteras...

 

 

Febo, ao clarão do dia,

Já visível nos torna a roxa face,

E a esplêndida quadriga luzidia

O Zodíaco em fogo a percorrer...

A solidão povoa-se. Desfaz-se

A névoa, que as pupilas me cobria;

Abro-as, começo a ver!

 

 

Penetro o suntuoso

Templo de pafos, onde o culto é menos

Arcano e misterioso,

Que esse, que a Ceres tributara Elêusis;

E onde, ao cúpido olhar do amante, Vênus

Desnua o láteo colo delicioso,

-Branco manjar dos deuses.

 

 

Na ave, na flor, na planta,

E em tudo, ó Musa, alma pagã respiras!

Lembre-te um corço a alípede Atalanta;

Faça-te a linda anémone lembrar

O filho incestuoso de Ciniras;

E Leda - o falaz cisne, que levanta

A nívea pluma ao ar...

 

 

A ti não são defesos

Assuntos tais, eróticos assuntos.

Canta; e, em perlas acesos,

Musa, os dois olhos no Passado fita!

Como Castor e Pólux, sempre juntos,

São dois planetas mais, cravados, presos

Na abóbada infinita...

 

 

Moteje embora o mundo!

Ria-nos essa turba ímpia e nojosa,

Sobre a qual cuspo o meu desdém profundo;

Mísera e vil , sim; que ela não goza

Da embriaguez divina, que há no fundo

Da taça, que emborquei.

 

 

(Apostila 6 de Parnasianismo - Literatura Brasileira)