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ALBERTO DE OLIVEIRA

 

VASO GREGO

Esta, de áureos relevos, trabalhada

De divas mãos, brilhante copa, um dia,

Já de aos deuses servir como cansada,

Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

 

Era o poeta de Teos que a suspendia

Então e, ora repleta ora esvazada,

A taça amiga aos dedos seus tinia

Toda de roxas pétalas colmada.

 

Depois... mas o lavor da taça admira,

Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas

Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

 

Ignota voz, qual se de antiga lira

Fosse a encantada música das cordas,

Qual se essa a voz de Anacreonte fosse.

 

LUVA ABANDONADA

"Uma só vez calçar-vos me foi dado,

Dedos claros! A escura sorte minha,

O meu destino, como um vento irado,

Levou-vos longe e me deixou sozinha!

 

Sobre este cofre, desta cama ao lado,

Murcho, como uma flor, triste e mesquinha,

Bebendo ávida o cheiro delicado

Que aquela mão de dedos claros tinha.

 

Cálix que a alma de um lírio teve um dia

Em si guardada, antes que ao chão pendesse,

Breve me hei de esfazer em poeira, em nada...

 

Oh! em que chaga viva tocaria

Quem nesta vida compreender pudesse

A saudade da luva abandonada!"

 

"Vaso Chinês"

 

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, 

casualmente, uma vez, de um perfumado 

contador sobre o mármor luzidio,

entre um leque e o começo de um bordado.

 

Fino artista chinês, enamorado, 

nele pusera o coração doentio, 

em rubras flores de um sutil lavrado,

na tinta ardente, de um calor sombrio.

 

Mas, talvez por contraste à desventura, 

quem o sabe?.., de um velho mandarim

também lá estava a singular figura;

 

que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,

sentia um não sei quê com aquele chim

de olhos cortados à feição de amêndoa.

 

Ode ao Sol

 

Vi-te em leito de sangue, entre os linhos da aurora,

Acordar longe. Após, vi-te horizonte fora

Altos montes a olhar. Sol recém-nado e lindo,

Deus infante, em teu berço apareceste, e logo

Tudo, despindo a noite, a um ósculo de fogo,

Estremeceu sorrindo.

 

Choraste a pouco e pouco os recantos sombrios,

Recamaste de prata as areias e os rios,

E no escalvado pico, onde a cactácea medra,

Para te ver tão grande em tua luz tão rica,

Fizeste o olhar da pedra.

 

E ora me pleno zênite, ávido, a terra em chamas

Cinges sensual, e vida influis com os raios. Amas.

Aos estos desse amor, ó Sol, em que te abrasas,

Apoja o grão, alastra a raiz, mais ativo

É o perfume, o chão ferve, e o pássaro lascivo

Cobre a fêmea com as asas.

 

Alto e dourado Sol! A tudo vida emprestas

E almo fogo. De ti nascem prazer e festas;

De sentir-te e gozar-te o espírito se ufana.

Arfa a terra, circula a seiva, abrem-se as flores,

E nas cidades ou no campo em seus labores

Zumbe a colméia humana.

 

Mas já do sólio excelso, erguido em plena altura,

Desces, e como um rei de espelhante armadura,

Os frisões a reger do plaustro esplandecente,

Raios dardando à mão, corres do Oeste aos planos,

Onde ensaia a trovoada os coros esquilianos

Da tragédia do Poente.

 

Mas tornarás, ó Sol! Como hoje e sempre, altivo,

ver-te-emos amanhã no Oriente, redivivo,

Outra vez a correr triunfal o firmamento,

Mostrando, a quem da morte o pensamento esmaga,

Que, qual te vais e vens, nada se estrui e apaga:

Tudo é nascimento!

 

Afrodite
 

I
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,

O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.

II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.

 

Beija-Flores
 

Os beija-flores, em festa,
Com o sol, com a luz, com os rumores,
Saem da verde floresta,
Como um punhado de flores.

E abrindo as asas formosas,
As asas aurifulgentes,
Feitas de opalas ardentes
Com coloridos de rosas,

Os beija-flores, em bando,
Boêmios enfeitiçados,
Vão como beijos voando
Por sobre os virentes prados;

Sobem às altas colinas,
Descem aos vales formosos,
E espraiam-se após ruidosos
Pela extensão das campinas.

Depois, sussurrando a flux
Dos cactos ensanguentados,
Bailam nos prismas da luz,
De solto pólen dourados.

Ah! como a orquídea estremece
Ao ver que um deles, mais vivo,
Até seu gérmen lascivo
Mergulha, interna-se, desce...

E não haver uma rosa
De tantas, uma açucena,
Uma violeta piedosa,
Que quando a morte sem pena

Um destes seres fulmina,
Abra-se em férvido enleio,
Como a alma de uma menina,
Para guardá-lo no seio!
 

Fantástica
Erguido em negro mármor luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme.

Torvo, imoto em seu leito, um rio o cinge,
E, à luz dos plenilúnios argentados,
Vê-se em bronze uma antiga e bronca esfinge,
E lamentam-se arbustos encantados.

Dentro, assombro e mudez! quedas figuras
De reis e de rainhas; penduradas
Pelo muro panóplias, armaduras,
Dardos, elmos, punhais, piques, espadas.

E inda ornada de gemas e vestida
De tiros de matiz de ardentes cores,
Uma bela princesa está sem vida
Sobre um toro fantástico de flores.

Traz o colo estrelado de diamantes,
Colo mais claro do que a espuma jônia.
E rolam-lhe os cabelos abundantes
Sobre peles nevadas de Issedônia.

Entre o frio esplendor dos artefactos,
Em seu régio vestíbulo de assombros.
Há uma guarda de anões estupefactos,
Com trombetas de ébano nos ombros.

E o silêncio por tudo! nem de um passo
Dão sinal os extensos corredores;
Só a lua, alta noite, um raio baço
Põe da morta no tálamo de flores.
 

 

(Apostila 1 de Parnasianismo - Literatura Brasileira)