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Renata Pallottini

(São Paulo SP, 1931)

Cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP) entre 1949 e 1953, onde publicou seus primeiros poemas, nas revistas da faculdade. Também fez o Curso de Filosofia Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), concluído em 1951. No ano seguinte publicou Acalanto, seu primeiro livro de poesia. Em 1960 ocorreu a montagem de sua peça A Lâmpada, com direção de Teresa Aguiar, em Campinas SP. Lecionou História do Teatro Brasileiro na Escola de Arte Dramática da USP, em 1964. Um ano depois foi encenada sua peça O Crime da Cabra, sob direção de Carlos Murtinho, sua estréia no teatro profissional. Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista do programa infantil Vila Sésamo e diretora da Escola de Arte Dramática da USP. Nas décadas de 1970 e 1980 trabalhou como tradutora e roteirista de telenovelas e séries para a TV, entre as quais Malu Mulher (TV Globo). Publicou livros de contos, poesia infantil e ensaios. Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Sua obra poética inclui os livros A Faca e a Pedra (1962), Os Arcos da Memória (1971), Noite Afora (1978), Esse Vinho Vadio (1988) e A Menina que Queria Ser Anja (1987). A poesia de Renata Pallatini vincula-se à terceira geração do Modernismo. Para o crítico Wilson Martins, "poeta independente das escolas transitórias e modas efêmeras, Renata Pallottini restituiu à poesia brasileira o elemento de emoção pessoal e literária de que começou perigosamente a se despojar com João Cabral (...), assim como, e por isso mesmo, passou a evidenciar uma integração cada vez mais sensível na vida coletiva, na existência política do Brasil enquanto nação, pagando o tributo inevitável, oneroso e paradoxal de restringir o alcance de sua poesia no ato mesmo de parecer expandi-lo".

 

Finisterrae

Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas .

Aqui começa o medo.
Como um grito.

 

 

Cântico dos Cânticos - 2:16

(O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta
o seu rebanho entre os lírios.)

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

 

Chocolate Amargo

No mapa imaginário de todas as terras
Aí estás, país do grande sol,
Dos animais gigantes e das árvores sagradas
Terra da cachoeira de diamantes e
Do ouro sangrado

Continente sangrante
Teus filhos adormecem sem saber se ainda vivem
Depois que a liberdade abandonou as tribos
E os deuses de Mahoma, mais os deuses de
Cristo
E os deuses-orixás, mais os deuses perdidos
A ti te abandonaram , doce terra de elefantes,
Macia terra de desertos.

Ninguém te libertou, nem a deusa-Libéria
Nem a cor de Nigéria, de chocolate amargo,
A tua dor não para, ela se exaure em malatías
Em doenças exânimes, de sangue ,
Continente sangrado...

Lutando enlouqueceste e te fizeste algoz
Dos teus irmãos em preto e alma , em negro
E lama
As crianças armaste para despertá-las
Mas elas adormeceram
Como flores cortadas

E aí estão, em ti, carregando suas armas
Brinquedos terminais,
Se suicidando...

No mapa das desgraças, cartografia antiga,
Brilhas em negativo, com teus machos moldados
Homens esculturais, reis de toda corrida,
Reis do jogo e do corpo e da má sobrevida Reis da fuga [humilhada
Do trabalho submisso

Escravo bom de sempre, quando te eriças
E empoas teu cabelo e foges para o mato
Buscam-te, seu cavalo, buscam-te, sua mina
Buscam em ti o seu desejo de reaver a serventia
Buscam a mão, a perna, o sexo
A carapinha
Que depois vão negar nas gerações futuras
Com um pé na cozinha...

No mapa dos exércitos, rebrilhas com teu riso
De quem não sabe mais a quem pedir auxílio

Queremos teus diamantes, queremos o teu óleo,
Queremos tua pele, queremos teu sabor
De carne de macaco, de serpente, de água.

Queremos destruir-te para depois chorarmos
A imensa mancha negra que ficará
nos mapas.

Só minha avó, agora, me consolaria
com sua cor romana de pão perfumado.

Só a avó e o pão duro que eu beijo
e o vinho roxo o vinho que me foge
podem me consolar
de haver perdido o jogo
que para todos os demais
para os normais
era só um brinquedo de crianças
a mais.

Ou então, ou então
Talvez a amiga
Que sabe todas as palavras escondidas

Podíamos passear no Cambuci
Lembrando o morro do Piolho e a Bastilha .
Podíamos chorar, se não fosse que ela
Tem pejo de chorar
E se não fosse assim
Já teria morrido de chorar
Decerto.

A amiga está tão longe
No deserto ...

 

 

Macunaíma

(...)
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.

Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém

cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém

Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.

Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.

Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.

Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,

para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...

Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)

 

Noite Afora

A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?

A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?

Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?

Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,

essas uvas, cortadas noite afora.

 

Poema da Rua Maria Antonia

Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.

 

Vestibular

De novo acomodo o corpo
(que de novo me incomoda)
na carteira de pau áspero;
de novo tomo a caneta.

De novo passo entre as filas
ponho a mão no ombro trêmulo
de alguma estudante tímida
(e agora sou professora).

De novo é aquela angústia,
não saber o que se sabe
ser de novo examinada
e de novo posta à prova.

De novo adivinho o amor,
olho-me e olho; já fui
o que hoje sou. Já sofri
o que sofro. E vem de novo

esse temor, como novo.
Ensino, ou sou ensinada?
Estou acima, ou me afogo?
De novo perco o respiro
ou já domino a questão?

De novo sofro e transpiro
porque hoje sou a mestra
tão escassa como sempre
e como sempre carente.

Olho-me quieta de novo
e vejo toda essa gente.
Passas de novo a meu lado
e me pões a mão no ombro

e me marcas com teu sopro
e me deixas tua sombra.

Retorno a Ítaca
I
De volta a Ítaca,
Ferido a faca o sentimento
E os sonhos cortados,
O homem avalia as ondas que o conduzem
montanhas
(ninguém sabe a que semelham horizontes).

De longe vê o nada e pensa : será visto ?
Que mulher ainda espera
O homem ingrato ?
Que voto a castidade o infiel reivindica ?

E que merece um homem , semelhante
Aos deuses, sim, mas igualmente impuro ?

II
Já resta pouco tempo
Ao ardiloso Ulisses .
Os pés estão molhados
E pesam-lhe os cabelos.

Ninguém o reconhece
Nem vem ao seu encontro.
Quarenta vezes chama.
Quarenta vezes sua voz exígua
Busca encontrar o caminho da casa.

Ulisses sente a falta de sementes de açúcar.
De súbito, uma sombra
Velho pedaço de manto perdido
Madeira de naufrágio
Surge e de rastos, vem vindo e se agacha;
Fareja-lhe os artelhos
E lambe os seus pés frios.

Um cão, sozinho,
Argos, melhor que os homens,
Eleva o seu amor como uma chama.

O cão responde com o que lhe resta.
Pode Ulisses agora morrer quarenta vezes.
Podemos nós morrer
Frágeis peças de carne.

“A um cão não restam muitas
Maneiras de expressar-se.
Somos úmidos, ásperos e nossa língua
É suja, às vezes.
Urinamos humildemente e nem sabemos
Esconder nossas fezes.

Porem o coração de um cão é primoroso
Com sua profundidade abstrata
E sem contornos.

O coração de um cão é sempre aquele ,
Nunca postergará seu sentimento.

Os restos que lhe atiram
Se é a mão que os atira a doce mão amada
São suaves manjares.
O amor de um cão é sempre insaciável. “

IV
Ulisses, sua face exposta por vinte anos
à face ardente e fluida dos ventos
Encontra um patamar inesperado :

Argos, o cão, pode morrer . Está cumprido.
É difícil, porém, matar um cão para sempre.
Essa fidelidade abstrata volta
Todo dia à lembrança, como um sol.

Voltará quando o amigo o abandone.
Voltará quando o filho o desconheça.
Quarenta vezes volta a dor da traição.

Seu coração no teu, Ulisses,
Pulsará
No mesmo chão.

 

 

Bagdad, 20 de março, 2003

Onde nasceu o mundo
morre o mundo.

O oriente amanhece
no meu quarto.

Soldados nunca falam.
Matam e escrevem cartas.

Correspondentes de guerra
se arriscam por uma imagem.

As mulheres e as crianças
essas
morrem caladas.

 

 

O Cântaro


"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l

O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.

O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.