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Moacyr Felix

(Rio de Janeiro RJ, 1926)

Terminou o curso de Direito em 1948, mesmo ano em que foi lançado seu primeiro livro de poesia, Cubo de Trevas. Entre 1950 e 1953 estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Sorbonne, em  Paris (França), onde também fez estudos de Filosofia no Collége de France. Até 1954 foi redator e locutor de um programa da Radiodifusão e Televisão Francesa para a América Latina. De volta ao Brasil, foi redator da revista literária Marco e redator e locutor de um programa semanal sobre poesia e literatura na Rádio Ministério da Educação e Cultura. Ainda nos anos 50 colaborou em vários periódicos, entre os quais Correio da Manhã, Diário de Notícias, Alguma Poesia e Revista do Brasil. Em 1962 e 1963 foi organizador e prefaciador dos três volumes da série Violão de Rua, para o Centro Popular de Cultura da UNE. Foi preso pelo regime militar, em 1966, por suas manifestações a favor da liberdade de expressão. Dirigiu a coleção Poesia Hoje, da Ed. Civilização Brasileira, entre 1963 e 1971. Colaborou na revista Le Scarabée International, em 1982. É sócio-fundador da Associação Brasileira de Crítica Literária. Entre suas obras estão O Pão e o Vinho (1959), com o qual ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens de melhor livro de poesia, em 1960, e Em Nome da Vida, que recebeu o prêmio de melhor livro de poesia no país em 1982, concedido pela APCA. Moacyr Félix pertence à segunda geração do modernismo brasileiro. Segundo o crítico Alceu Amoroso Lima, “o socialismo poético-libertário de Moacyr Félix representa uma face perene do sentimento de solidão do poeta, como todo exílio, mas também o protesto e a reivindicação social de um futuro melhor para sua gente e sua terra.”

Cantiga para os Pescadores de Alto-Mar tais como o de Hemingway

A Tereza e Ferreira Gullar

Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar!
Eia, que outro peixe não serve
quando mais terra não há,
que a morte só tem valia
no gesto que encontra o mar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar!

Na espuma branca das ondas
onde o vento lambe o sal,
no meu orgulho de homem
que prova o bem, prova o mal,
noites de álcool e de areia
se erguerão, farpas lançadas
contra a morte universal
(isto é triste, mas não mata
esta alegria infernal
de eu havê-las arrancado
qual grande peixe de prata
deste nada tão central).

Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar.

(...)

O Poema

Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.

 

O Poeta

O poeta se perdia em símbolos.
O poeta se perdia em signos.
O poeta se perdia em palavras.
O poeta se perdia nele próprio
sem que espelho algum lhe trouxesse
o que dele assim ex-fato se perdia.
O poeta foi sempre um perdedor
com a tola ambição de achar-se um dia
sem a necessidade de fazer poemas
sobre a existência que lhe escapulia.

O poeta é uma besta inglória
entre a beleza de uma laranja
e o riso de todas as árvores mortas.

 

ÀS MARGENS DESTE RIO CANTAREI

a Luiz Paiva de Castro

Às margens deste rio cantarei com alegrias e tristezas
várias faces de todo o ser do homem. De pé, atrás dos [ponteiros
onde a vida é desnuda e o sangue não pergunta,
eu tentarei cravar entre os ossos do meu tempo
o pesadíssimo lamento do silêncio dentro das coisas.

Linha dos horizontes, o coração se estende
ao lado dos amantes e colhe o mel das luas
que aclararam o mar de amor entre dois corpos.
Assim surge a promessa e o fundamento de uma utopia
que minhas auroras cavoucam no que ainda não tem fala.

Cisne em rio noturno, se o coração se põe
em marcha e bebe os vinhos deste vento
que sopra o último adeus dos fuzilados
em direção a nós,
os rumos, de tão claros, arrancam choro e sangue
no canto que os celebra.

II

Às margens deste rio
cantarei
os pobres e os humildes
e a aurora sempre a mesma
no olhar dos que conduzem
os pobres e os humildes.
E as estradas tão longas
no coração dos velhos
e a navegante mesa
dos ébrios, e o sapato
imóvel dos defuntos,
e o férreo marche-marche
dos trens cruzando as pontes
cantarei como poeta às margens deste rio
que os ricos armadores sombrearam de navios
carregados de urânio e de ouro negro
e de perguntas prisioneiras.

III

Inalterável, eu, que atravessei o tempo
com a mensagem triste dos velhos outonos
presa no meu relógio,
eu, védica sandália, Atenas grave e trágica
ou doce fruto de uma dor hebraica,
às margens deste rio
cantarei no que fui como criança

a lenda

de uma princesa adormecida
(tão bela como a vida)
que dormia e dormia
(tão bela como a vida)
até que a despertaram

tão bela como a vida.

 

CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM *
 

A Ênio de  Silveira,
M. Cavalcanti Proença
Moacir Werneck  de Castro e Miguel Arraes de Alencar

A  todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos  e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.
 

(I) INICIAÇÃO

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda  como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando  o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.
 
(II) ENREDO
I

Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.

- Stirb und werde!
- “Morre e transmuda-te!”
Está  não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a [ignorada
pelos que apenas
    “um hóspede triste sobre a escura terra”?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.
 

II
Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela,  o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.
 

III
Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.
 

IV
Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.
 

 

Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
[a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...
 

Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.
 

 

 

V
Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.
 

Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
      que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
     Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa [Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?

Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.

Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.
 

VI
De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
[agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
   sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.
 

VII
Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:

 seu lado é o lado do povo
 sempre e sempre roubado
 por mil, por cem ou por um.

O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou

 a menina do povo
 que vinha com a flor,
 que vinha com a flor.

O poeta defende
o direito de andar

 até o outro lado da vida
 em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.

O poeta defende
o direito de amar.
 

VIII
Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.

A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
 com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.

De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.
 

IX
Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de [quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.

Nem mediam também a construção do homem pelo número [de suas latrinas

sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das [montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber [isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
                                                 escreve

na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.
 

X
O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser  em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?

Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
      dos nossos medrosos altares.
 

(III) CONCLUSÃO

É inútil  querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer  parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.

 

CRÔNICA DA ESCANDINÁVIA PARA UMA SUECA CHAMADA BIRGITTA

I

Olha, querida, como o céu é simples
atrás das ilhas em que amor fizemos.
A proa dos barcos a recortar as ondas como seios
que se dissolvem, espuma e sonhos marinheiros
para os nossos olhos libertados.
Olha a bússola dos homens, seus desígnios
na ciência em que procuram tanto a vida
entre as escamas do salmão e a luz de Vênus.

na tarde deste sol os grãos da noite escura,
e vence com sua mais loira fome, a que é do ventre,
a POSSESSIVA SOMBRA desses vários morros
atrás dos quais a morte se sabe nossa dona
e espera.

II

Azeitonados tetos, largos azinhavres, mugidos
cor de bronze
espetados na perfeição letárgica da neve;
torres ogivais, circulatura eslava, sombras
de Absalom e Tor, paradas
no sólido silêncio que governa
das ameias dos castelos
Copenhague, Copenhague de bronze e sangue
com sua cerca de guindastes e seu longo quebra-mar...
O que é partir, o que é chegar
quando a vida se desmancha em pleno mar
e os nossos vários rostos acabados
são um estranho recordar
de urgências nunca realizadas?!
Ah! As gaivotas, o apito de outras barcas,
o cais ficando longe, e já dentro de nós
o tempo, mudo pássaro de vidro, a estilhaçar-se
- Copenhague!
neste irreal terrível que é o ato de lembrar-te
Copenhague, Copenhague de bronze e sangue
com sua cerca de guindastes e seu longo quebra-mar...

III

Sim, apenas um homem com o seu frio
há mais de vinte séculos sob a chuva,
sua necessária garrafa de Aalborg, seu olho preso
à falsa cruz dos advérbios, cruz onde sufoca
informe e una a relação dos mundos.
Sim, apenas o homem e seu salgado desencanto
a dissolver-se nas veias de mais um novo encantamento.
Apenas um homem que nasce e morre sempre
dentro da noite como a luz
de um farol que se apaga e que se acende.

IV

No vilarejo de Mörlanda
o domingo parava
entre jardins e casas
quadradinhas. Tudo era paz
no vilarejo de Mörlanda.
E o médico dinamarquês dizia
que à noite a consulta era mais cara,
mas que os doentes da noite não queria
pois o imposto, que também subia,
não lhe compensava o esforço, e não valiam.
Tinha um rosto bom, e como um bom sorria
a seus filhos junto aos meus cruzando o dia
com os olhares presos no filme em que o homem é
informaticamente ensinado para ser
cada vez mais sem consciência o lobo de outros homens...

Entre jardins e casas
quadradinhas, tudo era paz
no vilarejo de Mörlanda.

Entre jardins e casas quadradinhas
dentro da paz cumprimentou-me a guerra
no vilarejo de Mörlanda.

V

Com o coração de pé para colher
a flor azul que percorre
o que só de amor não morre
no quarteto em ré menor
de Ludwig van Beethoven,
eu, a noite e a dor que é minha
te exigimos inteirinha

 

sem vestido e sem calcinha.
Verdade de mulher nua,
teu corpo branco - pureza! –
distendeu-se em quatro luas
repletas de treva acesa,
em quatro esferas de seda
onde - animal exato
preso aos fios do seu tato –
foi que teci essa tua
manta de orgasmo ou de fúria
saudosa da vida crua.
(No peito minha dor atlântica
repousou como borboleta
na flor azul que percorre
o quarteto em ré menor
de Ludwig van Beethoven.)

VI

Sobre a torturada árvore sem folhas
os vidros da janela consentiam ainda
nuvens e aves, e um tremor de sol.
Mais um anoitecer em Ellestad,
mais um lucilar de despedida,
mais uma lâmpada
sem ruídos partida e repartida
pela avessa emoção de um tempo imóvel
se movendo e nos movendo
no difícil mar sem nossos rios
e onde - razão ou dor? - nos conferimos
fragmentos de um sol queimado em tardes.
Em suas molduras douradas os espelhos
mais uma vez
ofereceram seus túmulos sem fundo
- e sepultaram o sol sem grandes pompas.

VII

Túmulo, túmulo é a lei que rói
entre meus ossos verdades impossíveis
agora, somente agora.
Amor e morte, aqui me instalo em homem.
Amor, se entendes isto, as mais belas amoras do meu sangue
ofertarei a ti,
aos secos labirintos de tua infância.
E as minhas noites, as nossas noites
no âmago da própria noite
serão canais abertos
a esta sombra viva, a esta sombra clara
do nosso avesso humano subitamente recomposto
pelos nossos jogos abissais de verbo e carne.

                                       Karlshamn, 1960