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José Paulo Paes

(Taquaritinga SP 1926 - São Paulo SP 1998)

Publicou seu primeiro livro de poesia, O Aluno, em 1947. No ano seguinte completou o curso superior de Química Industrial em Curitiba PR. No período, colaborou na revista Joaquim e participou no II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte MG, como membro da delegação do Paraná. Nas décadas posteriores foi colaborador de vários periódicos, entre os quais Folha de S.Paulo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense. Em 1967 organizou, com Massaud Moisés, o Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira. Foi tradutor prestigiado; verteu para o português obras de escritores como Laurence Sterne, Lewis Carroll e Nikos Kazantzákis. Em 1987 tornou-se diretor da oficina de tradução de poesia no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Publicou diversos livros de ensaio, além de obras para crianças; foi laureado com prêmios como o Jabuti de Literatura Infantil, concedido em 1991 para seu livro Poemas para Brincar. Sua obra poética inclui os livros Meia Palavra (1973), Resíduo (1980), A meu Esmo (1995) e Socráticas (2001), entre outros. Sobre a poesia de José Paulo Paes, que é de tendência contemporânea, afirmou o crítico Alfredo Bosi: “o metro curto, o ritmo rápido, a sintaxe cortada e o tom menor vedam o texto a qualquer inflexão épica. (...) Canto chão dos revoltosos, epitáfio de indomados, descobre o lado subterrâneo da sátira e o veio amargo do seu pathos."

 

Passarinho Fofoqueiro

Um passarinho me contou 
que a ostra é muito fechada, 
que a cobra émuito enrolada, 
que a arara é uma cabeça oca, 
e que o leão marinho e a foca.. 

xô , passarinho! chega de fofoca! 

Acidente

Atirei um pau no gato, 
mas o gato  
não morreu, 
porque o pau pegou no rato 
que eu tentei salvar do gato 
e o rato 
(que chato!) 
foi quem porreu.

Convite

Poesia 
é brincar com palavras 
como se brinca 
com bola, papagaio, pião. 

Só que 
bola, papagaio,pião 
de tanto brincar 
se gastam. 

As palavras não: 
quanto mais se brinca  
com elas 
mais novas ficam. 

Como a água do rio 
que é água sempre nova. 

Como cada dia 
que é sempre um novo dia. 

Vamos brincar de poesia? 

Acima de Qualquer Suspeita

a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
        los  drummond  de  andrade  manuel  bandeira murilo
        mendes vladmir maiakóvski  joão cabral de melo neto
        paul éluard oswald de andrade  guillaume appolinaire
        sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa   cheguei a   imitar  um  certo (ou
        incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
        de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de   ferro
        araraquarense  foi  extinta   e  josé  paulo  paes  parece
        nunca ter existido

nem  eu 

Elegia Holandesa

águamolepedradura
águaáolepedradura
águaáglepedradura
águaáguepedradura
águaáguapedradura
águaáguaáedradura
águaáguaágdradura
águaáguaáguradura
águaáguaáguaadura
águaáguaáguaádura
águaáguaáguaágura
águaáguaáguaágura
águaáguaáguaáguaa
águaáguaáguaáguaá

Lisboa: Aventuras

tomei um expresso
                        cheguei de foguete
subi num bonde
                        desci de um elétrico
pedi cafezinho
                        serviram-me uma bica
quis comprar meias
                        só vendiam peúgas
fui dar à descarga      
                        disparei um autoclisma
gritei "ó cara!"
                        responderam-me "ó pá!"

                        positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá 

Anatomia do Monólogo

ser ou não ser?

er ou não er?

r ou não r?

ou não?

onã?

Madrigal

Meu amor é simples, Dora,

Como a água e o pão.

Como o céu refletido

Nas pupilas de um cão.

 

L'Affaire Sardinha

O bispo ensinou ao bugre

Que pão não é pão, mas Deus

Presente na eucaristia.

  

E como um dia faltasse

Pão do bugre, ele comeu

O bispo, eucaristicamente.

 

Bucólica

O camponês sem terra

Detêm a charrua

E pensa em colheitas

Que nunca serão suas.

Epitáfio para Rui

... e tenho dito

Bravos!

(mas o que foi mesmo que ele disse?)

Um Sonho Americano

CIA limitada

 

A Verdadeira Festa (12 de junho - namorados)

mas pra que fogueira

rojão

quentão?

 

basta o fogo nas veias

e a escuridão

coração.

 

Curitiba

O inventor no estado

era um pinheiro inabalável

 

inabaláveis pinheiros igualmente

o secretário da segurança pública

o presidente da academia de letras

o dono do jornal

o bispo o arcebispo o magnífico reitor

 

ah se naqueles tempos

a gente tivesse

(armando glauco dalton)

um bom machado!

 

 

Pisa: A torre

em vão se inclinas pedagogicamente

o mundo jamais compreenderá a abliqüidade dos

bêbados ou o mergulho dos suicidas.

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

negócio

ego

ócio

cio

o

 

CANÇÃO DO ADOLESCENTE

 

Se mais bem olhardes

notareis que as rugas

umas são postiças

outras literárias.

Notareis ainda

o que mais escondo:

a descontinuidade

do meu corpo híbrido.

Quando corto a rua

para me ocultar

as mulheres riem

(sempre tão agudas!)

do meu corpo.

Que força macabra

misturou pedaços

de criança e homem

para me criar?

Se quereis salvar-me

desta anatomia,

batizai-me depressa

com as inefáveis

as assustadoras

águas do mundo.

 

 

OUTRO RETRATO

 

O laço de fita

que prende os cabelos

da moça do retrato

mais parece uma borboleta.

 

Um ventinho qualquer

e sai voando

rumo a outra vida

além do retrato.

 

Uma vida onde os maridos

nunca chegam tarde

com um gosto amargo

na boca.

 

 

À TINTA DE ESCREVER

 

Ao teu azul fidalgo mortifica

registrar a notícia, escrever

o bilhete, assinar a promissória

esses filhos do momento. Sonhas

 

mais duradouro o pergaminho

onde pudesses, arte longa em vida breve

inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima

a elegia, bronze a epopéia.

 

Mas já que o duradouro de hoje nem

espera a tinta do jornal secar,

firma, azul, a tua promissória

ao minuto e adeus que agora é tudo História.

 

Raridade

A arara
é uma ave rara
pois o homem não pára
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode voar pelo céu.

E se o homem não pára
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara.

 

Poética

Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.

A posse é-me aventura sem sentido.
56 compreendo o pão se dividido.

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu

 

Canção do Exílio Facilitada

... sabiá

...papá

...maná

... sofá

... sinhá

... cá?

   bah!

 

 

MUNDO NOVO

 

Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:

a urgência na construção da Arca

o rigor na escolha dos sobreviventes

a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias

a carestia aceita com resmungos nos últimos dias

os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

 

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.

 

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.

 

Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.

 

A CASA

 

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

 

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.

Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.

Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.

No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.

Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.

Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.

Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.

No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.

E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe- até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

 

Antes que ele acorde e se descubra também morto.