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Manuelzão e Miguilim - João Guimarães Rosa - Resumo

As duas novelas que compõem esta obra foram publicadas em 1956 como parte de Corpo de baile; a partir de 1960, quando Corpo de baile se desdobrou em três livros, Manuelzão e Miguilim passou a formar um único volume.

Apesar da ordem dos nomes no título, a primeira novela, Campo geral, conta a história de Miguilim, um menino de oito anos, abordando o universo do mundo infantil sob a sua ótica; a segunda, chamada Uma estória de amor, trata de Manuelzão e dos preparativos para a festa de consagração de uma capela que ele construíra.

Novela: Como espécie literária, a novela não se distingue do romance, evidentemente, pelo critério quantitativo, mas pelo essencial e estrutural. Tradicionalmente, a novela é uma modalidade literária que se caracteriza pela linearidade dos caracteres e acontecimentos, pela sucessividade episódica e pelo gosto das peripécias. Contrariamente ao romance, a novela não tem a complexidade dessa espécie literária, pois não se detém na análise minuciosa e detalhada dos fatos e personagens. A novela condensa os elementos do romance: os diálogos são rápidos e a narrativa é direta, sem muitas divagações. Nesse sentido, muita coisa que chamamos de romance não passa de novela. Naturalmente a novela moderna, como tudo que é moderno, evoluiu e não se sujeita a regras preestabelecidas. Tal como o conto, parodiando Mário de Andrade, "sempre será novela aquilo que seu autor batizou com o nome de novela". Como autor (pós)-modernista, Guimarães Rosa procurou ser original, imprimindo, em suas criações literárias, a sua marca pessoal, o seu estilo inconfundível. Suas novelas, contudo, apesar das inovações, sempre apresentam aquela essência básica dessa modalidade literária, que é o apego a uma fabulação contínua como um rio, de caso-puxa-caso

 

 

Surgido pela primeira vez em 1956 dentro da obra Corpo de Baile (que incluía também Noites do Sertão e No Urubuquaquá, no Pinhém), Manuelzão e Miguilim é um dos momentos mais tocantes de Guimarães Rosa, superado por alguns contos de Primeiras Estórias e pelo inigualável romance Grande Sertão: Veredas.

Antes do mergulho em sua temática, necessário se faz reconhecer as características da literatura do grande escritor mineiro. Em primeiro lugar, sabe-se que o mais lembrado nele é o seu teor regionalista universal, um rótulo que pode parecer incoerente, mas que carrega certo sentido.

Seu caráter regionalista reside na forma. Em primeiro lugar, o ambiente de todas as suas narrativas é o sertão de Minas Gerais (uma minúscula parte delas passa-se no sertão da Bahia. No entanto, a vizinhança faz-nos garantir que se trata praticamente da mesma região), tendo como personagens seus habitantes. Além disso, no campo da linguagem é que está sua mais famosa recriação do universo mineiro.

Na realidade, ao contrário do que costumeiramente se afirma, Guimarães não copia a linguagem do sertanejo, tanto é que há constantemente a invenção de palavras (neologismos) misturada a arcaísmos, além do aproveitamento de termos cultos e de elementos de poeticidade, como aliterações e assonâncias. Seria absurdo imaginar que o homem simples do campo tivesse uma linguagem com tanta inventividade.  O que de fato ele aproveita é a melopéia, ou seja, a musicalidade, o andamento de sua fala, como se percebe no trecho abaixo:

 

“A roça era um lugarzinho descansado bonito, cercado com uma cerquinha de varas, mò de os bichos que estragam. Mas muitas borboletas voavam. Afincada na cerca tinha uma caveira inteira de boi, os chifres grandes, branquela, por toda boa-sorte”.

 

Note como os diminutivos carregam o texto de oralidade, além do emprego do termo “mò”, que ganha uma ortografia que transgride as normas gramaticais, o que é muito comum no autor. Todos esses elementos vão se juntar a uma construção que não é comum na linguagem falada: a separação entre a preposição e o artigo ligado ao sujeito (“mò de os bichos”). Outro trecho bastante revelador do estilo roseano vem a seguir:

 

“De já, tinha um boi vermelho, boi laranjo, esbarrado debaixo do alto tamboril. Tantas cores! Atroado, grosso, o môo de algum outro boi. O Dito então aboiava.”

 

Observe a repetição das consoantes /d/, /t/ e /b/ (aliteração) criando uma sonoridade que imita a movimentação de bois. Toda essa engenhosidade no trato da linguagem é que autoriza alguns estudiosos a qualificarem o trabalho de Guimarães Rosa como neobarroco.

Somada a essas preocupações formais existe a temática de Guimarães Rosa. Seus textos ambientam os grandes temas da humanidade, principalmente os existenciais e metafísicos, no sertão mineiro, tudo de forma simbólica, mítica e mística. São verdadeiras fábulas.

Esse é o aspecto que se enxerga, por exemplo, em “Campo Geral”. É um conto/novela/poema da formação, da iniciação, do amadurecimento de Miguilim. Tanto que o foco narrativo, de terceira pessoa, onisciente, é filtrado por ele. Tudo gira ao seu redor, tudo é enxergado obedecendo ao seu ponto de vista, desde o emprego da linguagem até a absorção e compreensão da realidade.  Prova desse aspecto é o retrato que ele dá a seu irmão, dizendo que é de uma santa. A reação dos adultos, que chegam a rasgá-lo, dizendo que era pecado, faz o leitor entender, e não a personagem, que se tratava de uma imagem de mulher pelada. Tal viés acaba tornando o texto muito mais poético, pois nos faz acompanhar o crescimento do protagonista como se fosse bastante íntima nossa.

Começamos a ver Miguilim aos oito anos, com uma menção aos seus sete anos, quando esteve mergulhado numa preocupação em respeito ao local de sua residência, o Mutum - essa palavra constitui um palíndromo, ou seja, pode tanto ser lida da direita para a esquerda com da esquerda para a direita, sem alterar-se. E o mais interessante é que sua grafia, MUTUM, acaba concretizando o próprio local, já que este ficava junto a um covoão (U), entre morro e morro (M e M). Durante uma viagem para ser crismado, ouvira alguém falar que aquele era um lugar muito bonito. Tão feliz fica com a novidade que se torna ansioso em contá-la para a mãe, Nhã-Nina, crendo que assim faria com que ela deixasse de ser triste por morar ali.

Seu jeito estabanado, no entanto, faz com que corra desesperado em direção da mãe, passando direto pelo pai, Béro, irritando-o. É a primeira informação que o leitor recebe de que existe na narrativa uma transfiguração do complexo de Édipo, já que Miguilim tem uma forte identificação afetiva com a mãe e problemas graves de relacionamento com o pai, a ponto de, mais para frente, os dois se estranharem como se fossem inimigos.

Há também outras pessoas com quem o protagonista mantém relação. Podem ser citados os irmãos Chica, Drelina e Tomezinho, os dois últimos de gênio difícil, até maligno. A Rosa, que trabalha em sua casa e com quem tem uma tranqüila relação, muitas vezes acompanhando-o em seus sentimentos e fantasias. Vó Izidra, na realidade tia-avó por parte de mãe dele. Era uma mulher dotada de uma moral extremamente rígida, baseada num catolicismo um tanto tradicional, apegado a santos e rezas. É a religiosidade oficial, bem diferente de Mãitina, velhíssima remanescente da escravidão, já sem juízo e com fama de feiticeira. Seu misticismo é muito mais primitivo, pois que baseado em magia (compare essas duas idosas. Ambas estão vinculadas ao misticismo, à religiosidade. A ligação com o aspecto oculto de nossa existência está até simbolizada no cômodo em que cada uma fica: ambos são escuros e isolados. Além disso, gostam de Miguilim. A diferença é que Vó Izidra é mais enrustida. Há também diferenças na qualidade da religiosidade de cada uma. Mãitina é mais primitiva enquanto a outra segue um padrão mais oficial).

Mas duas personagens são as mais importantes no círculo de relacionamento de Miguilim. A primeira é o seu irmão Dito, que, apesar de mais novo, é mais sábio, na medida em que está mais preparado para o lado prático da vida. Torna-se a âncora do protagonista, já que este é extremamente aluado. Por isso é constantemente consultado pelo personagem principal.

A outra figura importante é o Tio Terêz (dentro da elaboração poética de sua prosa, Guimarães estabelece uma ortografia própria, muitas vezes afastando-se do padrão gramatical. É o caso do “Terêz”, já que oxítonas terminadas em “z” não devem ser acentuadas). Irmão de Béro, é o amigo grande de Miguilim (há quem extrapole na interpretação e enxergue na relação entre Miguilim e Terêz, tendo também em vista o caso entre este e Nina, além dos conflitos entre o protagonista e seu pai, a possibilidade de que o menino seria filho não de Béro, mas de Terêz. Mas é um aspecto que de forma alguma deve ser colocado em uma prova, pois que baseado em suspeitas muito leves). E sabemos, pelo olhar lacunoso de uma criança, que mantém uma relação no mínimo perigosa com Nina. Intuímos isso pela briga que há entre pai e mãe em que esta quase apanha; só não sofreu porque Miguilim se interpôs no meio do casal, acabando por sofrer a fúria de Béro no lugar da mãe. Comenta-se a todo instante que o tio não ia poder mais aparecer no Mutum. Além disso, surge uma tempestade terrível, que é atribuída por Vó Izidra como castigo infligido às ações pecaminosas que andavam grassando.

O temporal se vai, Tio Terêz some e o Mutum mergulha numa tranqüilidade momentânea. É quando Miguilim põe na mente a idéia obsessiva de que iria morrer em dez dias. Passa a desenvolver um apego pela vida durante o decorrer desse período e principalmente após ele, ao descobrir que sobrevivera a ele.

Béro, pouco depois, faz com que Miguilim lhe leve o almoço. É uma maneira que entende de arranjar utilidade para o garoto, que realiza sua tarefa com orgulho. No entanto, em uma das viagens, é surpreendido por Tio Terêz, que lhe entrega uma carta para ser entregue à Nina e diz que estaria esperando resposta no dia seguinte. Começa então um dilema na mente do menino. Adora o tio e, portanto, deve fazer o que este lhe pediu. No entanto, mesmo não tendo consciência do que acontecia, intui que o que era pedido era errado. Depois de muito tempo de conflito interior, decide não entregar a missiva, confessando, entre choros, ao tio, que facilmente entende. É um grande passo no crescimento da personagem.

 

Introduzido por outra tempestade, chega mais um período de crise. É, como diz o narrador, o momento em que virou o tempo do ruim. Começa com o assassinato de Patori, garoto imbuído de malignidade e que maltratava muito Miguilim. Seguem-se outros fatos. O cachorro Julim foi mortalmente ferido por um tamanduá. Tomezinho sofre com a picada de um marimbondo. O touro Rio Negro machuca Miguilim, que acaba descontando a raiva em Dito. Luisaltino surge e começa a se engraçar com Nina (a mãe de Miguilim parece revelar um caráter no mínimo leviano, volúvel. Pode-se desconfiar de um certo determinismo, na medida em que sua personalidade seria um reflexo das atividades exercidas pela mãe dela, que fora prostituta). O ponto crítico ocorre quando Dito vai espiar o ninho de uma coruja. A ave acaba dizendo o nome dele, o que é visto por Miguilim como mau agouro (note que, para angústia de Miguilim, o papagaio não conseguia falar o nome de Dito, ao contrário da coruja. Drama temporário. No final, muito tempo depois, consegue-o).

Tudo é preparação de clima para o grande desastre. Durante a perseguição que as crianças fazem a um mico que havia escapado, Dito acaba tendo o pé cortado por um caco que estava no terreiro. O machucado piora, colocando o menino de cama. Coincidência ou não, é época dos festejos de Natal, Vó Izidra até se dedicando a montar seu famoso presépio.

Dito não resiste ao mal que lhe acometeu, vindo por falecer. É uma experiência extremamente dolorosa para Miguilim, mas que pode ser vista como um passo importante no seu amadurecimento. Se antes o protagonista era guiado pelo irmão, nos momentos de convalescença deste o jogo começa a se inverter. É Miguilim que conta ao acamado o que está ocorrendo no mundo ao redor deles. Passa a ser, pois, os olhos fraternos. Com a morte, a personagem principal passa um longo período curtindo a dor, o sofrimento, até que assume um movimento com que de introjeção do falecido, já que antes de tomar uma decisão sempre se pergunta o que seu irmão faria. Ao assumir a mesma atitude que presume ser de Dito, praticamente absorve-o em seu ser.

Tanto essa evolução é verdade que Miguilim agüenta firme o sufoco a que seu pai o submete, fazendo-o trabalhar no roçado, debaixo de um sol desumano. Mas o mais importante é lembrar da sua participação no conflito que houve entre Liovaldo e Grivo.

Grivo era um rapaz muito pobre, a ponto de os animais de criação, como galinhas, morarem na mesma casa dele. Certa vez aparecera no Mutum com dois patos para serem vendidos, parca fonte de sustento para si e para mãe. No entanto, Liovaldo, irmão de Miguilim que morava na cidade e que estava de visita, dominado por um espírito maléfico, começa a maltratar e até a machucar o pobre. Miguilim acha injusto e toma partido, batendo no agressor. Seu pai fica indignado pelo fato de o menino não respeitar o sangue familiar e, incoerentemente, dá uma surra nele que chega a espancamento. O protagonista, no entanto, não se sente mal, pelo contrário, tem raiva, pois sabe que está certo e que o pai está imensamente errado. Por isso pensa em vingança, imaginando até a morte do pai. É quando ri, em meio a surra, o que faz todos, até o agressor, pensarem que o menino endoidara, talvez até com os golpes.

O conflito instaura a conquista, por Miguilim, de espaço e até respeito no ambiente familiar. Após três dias que passa na casa de um vaqueiro, para protegê-lo da fúria do pai, retorna, mas não se mostra submisso. Como provocação, Béro quebra os brinquedos e gaiolas do filho. Este solta os passarinhos que tinha presos e quebra os brinquedos que sobraram. É um sinal de que havia crescido e que, portanto, não precisava mais daquelas diversões.

Delimitadas as fronteiras, Miguilim pouco depois cai doente e de forma tão grave que alterna momentos de inconsciência a de consciência (a doença e os mergulhos de desligamento que provoca podem ser entendidos como um momento de incubação, como se Miguilim, dentro de um casulo, estivesse em uma fase no final da qual se transformaria em outra pessoa). Nos instantes em que vem à tona percebe picotes de realidade, mas que nos faz entender vários acontecimentos. O primeiro é o desespero do pai, que se sente injustiçado pela providência divina, que parecia querer tomar mais um filho dele (Béro é, portanto, uma personagem complexa, pois, ao mesmo tempo em que maltrata seu filho, demonstra amor por ele. Sua agressividade pode ser fruto de uma vida de dificuldades financeiras, pois não é dono de suas próprias terras, cuidando do que era alheio. Nas entrelinhas fica o traçado de um caráter rico psicologicamente). Tenta ao máximo fazer suas vontades. Em vários outros despertares Miguilim toma conhecimento que Béro havia matado Luisaltino, provavelmente por causa de Nhã-Nina. Por ter caminhado pelas trilhas da criminalidade, acaba por se suicidar.

Quando começa a melhorar, o protagonista toma conhecimento de que Tio Terêz tinha voltado e ia passar a morar no Mutum. Era a união, finalmente, dele com Nina. Por causa disso, Vó Izidra parte de lá, indignada.

No final, a chegada de um certo Dr. José Lourenço traz uma revelação surpreendente. É essa figura nova que descobre que Miguilim era míope. Ao emprestar ao menino seus óculos, permite à criança uma descoberta. Seu velho mundinho acaba ganhando uma visão completamente nova, mais nítida. É a simbologia do crescimento, o que constitui um ritual de passagem. Enxergar mais nitidamente o mundo significa entrar para a fase adulta, sair da infância.

Na companhia de tão importante mudança, Miguilim parte para a cidade. Sua viagem, somada à simbologia dos óculos, pode significar a entrada em um novo universo. Miguilim pode tanto ter abandonado a visão primitiva, pré-lógica, que o caracterizara, como continuar, em meio ao universo adulto, preservando seu lado infantil. É, pois, um final aberto, a permitir mais de interpretação.

Quanto a “Uma Estória de Amor”, parece que vamos para o outro lado da existência, já que seu protagonista, Manuelzão, tem 60 anos. No estágio que atingiu, torna-se o responsável pela fazenda Samarra, pertencente a Federico Freyre, alguém que nunca aparece, sendo apenas mencionado (cuidar das terras de alguém que não aparece fisicamente, só na forma de uma carta, faz lembrar o próprio papel de Adão ou até mesmo do ser humano em relação a Deus).

Estabelecido, depois de uma ampla vida de atribulações, resolve instalar sua mãe e pouco depois, sentindo falta, provavelmente, de um sentimento de família, busca um seu descendente, fruto de um relacionamento perdido no tempo. É o seu filho, Adelço de Tal, sujeito desamistoso, seco, casado com Leonísia, mulher linda a ponto de inspirar desejos perigosos em Manuelzão, o que provoca nele um conflito interior. O casal tem um filho, Promitivo, rapaz sem rumo certo na vida – um vagabundo.

Com a morte de sua mãe, Manuelzão resolve erguer uma capela para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, atendendo, quase que inconscientemente, a um pedido da progenitora, quando ainda viva. Coincidência ou não, essa determinação ocorre logo após o riacho que cortava a fazenda ter misteriosamente secado no meio de uma noite (haveria aqui uma relação entre a vida de Manuelzão e o curso do rio?). Terminada a construção da igrejinha, prepara-se para inaugurá-la, esperando a chegada de um padre.

Surpreendentemente, vem chegando uma enorme quantidade de gente, de todas as partes, para participar desse evento religioso. É um festejo que já ocorre nas vésperas do que acaba se tornando o grande dia e do qual Manuelzão não tem mais controle, a não ser no que se refere à preocupação de garantir alimentação para uma população tão grande de convivas.

Entre as pessoas de todo tipo que aparecem, destaque deve ser dado a algumas figuras. A primeira é João Urúgem, homem extremamente primitivo, às vezes tão colado à terra que é visto de quatro, e que chega a cheirar mal, animalescamente. O outro é o Senhor do Vilamão, outrora homem muito rico e poderoso, mas no presente caduco. Diminuída sua potência político-econômica, ainda tem posses e pose. Há também Joana Xaviel, grande contadora de história e que tivera um enlace amoroso (pelo menos no mínimo suficiente para espantar a solidão da velhice) com Camilo, homem de passado misterioso, não se sabe se até fora déspota e bandido, mas que tinha como que preservado um ar de prestígio. Havia até quem suspeitasse de um interesse emotivo entre ele e a mãe de Manuelzão.

Inaugurada a capelinha, todos se entregam ao prazer de um caloroso almoço, participando depois da cantoria e do folguedo. Interessante é notar como se manifesta no texto a colagem de vários poemas, advindos de cantigas populares, folclóricos, tornando-o uma colcha de retalhos, a lembrar o esquema que Gil Vicente já havia usado em suas peças, como A Farsa de Inês Pereira. Esse tecido fica mais rico quando se tem em mente que as histórias contadas também entram como peças dessa composição.

Enquanto isso, Manuelzão está mergulhado em três problemas. O primeiro é a dor constante que sente em seu pé. O segundo é a necessidade de conduzir uma boiada. No estado em que se encontrava, poderia muito bem transferir tal tarefa para seu filho. Mas esse era o terceiro problema: seria alguém confiável? Nota-se, pois, um relacionamento familiar muito fraco.

No final da noite é que todos esses problemas começam a ser sanados. Sem perceber, a dor havia sumido. E o quadro muda radicalmente de figura quando de maneira inesperada Camilo se propõe a contar uma história, a do Boi Bonito.

Trata-se da narrativa que em alguns pontos se assemelha a um conto de fadas. Um fazendeiro muito rico possui um cavalo que ninguém consegue domar. Além disso, propõe-se a dar a mão de sua filha a quem conseguir caçar o famoso Boi Bonito, tão belo quanto perigoso. Vários vaqueiros tentaram, mas só encontraram a morte.

A entrega da mão da filha a quem conseguir resolver uma tarefa é um motivo muito comum nas fábulas e está ligado à idéia de renovação do “eu”, já que uma estrutura antiga precisa da ajuda de uma nova para a completude de suas ações. Isso tudo parece simbolizar a relação entre Manuelzão e Adelço de Tal.

 

A adequação é tão perfeita aos contos de fada que de fato surge um vaqueiro, Menino, que não só consegue domar o cavalo, como é o único de quem o Boi Bonito foge. Quando finalmente o animal é pego, declara ao moço que por muito tempo esperava por ele. Atinge-se o momento de epifania amorosa que se transfere para os ouvintes. Suspendem-se todas as animosidades entre pai e filho. A festa recebe mais ímpeto. Ganha-se disposição para a viagem com a boiada.