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Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector - resumo

Em busca desse selvagem coração, e do enigma da vida, Clarice Lispector segue coordenadas estilísticas já observáveis em Marcel Proust, James Joice e Virgínia Woolf.

  1. afasta-se das técnicas tradicionais do romance, caracterizado como um espelho da época, refletindo circunstâncias econômicas ou sociais.

  2. Sua literatura é um ambíguo espelho da mente registrado através do fluxo da consciência, que indefine fronteiras entre a voz do narrador e das personagens.

  3. Rompe-se assim, a narrativa referencial ligada fatos ou acontecimentos. Emprega uma narrativa interiorizada, centrada num momento da vivência interior da personagem (ou narrador).

  4. O fluxo é, portanto, um sistema para a apresentação de aspectos psicológicos da personagem na ficção.

  5. Um acontecimento exterior apenas libera idéias que vão até o inconsciente

  6. O assunto principal de sua obra passa a ser a consciência da personagem principal.

  7. Não se trata de uma literatura alienada, mas da realidade concreta: filtra todos os fatos através de uma consciência que se isola do conjunto - eis aí a solidão do homem moderno.

O cotidiano é que é alienado. É a repercussão dele nas pessoas que a preocupa. A realidade não é um fenômeno puramente externo. Perto do Coração Selvagem segue quatro passos:

Primeiro: a personagem é disposta numa determinada situação cotidiana - o universo infantil de Joana (protagonista) é apresentado nos primeiros capítulos do romance alternados com sua vida adulta (9 capítulos iniciais). Segundo: prepara-se um evento que é sentido discretamente: o universo da condição feminina de mulher-esposa, da relação entre o "eu" e o "outro", da falsidade das relações humanas, do esvaziamento das relações familiares e da própria linguagem, única forma de comunicação com o mundo. Terceiro: ocorre o evento que lhe ilumina a vida (epifania): a realidade é feita por meio de uma consciência individual que resulta em monólogos interiores, digressões e fragmentação de episódios. Joana é arrastada ao adultério. Quarto: Ocorre o desfecho onde se considera a situação da vida da personagem: procurando o autoconhecimento, Joana perde-se em questionamentos existenciais sobre a morte e a vida, o bem e o mal, o amor e o ódio

Romance psicológico, conta a história de Joana, menina estranha, introvertida. Criada pelo pai, não conhecera a mãe. Termina sob o cuidado de uma tia que a rejeita e a envia a um internato onde descobre sua primeira paixão: um professor mais velho que lhe ensina o fim de sua infância e o início de sua puberdade.

  1. Em forma de Flash-back, através de episódios fragmentados, no presente Joana leva uma vida triste; casada com Otávio, vê-se grávida ao mesmo tempo que Lívia, amante do seu marido, também.

  2. Joana percebe que não conhece bem seu esposo, que ele não a conhece e que ela mesma não se conhece. Repassa o seu passado e o seu presente com alternância de episódios do acaso.

  3. A desesperança leva Joana ao adultério e à separação de Otávio.

Personagens:

Joana: fechada no seu próprio universo demonstra possuir um caráter introvertido e princípios de vida estranhos, embora no capítulo 'A víbora', a animalidade de Joana é metaforizada. É uma peça descartável na máquina do mundo.

Otávio: esposo de Joana tipifica o não-eu, que trai, que rejeita, que desama e não se deixa possuir.

Lídia: amante de Otávio que representa a conspiração num mundo de muitos 'eus'. Ela trai e se alia.

Estrutura da Narrativa:

O livro divide-se em duas partes: nove capítulos em Flash-back que apresentam a infância de Joana. Capítulos com reticência retratam a infância, com a preposição 'de' são indicadores de posse, a idade adulta de Joana. Os outros dez capítulos não enfatizam mais o mundo infantil de Joana, mas o universo feminino.

Análise introspectiva (radicalização do psicologismo), o fluxo da consciência humana são traços marcantes na narrativa. Importa mostrar a experiência existencial e interior da personagem, a partir de sentimentos e reflexões.

A realidade é vista através da consciência individual desaguando em monólogos interiores, digressões, e episódios fragmentados.

Romance psicológico com foco narrativo de terceira pessoa. O narrador é onisciente.

Enfático é o uso de metáforas, antíteses, imagens, antíteses, paradoxos e sinestesias.

 

'Perto do coração selvagem' é o primeiro romance de Clarice Lispector. Como participante da Geração modernista de 45, os modelos literários tradicionais são inovados e renovados. A relatividade entre prosa e poesia intensifica-se. Despedaça a ordem cronológica e quebra a seqüência início-meio-fim. Porém, o grande trunfo de Clarice é o fluxo da consciência, ruindo enredo e ação, tempo e espaço. Importam as reflexões que nos levam para "perto do selvagem coração da vida", na eterna busca do autoconhecimento, misturando presente e passado. Por fim, as epifanias (revelações) delimitam o universo de cada personagem, de cada ser, de Clarice, permitindo-nos ver o mundo e a nós mesmos de forma diferenciada.       

Em Perto do Coração Selvagem, Joana expressa, por fluxos de consciência, sua vida interior, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, mergulhando ora no passado, ora no presente, segundo o fio condutor da memória.

A infância viveu ao lado do pai, a quem confiou, por meio de brincadeiras, suas incertezas infantis. Era sonhadora, contemplativa e, inconscientemente, provocava os adultos com suas questões e opiniões. Escrevia versos, tinha medo de dormir sozinha e sentia muita pena das galinhas. Para ela, estas nem sabiam que iam morrer. A mãe, Elza, morreu, quando ela ainda era muito pequena; conhecia-a pelas descrições do pai. O tempo junto a este também foi curto, morreu quando ela ainda era menina.

Órfã, Joana vai morar com os tios. Logo nos primeiros dias de convívio, a severidade na casa se revela hipócrita, despertando-lhe uma visão repugnante daquilo que a esperaria no futuro; eles fingem condoer-se da sua infelicidade. A relação entre sobrinha e tia é tensa, mas aceitável; a presença da menina a sufocava.

Um dia ao acompanhar a tia às compras, como num teste para si mesma e causar espanto aos outros, Joana roubou um livro, fazendo com que a realidade de sua relação com aquela família viesse à tona. Desabonando esse tipo de conduta, a tia pediu ao marido que encaminhasse a menina a um colégio interno, onde as diferenças, entre Joana e o mundo que a cercava, iriam se acentuar.

Essa inadaptabilidade aos lugares, a constante vocação para o mal e o desconhecimento de si mesma faziam parte do processo de descobrir-se, encontrar a razão de ser de sua existência.

Nesse processo, surge um professor casado, que lhe dá ouvidos, aconselhando-a, na medida do possível. Ele torna-se seu amor adolescente, e Joana, sentindo uma espécie de inveja da esposa, sofre as agruras dessa primeira paixão.

Desligada do internato, Joana casou-se com Otávio, que divagava tão intensamente quanto ela. Embora casado, mantinha um relacionamento amoroso com, Lídia, sua ex-noiva, a quem engravidou. Isso aparentemente seria a causa da separação entre Otávio e Joana, além da diferença de temperamentos, expectativa de vida e compreensão de mundo do casal. Joana, que sabia tudo sobre o relacionamento dos dois, abordou a situação naturalmente, sem escândalo ou drama passional. No entanto, no seu interior, esse fato lhe suscitava muitas reflexões, sendo uma delas o projeto de ter um filho com o marido, antes de devolvê-lo à rival. Isso não se realizou e Otávio partiu, deixando uma suposta promessa de volta no ar.

Depois da separação, um homem desconhecido passou a seguir Joana, durante algum tempo. Um certo dia, ela se viu na casa desse estranho e, sem sequer saber-lhe o nome, desejando conhecê-lo por outras fontes e por outros caminhos, com ele teve alguns encontros. O desconhecido que, para ela, era mais um salto para sua auto-investigação, um dia, acabou partindo. Ela, também, embarcou sozinha para uma viagem não muito bem definida, dando a entender que, naquele momento, teria condições de se resgatar.