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Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos - resumo

Durante o período que permaneceu na secretaria da educação revolucionou os métodos de ensino da época. No entanto, devido as suas idéias, consideradas "extremistas", foi demito em 1936.

Ainda nesse ano, precisamente no dia 3 de março, é preso sob a acusação de ligação com o Partido Comunista. A acusação é falsa, pois Graciliano se entraria para o PCB em 1945. Mesmo sem acusação formal ou julgamento, é deportado para o Rio de Janeiro, onde permanece encarcerado até 1937. Dessa experiência resultou a obra "Memórias do cárcere", que só começou a ser escrita em 1946 “Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos”.

A obra "Memórias do cárcere", publicada somente 1953, foi transformada em filme por Nelson Pereira dos Santos.

Depois de ser libertado da prisão, Graciliano ficou morando no Rio de Janeiro em um quarto de pensão, com a mulher e os filhos menores.

“Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão - e provavelmente isto será publicação póstuma como convém a um livro de memórias.”

Em Memórias do Cárcere, publicação póstuma, Graciliano Ramos ocupou seus últimos anos, tornando públicos, “depois de muita hesitação”, acontecimentos da sua e da vida de outras pessoas, políticos ou não, intelectuais ou não, homens e mulheres, presos durante o Estado Novo.

Nos três primeiros parágrafos do livro ele se explica, justificando a demora de dez anos. E, depois, resolvido a escrever, sabe que sua narrativa será amarga: “Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.

O intuito de Graciliano se realizou. Fiel aos acontecimentos, não escondeu, não negou, não exagerou: “Escreveu, realmente, com exatidão espantosa, com rigor excepcional. Tudo o que é negro, em sua narração, é negro pela própria natureza, o que é sórdido porque nasceu sórdido, o que é feio é mesmo feio. Não há pincelada do narrador no sentido de frisar traços, de agravar condições, de destacar minúcias denunciadoras.”(Nélson Werneck Sodré, prefácio de Memórias do Cárcere).

Em 1936, quando esteve preso no pavilhão dos primários, na Casa de Detenção, Graciliano conheceu Vanderlino, “um homem útil”, habilidoso, capaz de esculpir peças de um jogo de xadrez depois de dividir um cabo de vassoura em 32 pedaços iguais. Criminoso comum, homem humilde, foi ele quem, mais tarde, na Colônia Correcional, apresentou um amigo a Graciliano. “Admirou-me a franqueza de Vanderlino ao dizer o nome e o ofício do personagem: -Gaúcho, ladrão, arrombador.”

Gaúcho virou amigo de Graciliano, querendo aparecer em seus livros (“Eu queria que saísse o meu retrato”) e, além de personagem em Memórias do Cárcere, é citado também no conto “Um Ladrão”, de Insônia, história da ineficiência de um aprendiz seu num roubo que fizeram juntos. Esta foi uma das muitas histórias que Gaúcho contou a Graciliano, ouvinte atento. E assim a amizade entre eles cresceu, dentro dos muros, desinteressada e sincera.

Quando estuda o testemunho de Graciliano sobre a prisão, Nélson Werneck Sodré lembra que “Cubano e Gaúcho”, criminosos comuns, saltam destas páginas para adquirirem dimensões humanas, denunciam-se como criaturas, apesar de terem vivido sempre entre comparsas.” (Adaptado de Viviana de Assis Viana, em Lit. Comentada: Graciliano Ramos).

 

 

Do filme de Nélson Pereira dos Santos:

Adaptação de 'Memórias do Cárcere' por Nelson Pereira evoca a tendência do Brasil a ter governos arbitrários INÁCIO ARAUJO
Crítico de Cinema
Filme: Memórias do Cárcere
Produção: Brasil, 1983
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Elenco: Carlos Vereza, Glória Pires
Onde: hoje, às 21h, no Espaço Banco Nacional de Cinema

É quando não se espera nada de Nelson Pereira dos Santos que ele sai com tudo. "Memórias do Cárcere" sucedeu uma fieira de filmes pelo menos duvidosos e chegou em um momento já declinante do cinema brasileiro.
Havia, portanto, mais de um motivo para duvidar de seu êxito. A surpresa não esperou o fim dos letreiros de apresentação: bastou o achado inicial (a fantasia sobre o Hino Nacional composta por Gottchalk) para que qualquer um na sala notasse que o filme bateria fundo.

O que vem a seguir não desmente a primeira impressão. Sempre usando essa música como leitmotiv, Nelson Pereira reconstitui a aventura de Graciliano Ramos (o filme é baseado em seu livro autobiográfico) com sentido de época apurado (a ditadura Vargas), sem perder de vista o presente.
Falava-se, no fundo, da seqüência de governos arbitrários a que o Brasil é sujeito. E nesse sentido é que a fantasia sobre o hino funciona de maneira formidável. Sem que se diga uma palavra, sem incorrer no vício da presentificação de um tema histórico, o filme consegue ir além do livro e evocar uma espécie de destino nacional, uma continuidade, um mesmo fluxo evocado pelo motivo condutor.
O filme não depende apenas dele. Da interpretação dos atores principais (Carlos Vereza e Glória Pires) 'a evolução de uma trama em que se acumulam episódios por vezes tocantes (a prisão de Olga Benario e seus contatos com Prestes, antes da deportação), Nelson Pereira constitui uma história íntima do Brasil sob o Estado Novo.

Faz dialogar o privado e o público, o pessoal e o político, com uma desenvoltura digna de "Vidas Secas", seu trabalho mais famoso (e também baseado em Graciliano). Não será demais lembrar que esse foi o último grande trabalho de José Medeiros, um dos fotógrafos que mais marcaram o cinema brasileiro desde os anos 60.