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OS RATOS - Dyonélio Machado - resumo e comentários

Por: Célia N. Passoni - editora Núcleo

Os Ratos teve sua primeira edição em 1935 e, por seus méritos literários, foi homenageado com o "Prêmio Machado de Assis", que Dyonélio Machado recebeu junto com Érico Veríssimo, Marques Rebelo e João Alphonsus. Estava destinado, desde o início, a tornar-se um clássico da 2ª geração modernista. 

Dyonélio Machado diplomou-se em Medicina com especialização em Psiquiatria. Dedicou-se também ao jornalismo e à política. De suas atividades profissionais como psiquiatria, herdou a profunda capacidade de observar, o que lhe permitiu mergulhar fundo no interior dos seres humanos, investigando-lhes a essência: pequenos e grandes dramas, angústias que provocam necessidades mais traumatizantes. As atividades de jornalista possibilitam nascer, no escritor, a preocupação com o estilo: rápido, certeiro, bem-dosado, tornando-se um mensageiro perfeito e de linguagem clara e simples, que permite ao leitor penetrar nas mais profundas investigações sobre o homem de maneira cautelosa, mas incisiva. E, finalmente, das suas atividades políticas tornaram-se possíveis as investigações sociais.

Dessas três coordenadas do escritor, pode-se resumir Os Ratos: um relato psicológico, revolvendo a mente atormentada de um pobre homem; e que se alarga porque, de certa forma, reflete toda uma angústia coletiva, angústia presente em uma camada social que sobrevive à mercê de agiotagens, empréstimos, penhores e outros subterfúgios utilizados pelos homens para poder conseguir o dinheiro, que lhes permitirá sobreviver mais um dia, um único e mísero dia. Mas no horizonte há uma estreita realidade, uma malha cheia de fios sempre crescente, sempre torturante que pode ser resumida na certeza de se ter transferido para o dia seguinte a mesma necessidade: a angústia do pagamento de outras dívidas.

A obra pode ser definida como um drama urbano e envolve a vida de um reles funcionário público de baixo escalão, com pequenos rendimentos, pequena família, pequena vida e problemas a serem resolvidos. Acrescenta-se ao quadro a capacidade de condensar toda a ação do volume em um único dia. Seguindo o traçado do Sol no horizonte, o dia tem seu início com a colocação do problema, ao meio-dia intensifica-se, levando o leitor a conhecer e se aprofundar no desespero do protagonista, para, no final, tornar-se mais um problema "resolvido", mas com a pequena e mesquinha solução de somente transferir para mais tarde a resolução definitiva. Um retrato duro do famoso "jeitinho brasileiro" de solucionar problemas.

A narrativa é feita em 3ª pessoa, cuja vantagem é trazer a onisciência para que o leitor possa adentrar ao máximo na problemática, sem encontrar barreiras de espécie alguma. O personagem principal é Naziazeno, pequeno funcionário público, casado com Adelaide, com um filho ainda bebê e que, por isso mesmo, necessita de leite. O problema surge a partir do momento em que o leiteiro se recusa a continuar o fornecimento se Naziazeno não liquidar a conta atrasada. Como o leiteiro exerce uma espécie de domínio sobre o personagem, uma vez que a ele é dada a capacidade de escolher entre entregar ou não o leite, cabe a ele também o papel de coagir o já acuado personagem.

O primeiro capítulo apresenta a situação de desespero que daí para frente aumenta a cada passo que é dado no romance, culminando com um clima de angústia e de desespero para se conseguir o dinheiro necessário para o pagamento da dívida. Em um primeiro instante, a tendência de Naziazeno é desvalorizar o leite:

"Um silêncio

Mexe nos bolsos; dá a volta à peça; vai até o cabide de parede, onde havia colocado o chapéu.

- Me dá o dinheiro – diz, num tom seco, torcendo-se para a mulher, enquanto pega o chapéu.

- E voltando ao ‘seu ponto’, depois de pôr no bolso os níqueis que a mulher lhe trouxera:

- Aqui não! É a disciplina. É a uniformidade. Nem se deixa lugar para o gosto de cada um. Pois fica sabendo que não se há de fazer aqui cegamente o que os outros querem.

A mulher não diz nada. Voltara a esfregar uma qualquer coisinha na tábua da mesa.

Ele se pára bem defronte dela e a interpela:

- Me diz uma coisa: o que é que se perdeu não comendo manteiga, isso, que é mais um pirão de batatas do que manteiga?

Ela não responde.

- E o gelo?... pra que é que se precisava de gelo?...

Faz-se uma pausa. Ele continua:

- Gelo... manteiga... Quanta bobice inútil e dispendiosa...

- Tu queres comparar o gelo e a manteiga com o leite?

- Por que não?

- Com o leite?!

Ele desvia a cara de novo.

- Não digo com o leite – acrescenta depois – mas há muito esbanjamento.

- Aponta o esbanjamento.

- Olha, Adelaide (ele se coloca decisivo na frente dela) tu queres que eu te diga? Outros na nossa situação já teriam suspendido o leite mesmo.

Ela começa a choramingar.

- Pobre do meu filho...

- O nosso filho não haveria de morrer por tão pouco. Eu não morri, e muita vez só o que tinha para tomar era água quente com açúcar.

- Mas, Naziazeno... (A mulher ergue-lhe uma cara branca, redonda, de criança grande chorosa)... tu não vês que uma criança não pode passar sem leite?..."

Naziazeno levanta-se cedo, e cedo toma o bonde que o leva à repartição. Suas lembranças andam soltas: primeiro retoma as conversas de Horácio e Clementino, embora simples serventes, conhecem certos prazeres que a ele são vetados. Por suas lembranças ainda passa a doença do filho, diarréia, desnutrição. Não pagou o médico, porque é de hábito não pagar ninguém. Percorre com o olhar e fixa os olhos em um passageiro do bonde. Um mal-estar o invade ao reconhecer, nas mãos do outro, o leite:

"- Leite. É o meu almoço.

‘- Como é que um homem pode se contentar apenas com um vidro de leite ao meio-dia?’ – pensa Naziazeno. O olhar do ‘leiteiro’ ameaçando-o, insultando-o, e que ele sustenta mal, aparece com nitidez na face atrigueirada, sobre o pescoço forte que emerge da camiseta muito justa...

- E de manhã, que é que você toma?

- Churrasqueio."

Presta atenção nas conversas nos bancos vizinhos, e, ouve falar em jogo, corrida de cavalo, em que ele já havia depositado muita esperança, como todos aqueles que se apegam em dinheiro fácil para salvar suas vidas difíceis. Que esperança! Que tristeza quando não se realiza o grande sonho:

"Naziazeno quanta ‘esperança’ já depositara no betting... Aos sábados era certo munir-se da sua cautela. Tinha um companheiro, o Alcides. Às vezes, quando a crise apertava, faziam sociedade. Um dia tinham tido um susto: faltava conferir apenas um páreo, o primeiro jogo. Alcides começara por longe, pelo último: Macau! Tinha acertado um! e se dá?... Um turbilhão enche-lhe a cabeça. Vamos ver! vamos ver! O outro! – o outro também, a égua Singapura, o grande azar do penúltimo páreo, o seu azar! Alcides levanta-se da mesa. Tem medo de prosseguir, medo mesmo de acertar. Quase desejava ter já errado, acabando aí essa ilusão torturante. Ele ainda se encaminha em direção ao grande quadro negro pregado numa das paredes de café, o passo vago, como num sonho. Mas logo se reincorpora, decidido: e foge dali, não quer saber mais nada, quer ocultar-se e é assim que encontra o amigo.

Esse susto foi memorável."

Mas, a todo momento, sobrepõe aos seus pensamentos a figura superior e inquietante do leiteiro. Naziazeno procura acreditar que parcela de culpa cabe à mulher que não se impõe, porque é tímida, não grita, empalicede e sofre. A mulher não tem a força necessária para lutar, gritar, ir avante. É um ser submisso e infeliz. E o bonde continua. Houve uma brecada horrível por causa de duas crianças que estavam nos trilhos. Alguns comentários e risos distraem o protagonista por alguns instantes, mas o leiteiro o domina pouco depois, sempre lhe vindo à mente a frase Lhe dou mais um dia!. São cinqüenta mil-réis.

O bonde parou e Naziazeno sentiu quase uma atração que o levou para o mercado, onde gastou dois tostões em um café com leite, embora soubesse que era necessário prudência e economia em uma situação como a sua. O café acende seu ânimo, reaquecendo sua esperança.

"Sente-se outro, tem coragem, quer lutar. Longe do bonde (que é um prolongamento do bairro e da casa) não tem mais a ‘morrinha’ daquelas idéias... Naquele ambiente comercial e de bolsa do mercado, quantos lugadores como ele!... Sente-se em companhia, membro lícito duma legião natural."

Monta mentalmente um pequeno plano: pedir emprestado ao diretor, que já o havia socorrido ma vez. Pensou em recorrer ao amigo Duque, que sempre tinha facilidade para safar-se de situações semelhantes. Mas a indecisão, o medo, a incerteza tomam conta de Naziazeno. Mentalmente, quase quixotescamente, constrói as imagens do que seria, mas o fracasso toma conta não só da realidade, mas da fantasia, do "seria possível que".

"Um gelo toma todo o seu corpo. Gelo que é tristeza e desânimo. Voltam-lhe as cenas da manhã, o arrabalde, a casa, a mulher. Tem medo de desfalecer nos seus propósitos. Acha-se sozinho. Aquela multidão que entra e sai pela enorme porta do café lhe é mais do que desconhecida: parece-lhe inimiga. Já acha absurdo agora o seu plano, aquele plano tão simples. Quando pensa em pedir ao diretor sessenta mil-réis emprestados – sessenta! – chega a sentir um vermelhão quente na cara, tão despropositado lhe parece tudo isso. ‘- Sessenta mil-réis! um ordenado quase!... É isso coisa que se peça?!’" 

Ao chegar na repartição, o drama recomeça ameaçador e prepotente. Seu trabalho é monótono e consiste em fazer levantamento de fraturas. Algumas poucas contas para um serviço que não precisava estar em dia, e, por isso mesmo, Naziazeno mantinham-o atrasado cerca de dez meses.

Os planos traçados por Naziazeno só ficam na concepção, porque as coisas não acontecem como ele havia planejado. O diretor da repartição nesse dia passa antes pela Secretaria. Procura o Duque, amigo que sempre lhe consegue cavar algum dinheiro, mas não o encontra. No café, encontra o Fraga e o Alcides, fitando a ambos com o olhar vago e triste. Alcides enverga um casaco muito feio e estranho, e explica o fato por ter pedido emprestado, pois fora roubado. Por ser amigo de um repórter, o roubo foi notícia do jornal da tarde.

 

Para desespero do protagonista, a amigo Duque não foi ao café, agravando ainda mais seu estado psicológico, em que experimenta, mais uma vez, a sensação de amargura e de náusea. Já que o Duque não aparecera, ficou tentado a colocar em prática seu primeiro plano – ir ter com o diretor -, mas Alcides coloca em dúvida se o diretor irá atende-lo. Naziazeno pensa em cavar o dinheiro de outro modo, mas sente-se imóvel, incapaz.

"(...) A sua idéia era sempre ‘uma pessoa’: o diretor, o Duque... como isso o humilhava! Qualquer daqueles seus amigos, com menos cabeça do que ele, mexia-se. Ele se limitava a recorrer a um ou outro... ‘- Eu sei que há muitos homens que arranjam um biscate depois que largam o serviço’ – dissera-lhe uma vez a mulher. ‘- Por que não consegues um para ti?’ – Realmente, por que não ‘produzir’ como os demais, como todo o mundo? Agora mesmo, toda essa manhã perdida em busca de uma e outra pessoa, quando podia estar agenciando, cavando... Certa ocasião ele vira o Duque ganhar oitenta mil-réis pra pagar o aluguel atrasado aproximando dois sujeitos: um que queria vender um terreno, outro que queria compra-lo. Foi um transação limpa e rápida. Ainda os sujeitos ficaram sorrindo pra o Duque, um sorriso de admiração bondosa...

Mas onde estão os negócios? Onde estão? Ele nunca ‘via nada’; era a aptidão que lhe faltava..."

Retornando à repartição, tenta obter empréstimo com o diretor, mas não consegue. Tem preguiça de articular outro plano para obter o dinheiro, só não lhe faltam planos de fuga ou idealizações.

"Idealizar outro plano? Tem uma preguiça doentia. A sua cabeça está oca e lhe arde ao mesmo tempo. Aliás, o sol já vai virando pra a tarde (já luta há meio dia!), perdeu já a sua cor dourada e matinal, uma calmaria suspende a vida da rua e da cidade." 

Alcides talvez não o esteja esperando. E o seu desejo mesmo é não encontra-lo, não encontrar ninguém. Não vai voltar pra casa. A questão dos níqueis é o de menos... Não voltará também à repartição, no expediente da tarde. (Os seus papéis ficaram sobre a carteira. Todos os esperam, passam-se as horas. À hora de fechar, o Clementino hesita: guardará ou não?).

(...) Pagar o leiteiro, entregar-lhe a importância: ‘- Tome, é o seu dinheiro.’ Virar-lhe as costas sem dizer mais nada, sem mesmo querer reparar na sua cara espantada, surpresa e o seu tanto arrependida agora... Outra vida ia começar. Iria direto à caminha do filho, criança brincando com criança. ‘Se instalaria’ na mesa pra tomar o café. Tudo era calmo e ao mesmo tempo vivo ao seu redor. Amanhã voltava a ter aquele encanto antigo. 

(...)"Tenta pensar no jogo do bicho, esperança de todo brasileiro endividado. Alcides sugere que ele cobre uma antiga dívida sua, bastando, para tanto, procurar a casa de Andrade, mas Naziazeno entorna tudo, ao aceitar passivamente as explicações do devedor. Ao sair, mergulha novamente na angústia que o acomete e na insegurança de poder conseguir o dinheiro. Procura O Mister Rees, indicado por Andrade como um possível pagante, mas ele se encontra no Rio. Já são quase duas horas e o protagonista se descobre com fome. Procura o Restaurante dos Operários, inclusive na esperança de encontrar o Duque. Na falta do Duque, é até possível que recorra ao Dr. Otávio Conti. Procura saber onde é o escritório dele, mas não o encontra. Na volta, é abordado por Costa Miranda, mas só lhe pede emprestado o dinheiro para o almoço, ou talvez tente a sorte no jogo.

"A mão, mergulhada dentro do bolso da calça, ainda segura o dinheiro. É um papel sovado e liso, como se lhe tivessem passado talco. Seus dedos estão ficando suados. Abre então a mãe e retira-a aberta e com precaução, para que não haja perigo dela arrasta-lo para fora e o dinheiro cair, perder-se.

Vem descendo a rua.

Se ele botasse no estômago qualquer coisa, mesmo um cafezinho, ainda agüentaria mais uma hora. E com esses cinco mil-réis tentaria... a sorte!

Esse ‘plano’ veio-lhe de súbito, e perturba-o!

(...) Seu estomago porém está oco. Uma dor lhe sobe por dentro do peito, até ao pescoço, à garganta. Sente uma debilidade na cabeça, espécie duma leve sonolência, como quando tem febre. Entretanto, está com a testa fresca. Sabe que, se comer, tudo isso desaparece. É de haver passado todo esse tempo sem se alimentar.

Mas como perder essa oportunidade?...

Ele vê os seus cinco mil-réis multiplicando-se e a sua entrada em casa, à noite, fatigado e feliz, a boca sorrindo pra a cara muito branca e muito triste da pobre da sua mulher... Pregueia-se-lhe a garganta. Sente uma constrição no rosto... meio sobre os olhos... não sabe explicar exatamente onde..."

Joga na roleta, no número 28 e ganha cento e setenta e cinco mil-réis. Separa quinze e compra mais fichas, mas na tentativa de multiplicar o dinheiro, acaba novamente sem nada.

"Um tumulto e um estado de confusão enchem a cabeça de Naziazeno. Tem apenas uma vaga idéia de que ganhou. O choque é tão brusco que não lhe fica tempo para se arrepender. É quando recebe o dinheiro que faz o cálculo: cinco mil-réis... cento e setenta e cinco!... Tudo resolvido assim num segundo... Fita a cara do croupier, olha pra os lados!... Estará mesmo neste mundo? neste dia?..." 

O dia está terminando quando reencontra Alcides. Logo depois encontra o Duque, que reacende suas esperanças. Procuram casas de agiotas, mas não obtêm sucesso ou pelo avançado da hora, ou pelos agenciadores que pararam de trabalhar com dinheiro a juros. O certo é que as esperanças de Naziazeno aumentam ou diminuem conforme o clima, mas tendem a ficar cada vez menores. Por fim surge uma luz. Alcides tinha um anel penhorado com o agiota Martinez. Duque pensou em renovar a penhora com algum outro agiota se conseguisse levanta-lo. O pequeno grupo de amigos se junta e procura Mondina, que aceita "emprestar" o dinheiro para reaverem o anel. Martinez, mesmo depois de encerrado o expediente, levanta a penhora. Mas por essa via Naziazeno também não conseguiu o dinheiro. Já é noite fechada, o comércio está inativo.

Uma outra "luz" surge, quando Duque se lembra de procurar Dupasquier, um comerciante de ouro. Consegue obter trezentos e cinqüenta mil-réis, Duque pensava em penhora, o comerciante pensava em venda. Como Dupasquier não trabalhava com esse tipo de negócio, voltaram todos ao ponto de partida. De mãos vazias novamente, procuram um café para articular talvez o derradeiro plano. Outra parte da vida da cidade se inicia, a noite refrescou. Eram oito horas no relógio do café e o negócio caminha lentamente.

"- A situação é esta – resume finalmente Duque. – Se o sr. quiser até – diz ele, virando-se para o ‘advogado’ – o sr. mesmo fica com o anel como penhor. – E Duque olha para Alcides. – Não se faz mais negócio. Amanhã mesmo volto ao Martinez. Desfaço tudo. Devolvo o seu dinheiro.

- Desfazer, você não pode – observa-lhe o Duque.

 

Alcides cala-se, emburrado.

- Vamos pensar mais é em achar uma solução – faz Duque, conciliatoriamente.

Os dois nada dizem. Alcides já fechou várias vezes os olhos, colocou-os outras tantas vezes na rua. Mondina tem o olhar brilhante, os lábios fortemente unidos, a face levemente congesta.

Naziazeno sente um sono, um abatimento. Vê-se no bonde, de volta para casa. Bonde quase vazio, no meio da noite, com ele dormitando...

- Venha cá. Eu assumo o compromisso. Me dê esse anel – pede o Duque para Alcides. – Eu entrego-o ao Dr. Mondina em garantia do seu dinheiro. Me inteire trezentos mil-réis: me dê mais cento e vinte. Amanhã ou procuro o Alcides e o sr. pra fazermos o penhor. Assim o sr. fica bem garantido.

- Mas não se trata de garantia... – vai gaguejando o ‘dr.’ Mondina. – O seu amigo não compreendeu. Eu desde o princípio não estive pronto pra auxiliar essa transação...? Não se trata de garantia ou de falta de garantia...

- Mas assim fica muito bem – acrescenta Duque. – É justo aliás que o sr. queira rodear de todas as garantias o negócio.

Outro silêncio.

Alcides não se mexe. Duque mantém o braço estendido, à espera do anel. É um sono agora o que tem Naziazeno. É só um sono..."

Naziazeno chega em casa pouco depois das nove. Carregava alguns embrulhos, trouxe do conserto o sapato da mulher, comprou um brinquedo para o filho, manteiga e um pedaço de queijo. O homem foi invadido por um pouco de paz. Jantou, tomou um copo de vinho, conversou com a mulher, sentou-se, contemplou os dois leõezinhos que havia trazido para o filho. Contaram o dinheiro para o pagamento do leiteiro, colocaram o pagamento embaixo da panela de leite. Naziazeno está cansado, mas sente dificuldade para dormir. Os incidentes do dia são por demais pesados para ele poder se livrar deles com facilidade.

"Aquele endolorimento parece que é mais forte nas pernas, no osso da canela. Aliás, sente como que um peso dos joelhos para baixo. Mas é que não é brinquedo o que caminhou. Devia ter feito umas quatro vezes aquele trajeto da repartição... É verdade: não conseguiu saber o que era quilo daquela luzinha! Amanhã...

A ida ao Andrade arrasou-o.

Não ficou bem explicada essa história.

Não sentiu passar as três ou quatro horas da roleta. Ás vezes, tirava os olhos do jogo, e lá encontrava a cara daquele sujeito sentado, aquele pobre diabo, que ele conhece tanto... dos cafés... Não vira quando ele tinha ido embora... Que estaria fazendo ali? Teria ido com algum conhecido? Estaria esperando alguém?

Nunca, nunca devia ter ido à casa do fornecedor, não devia ter dado aquele passo. Isso ainda vai incomodá-lo...

Mas o melhor é não pensar em nenhuma dessas coisas... Tudo já passou, já passou!..."

O silêncio é grande. Os dias são quentes, mas as noites esfriam muito, e Naziazeno pensa, pensa, remói o dia, e o sono não chega. Já está inquieto, com a cabeça ardendo e os olhos arranhados. Tanto tempo passa e ainda é uma hora. A noite parece um século e, no entanto, ele precisa dormir, precisa descansar, aproveitar o resto da noite. Acontece, em sua mente cansada, uma superposição de imagens e figuras, que ele tenta ordenar.

"(...) O Assunção.. Fernandes... Martinez... Vê-se arrastado pelo Duque dum lado para outro... Caminham numa cadência... numa cadência... Parece que não pisam. Só enxerga o perfil do Duque, um perfil trigueiro, de focinho fino, um pouco caído... Tudo vai se confundindo.. À sua frente, ele só percebe uma atmosfera esbranquiçada, onde já aparecem coisas e formas vagas... que não pode fixar e distinguir...

 

Quer ficar assim muito tempo... muito tempo... quando tem um sobressalto. Um estalo se faz ouvir para o lado da peça da frente. O filho chega também a assustar-se. Quer acordar, tem um chorinho. A mãe, meio dormindo, passa a mão por cima da guarda da caminha. Nana-o. Ele se aquieta. Ela depois dum instante também adormece novamente.

Naziazeno não quis deixar ver que estava acordado."

Na confusão de imagens que surgem a partir da mente adormecida e da vigília, através da memória, Naziazeno recompõe o restante da cena do empréstimo, o bonde, a loja da Dolores, onde comprou os presentes, vai até a casa do sapateiro buscar os sapatos da mulher que haviam ido para o conserto... A obsessão é grande, as imagens não lhe saem da cabeça. Acumulam-se como cartas embaralhadas. E do subconsciente começam a aparecer uma legião de ratos que aumenta conforme passam as horas. Ratos que lhe devoram o dinheiro do leiteiro...

"Um rufar – um pequeno rufar – por sobre a esfera do chiado, no forro... Ratos... são ratos! Naziazeno quer distinguir bem. Atenção. O pequeno rufar – um dedilhar leve – perde-se para um dos cantos do forro...

Ele se põe a escutar agudamente. Um esforço para afastar aquele conjunto amorfo de ruidozinhos, aquele chiado... Lá está, num canto, no chão, o guinchinho, feito de várias notinhas geminadas, fininhas...

São os ratos!... Vai escutar com atenção, a respiração meio parada. Hão de ser muitos: há várias fontes daquele guinchinho, e de quando em quando, no forro, em vários pontos, o rufar...


A casa está cheia de ratos...

Espera ouvir um barulho de ratos nas panelas, nos pratos, lá na cozinha.

O chiado desapareceu. Agora, é um silêncio e os ratos...

Há um roer ali perto... Que é que estarão comendo? É um roer que começa baixinho, vai aumentando, aumentando... Às vezes para, de súbito. Foi um estalo. Assustou o rato. Ele suspende-se... Mas lá vem outra vez o roer, que começa surdo, e vem aumentando, crescendo, absorvendo...

Na cozinha, um barulho, um barulho de tampa, de tampa de alumínio que cai. O filho ali na caminha tem um prisco. Mas não acorda.

São os ratos na cozinha.

Os ratos vão roer – já roeram! – todo o dinheiro!...

Ele vê os ratos em cima da mesa, tirando de cada lado do dinheiro – da presa! – roendo-o, arrastando-o para longe dali, para a toca, às migalhas!...

Tem um desespero nervoso. Vai levantar! Mas depois do baque da tampa caindo, fez-se um silêncio, um grande silêncio... Espera um pouco. O silêncio continua. Nem mesmo o chiado se houve. Há só o silêncio.

Ele está sentado na cama. A seu lado, a mulher dorme, muito pálida, a cara gorda e triste. É um sono sereno, como de morta. Pensa em acorda-la, mas suspende-se: é tudo silêncio outra vez, o guinchinho cessou, cessou aquele roer num dos cantos do assoalho... E, depois, sente um meio ridículo, uma vergonha.

Deita-se. De novo vê o dinheiro ao lado da panela do leite, sobre o tampo muito branco da mesa, no meio dum silêncio quieto..."

Naziazeno está com sono, cansado, mas é preciso continuar, é preciso ser o guardião do dinheiro, até, talvez, o leiteiro chegar. Vagarosamente, contando os minutos, vai vendo chegar a madrugada e com ela os galos cantando, os ruídos da rua e... o leiteiro chegando.

 

"Está exausto... Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando... Quereria dormir... Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de anulação, de aniquilamento... Quereria dormir...

Não sabe que horas são. De fora, do pátio, chega-lhe um como que pipilar, muito fraco e espaçado.

Quereria dormir...

Mas que é isso?!... Um baque?

Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite...), que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, cantante, vem de muito alto...) – Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo pátio... Nem se ouve o portão bater...