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Dois Romances de Nico Horta - Cornélio Pena - (Comentários)

 

O enredo de Fronteira (1935) nos punha no interior de uma cidadezinha e, dentro desta, no interior de uma casa em decadência. A localização espacial agora se amplia: a pequena cidade concorre com a fazenda, embora tanto numa quanto noutra seja dentro das casas que, de preferência se encontrarão os personagens.

Criados na fazenda do Rio Baixo, os gêmeos Pedro Horta e Nico deslocam-se depois, com a família, para a cidade. Ainda tornam à fazenda e daí, já sozinho, Nico volta à cidade. Este vaivém importa porque se cumpre entre dois termos, dos quais um, a cidadezinha, tendo sido o primeiro ficcionalmente referido, tende a diminuir de importância, até se converter em mero lugar da passagem, Porto Novo, em A Menina Morta, ao passo que o contraposto, a fazenda, de ingresso mais tardio, tornar-se-á o central com o Grotão. Esta ordem de entrada e a mudança de seus pesos indicam a direção da matéria ficcional corneliana: direção ditada pela memória, na (dolorosa) procura de chegar à origem da razão (esquiva) da própria procura.

Dentro do eixo agora estabelecido, os personagens mantêm o sonambulismo que já encontráramos em Fronteira. A maneira como o são porém se complexifica. Malgrado sejam dados secundários, importa-nos sua referência para a rememoração do trajeto que nos impomos. Acentua-se desde logo a dificuldade, ou mesmo a incapacidade que sentem os personagens diante do tempo presente. Ela se acompanha do pressentimento de que algo terrível está prestes (cap.XXXIX). O terrível, contudo, não chegará como uma imposição externa, um acidente transtornante, mas sim como o esperável, porque a vida é sentida como ilegítima, conforme Nico pensa em seus monólogo: “Alguém de muito longe, devia gritar: pare! E ele obedecia, sem ouvir, entretanto, essa ordem... Por que recuara tantas vezes diante da felicidade vulgar, da paz oferecida, da vitória sem sangue... Por que recuara tantas vezes da própria saúde de seu corpo e de seu espírito, como quem se afasta da estrada interditada, do caminho interrompido?”(cap. XXXVIII).

Esta sensação se faz mais aguda em Nico Horta, não pro sua diferença, mas exatamente por ser nele que incide e se concentra a ótica do narrador. Daí o sentimento de estar sendo apontado e perseguido (cap. XXVI), perseguido, na verdade, pelas acusações proferidas por sua memória (cap. LV). É como desdobramento desta incapacidade de estarem inteiros no presente, de serem os personagens os recipientes de uma culpa tanto mais lancinante quanto mais vaga, surgem os fantasmas.

(...)

Ana, mãe de Nico e Pedro, tivera um primeiro marido, Antônio, que morrera deixando-a grávida. Já está pela segunda vez casada. Um terá o nome do pai, o primeiro marido, o segundo, do marido atual. O primeiro mais franzino, será conhecido pelo diminutivo, Nico. O processo de nomeação, já em si estranho, confirma a suspeita que em nós desperta o comentário de D.Ana, aborrecida com o destino que afastara de si Pedro, seu favorito: “Já não tenho junto de mim o pobre Pedro... o meu filho! - exclamou com vingativa raiva: - o culpado de tudo foi o pai dele, o pai dele! - Mas - disse Nico vagarosamente - era também o meu pai...”(cap. LXXXVII)

Na imaginação da mulher, portanto, o pai comum se biparte e cada filho seria descendente de um dos maridos. Sobre a sincronia “real” do nascimento projeta-se a diacronia simbólica, vivida pela mãe. Assim se cria entre os gêmeos uma diferença, que crescerá sob a forma de hostilidade. Ademais, a divisão não existe apenas para Ana. O marido a reforça, hostilizando Nico, preferindo substituir seu nome pelo epíteto de “o meu segundo filho” (cap. X, 196). As lembranças de infância deste reiteram a sua inferioridade. Reserva-se a Pedro o gramofone, que pertencera ao pai, sendo a ele proibido. Como a narrativa se concentra em Nico, só conhecemos o seu sentido hostil, embora a narrativa declare o mútuo antagonismo que os separa (cap.XXVII).

Semelhantes enquanto gêmeos, diversos fisicamente - Nico, franzino, Pedro, forte - e simbolicamnete, pelo desprezo que os pai nutrem por Nico -, neste se cria a sensação de ilegitimidade, a necessidade de odiar o rival e, posteriormente, sua divisão interna: “Nico, assim que perdeu Pedro de vista, correu para o seu quarto, livre da presença importuna da horrível companhia do irmão. (...) E pouco a pouco, abandonando pelo presente, mergulhou de novo em seu sonho. Os medos e as trevas, em silêncio, retomaram o antigo lugar à sua cabeceira. - De súbito, no meio delas, vozes estrondam. - Gritos, chamados, assobios, perseguem um homem que corre, ocultando o rosto. -Com surpresa, com frio terror ele se reconhece no fugitivo. (...)” (cap. XXVI). Está traçado todo o perfil do duplo, que em Fronteira, apenas se delineara.(...) Mas o romancista se descarta do problema, pelo afastamento de Pedro da fazenda, levado como louco para a residência de um médico da cidade. (...) Contudo, o desenvolvimento da narrativa nos mostra que, se o autor se liberara da expressão mais direta do duplo, não se afastara de sua presença. Assim, após o afastamento do irmão, Nico não consegue permanecer na fazenda. Foge para a cidade, deixando Maria Vitória, com quem mantinha um caso amoroso, com a mãe. Nada lhe pesa contra a fuga, como tampouco a cidade aliviará a perseguição de seu demônio interior. No cartório, onde passa a trabalhar, admite o interesse que lhe manifesta a filha do tabelião. Passa a freqüentar sua casa e a família apóia o noivado. Nico, entretanto - não peçamos maiores explicações de seus atos - resolve tornar à fazenda e à pretendente preferida pela mãe. Anuncia-se o casamento com Maria Vitória e então se estabelece outro duplo, entre Rosa, a filha do tabelião, e Vitória.

Nico, que fora vítima do duplo, agora se vinga, tornando-se seu criador. O resultado subtrativo se repete em dose mais forte. No mesmo dia do casamento, Rosa se suicida. Tudo isso deixa transparecer um claro tom de melodrama (camiliano?), mas sua condição não é a de um pastiche. Assim o júbilo com que os esposos são mostrados - muito ortodoxamente religioso que o encontrado na versão sexualizada de Fronteira (cf. final do ca.p XLII) - é, no outro dia, bruscamente interrompido pela subtração radical da vítima do duplo criado por Nico. Matando-se, Rosa impede a sua divisão interna e a transfere para Nico Horta. Trancafiado no quarto, ele sente que “alguém viera em sua perseguição (...), e ficara à sua espera, lá fora, na escuridão do corredor” (cap. XCIII). E percebe ser inútil combatê-lo, “a não ser que expulsasse primeiro, ou matasse, o pequeno monstro que rói o meu coração” (cap. XCIII). Resta ao romancista a última opção: a loucura se esgotara com Pedro, a fuga, no vaivém entre fazenda e cidade; entre as soluções conhecidas por sua obra só permanece a da morte. Mas pela boca do moribundo conhecemos que tampouco se dissipa a onipotência do duplo. Agonizante, Nico Horta percebe o que nunca soubera; apontando para a mãe, para Maria Vitória e para o tabelião, declara: “-esta é minha mãe, esta é minha mulher, este é meu amigo. Conheço-os agora, e sei que existem, que são reais... quero que me aceitem... eu vou ficar bom e viver realmente com vocês, porque os aceito, também”(cap. XCV). (...) Ora, em vida, Nico Horta não se sentia semelhante à vida, mas sim próximo da morte, assim como, na véspera da morte, sente-se semelhante ao corpo desejoso de vida.

Adap.de texto de Luiz Costa Lima, A Perversão da Trapezita: O Romance em Cornélio Pena.