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Cornélio Pena

Romance psicológico, introspectivo, intimista, introvertido, interiorista... vários foram os termos utilizados ao longo do tempo para tentar conceitualizar a obra inclassificável de CORNÉLIO PENA. Todos esses termos que acenam para o privilégio da subjetividade foram forjados, talvez, com o objetivo de contrapor esse escritor à literatura regionalista e social que imperava quando ele estreou. Trata-se, entretanto, justamente, da superação da subjetividade (e, conseqüentemente, da objetividade) em busca de uma sondagem originária do ser, vivida com todos os conflitos da carnalidade e da paixão: a esse caminho, contínua, solitária e verticalmente, o escritor se entrega, no movimento de realização de sua obra, fazendo dela a manifestação de uma luta existencial cujo fim sabe ser inalcançável. Se a angústia é o preço a ser pago por mergulho tão intenso, há que se acatá-la como o destino irrefutável da experiência humana ao se espantar diante dos mistérios da vida. Uma das prosas mais poéticas da tradição brasileira, a ficção de Cornélio Pena se caracteriza por uma construção a um só tempo unitária e mosaical.

OBRAS

Fronteira (1936); Dois Romances de Nico Horta (1939); Repouso (1948); Menina Morta (1954); Romances Completos (1958).

A Menina Morta - Cornélio Pena - Resumo

O argumento desse romance se esboça através de situações e detalhes, que compõem o ambiente e com ele submergem numa atmosfera que delimita o seu próprio mundo. De repente, todos os seus componentes materiais, humanos e temporais avultam nitidamente em torno de um símbolo de poder unificador e punitivo, a "menina morta". Evocada em sua curta existência, ela deixa entrever a sua missão conciliadora, também inspiradora do perdão e da bondade. Morta, abandona os vivos que se aprisionam cada vez mais nas cadeias do orgulho, do grande latifúndio escravocrata e monocultor, todos surdos aos gemidos da humildade passiva do escravo seviciado e aterrorizado.

A paisagem é a de uma grande fazenda de café no Vale do Paraíba, com seu imenso solar, inúmeros agregados e trezentos escravos. Seus senhores sofrem um drama íntimo, contido pelo orgulho e pelo amor-próprio, que intimidam e impedem qualquer possibilidade de alusão, de quem quer que seja, ao que possa ter acontecido. Ao mesmo tempo pressente-se a iminência da revolução social e econômica, com a extinção do trabalho servil. A criança, que seria a esperança de uma reconciliação humana geral naquela paisagem de riqueza e poderio às vésperas de se extinguir, se converte naquele símbolo da "menina morta". É a sombra punitiva que paira sobre os desumanizados. Tanto que, como num misterioso processo de metempsicose, ela é confundida com a irmã que sobrevive e é feita herdeira da fazenda. É quando esse vasto latifúndio de repente se desola, quase se intemporaliza, para envolver a sobrevivente numa imensa sombra, justamente com sua mãe, física e mentalmente debilitada.

O romance parece então dividir-se em duas partes: a primeira, em que perdura a lembrança da menina morta, coexistindo com o seu retrato a óleo na parede, enquanto ela se faz atuante como verdadeira força catalítica; a segunda preenchida pelo retorno da irmã, coincidindo com a ausência dos pais, até ao entorpecimento sombrio de todo aquele imenso e fervilhante domínio.