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Augusto Frederico Schmidt

(Rio de Janeiro RJ, 1906 - idem 1965)

Trabalhou, no começo da década de 1920, como balconista na Livraria Garnier, no Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, foi caixeiro viajante da Casa Carlos V. Pinto, fabricante de aguardente e álcool. Em 1928 publicou as obras poéticas Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt e Cantos do Liberto Augusto Frederico Schmidt. Conviveu com autores modernistas, como Mário de Andrade e  Oswald de Andrade. Em 1931 fundou a editora Schmidt, que publicou obras importantes como Caetés, de Graciliano Ramos, e  Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Entre 1948 e 1964 foram publicados seus livros O Galo Branco, Paisagens e Seres, Discurso aos Jovens Brasileiros, As Florestas, Antologia de Prosa e Prelúdio à Revolução. De 1956 a 1966 ele foi representante do Brasil na Operação Pan-Americana, delegado do Brasil na ONU, e embaixador na Comunidade Econômica Européia. Publicou inúmeros livros de poesia, entre os quais Estrela Solitária (1940), Mensagem aos Poetas Novos (1950) e O Caminho do Frio (1964). Em 1995 foi lançado Poesia Completa, reunindo sua obra. Poeta pertencente à segunda geração do Modernismo, Augusto Frederico Schmidt tematizou em sua obra a morte, a perda, a ausência. Para Manuel Bandeira, o poeta veio ?quebrar os clichês gastos do modernismo da primeira hora?.

 

 

Soneto Cigano

Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha [viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes [fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.

 

Noites, estranhas noites, doces noites!

 

Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.

Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.

A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.

Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!

 

Elegia

 

Entrou na sala e ficou em pé tocando piano, 
Sua mão pequena batia no teclado  
                                                 duramente. 
Lembro que estava de vermelho 
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta 
Lembro que era de tarde 
E entrava pelas janelas abertas o vento do 
                                                      mar. 
Não lembro se tinha flores perto dela 
Mas nascia um perfume do seu corpo. 
  

Que amor o meu! 

 

Pequena Igreja

Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.

Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de [rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!

 

 

Ouço uma Fonte

Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!

 

Apocalipse

As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as [águas frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando [nas águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.

 

A Chuva nos Cabelos

A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.

 

 

Soneto a Camões

As tuas mágoas de amor, teus sentimentos
Diante das leis que regem nossas vidas,
Desses fados que dão e logo tiram,
E a que estamos escravos e sujeitos.

As tuas dores de amar sem ser amado,
De procurar um bem que não se alcança,
E no canto clamar desesperado
Pelo que nunca vem quando se busca.

Poeta de enamoradas impossíveis
E que num negro amor desalteraste
Essa sede de amar dura e terrível,
 

As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,
Como uma fonte ficarão chorando
Dentro da língua que tornaste eterna

 

Noiva

 

Noiva, acaso és, a real afogada? 
És a louca do rio, noiva? 
Se não és, por que cantas assim 
E te enfeitas de flores? 
Se não és, noiva, por que morres? 
Por que levam teu corpo branco 
Para tão longe – noiva – para tão longe? 
Se tu és  a que eu conheci menina 
Por que não estás dormindo sobre o meu  
                                                      peito, 
                                   sossegada, noiva?