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ANTOLOGIA DE POESIA DE CORDEL

A Seca do Ceará

(fragmento)

Leandro Gomes de Barros

 

 

Seca as terras as folhas caem,

Morre o gado sai o povo,

O vento varre a campina,

Rebenta a seca de novo;

Cinco, seis mil emigrantes

Flagelados retirantes

Vagam mendigando o pão,

Acabam-se os animais

Ficando limpo os currais

Onde houve a criação.

 

Não se uma folha verde

Em todo aquele sertão

Nãoum ente d’aqueles

Que mostre satisfação

Os touros que nas fazendas

Entravam em lutas tremendas,

Hoje nem vão mais o campo

É um sítio de amarguras

Nem mais nas noites escuras

Lampeja um pirilampo.

 

Aqueles bandos de rolas

Que arrulavam saudosas

Gemem hoje coitadinhas

Mal satisfeitas, queixosas,

Aqueles lindos tetéus

Com penas da cor dos céus.

Onde algum hoje estiver,

Está triste mudo e sombrio

Não passeia mais no rio,

Não solta um canto sequer.

 

Tudo ali surdo aos gemidos

Visa o espectro da morte

Como a nauta em mar estranho

Sem direção e sem Norte

Procura a vida e não ,

Apenas ouve gemer

O filho ultimando a vida

Vai com seu pranto o banhar

Vendo esposa soluçar

Um adeus por despedida.

 

A Festa dos Cachorros

(fragmento)

José Pacheco

 

 

 

Caro leitor se não lestes

Mas alguém vos contou
Que nos remotos passados
Até barata falou
Porém isto foi no tempo
Quando o trancoso reinou

Eu ainda estou lembrado
Que meus bisavós contavam
Muitas histórias passadas
De quando os bichos falavam
Como bem fosse a da festa
Quando os cachorros casavam

Nesse tempo os animais
Era tudo interesseiro
se casavam com bichas
Que os pais tinham dinheiro
Tanto que devido a isto
Um gato morreu solteiro

Contudo sempre viviam
Em regimes sociais
Respeitando aos governos
Nos atos policiais
Crendo no catolicismo
Conforme a lei de seus pais.

 

Satisfação de Caboclo

Constantino Cartaxo

(fragmento)

 

Tivemos muita alegria,

lhe asseguro, seu Doutô.

Nós plantemo, nós plantemo

nós vimo a planta nascendo

na terra que se abria.

Cumé bonito o roçado!

Despois que o inverno pegou

Foi a lavoura ingrossando,

no mei o mato brotando

e nós na inxada agarrado.

 

Meus dez fio, meus dez moleque...

eram dez moleque, dez

impariado ao meu lado

puxando cobra p’rus pés.

Chega acho  bom rescordá!

Eita anozim de fartura!

E arrescordando agradeço

a nosso Deus das artura.

Melancia carreguêmo,

deformando os caçuá.

 

Nosso feijão parecia

quiném gáia de juá,

caruçudo em toda bage.

de mi, na roça, quage

caía cum seu carrêgo.

E  o arroz? Vixe, meu nego!

Acredite se quizé:

Quage um num fica impé!

 

A Morte da Natureza

Gerardo Carvalho

(fragmento)

 

Meu caro leitor amigo

Eu agora vou falar
Duma triste realidade
Que está a me preocupar
Pois em nome do "progresso"
Que na verdade é um regresso
Tão botando é pra matar.

 

Não sei se vai concordar

O colega ao me ler
Mas é mesmo um tanto triste
Quando a gente chegar a ver
A fumaça se alastrando
E o veneno se espalhando
Fazendo o povo morrer...

 

Antes mesmo de nascer
Morre um montão de crianças
Em Cubatão por exemplo
Poucas são as esperanças
De se ter vida melhor
Sem que aconteça o pior
Continuando as matanças!

 

Tudo isso são ganâncias
Dos que pensam ser donos
Para ganharem dinheiro
Deixavam o povo em abandonos
Enquantocancerosos
Estão os poderosos
Bem sentados nos seus tronos.

 

Peleja do Cego Aderaldo com Pretinho dos Tucuns

 

PRETINHO — Sai daí, cego amarelo,

Cor de couro de toucinho!

Um cego da tua forma

Chama-se abusa-vizinho —

Aonde eu botar os pés,

Cego não bota o focinho!

 

CEGO vi que seu Pretinho

É um homem sem ação

Como se maltrata o outro

Sem haver alteração?!...

Eu pensava que o senhor

Tinha outra educação!

 

P. — Esse cego bruto, hoje,

Apanha, que fica roxo!

Cara de pão de cruzado,

Testa de carneiro mocho

Cego, tu és o bichinho,

Que comendo vira o cocho!

 

C. — Seu José, o seu cantar

Merece ricos fulgores;

Merece ganhar na saia

Rosas e trovas de amores

Mais tarde, as moças lhe dão

Bonitas palmas de flores!

 

P. — Cego, eu creio que tu és

Da raça do sapo sunga!

Cego não adora a Deus

O deus do cego é calunga!

Aonde os homens conversam,

O cego chega e resmunga!

 

 

 

 

 

 

C. — Preto, não me aborreço

Com teu cantar tão ruim!

Um homem que canta sério

Não trabalha verso assim

Tirando as faltas que tem,

Botando em cima de mim!

 

P. — Cala-te, cego ruim!

Cego aqui não faz figura!

Cego, quando abre a boca,

É uma mentira,pura

O cego, quanto mais mente,

Ainda mais sustenta e jura!

 

C. — Esse negro foi escravo,

Por isso é tão positivo!

Quer ser, na sala de branco,

Exagerado e altivo

Negro da canela seca

Todo ele foi cativo!