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POETAS DO BARROCO: ALEXANDRE DE GUSMÃO, JOSÉ DA CUNHA CARDOSO E SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

ALEXANDRE DE GUSMÃO

A Júpiter Supremo Deus do Olimpo

 

Nume que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?

Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?

Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;

Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.

 

A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio

 

Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.

Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.

Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.

Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.

 

JOSÉ DA CUNHA CARDOSO

 

Soneto
Ao Sr. Presidente da Academia Brasílica dos Esquecidos, Sebastião da Rocha Pita
 

Rocha eminente, cuja prosa e metro
Sobre as asas da fama aos astros voa,
Porque a harmonia, que o teu plectro entoa,
Mais mostra ser do Céu, que do Libetro,

É tanta a majestade do teu plectro,
Que reverente o Sol desce em pessoa
A prostrar aos teus pés cetro, e coroa,
Por honrar a coroa, e mais o cetro.

Quando em prosas discretas tanto avultas,
E tanto excedes do Caístro as aves,
Vejo que a Homero, e Cícero sepultas.

Mais ignoro quais sejam mais suaves,
Se em valente eloqüência as prosas cultas,
Se em furor elegante os versos graves.

 

Soneto
Uma estátua de Apolo ferida e desfeita por um raio

Da ciência na imagem mais divina,
Do sacro Apolo simulacro augusto,
Emprega as iras com furor injusto
Raio fatal, que Júpiter fulmina.

Acautelado Jove a crer se inclina,
Que saber só lhe pode causar susto;
Pois com razão, e fundamento justo
Sobre os astros o sábio só domina.

Pela origem, que traz do eterno lume,
Com o poder do Deus, que os orbes move,
Só a ciência competir presume.

Por isso sobre a estátua o fogo chove,
Em vingança do susto, e do ciúme
De ir tirar a ciência o cetro a Jove.

 

Soneto em louvor do Presidente da Academia, o Padre Manuel Serqueyra Leal.

Nos ecos do silêncio retumbante
Sois a pompa do horrísono instrumento,
Do côncavo da Lua o pavimento,
E do Trópico austral a estrela errante.

No calor furibundo e coruscante,
Que é lúbrico da inveja firmamento,
Fostes autor do paradoxo invento,
Raio nos episódios fulminante.

Calcitrante se escrespa, e se aprofunda
Vossa pluma no Letes, excedendo
Ao cultor que de Tróia os campos lavra.

Viste meu Manuel, tal barafunda?
Pois São Pedro me leve, se eu entendo
Disto que aqui vos disse, u'a palavra.

 

Soneto
A modéstia de Alexandre Magno quando se lhe houveram de apresentar a mulher, mãe e filhas de Dario vencido.

Esse, a cujo poder o orbe rotundo
É por estreito esfera incompetente,
Hoje a glória alcançou mais excelente,
Hoje o troféu primeiro, e sem segundo.

Esse, em cujo valor não se acha fundo,
Em Dario triunfou de um rei potente;
Mas em si, reportado e continente
Triunfou de quem vence a todo o mundo.

Estas são as conquistas verdadeiras,
Brasões maiores, glórias mais altivas,
Que têm do seu exército as bandeiras.

Publique-se em pregões de eternos vivas
Só é capaz de ter tais prisioneiras
Quem sabe as paixões próprias ter cativas.

 

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

 

[Mudou o Sol o Berço refulgente]

 

Mudou o Sol o Berço refulgente,

Ou fez Berço do Túmulo arrogante

Galhardo onde se punha agonizante

Com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

 

Não morre agora o Sol, quer diferente

No Aspecto, se na vida semelhante

No Oriente nascer menos flamante,

E renascer mais belo no Ocidente.

 

Fênix de raios a uma, e outra parte

Comunica os incêndios, e fulgores,

Porém com diferença hoje os reparte.

 

Nasce lá no Oriente só em ardores,

No Ocidente a ilustra Ciência, e Arte

Renasce em luzes, vive em resplandores.

 

Endechas

[Um belo menino brincando em um Jardim com flores, o mordeu um Áspid, e logo morreu. Assunto lírico da presente Academia]

 

Seja o verso pequeno,

E breve o estilo

Pois o lírico Assunto

É de um menino.

 

Bem que belo não fora

Será preciso,

Que o poder do toante

O faço lindo.

 

De Nácar, e de Neve

Composto vivo,

Era cristal com alma,

Flor com sentidos.

 

Dera em um Jardim

Pasmo aos Jacintos,

Às Angélicas Xaque,

Mate aos Narcisos.

 

Ao brincar com todos

Foi de improviso,

Não de Abelha picado,

De Áspid mordido.

 

Cai logo coberto

De um suor tíbio,

Que por ser de Aljôfar

Era Rocio.

 

A morte recebeu

Em um solilóquio,

Sem que a vida lhe

Um só suspiro.

 

Mas ser morto decerto

Eu não o afirmo,

Porque a todos parece

Que está dormindo.

 

Matar por este modo,

Fraco inimigo

Sendo fatalidade,

Parece brinco.

 

Em um quadro de flores

Tal paracismo,

Morte foi de Jasmim,

Ou é delírio.

 

Ser Campo o Jardim

Deste homicídio,

Faz tão feio o lugar

Como o delito.

 

Das mais fermosas flores

O labirinto

Lamentando o caso

Se pôs marchito.

 

Um Jardim foi a Vênus

No parto abrigo

Porque sobre as flores

Nasceu Cupido.

 

Sendo vária a Estânciua

Aos dous Meninos,

Um encontrou afagos,

Outro castigos.

 

Lá na Quinta dos Padres

Foi o conflito,

Do qual tirou devassa

Padre Ministro.

 

Desterrou ao Áspid

Do seu distrito,

E ao menino morto

Lhe deu jazigo.

 

[Amor com Amor se paga, e Amoro com Amor se apaga. Assunto lírico da presente Academia]

Soneto

 

Deste Apótema vigilante, e cego

Uma parte confirmo, outra reprovo,

Que o Amor com Amor se paga provo,

Que o Amor com Amor se apaga nego.

 

Tenho os Amores um igual sossego,

Se estão pagando a fé sempre de novo

Mas a crê que se apagam me não movo,

Sendo fogo, e matéria Amor, e emprego.

 

Se de incêndios costuma Amor nutrir-se,

Uma chama com outra há de aumentar-se,

Que em si mesmas não devem consumir-se.

 

Com razão deve logo duvidar-se

Quando um Amor com outro sabe unir-se

Como um fogo com outro há de apagar-se?

 

 

(Apostila 10 de Barrroco - Literatura Brasileira)