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Pero de Magalhães Gandavo.

Nasceu em Braga (Portugal) foi Provedor da Fazenda Real no Brasil. Deixou dois livros dedicados ao Brasil: Tratado da Terra do Brasil (escrito em 1570 e só publicado em 1826 pela Academia Real de Ciências de Lisboa) e História da Província de Santa Cruz , A que Vulgarmente Chamamos Brasil (1576). Gandavo era amigo de Camões, e este chegou a escrever que o texto do cronista era de estilo claro e de “engenho curioso”. Nas duas obras busca fazer a descrição de tudo quanto viu e aprendeu, deixa-se contagiar pela exuberância da natureza e existe inclusive uma certa emoção narrativa quando, por exemplo, descreve a morte de um leão marinho (provavelmente) na Capitania de São Vicente em 1564. Não demonstra propriamente simpatia pelo índio, mas se compraz em descrever o que nele julga de virtude ou defeito. Parece ser Gandavo o primeiro a construir o ditado do qual se diz a respeito da língua tupi que: “Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela, f, nem l, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disto conta nem peso, nem medida.”

 

Trechos:

“Esta província Santa Cruz está situada naquela grande América, uma das quatro partes do mundo. Dista o seu princípio dois graus da equinocial para a banda do sul, e daí se vai estendendo para o mesmo sul até quarenta e cinco graus. De maneira que parte dela fica situada debaixo da zona tórrida e parte debaixo da temperada. Está formado esta província à maneira de uma harpa, cuja costa pela banda do norte corre do oriente ao ocidente e está olhando diretamente a equinocial; e pela do sul confina com outras províncias da mesma América povoadas e possuídas de povo gentílico, com que ainda não temos comunicação. E pela do oriente confina com o mar oceano Áfrico, e olha direitamente os reinos do Congo e Angola até o cabo da Boa Esperança, que é o seu oposto. E pela do ocidente confina com as altíssimas serra dos Andes e fraldas do Peru, as quais são tão soberbas em cima da terra que se diz terem as aves trabalho em as passar. E até hoje um só caminho lhe acharam os homens vindos do Peru a esta província, e este tão agro, que em o passar perecem algumas pessoas caindo do estreito caminho que trazem, e vão parar os corpos mortos tão longe dos vivos que nunca os mais vêem, nem podem que queiram dar-lhe sepultura.

Destes e doutros extremos semelhantes carece esta Província Santa Cruz: porque com ser tão grande não tem serras, ainda que muitas nem desertos nem alagadiços que com facilidade se não possam atravessar. Além disto, é esta província sem contradição a melhor para a vida do homem que cada uma das outras da América, por ser comumente de bons ares e fertilíssima e, em grande maneira, deleitosa e aprazível à vista humana. O ser ela tão salutífera e livre de enfermidades, procede dos ventos que geralmente cursam nela: os quais são nordestes e suis, e algumas vezes lestes e leste-oestes. E como todos estes procedam da parte do mar, vêm tão puros e coados, que não somente não danam, mas recreiam e acrescentam a vida do homem.” (Tratado da Terra do Brasil).

 

“Nisto conheceu o mancebo que era aquilo coisa do mar e antes que nele se metesse, acudiu com muita presteza a tomar-lhe a dianteira, e vendo o monstro que lhe embargava o caminho, levantou-se direito para cima como um homem ficando sobre as barbatanas do rabo, e estando assim a par com ele, deu-lhe uma estocada pela barriga, e dando-lha no mesmo instante se desviou para uma parte com tanta velocidade, que não pode o monstro leva-lo debaixo de si: porém não pouco afrontado, porque o grande torno de sangue que saiu da ferida lhe deu no rosto com tanta força que quase ficou sem nenhuma vista: e tanto que o monstro se lançou em terra deixa o caminho que levava e assim ferido urrando com a boca aberta sem nenhum medo, remeteu a ele, e indo para o tragar as unhas, e a dentes, deu-lhe na cabeça uma cutilada mui grande, com a qual ficou já mui débil, e deixando sua vã porfia tornou então a caminhar outra vez para o mar. Neste tempo acudiram alguns escravos aos gritos da índia que estava em vela: e chegando a ele, o tomaram todos já quase morto e dali o levaram à povoação onde esteve o dia seguinte à vista de toda a gente da terra.

E como esse mancebo se haver mostrado neste caso tão animoso como se mostrou, e ser tido na terra por muito esforçado saiu todavia desta batalha tão sem alento e com a visão deste medonho animal ficou tão perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe havia sucedido não lhe ponde responder, e assim como assombrado sem falar coisa alguma por um grande espaço. O retrato, é este que no fim do presente capítulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes.

Os índios da terra lhe chamam em sua língua Ipupiara, que quer dizer demônio d’água.” (História da Província de Santa Cruz)

 

(Apostila 9 de Literatura Informativa sobre o Brasil)