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PADRE MANOEL DA NÓBREGA

Nasceu em Portugal em 1517. Fez os estudos em Salamanca e em Coimbra. Ao que parece, queria ser professor da Universidade daquela cidade, mas não foi aceito por ser gago. Ingressou então na Companhia de Jesus. Em 1549 vem ao Brasil na expedição de Tomé de Sousa. Participa da fundação das cidades de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Deixou duas obras: As Cartas do Brasil, conjunto de cartas em que descreve a terra, os índios e dá conselhos sobre como o colonizador deve trabalhar na nova terra. Têm um valor principalmente historiográfico. Mas a outra obra, Diálogo da Conversão do Gentio, já tem pretensões literárias. Escrita na forma de um diálogo, forma literária valorizada na Idade Média e por Platão. Dois interlocutores, Gonçalo Álvares, curador dos índios, e Mateus Nogueira, religioso. Os dois personagens eram vivos à época de Nóbrega, mas a obra não é apenas uma transposição da conversa de dois homens vivos. Antes, tudo parece criação de Nóbrega, inclusive o estilo de cada interlocutor. Esse recurso de se basear em personagens verdadeiras era comum no teatro medieval, o que corrobora as pretensões literárias da obra.

 

Trechos:

“Gonçalo Álvares – Estes têm alma como nós?

Mateus Nogueira – Isso é claro, pois a alma tem três potências, entendimento, memória, vontade, que todos têm. Eu cuidei que vós éreis mestre já em Israel, e vós não sabeis isso! Bem parece que as teologias, que me dizíeis arriba, eram postiças do P. Brás Lourenço, e não vossas. Quero-vos dar um desengano, meu Irmão Gonçalo Álvares; que tão ruim entendimento tendes vós para entender o que vos queira dizer, como este gentio para entender as coisas de nossa fé.

Gonçalo Álvares – Tendes muita razoa, e não é muito, porque eu ando na água aos peixes-bois e trato no mato com brasil. Não é muito ser frio! E vós andais sempre no fogo, razão é que vos aquentais. Mas não deixeis de prosseguir adiante, pois uma das obras de misericórdia é ensinar aos ignorantes.

Mateus Nogueira – Pois estai atento. Depois que nosso pai Adão pecou, como diz o salmista, não conhecendo a honra que tinha, foi tornado semelhante à besta, de maneira que todos, assim portugueses, como castelhanos, como tamoios, como aimorés, ficamos semelhantes a bestas por natureza corrupta, e nisto todos somos iguais, nem dispensou a natureza mais com uma geração que com outra, posto que em particular dá melhor entendimento a um que a outro. Façamos logo do ferro todo um, frio e sem virtude, sem se poder volver a nada, porém metido na forja, o fogo o torna que mais parece fogo que ferro; assim todas as almas, sem graça e caridade de Deus, são ferro frio sem proveito, mas quanto mais se aquenta no fogo, tanto mais fazeis dele o que quereis. E bem se vê em um, que está pecado mortal, fora da graça de Deus, que para nada presta das coisas que tocam a Deus, não pode rezar, não pode estar na igreja, a toda a coisa espiritual tem fastio, não tem vontade para fazer coisa boa nenhuma; e se por medo ou por obediência, ou por vergonha a faz, é tão tristemente e tão preguiçosamente, que não vale nada, porque está escrito que ao dador com alegria recebe Deus.” (Diálogo da Conversão do Gentio).

 

“Gonçalo Álvares - Isso é verdade. Mas os padres, que lhes falam com tanto amor, por que os não crêem?

Mateus Nogueira - Porque até agora não têm os índios visto essa diferença entre os padres e os outros cristãos. Seja logo esta a conclusão, que quando São Tiago, com correr toda a Espanha e falar mui bem a língua e ter grande caridade, e fazer muitos milagres, não converteu mais que nove discípulos: e vós quereis e os padres, sem fazer milagres, sem saber sua língua, nem entender-se com eles, com terdes presunção de apóstolo, e pouca confiança e fé em Deus, e pouca caridade, que sejam logo bons cristãos? Porém, por vos fazer a vontade, vos contarei que já vimos índios desta terra com mui claros sinais de terem verdadeira fé no coração; e amostraram-no por obra, não somente dos meninos que criamos conosco, mas também dos outros, grandes, de mui pouco tempo conversados.

Quem viu na Capitania de São Vicente, que é terra onde se mais tratou com os índios, que nenhuma do Brasil, a morte gloriosa e Pero Lopes? Quem viu suas lágrimas, os abraços de amor aos Irmãos e padres? Diaga-o quem viu a virtude tão viva de sua mulher, quão fora dos costumes que antes tinha, quão honesta viúva e quão cristamente vive, tanto que pareceu a todos digna de lhe darem o SS.Sacramento! Pois que direi de suas filhas, duas, a qual melhor cristã!

Que direi da fé do grão velho Caiubi, que deixou sua aldeia e suas roças e se veio morrer de fome em Piratininga por amor de nós, cuja vida e costumes e obediência a mostra bem a fé do coração!

Quem viu vir Fernão Correia de tão longe, com fervor de fé vir pedir o batismo e depois de tomado levá-lo Nosso Senhor! E muitos outros da aldeia, os quais ainda que alguns não deixem a vida viciosa por exemplo de outros maus cristãos que vêem, todavia se crê deles terem fé, pois o principal pecado e que lhes mais estranham, deixaram, que é matarem em terreiro e comerem carne humana. Quem não sabe que indo à guerra estes e tomando contrários os mataram e enterraram? E para mais vos alegrar, também vos direi que se viu na Maniçoba, onde se matavam uns índios carijós, outro índio, que com os padres andava, oferecer-se com grande fervor e lágrimas a morrer pela fé, só porque aqueles morressem cristãos. E outros muitos casos particulares que acontecem cada dia, que seria largo contar. Pois, entre tão poucos, colher-se logo tal fruto, e com tão fracos obreiros: como será possível se N. Senhor mandar bons obreiros à sua vinha, com as partes necessárias, não se colher muito fruto?

Por certo tenho que se vos acháreis no tempo dos Mártires e víreis aquelas carniçarias daqueles infiéis, que não bastavam tantos milagres e maravilhas para os amolentar nem tão boas pregações e razões, vós e eu disséramos: nunca hão de ser bons!

Resolvendo-me logo digo: enfim razões! Que o negócio de converte é principalmente de Deus. E ninguém traz a conhecimento de Jesus Cristo senão quem seu Pai traz; e, quando ele quer, faz de pedras filhos de Israel; como tampouco ninguém pode salvar-se nem ter graça sem ele.” (Diálogo da Conversão do Gentio)

 

(Apostila 8 de Literatura Informativa sobre o Brasil)