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O CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA

A MISTURA CULTURAL

“A condição de país colonizado determinou para o Brasil a situação, comum aos demais países do Novo Mundo, de criar uma literatura nova do transplante de uma literatura já formada, a do povo colonizador. O processo de criação resultou da submissão da herança recebida a toda uma nova experiência viva, decorrida em meio geográfico e social diferente, no contacto com outras culturas –a negra e índia. O laboratório formidável que se instalou no continente americano não se limitou ao melting-pot racial, mas também à mescla de culturas, de que resultou, desde o início do contacto, o amálgama intenso e profundo da nova cultura.

Esse fato deu lugar a um problema de historiografia literária: o de saber-se onde reside o divisor de águas entre a velha literatura geradora e o novo rebento ultramarino. É o problema da origem da literatura brasileira, questão que se impôs a toda a historiografia literária brasileira.

(Afrânio Coutinho, A Tradição Afortunada, p.9)

 

A TESE PORTUGUESA:

“Mui distinto lugar obteve entre os poetas portugueses desta época Cláudio Manuel da Costa: o Brasil o deve contar seu primeiro poeta (‘em antiguidade’, acrescenta em nota de rodapé), e Portugal entre um dos melhores”(GARRETT, Almeida. Parnaso Lusitano).

“E agora começa a literatura portuguesa a avultar e enriquecer-se com as produções dos engenhos brasileiros. Certo é que as majestosas e novas cenas da natureza naquela vasta região deviam Ter dado a seus poetas mais originalidade, mais diferentes imagens, expressões e estilo, do que neles aparece: a educação européia apagou-lhes o espírito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos, e daí lhes vem uma afetação e impropriedade que dá quebra em suas melhores qualidades.”(GARRET, Almeida. Op.cit.)

 

A TESE NACIONALISTA:

“Razão tiveram José Veríssimo e Oliveira Lima em procurar reconhecer o desenvolvimento do sentimento nativista, ainda que tenham incorrido na deformação da visão histórica do conjunto pro força da preponderância quase unilateralizadora, que lhe atribuíam. Por causa dele é que José Veríssimo, que só sumariamente aprecia o século XVI, aponta como primeiro prosador da literatura brasileira, no período colonial, a Frei Vicente de Salvador (História do Brasil, 1627), como poeta, a Bento Teixeira (Prosopopéia, 1601). E Oliveira Lima, indicando o mesmo poeta, recua o início da prosa para fins do século XVI, com Gabriel Soares de Sousa (Notícia do Brasil e Tratado Descritivo do Brasil, 1587).”(CASTELLO, José Aderaldo. Manifestações Literárias do Brasil Colonial)

 

“De um lado, os escritores coloniais não raro se postavam como súditos da Coroa, encaravam o Brasil como América Portuguesa (...) O próprio ufanismo de seus escritos decorria mais de fatores imediatistas, visando à exploração da terra, que o simples amor ao solo de nascença. De outro, sem prejuízo da situação anterior, tínhamos o caso de Gregório de Matos, (...) A par do talento incomum, trazia um canto novo, brasileiro pelo menos nos motivos e modos de expressão. (...) Nada há que se lhe compare no século XVII em Portugal.”

(MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira, v.I, p.12-13)

 

A INFLUÊNCIA DE PORTUGAL:

“Em virtude dessas condições gerais rapidamente entrevistas, surgem três perguntas fundamentais para o historiador:

1º) Como distinguir o escritor do Brasil-Colônia do escritor português do momento correspondente? Ou em suma, a literatura do Brasil-Colônia da de Portugal colonizador?

2.º) Quando ela principia?

3.º) Como devemos enfrentar o problema dos espaços históricos da nossa literatura no Brasil-Colônia?

As respostas são demasiado complexas e só poderemos dá-las no desenvolvimento deste panorama da literatura brasileira, confinado nos limites do período colonial de nossa formação. Contudo, já deixamos aqui, embora sumária, a definição do critério ou da interpretação que nos orienta. Insistimos no conceito histórico da literatura brasileira, em função de nossa formação colonial, da qual resultam as suas características coloniais. Elas surgem com as próprias origens da nossa literatura que é,inquestionavelmente, o reflexo ou o efeito de influências diretas e preponderantes, vigiadamente exercidas, e portanto, constrangedoras, da cultura do país-colonizador.” (CASTELLO, José Aderaldo. Manifestações Literárias do Período Colonial, p. 12)

 

A TESE SOCIOLÓGICA DE A. CÂNDIDO:

"Com efeito, entendemos por literatura (...) fatos eminentemente associativos; obras e atitudes que exprimem certas relações dos homens entre si, e que, tomadas em conjunto, representam uma socialização dos seus impulsos íntimos. Toda obra é pessoal, única e insubstituível, na medida em que brota de uma confidência. um esforço de pensamento, um assomo de intuição, tornando-se uma 'expressão'. A literatura, porém, é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos (a palavra, a imagem), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento - pra chegar a uma 'comunicação'.

Assim, não há literatura enquanto não houver essa congregação espiritual e formal, manifestando-se por meio de homens pertencentes a um grupo (embora ideal), segundo um estilo (embora nem sempre tenham consciência dele); enquanto não houver um sistema de valores que enforme a sua produção e dê sentido à sua atividade; enquanto não houver outros homens (um público) aptos a criar ressonância a uma e outra; enquanto, finalmente, não se estabelecer a continuidade (uma transmissão e uma herança) que signifique a integridade do espírito criador na dimensão do tempo."

    (CÂNDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade, p. 127-128)  

 

(Apostila de Zero de Literatura Informativa sobre o Brasil)