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Manuel de Santa Maria Itaparica

À Morte de Sua Majestade Fidelíssima

In nidulo meo moriar, & sicut
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.

Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.

Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.

Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.

Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:

Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.

 

EUSTAQUIDOS

Canto Segundo

(...)

IV
Jaz no centro da Terra uma caverna
De áspero, tosco e lúgubre edifício,
Onde nunca do Sol entrou lucerna,
Nem de pequena luz se viu indício.
Ali o horror e a sombra é sempiterna
Por um pungente e fúnebre artifício,
Cujas fenestras, que tu Monstro inflamas,
Respiradouros são de negras chamas.

V
Rodeiam este Alcáçar desditoso
Lagos imundos de palustres águas,
Onde um tremor e horror caliginoso
Penas descobre, desentranha mágoas:
Fontes heladas, fumo tenebroso,
Congelam ondas, e maquinam fráguas.
Mesclando em um confuso de crueldades
Chamas a neve, o fogo frieldades.

VI
Ardente serpe de sulfúreas chamas
Os centros gira deste Alvergue umbroso,
São as faíscas hórridas escamas,
E o fumo negro dente venenoso:
As lavaredas das volantes flamas
Asas compõem ao Monstro tenebroso,
Que quanto queima, despedaça e come,
Isso mesmo alimenta, que consome.

VII
Um negro arroio em pálida corrente
Irado ali se troce tão furioso,
Que é no que morde horrífica serpente,
E no que inficiona Áspide horroroso:
Fétido vapor, negro e pestilente
Exala de seu seio tão raivoso,
Que lá no centro sempre agonizado
De peste e sombras mostra ser formado.

(...)

Canto Quinto

XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são

às vezes verdadeiros.

 

(Apostila 7 de Barroco - Literatura Brasileira)