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Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.

Anarda Vendo-se a um Espelho

Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.

2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.

3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.

4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.

Às Lágrimas Devotas

Soneto CXIV

Lágrimas se derramem, que o pecado
sabem lavar com sentimento puro,
que não há nódoa negra, ou rastro impuro
que não seja das lágrimas lavado.

Chorou Davi, e foi santificado,
chorou Pedro, e ficou no amor, seguro,
Madalena chorou, e o fogo impuro
em puríssimo fogo foi mudado.

Ficam no amor as almas mais absortas
quando as lágrimas correm sucessivas
sendo portas do Céu, do pranto as portas.

Cresce a graça nas lágrimas ativas
que se as culpas mortais são águas mortas,
as lágrimas da dor são águas vivas.

 

Contra os Julgadores

Soneto XII

Que julgas, ó ministro de Justiça?
Por que fazes das leis arbítrio errado?
Cuidas que dás sentença sem pecado,
Sendo que algum respeito mais te atiça?

Para obrar os enganos da injustiça,
Bem que teu peito vive confiado,
O entendimento tens todo arrastado
Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.

Se tens amor, julgaste o que te manda;
Se tens ódio, no inferno tens o pleito,
Se tens cobiça, é bárbara, execranda.

Oh miséria fatal de todo o peito!
Que não basta o direito da demanda,
Se o julgador te nega esse direito.

 

Rosa, e Anarda

Soneto XX

Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,

A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:

Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.

 

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

 

A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;

Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.

 

 

(Apostila 6 de Barroco - Literatura Brasileira)