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José de Anchieta

Os Feitos de Mem de Sá

Pode ser considerado primeiro poema épico da literatura brasileira, antecedendo inclusive a Bento Teixeira. O poema tem 3.058 versos divididos em 4 livros (ou cantos) além de uma introdução de caráter laudatório. Escrito em versos decassílabos, com influência de Virgílio, narra na figura de Mem de Sá as lutas contra os índios e os franceses levadas a cabo pelo governador. Os índios são apresentados como terríveis e pecadores, mas assim que se rendem e se entregam, são tratados sob outro ponto de vista, como almas pecadoras que pedem perdão e a fé presente na ação de Mem de Sá, no poema, está pronta a mostrar sua caridade e compaixão. No Livro I se faz uma apresentação geral da situação do Brasil antes da chegada de Mem de Sá, mostrada como caótica:

 

“Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil

te contemplou! quanto bem trarás a seus povos

abandonados! com que terror fugirá a teus golpes

o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas

lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!

 

No livro II começa a luta de Mem de Sá contra os índios. A narrativa é carregada na descrição da ferocidade das lutas, dando contornos de caráter horrendo ao desenvolvimento da ação. Ao vencer os indígenas, destaca-se logo o processo de conversão e de abandono dos costumes anteriores:

 

“Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,

a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;

e a raiz primeira e causa de todos os males,

a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,

para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.

Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime

afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo

tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.

Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:

imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,

preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.

Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,

vinculada pelo laço do matrimônio sagrado

que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro II)

 

Um bom momento literário é quando Anchieta compara a luta em canoas travada entre índios no litoral com a luta de baleias:

 

“Como quando as baleias sobem do fundo do abismo

e se acolhem às enseadas do litoral brasileiro

na quadra em que se entregam ao serviço da espécie:

então travam combates ferozes ao soçobro das ondas

e lançam até as nuvens jatos de água espumante:

Atônitos na praia os homens assistem à luta gigante

dos monstros descomunais entre as vagas encapeladas.

Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas

com as caudas e dentes agudos, até que as ondas vomitem

os cadáveres monstruosos às areias da praia.

Assim nossos índios, em pleno mar, a braços com as ondas

vibram golpes terríveis: a uns despedaçam, a outros

já semimortos puxam-nos, enlaçando-lhes os longos cabelos

com a mão esquerda, enquanto com a direita cortam as vagas

e vitoriosos arrastam até as praias a presa,

indo depor aos pés do Chefe os corpos de seus inimigos,

e despedaçando aos semivivos os crânios com os rijos tacapes.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro II)

 

Mem de Sá, conquanto herói, destaca-se pelos valores cristãos, embora se apresenta na luta como de uma ferocidade atroz. No trecho a seguir, o herói reconhece sua ferocidade, que busca amenizar com a ação de compaixão para com o índio vencido:

 

“O Governador ouviu com bondade essas palavras

e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio,

devastando os campos e lançando em vossas moradas

o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.

Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes

a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.

Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.”

Manda então que refreiem suas rixas contínuas

que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo

de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,

com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem

os mandamentos do Pai celeste e a lei natural

e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas

em seu torrão natal; aí serão instruídos

na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos

a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,

Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas

ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos

mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro III)

 

No Livro III destaca-se também o episódio que envolveu o bispo Pero Fernandes Sardinha. Em 1556, resolve retornar à Lisboa para relatar e condenar o modo como o Padre Manoel da Nóbrega e José de Anchieta levavam o processo de catequese, tido por ele como muito complacente. Porém, sua caravela naufraga nas costas de Alagoas e o bispo chegando à praia e devorado por índios canibais. O episódio histórico foi depois reaproveitado por Oswald de Andrade no seu manifesto antropofágico. Na obra de José de Anchieta, convém destacar que apesar das diferenças entre Anchieta e o bispo, o personagem é apresentado como virtuoso e de boas intenções. No momento da morte a última fala do bispo é a que se segue:

 

“Sou eu, sou eu mesmo

o grande abaré! porque procurais dar-me a morte?”

mas que suspiros lhes dobrariam os loucos intentos,

que queixumes ou lágrimas? seria mais fácil

comover leões da África ou leopardos ferozes

do que com rios de prantos dobrar esses selvagens

acostumados a fartar o ventre com carnes humanas”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro III)

 

 

Os Franceses entram na história como os grandes vilões. Representantes da igreja Protestante, identificados com Lutero e Calvino, são os grandes infiéis na estrutura do poema. A luta contra os franceses é destacada a partir do Livro III. No Livro IV a luta contra os franceses e os índios finda com a vitória de Mem de Sá. No trecho abaixo lemos os preparativos para a batalha final:

 

“O sol mergulha seu carro luzente nas ondas,

e Vésper desdobrara seu manto noturno de trevas

e na abóbada celeste brilhavam mil luzes de estrelas.

Não se dormia no acampamento; cada qual preparava

suas armas. Da colina das palmeiras o falcão continuava

a bater o alto da torre, arrotando bolas de fogo.

Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas.

Manda entretanto o governador fortificar por inteiro

as trincheiras. Uns contra as balas enchem de pedra e terra

grandes canastras tecidas de vime flexível.

Outros retiram das naus os canhões e os arrastam

com o fragor gigantesco de suas rodas pesadas,

e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor

um parapeito de terra. Depois esperam impaciente

as batalhas temerosas do dia seguinte.

Já os primeiros clarões afastavam as trevas da noite

e a aurora tingia o mar com seus raios serenos,

já o sol da orla do horizonte se lançava à corrida

que espalharia mais uma vez a luz pelo mundo:

quando refulgem no alto as falanges francesas

armadas de espadas e longas lanças; os corpos

cobertos de reluzentes couraças. Armados de flechas

aí se acham também os selvagens que tinham voado

à aguada, para derramar o sangue dos lusos,

quando nossas naus voltaram e deixaram as praias

com as águas, ajuntando-se aos seus e enganado

o inimigo cruel que nutria feliz esperança.

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro IV)

 

O poema Os Feitos de Mem de Sá ainda aguarda melhores estudos no sentido de avaliar seu gênero e sua inserção como obra literária na Literatura Brasileira. Podemos inicialmente já prenunciar elementos comparativos entre este poema e A Confederação dos Tamoios de Gonçalves de Magalhães.

 

(Apostila 7 de Literatura Informativa sobre o Brasil)