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Resumo: Auto de São Lourenço

 

A peça está dividida em 5 atos. No primeiro desenvolve a cena do martírio de São Lourenço que morre na fogueira: “Nestas brasas morro assado / Com fogo do seu amor. / / Bom Jesus, quando te vejo / Na cruz, por mim flagelado, / Eu por ti vivo e queimado / Mil vezes morrer desejo.” No segundo ato entram três diabos (Guaixará, Aimbirê e Saravaia) que querem destruir a aldeia indígena com pecados. Tentam convencer os índios a continuarem no costume das bebedeiras, do canibalismo e dos vícios: “Guaixará: Que bom costume é bailar! / Adornar-se, andar pintado, / tingir pernas, empenado / fumar e curandeirar, / andar de negro pintado. // Andar matando de fúria, amancebar-se, comer / um ao outro” A intenção didático-religiosa aqui é clara, uma vez que a cultura do índio é representada na fala de Guaixará. São Lourenço e São Sebastião com o auxílio do Anjo da Guarda livram a aldeia dos diabos: “Alegrem-se os nossos filhos / por Deus os ter libertado. / Guaixará seja queimado, / Aimbirê vá para o exílio, / Saravaia condenado!” No terceiro ato, o Anjo da Guarda chama os demônios presos (Aimbirê e Saravaia) para que queimem os imperados romanos Décio e Valeriano (martirizadores de São Lourenço): “Anjo [para Aimbirê]: - Reservei-te uma surpresa / para dar-te como presa. / de Lourenço, em chama acesa, / foram eles matadores.” Os dois diabos com o auxílio de quatro diabos menores (Tataurana, Urubu, Jaguaruçu e Caborê) queimam os dois imperados num ritual de canibalismo: “Saravaia: -Velhos, moços, jovens, damas, / tenho sempre devorado. / Do bom algoz tenho fama.” No quarto ato o corpo de São Lourenço é colocado na tumba. O Anjo apresenta as personagens alegóricas Temor de Deus e Amor de Deus: “Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, /e, como servo leal, / por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal. // Outro foi o Amor fervente / de Jesus, que tanto amava, / que muito mais se abrasava / com esse fervor ardente / que co’o fogo, em que se assava.” A seguir cada uma das personagens alegóricas tem sua fala. No quinto ato entram doze meninos que dançam e se canta em louvor de São Lourenço.

 

AUTO DE SÃO

LOURENÇO

JOSÉ DE

ANCHIETA

PERSONAGENS

GUAIXARÁ - rei dos diabos

AIMBIRÊ

SARAVAIA - criados de Guaixará

TATAURANA

URUBU

JAGUARUÇU - companheiros dos diabos

VALERIANO

DÉCIO - Imperadores romanos

SÃO SEBASTIÃO - padroeiro do Rio de Janeiro

SÃO LOURENÇO - padroeiro da aldeia de São Lourenço

VELHA

ANJO

TEMOR DE DEUS

AMOR DE DEUS

CATIVOS E ACOMPANHANTES

 

TEMA

Após a cena do martírio de São Lourenço, Guaixará chama Aimbirê

e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. São Lourenço a

defende, São Sebastião prende os demônios. Um anjo manda-os

sufocarem Décio e Valeriano. Quatro companheiros acorrem para

auxiliar os demônios. Os imperadores recordam façanhas, quando

Aimbirê se aproxima. O calor que se desprende dele abrasa os

imperadores, que suplicam a morte. O Anjo, o Temor de Deus, e o

Amor de Deus aconselham a caridade, contrição e confiança em São

Lourenço. Faz-se o enterro do santo. Meninos índios dançam.

PRIMEIRO ATO

(Cena do martírio de São Lourenço)

Cantam:

Por Jesus, meu salvador,

Que morre por meus pecados,

Nestas brasas morro assado

Com fogo do meu amor

Bom Jesus, quando te vejo

Na cruz, por mim flagelado,

Eu por ti vivo e queimado

Mil vezes morrer desejo

Pois teu sangue redentor

Lavou minha culpa humana,

Arda eu pois nesta chama

Com fogo do teu amor.

O fogo do forte amor,

Ah, meu Deus!, com que me amas

Mais me consome que as chamas

E brasas, com seu calor.

Pois teu amor, pelo meu

Tais prodígios consumou,

Que eu, nas brasas onde estou,

Morro de amor pelo teu.

 

SEGUNDO ATO

(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos

quais resistem São Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda,

livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes são:

Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira

Me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido,

com seus hábitos polidos

estragando a terra inteira?

Só eu

permaneço nesta aldeia

como chefe guardião.

Minha lei é a inspiração

que lhe dou, daqui vou longe

visitar outro torrão.

Quem é forte como eu?

Como eu, conceituado?

Sou diabo bem assado.

A fama me precedeu;

Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.

Que não seja constrangido

o prazer, nem abolido.

Quero as tabas acender

com meu fogo preferido

Boa medida é beber

cauim até vomitar.

Isto é jeito de gozar

a vida, e se recomenda

a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona

trago bem conceituada.

Valente é quem se embriaga

e todo o cauim entorna,

e à luta então se consagra.

Quem bom costume é bailar!

Adornar-se, andar pintado,

tingir pernas, empenado

fumar e curandeirar,

andar de negro pintado.

Andar matando de fúria,

amancebar-se, comer

um ao outro, e ainda ser

espião, prender Tapuia,

desonesto a honra perder.

Para isso

com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora

com regras fora de hora

prá que duvidem de mim.

Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui

tem meu ajudante-mor,

diabo bem requeimado,

meu bom colaborador:

grande Aimberê, perversor

dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele. E ele a

ajuda, como fazem os índios. Depois de chorar, achando-se

enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso,

teu mau cheiro me enfastia.

Se vivesse o meu esposo,

meu pobre Piracaê,

isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.

Que bebas, não deixarei

do cauim que eu mastiguei.

Beberei tudo sozinha,

até cair beberei.

(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:)

Ei, por onde andavas tu?

Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui as Tabas vigiar,

nas serras de norte a sul

nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram,

bebemos dias inteiros.

Adornaram-se festeiros.

Me abraçaram , me hospedaram,

das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.

Ao ver seu comportamento,

tranqüilizei-me. Ó portento!

Vícios de todos os ramos

tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso

no teu grande reboliço

eu confio, que me baste

os novos que cativaste,

os que corrompeste ao vício.

Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã

no que eu disse acreditaram;

os das ilhas, nestas mãos

deram alma e coração;

mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi,

que os missionários levaram

a Mangueá. Me irritaram.

Raivo de ver os tupis

que do meu laço escaparam.

Depois

dos muitos que nos ficaram

os padres sonsos quiseram

com mentiras seduzir.

Não vê que os deixei seguir -

ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste

para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes

das velhas que tu instruíste

em Mangueá. Que isto baste.

Que elas são de fato más,

fazem feitiço e mandinga,

e esta lei de Deus não vinga.

Conosco é que buscam a paz,

no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem,

nem quiseram vir aqui.

De dança os enlouqueci

para a passagem comprarem

para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.

Que tua fala me alegra,

teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza

para arrastar outras presas

nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá

que em Paraguaçu morava,

e que de Deus se afastava,

deles hoje um só não há,

todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca,

Jequei, Gualapitiba,

Niterói e Paraíba,

Guajajó, Carijó-oca,

Pacucaia, Araçatiba

Todos os tamoios foram

Jazer queimando no inferno.

Mas há alguns que ao Padre Eterno

fiéis, nesta aldeia moram,

livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós

nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem

a blasfemar contra nós.

Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas,

muitos pecados cometam,

por outro lados se metam

longe desta aldeia, à escuta

dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.

Seu valente guardião

me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los,

de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado

nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.

Não sou assim tão covarde,

será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou

e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

`Por isso o que era teu

ele agora libertou

e na morte te venceu.

Há também o seu amigo

Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado?

Não faças broma comigo

que sou bem desaforado.

Ambos fugirão logo

aqui me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo,

que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu nas terras existe

que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou,

e do inferno o fogo triste

para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha

em que Guaixará entrou.

Muito povo te apoiou,

e, inda que lhes desses forças,

na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.

Contudo nada ficou

da força que te inspirou,

pois veio Sebastião,

na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos

tão rebeldes não seriam.

Mas esses que aqui estão

desprezam a devoção

e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços

caem, logo estes malvados!

De nossos dons confiados,

as almas cederam passo

para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.

Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão

os índios te entregarei.

E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.

Não te afobes. Nosso espia

verá em cada morada

que armas nos são preparadas

na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem

és capaz disso

Saravaia meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria

e assumi tal compromisso.

Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.

Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo,

quero que espies as casas

e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves

os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.

E agradeço que me entregues

encargo tão desejado.

Como Saravaia sou,

aos índios que me aliei

enfim aprisionarei.

E neste barco me vou.

De cauim me embriagarei.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

SARAVAIA

Como um raio correrei!

(Sai)

GUAIXARÁ

(Passeia com Aimbirê e diz:)

Demos um curto passeio

Quando volte o mensageiro

 

a aldeia destroçarei.

(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio!

Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui. Já estão comemorando

os índios nossa vitória.

Alegra-te!

Transbordava o cauim,

o prazer regurgitava.

E a beber, as igaçabas

esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.

E os rapazes beberrões

que pervertem esta aldeia,

caiam de cara cheia.

Velhos, velhas, mocetões

que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta. Vamos mansinho

tomá-los todos de assalto.

Nosso fogo arda bem alto.

(Vem São Lourenço com dois companheiros. Diz Aimbirê:)

AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho

que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado,

desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão!

Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não,

ao ataque, meu irmão!

Teremos que amedrontá-los,

As flechas evitaremos,

fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos

a açoitar-nos. Que faremos?

Penso que estamos perdidos.

(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado,

sou boicininga, jaguar,

antropófago, agressor,

andirá-guaçu alado,

sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó,

o grande Aimbirê tamoio.

Sucuri, gavião malhado,

sou tamanduá desgrenhado,

sou luminosos demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta

minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos

que obediência nos prestem

por tanto que lhes fazemos.

Pois se as coisas são da gente,

ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente,

um dia ou presentemente?

os índios vos entregou?

Se o próprio Deus tão potente

deste povo em santo ofício

corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente

pois é nada edificante

a vida que resultou.

São pecadores perfeitos,

repelem o amor de Deus,

e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito,

como completos sandeus

ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe

sua graça espiritual.

Perdidos no bacanal

seus espíritos se encolhem

em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar

na luta do dia a dia.

Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto

do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente

resmungam desafiando

ao Deus que os está guiando.

Dizem: "Será realmente

capaz de me ver passando?"

SÃO SEBASTIÃO

(Para Saravaia:)

Serás tu um pobre rato?

Ou és um gambá nojento?

Ou és a noite de fato

que as galinhas afugenta

e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar

as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar,

pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.

Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei!

Que a língua não te revele,

depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.

Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei

o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o. Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu

para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.

(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio,

que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim!

Por que me bates assim,

pois estou bem escondido?

(Aimbirê com São Sebastião.)

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós,

e retirai-vos que a nós

meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam

desde épocas mais antigas,

velhos, moças, raparigas,

submissos aos que lhes ditam

nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios,

Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios,

cauim não lhes faltará.

De ébrios dão-se ao malefício,

ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba

censuras em cada taba,

disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa!

Vem logo o dono da farra,

convida todos à festa,

velhos, jovens, moçocaras

com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam

com morubixaba dançam,

e de comer não se cansam,

e no cauim se lavam,

e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás

vivem vocês freqüentando,

e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz,

pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem

convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei. Vamos trabalhando,

e ao vícios bem se convertem

à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.

As velhas, como serpentes,

injuriam-se entre dentes,

maldizendo sem cessar.

As que mais calam consentem.

Pecam as inconseqüentes

com intrigas bem tecidas,

preparam negras bebidas

pra serem belas e ardentes

no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos,

perseguindo o mulherio

para escravas do gentio...

Assim invadem fogosos...

dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina

antes que desponte a lua,

e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam

que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão,

bem remédio para a cura.

Na comunhão se depura

da mais funda perdição

a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos

os índios vão confessar

dizendo: "Quero trilhar

o caminho dos remidos".

- o padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado

tivessem, fazem a falsa

confissão, e se disfarçam

dos vícios abençoados,

e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos

dizem: "na hora da morte

meus vícios renegarei".

E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei

os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais

tanto assim prejudicá-los,

não vou eu abandoná-los.

E a Deus erguerei meus ais

para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim

construindo esta capela,

plantando o bem sobre ela.

Não os deixarei assim

sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso!

Por mais força que lhes dês,

com o vento, num dois três

daqui lhes darei sumiço.

Deles nem sombra vereis.

Aimbirê

vamos conservar a terra

com chifres, unhas, tridentes,

e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras,

meus longos dedos, meus dentes,

ANJO

Não julgueis, tolos dementes,

por no fogo esta legião,

Aqui estou com Sebastião

e São Lourenço, não tentem

levá-los à danação.

Pobres de vós que irritastes

de tal forma o bom Jesus

Juro que em nome da cruz

ao fogo vos condenastes.

(Aos santos.)

Prendei-os donos da luz!

(Os santos prendem os dois diabos.)

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.

Destes provas que sobejam

de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO

(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta!

Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja!

(Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido.)

ANJO

E tu que está escondido

será acaso um morcego?

Sapo cururu minguá,

ou filhote de gambá,

ou bruxa pedindo arrego?

Sai daí seu fedorendo,

abelha de asa de vento,

zorrilho, maritaca,

seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam!

Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia

Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia,

porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias

tudo com teu negro rabo.

Veremos como pateias

no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos!

Eu te dou ovas de peixe,

farinha de mandioca,

desde que agora me deixas,

te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.

As coisas que me prometes

em troca, de onde roubaste?

Que morada assaltaste

antes que aqui te escondeste?

Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.

Da casa dos bons cristãos

foi bem pouco o que apanhei;

Tenho o que trago nas mãos,

por muito que trabalhei.

Aqueles outros têm mais.

Para comprar cauim

aos índios, em boa paz,

dei o que tinha, e demais,

pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo

o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo,

mais do que o demo rabudo

da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa,

meu irmão, estou doente.

Das minhas almas presente

farei a ti, prá que em boa

hora as cucas lhes rebentes,

Leva o nome destes monstros

e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão a dentro,

lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.

Filhos de índios talvez.

Na corda os enfileirei

presos todos de uma vez.

Passei noites sem dormir,

nos seus lares espreitei,

fiz suas casas explodir,

suas mulheres lacei,

pra que não possam fugir.

(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste!

Por isso o fogo te espera.

Viverás do que tramaste

nesta abrasada tapera

em que pro fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão!

Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu

o flechado Sebastião.

Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim!

Guaixará, dormes assim,

sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia

Não vês que Lourenço ensaia

maneira de me queimar?

ANJO

Bem junto, pois sois comparsas,

ardereis eternamente.

Enquanto nós, Deo Gratias!,

sob a luz da minha guarda

viveremos santamente.

(Faz uma prática aos ouvintes)

Alegrai-vos, filhos meus,

na santa graça de Deus,

pois que dos céus eu desci,

para junto a vós estar

e sempre vos amparar

dos males que há por aqui.

Iluminado esta aldeia

junto de vós estarei,

por nada me afastarei -

pois a isto me nomeia

Deus, Nosso Senhor e Rei!

Ele que a cada um de vós

um anjo seu destinou.

Que não vos deixe mais sós,

e ao mando de sua voz

os demônios expulsou.

Também

São Lourenço o virtuoso,

Servo de Nosso Senhor,

vos livra com muito amor

terras e almas, extremoso,

do demônio enganador.

Também São Sebastião

valente santo soldado,

que aos tamoios rebelados

deu outrora uma lição

hoje está do vosso lado

E mais - Paranapucu,

Jacutinga, Morói,

Sariguéia, Guiriri,

Pindoba, Pariguaçu,

Curuça, Miapei

E a tapera do pecado,

a de Jabebiracica,

não existe. E lado a lado

a nação dos derrotados

no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos,

inutilmente trouxeram

armas. Por nós combateram

Lourenço, jamais vencido,

e São Sebastião flecheiro.

 

Estes santos, em verdade,

das almas se compadecem

aparando-as, desvanecem

(Ó armas da caridade!)

Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar

vossas almas, vós vereis

com que força hão de zelar.

Santos e índios sereis

pessoas de um mesmo lar.

Tentai

velhos vícios extirpar,

e as maldades cá da terra

evitai, bebida e guerra,

adultério, repudiai

tudo o que o instinto encerra.

Amai vosso Criador

cuja lei pura e isenta

São Lourenço representa.

Engrandecei ao Senhor

que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço

que aqui foi queimado vivo

pelos maus, feito cativo,

e ao martírio foi infenso,

sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele,

e amai-o quanto puderdes,

que em sua lei nada se perde.

E confiando mais nele,

mais o céu se vos concede.

Vinde

à direita celestial

de Deus Pai, ireis gozar

junto aos que bem vão guardar

no coração que é leal,

e aos pés de Deus repousar.

(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede.)

Cantemos todos, cantemos!

Que foi derrotado o mal!

Esta história celebremos,

nosso reino inauguremos

nessa alegria campal!

(Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição

da cantiga choram.)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos

por Deus os ter libertado.

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem,

vitoriosos do vício,

aceitai o sacrifício

que ao amor de Deus convém.

Daí fuga ao Demo-ninguém!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

 

TERCEIRO ATO

Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua guarda,

e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os

imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.

ANJO

Aimbirê!

Estou chamando você.

Apressa-te ! Corre! Já!

AIMBIRÊ

Aqui estou! Pronto! O que há!

Será que vai me pender

de novo este passarão?

ANJO

Reservei-te uma surpresa:

tenho dois imperadores

para dar-te como presa.

De Lourenço, em chama acesa,

foram ele os matadores.

AIMBIRÊ

Boa! Me fazes contente!

À força os castigarei,

e no fogo os queimarei

como diabo eficiente.

Meu ódio satisfarei.

ANJO

Eia, depressa a afogá-los.

Que para o sol sejam cegos!

Ide ao fogo cozinhá-los.

Castiga com teus vassalos

estes dois sujos morcegos.

AIMBIRÊ

Pronto! Pronto!

Sejam tais ordens cumpridas!

Reunirei meus demônios.

Saravaia, deixa os sonhos,

traz-me de boa bebida

que temos planos medonhos!

SARAVAIA

Já de nego me pintei,

ó meu avô jaguaruna,

e o cauim preparei,

verás como beberei

nesta festa da fortuna.

Que vejo? Um temiminó?

Ou filho de guaianá?

Será esse um guaitacá

que à mesa do jacaré

sozinho vou devorar?

(Vê o Anjo e espanta-se.)

E este pássaro azulão,

quem será que assim me encara?

Algum parente de arara?

AIMBIRÊ

É o anjo que em nossa mão

põe duas presas bem raras.

SARAVAIA

Meus capangas, atenção!

Tataurana, Tamanduá,

vamos com calma por lá,

que esses monstros quererão

por certo me afogar.

AIMBIRÊ

Vamos!

SARAVAIA

Ai, os mosquitos me mordem!

Espera, ou me comerão!

Tenho medo, quem me acode.

Sou pequenino e eles podem

tragar-me de supetão.

AIMBIRÊ

Os índios que não se fiam

nesta conversa e se escondem

se os mandam executar.

SARAVAIA

Têm razão se desconfiam,

vivem sempre a se lograr.

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão,

só por isso és tão valente,

moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão,

mas vou por te ver contente.

E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço?

Com isto eu vou mudar

meu nome, de que me canso.

Muito bem! Suas entranhas

sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham

sua parte comerão.

(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)

Tataurana,

traze a tua muçurana.

Urubu, jaguaruçu,

traz a ingapema. Sús

Caborê, vê se te inflama

pra comer estes perus.

(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana

e os braços lhe comerei;

A Jaguaraçu darei

o lombo, a Urubu o crânio,

e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei!

As tripas recolherei,

e com os bofes terei

a panela a derramar.

E esta panela verei

minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura

as cabeças quebrarei,

e os miolos comerei.

Sou guará, onça, criatura,

e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei

aos franceses derrotando,

para um bom nome ir logrando,

agora contigo irei

estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros,

não nos viram. Vou à frente.

Que não escapem da gente.

Vigiarei. No tempo exato

ataquemos de repente.

(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que

conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano

minha vontade venceu.

Não houve arte no céu

que livrasse do meu plano

o servo do Galileu.

Nem Pompeu e nem Catão

nem Cesar, nem o Africano,

nenhum grego nem troiano

puderam dar conclusão

a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor

desta tão grande façanha

foi mais que vencer Espanha.

Jamais rei ou imperador

logrou coisa tão estranha.

Mas, Senhor, esse quem é

que vejo ali, tão armado

com espadas e cordel,

e com gente de tropel

vindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo,

Júpiter, sumo senhor,

que provou grande sabor

com o tremendo castigo

da morte deste traidor.

E quer, para reforçar

as penas deste rufião,

nosso império acrescentar

com sua potente mão,

pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem

a seus tormentos vingar,

e a nós ambos enforcar.

Oh! que cara feia tem!

Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar?

Quem a mim pode matar,

ou mover meus fundamentos?

Nem a exaltação dos ventos,

Nem a braveza do mar,

nem todos os elementos!

Não temas, que meu poder,

o que os deuses imortais

me quiseram conceder,

não se poderá vencer

pois não há forças iguais.

De meu cetro imperial

pendem reis, tremem tiranos.

Venço a todos os humanos,

e posso ser quase igual

a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura!

Não posso mais aguardar,

que já me sinto queimar!

Vamos, que é grande loucura

tal encontro aqui esperar.

Ai! ai! que grandes calores!

Não tenho nenhum sossego.

Ai, que poderosas dores!

Ai, que férvidos ardores,

que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão!

Ai de mim, que é o Plutão

chegando pelo Aqueronte,

ardendo como tição

a levar-nos de roldão

ao fogo do Flegetonte.

Oh, coitado

que me queimo! Esse queimado

me queima com grande dor!

Oh, infeliz imperador!

Todo me vejo cercado

de penas e de pavor,

pois armado

o diabo com seu dardo

mais as fúrias infernais,

vêm castigar-nos demais.

Já nem sei o que hei falado

com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!

Já pagas, e pagará

Contigo Valeriano,

porque Lourenço cristão

assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!

Bom Castelhano parece!

Estou bem alegre mano,

que Espanhol seja o profano

que no meu fogo padece.

Vou fingir-me castelhano

e usar de diplomacia

com Décio e Valeriano,

porque o espanhol ufano

sempre guarda a cortesia.

Oh, mais alta majestade!

Beijo-vos a mão mil vezes,

por vossa grã-crueldade

pois justiça nem verdade

guardastes, sendo juizes.

Sou mandado

por São Lourenço queimado,

levá-los à minha casa,

onde seja confirmado

vosso imperial estado

em fogo, que sempre abrasa.

Oh, que tronos e que camas

eu vos tenho preparadas,

nessas escuras moradas

de vivas e eternas chamas

de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?

Que falais, em Carijó.

Sei todas línguas de cor.

Avança aqui, Saravaia!

Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas,

não tenho pecado nada!

Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

Não, és tu que me fascinas,

ó presa bem cobiçada.

DÉCIO

Ó miserável de mim,

que nem basta ser tirano,

nem falar em castelhano!

Que é do mando em que me vi,

e o meu poder soberano?

AIMBIRÊ

Jesus, Deus grande e potente,

que tu, traidor, perseguiste,

te dará sorte mais triste

entregando-te em meu dente,

a que, malvado, serviste.

Pois me honraste,

e sempre me contentaste

ofendendo ao Deus eterno.

É justo pois que no inferno,

palácio que tanto amaste,

não sintas o mal do inverno.

Porque o ódio inveterado

do teu duro coração

não pode ser abrandado,

se não for já martelado

com a água do Flegeton.

DÉCIO

Olha que consolação

para quem se está queimando!

Sumos deuses, para quando

adiais minha salvação,

que vivo estou me abrasando?

Ai, ai! Que mortal desmaio!

Esculápio, não me acodes?

Oh, Júpiter, porque dormes?

Que é do vosso raio?

Por que é que não me socorres?

AIMBIRÊ

Que dizeis?

De que mal vós padeceis?

Que pulso mais alterado.

É grande dor de costado

este mal, que morreis!

Haveis de ser bem sangrado!

Há dias que esta sangria

se guardava para vós

que sangráveis, noite e dia,

com dedicada porfia

aos santos servos de Deus.

Muito desejo eu beber

vosso sangue imperial.

Oh, não me leveis a mal

que com isso quero ser

homem de sangue real.

DÉCIO

Que dizeis? Que disparate,

e elegante desvario!

Joguem-me dentro de um rio

antes que o fogo me mate,

ó deuses em que confio!

Não quereis

socorrer-me, ou não podeis?

Ó malditos fementidos,

ingratos desconhecidos,

que pouco vos condoeis

de quem fostes tão servidos!

Se agora voar pudesse,

vos iria derrocar

dos vossos tronos celestes,

feliz, se a mim me coubesse

no fogo vos projetar.

AIMBIRÊ

Parece-me que é chegada

a hora do frenesi,

e com chama redobrada,

a qual será descuidada

dos deuses a quem servis.

São armas

dos audazes cavaleiros

que usam palavrório humano.

E por isso, tão ufano,

hoje vindes acolhê-los

no romance castelhano.

SARAVAIA

Assim é.

Pensava dar, de revés,

golpes de afiados aços

mas enfim, nossos balaços

se chocaram através

com bem poucos canhonaços.

Mas que boas bofetadas

lhes reservo para dar!

Os tristes, sem descansar,

à força de tais pauladas

com cães hão de ladrar.

VALERIANO

Que ferida!

Tira-me logo esta vida

pois, minha alta condição,

contra justiça e razão

veio a ser tão abatida

que morro como ladrão!

SARAVAIA

Não é outro o galardão

que concedo aos meus criados,

senão morrer enforcados,

e depois, sem remissão,

ao fogo ser condenados!

DÉCIO

Essa é a pena redobrada

que me causa maior dor:

 

que eu, universal senhor,

morra morte desonrada

na forca como traidor.

Ainda se fosse lutando,

dando golpes e reveses,

pernas e braços cortando,

como fiz com os franceses,

acabaria triunfando.

AIMBIRÊ

Parece que estais lembrando,

poderoso imperador,

quando, com bravo furor,

matastes, traição armando,

Felipe, vosso senhor.

Por certo que me alegrais

e se cumpre meus anseios

ante desabafos tais,

porque o fogo em que queimais

provoca tais devaneios.

DÉCIO

Bem entendo

que este fogo em que me acendo

merece-me a tirania,

pois com tão feroz porfia

aos cristãos martirizando

pelo fogo os consumia.

Mas que em minha monarquia

acabe com tal pregão

pois morrer como ladrão

é muito triste agonia

e dobrada confusão.

AIMBIRÊ

Como? Pedis confissão?

Sem asas quereis voar?

Ide, se quereis achar

aos vossos atos perdão,

à deusa Pala rogar.

Ou a Nero,

esse cruel carniceiro

do fiel povo cristão.

Aqui está Valeriano,

vosso leal companheiro,

buscai-o por sua mão!

DÉCIO

Esses amargos chistes

e agressões

me acrescentam em paixões

e mais dores,

com tão profundos ardores

como de ardentes tições

E com isto crescem mais

os fogos em que padeço.

Acaba, que me ofereço

em tuas mãos, Satanás,

ao tormento que mereço.

AIMBIRÊ

Oh, quanto vos agradeço

por esta boa vontade!

Eu, com liberalidade

quero dar-lhe bom refresco

para vossa enfermidade.

Na cova

onde o fogo se renova

com ardores perenais,

os vossos males fatais

aí terão grande prova

das agruras imortais.

DÉCIO

Que fazer, Valeriano,

bom amigo!

Testemunharás comigo

desta pena

envolvido na cadeia

de fogo, deste castigo.

VALERIANO

Em má hora! Já são horas...

Vamos logo

deste fogo ao outro fogo eternal,

lá onde a chama imortal

nunca nos dará sossego.

Sús, asinha!

Vamos à nossa cozinha,

Saravaia!

AIMBIRÊ

Aqui deles não me afasto.

Nas brasas serão bom pasto,

maldito quem nelas caia.

DÉCIO

Aqui abrasado estou!

Assa-me Lourenço assado!

De soberano que sou

vejo que Deus me marcou

por ver seu santo vingado!

AIMBIRÊ

Com efeito

quiseste abrasar a jeito

o virtuosos São Lourenço.

Hoje te castigo e venço

e sobre as brasas te deito

para morrer, segundo penso.

(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois

levam o seu.)

Vinde aqui

e aos malditos conduzi

para em bom queimarem,

seus corpos sujos tostarem,

na festa em que os seduzi

para cozidos bailarem

(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas dos

imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor,

o que as más cabeças quebra,

sou um chefe de valor

e hoje me decido por

me chamar Cururupeba.

Como eles,

mato os que estão em pecado,

e os arrasto em minhas chamas.

Velhos, moços, jovens, damas,

tenho sempre devorado.

De bom algoz tenho fama.

QUARTO ATO

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba,

entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e

no fim acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno

vossa grande devoção

que tendes, e com razão,

a Lourenço, o mártir digno

de toda a veneração,

determinam, por seus rogos

e martírio singular,

a todos sempre ajudar,

para que escapeis dos fogos

em que os maus se hão de queimar.

Dois fogos trazia n'alma,

com que as brasas resfriou,

a no fogo em que se assou,

com tão gloriosa palma,

dos tiranos triunfou.

Um fogo foi o temor

do bravo fogo infernal,

e, como servo leal,

por honrar a seu Senhor,

fugiu da culpa mortal.

Outro foi o Amor fervente

de Jesus, que tanto amava,

que muito mais se abrasava

com esse fervor ardente

que co'o fogo, em que se assava,

Estes o fizeram forte.

Com estes purificado

como ouro refinado,

padeceu tão crua morte

por Jesus, seu doce amado.

Estes vos manda o Senhor

a ganhar vossa frieza,

para que vossa alma acesa

de seu fogo gastador,

fique cheio de pureza.

Deixai-vos deles queimar

como o mártir São Lourenço,

e sereis um vivo incenso

que sempre haveis de cheirar

na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)

Pecador,

sorves com grande sabor

o pecado,

e não ficas afogado

com teus males!

E tuas chagas mortais

não sentes, desventurado!

O inferno

como seu fogo sempiterno,

Já te espera,

se não segues a bandeira

da cruz,

sobre a qual morreu Jesus

para que tua morte morra.

Deus te envia esta mensagem

com amor,

a mim que sou seu Temor

me convém

declarar o que contém

para que temas ao Senhor.

(Glosa e declaração do recado.)

Espantado estou de ver,

pecador, teu vão sossego.

Com tais males a fazer,

como vives sem temer,

aquele espantoso fogo?

Fogo que nunca descansa,

mas sempre provoca a dor,

e com seu bravo furor

dissipa toda a esperança

ao maldito pecador.

Pecador, como te entregas

tão sem freio ao vício extremo?

Dos vícios de que estás cheios

engolindo tão às cegas

a culpa, com seu veneno.

Veneno de maldição

tragas sem nenhum temor,

e sem sentir sua dor,

deleites da carnação

sorves com grande sabor.

Será o sabor do pecado

muito mais doce que o mel,

mas o inferno cruel

depois te dará um bocado

bem mais amargo que o fel

Fel beberás sem medida,

pecador desatinado,

tua alma em chamas ardida.

Esta será a saída

do deleite do pecado.

Do pecado que tu amas

Lourenço tanto escapou

que mil penas suportou,

e queimado pelas chamas,

por não pecar, expirou.

Ele a morte não temeu.

Tu não temes o pecado

no qual et tem enforcado

Lucifer, que te afogou,

e não ficas afogado.

Afogado pela mão

do Diabo pereceu

Décio com Valeriano,

infiel, cruel tirano,

no fogo que mereceu.

Tua fé merece a vida,

mas com pecados mortais

quase a tiveste perdida,

e teu Deus, bem sem medida,

ofendeste, com teus males.

Com teus males e pecados,

tua alma de Deus alheia,

da danação na cadeia

há de pagar com os danados

a culpa que a incendeia.

Pena sem fim te darão

dentre os fogos infernais

teus deleites sensuais.

Teus tormentos dobrarão,

e tuas chagas mortais .

Que mortais são tuas feridas

pecador. Porque não choras?

Não vês que nestas demoras,

estão todas corrompidas,

a cada dia pioras?

Pioras e te confinas,

mas teu perigoso estado,

na pressa e grande cuidado

com que ao fogo te destinas,

não sentes, desventurado?

Oh, descuido intolerável

de tua vida!

Tua alma está confundida

no lodo,

e tu vais rindo de tudo,

não sentes tua caída!

Oh, traidor!

Que negas teu Criador,

Deus eterno,

que se fez menino terno

por salvar-te.

E tu queres condenar-te

e não temes ao inferno!

Ah, insensível!

Não calculas o terrível

espanto, que causará

o juiz, quando virá

com carranca muito horrível,

e à morte te entregará.

E tua alma será

sepultada em pleno inferno,

onde morte não terá

mas viva se queimará

com seu fogo sempiterno!

Oh, perdido!

Ali serás consumido

sem nunca te consumir.

Terás vida sem viver,

com choro e grande gemido,

terás morte sem morrer.

Pranto será teu sorrir,

sede sem fim te abeberra,

fome que em comer se gera,

teu sono, nunca dormir,

tudo isto já te espera.

Oh, morfio!

Pois tu veras de continuo

ao horrendo Lucifer,

sem nunca chegar a ver

aquele molde divino

de quem tiras todo o ser.

Acaba já de temer

a Deus, que sempre te espera,

correndo por sua esteira,

pois não lhes vai pertencer

se não lhe segues a bandeira.

Homem louco!

Se teu coração já toco,

mudar-se-ão alegrias

em tristezas e agonias.

Olha que te falta pouco

para fenecer teus dias.

Não peques mais contra Aquele

que te ganhou vida e luz

com seu martírio cruel

bebendo vinagre e fel

no extremo lenho a cruz.

Oh, malvado!

Ele foi crucificado,

sendo Deus, por te salvar.

Pois, que podes esperar,

se foste tu o culpado

e não cessas de pecar?

Tu o ofendes, ele te ama.

Cegou-se por dar-te a luz.

Tu és mau, pisas a cruz

sobre a qual morreu Jesus.

Homem cego,

porque não começas logo

a chorar por teu pecado?

E tomar por advogado

a Lourenço que, no fogo,

por Jesus morreu queimado?

Teme a Deus, juiz tremendo,

que em má hora te socorra,

em Jesus tão só vivendo,

pois deu sua vida morrendo

para que tua morte morra.

AMOR DE DEUS

(Dá seu recado)

Ama a Deus, que te criou,

homem, de Deus muito amado!

Ama com todo cuidado,

a quem primeiro te amou.

Seu próprio Filho entregou

à morte, por te salvar.

Que mais te podia dar,

se tudo o que tem te dou?

Por mandado do Senhor,

te disse o que tens ouvido.

Abre todo teu sentido,

porque eu, que sou seu Amor,

seja em ti bem imprimido

(Glosa e declaração do recado)

Todas as coisas criadas

conhecem seu Criador.

Todas lhe guardam amor,

pois nele são conservadas,

cada qual em seu vigor.

Pois com tanta perfeição

sua ciência te formou

homem capaz de razão,

de todo o teu coração

ama a Deus, que te criou!

Se amas a criatura

por se parecer formosa,

ama a visão graciosa

desta mesma formosura

por sobre todas as coisas.

Dessa divina lindeza

deves ser enamorado.

Seja tua alma presa

daquela suma beleza

homem, de Deus muito amado!

Aborrece todo o mal,

com despeito e com desdém,

E pois, que é racional,

abraça a Deus imortal,

todo, sumo e único bem.

Este abismo de fartura,

que nunca será esgotado;

esta fonte viva e pura,

este rio de doçura,

ama com todo cuidado.

Antes que criasse nada

já a alma majestade

te havia a vida gerado.

e tua alma, abrasada

com eterna caridade.

Por fazer-te todo seu

com amor te cativou

e, pois que tudo te deu,

dá tu todo o maior que é teu

a quem primeiro te amou.

E deu-te alma imortal

e digna de um Deus imenso,

para que fosses suspenso

nele, esse bem eternal,

que é sem fim e sem começo.

Depois, que em morte caíste

com vida te levantou.

Porque sair não conseguiste

da culpa em que te fundiste,

seu próprio filho entregou.

Entregou-o por escravo,

deixou que fosse vendido,

para que tu, redimido

do poder do leão bravo

fosses sempre agradecido.

Para que não morras, morre

com amor bem singular.

Pois, quanto deves amar

a Deus que entregar-se quer

à morte, por te salvar.

O Filho, que o Padre deu,

a seu Pai te dá por pai,

e sua graça te infundiu,

e quando na cruz morreu,

deu-te por mãe sua Mãe.

Deu-te fé com esperança,

e a si mesmo por manjar,

para em si te transformar

pela bem aventurança.

Que mais te podia dar?

Em paga de tudo isto,

oh, ditoso pecador,

pede apenas teu amor.

Despreza pois todo o resto

por ganhar a tal Senhor.

Dá tua vida pelos bens

que Sua morte te ganhou.

És seu, nada tens de teu,

Dá-lhe tudo quanto tens,

pois tudo o que tem te deu!

DESPEDIDA

Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.

Vereis a Lourenço reinando com Deus,

por vós implorando junto ao rei dos céus,

que louvais seu nome aqui neste chão!

Daqui por diante tende grande zelo,

que Deus seja sempre temido e amado,

e, mártir tão santo, de todos honrado.

Terei seus favores e doce desvelo.

Pois que celebrai com tal devoção

seu claro martírio, tomai meu conselho:

sua vida e virtudes tende por espelho,

chamando-o sempre com grande afeição.

Tereis, por seus rogos, o santo perdão,

e sobre o inimigo perfeita vitória.

E depois da morte vós vereis na glória

a cara divina, com clara visão.

(LAUS DEO)

QUINTO ATO

Dança de doze meninos, que se fez na procissão de São Lourenço.

1º) Aqui estamos jubilosos

tua festa celebrando.

Por teus rogos desejando

Deus nos faça venturosos

nosso coração guardando.

2º) Nós confiamos em ti

Lourenço santificado,

que nos guardes preservados

dos inimigos aqui

Dos vícios já desligados

nos pajés não crendo mais,

em suas danças rituais,

nem seus mágicos cuidados.

3º) Como tu, que a confiança

em Deus tão bem resguardaste,

que o dom de Jesus nos baste,

pai da suprema esperança.

4º) Pleno do divino amor

foi teu coração outrora.

Zela pois por nós agora!

Amemos nosso Criador,

pai nosso de cada hora!

5º) Obedeceste ao Senhor,

cumprindo sua palavra.

Vem que nossa alma escrava

de teu amor, neste dia

te imita em sabedoria.

6º) Milagroso, tu curaste

teus filhos tão santamente.

Suas almas estão doentes

deste mal que abominaste,

Vem curá-los novamente!

7º) Fiel a Nosso Senhor

a morte tu suportaste.

Que a força disto nos baste

para suportar a dor

pelo mesmo Deus que amaste.

8º) Pelo terrível que és,

Já que os demônios te temem,

nas ocas onde se escondem

vem calcá-los sob os pés,

pra que as almas não nos queimem.

9º) Hereges que este indefeso

corpo no teu assaram,

e a carne toda queimaram

em grelhas de ferro aceso.

Choremos, do alto desejo

de Deus Padre contemplar.

Venha Ele neste ensejo

nossas almas inflamar.

10º) Os teus verdugos extremos

treme, algozes de Deus.

Vem, leva-nos como teus,

que ao teu lado ficaremos

assustando estes ateus.

11º) Estes que te deram morte

ardem no fogo infernal.

Tu, na glória celestial

gozarás, divina sorte.

E contigo aprenderemos

a amar a Deus no mais fundo

do nosso ser, e no mundo

longa vida gozaremos.

12º) Em tuas mãos depositamos

nosso destino também.

Em teu amor confiamos

e uns aos outros nos amamos

para todo o sempre. Amém.

CAI O PANO

 

 

INDICAÇÕES PARA PESQUISA:

ANCHIETA, José. O Auto de São Lourenço. Introdução, seleção e notas de Walmyr Ayala. Prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho. Rio de Janeiro, Ediouro, s.d.

 

(Apostila 6 de Literatura Informativa sobre o Brasil)