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Gabriel Soares de Sousa

 

Nascido em Portugal por volta de 1540, aos trinta anos está no Brasil e instala-se na Bahia logo tornando-se senhor de engenho. Como que para preencher o ócio escreve o Tratado Descritivo do Brasil em 1587.

Vai para Madrid em busca de apoio de Cristóvão Moura, pessoa importante da política da Corte espanhola para a colonização. Gabriel tem a intenção de conseguir os direitos de exploração de minas nas cabeceiras do Rio São Francisco, conforme dados coletados da expedição de seu irmão, João Coelho de Sousa, que se supõe teria deixado um mapa para Gabriel umas pepitas de prata. Conseguido o alvará parte numa expedição com 360 homens e 4 padres carmelitas em 1591. Vem a falecer no sertão em busca dos sonhados metais. A autoria do seu tratado só foi confirmada em 1839 por Varnhagen. Dominado por um sentido quase enciclopédico, o tratado de Gabriel Soares de Sousa é uma obra extensa com grande quantidade de informação acerca da fauna, flora, clima, economia e população do Brasil. Seu texto é marcado por uma certa impessoalidade, quase científico. O sentimento de amor à terra não compromete sua observação, antes busca ser fiel ao que vê. A seguir, selecionamos quatro breves trechos da obra de Gabriel. No primeiro se descreve o abacaxi; no segundo, o leão marinho que era relativamente comum no litoral brasileiro; no terceiro, descreve o autor o costume dos índios em furar os beiços para colocar adereços e no quarto se fala dos costumes sexuais dos índios tupinambás.

 

“Ananás é uma fruta do tamanho de uma cidra grande, mas mais comprida; tem olho da feição de alcachofras, e o corpo lavrado como alcachofra molar, e com uma ponta e bico em cada sinal das pencas, mas é todo maciço; e muitos ananases lançam o olho e ao pé do fruto muitos outros tamanhos como alcachofras. A erva em que se criam os ananases é da feição da que em Portugal chamam erva-babosa, e tem as folhas armadas, e do tamanho da erva-babosa, mas são tão grossas; a qual a erva ou ananaseiro espiga cada ano no meio como cardo, e lança um grelo da mesma maneira, e em cima dele nasce o fruto, tamanho como alcachofra, muito vermelho, o qual assim vai crescendo, vai perdendo a cor e fazendo-se verde, e como é maduro conhece-se pelo cheiro, como o melão.”

 

“Não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangada, onde os tomam, e aos que andam pela borda da água, metidos nela; a uns e outros apanham, e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar estes mortos que viram sobre a água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto; e os que viram isso viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que também aconteceu a alguns negros da Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levarem um, e salvar-se o outro tão assombrado que esteve para morrer; e alguns morrem disto.” (...)

 

“Para se os tupinambás fazerem bizarros usam de muitas bestialidades mui estranhas, como é fazerem depois de homens três e quatro buracos nos beiços de baixo, onde metem pedras, com grandes pontas para fora; e outros furar os beiços de cima, também como os de baixo, onde também metem pedras redondas, verdes e pardas, que ficam inseridas nas faces, como espelhos de borracha; nas quais há alguns que têm nas faces dois e três buracos, em que metem pedras, como pontas para fora; e há alguns que têm todos estes buracos, que com as pedras neles, parecem os demônios; os quais sofrem estas dores por parecerem temerosos a seus contrários.” (...)

 

“Como os pais e mães vêm os filhos com meneios para conhecer mulher, eles lhas buscam, e os ensinam como saberão servir; as fêmeas muito meninas esperam o macho, mormente as que vivem entre os portugueses. Os machos destes tupinambás não são ciosos; e ainda que achem outrem com as mulheres, não matam a ninguém por isso, e quando muito espancam as mulheres pelo caso. E as que querem bem aos maridos, pelos contentarem, buscam-lhes moças com eles se desenfadem, as quais lhes levam à rede onde dormem, onde lhes pedem muito que se queiram deitar com os maridos, e as peitam para isso; coisa que não faz nenhuma nação de gente, senão estes bárbaros.” (Tratado Descritivo do Brasil em 1587).

 

(Apostila 3 de Literatura Informativa sobre o Brasil)