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 Frei Manuel Calado

Frei Manuel Calado do Salvador nasceu em Vila Viçosa (Portugal), em 1584. Professou na Ordem de S. Paulo em 8 de abril de 1607. Passou cerca de trinta anos no Brasil (Bahia e Pernambuco). Esteve presente em vários acontecimentos do período da invasão holandesa em Pernambuco. Por pouco não foi condenado à morte pelos holandeses. Após a restauração pernambucana (15/07/1646) regressou à Corte e apresentou à Censura a primeira parte de sua obra acerca da guerra com os holandeses: O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, publicada em 1648. A obra é predominantemente em prosa, mas em alguns trechos é dominada pelo verso. De caráter clássico e barroco, varia entre o criativo poético e a narração histórica laudatória. Para Massaud Moisés "O Valeroso Lucideno encerra palpitante reportagem da guerra holandesa, levada a efeito por um cronista empenhado na exaltação do destemor português, mas que registra, como sem querer, a presença do brasileiro e a progressiva maturação de nossa linguagem literária durante o século barroco." (Hist. da Lit. Brasileira: Origens, Barroco, Arcadismo: 1990, p. 168).

 

Livro Quarto - Capítulo II - fragmento

Estrela matutina, é tempo agora

Que a cítara me deis, para que cante

Vossos favores, cristalina Aurora,

Que do incriado Sol vindes diante;

Se me favoreceis, Virgem Senhora,

Das escuras quadrilhas triunfante,

Cantarei docemente em voz suave,

Com saudoso acento, agudo, e grave.

 

Estava Lucideno sobre o leito

Do importuno trabalho descansando,

Revolvendo mil traças no conceito,

Diversos pensamentos espalhando:

Bate-lhe o coração dentro no peito,

Os sentidos lhe ocupa o sono brando,

Tanto adormeceu, sonhou que via

O Santo Português, que lhe dizia:

 

Como estás Lucideno descansado,

Importando-te tanto o trabalhar?

Quando o fero Holandês tem decretado

De os moradores todos degolar;

Este infausto decreto, e inopinado

Em dois dias pretende executar,

E em se mostrando ao mundo a nova Aurora

Se parte ao Arrecife sem demora.

 

E reformado ali de armas, e gente,

Com suas tropas posto a som de guerra,

Ardendo em ira, e em furor ardente

Os moradores matará da terra;

Portanto não te mostres negligente,

E se zelo Cristão em ti se encerra,

Corre depressa, porque senão corres

Não dirás com verdade que os socorres.

 

Por duas vezes viste a porta aberta

Por si, do tempo aonde me servias,

No que te prometi vitória certa

Se esta honrosa empresa acometias:

Portanto Lucideno, alerta, alerta,

E se em meu patrocínio te confias,

Parte depressa, e investe ao inimigo,

Não se acovardes, que eu serei contigo.

 

Tanto que o Holandês se reformar

De soldados, e armas sem demora

Determina sair a degolar

Os moradores nesse ponto, e hora:

Levanta-te, e procura caminhar

Antes que o inimigo saia fora

Aos Apopucos, Vila, e Beberibe,

Várzea, Tejupió, Capivaribe.

Livro VI - Capítulo I - fragmento

Quando o garrido arnês da Flora bela

(Alegria total da Primavera)

Tinha entregada a rorida capela

Ao mês, que entrar em Lagos não deverá,

Chegou ao Arraial com boa estrela

O forte Lucideno, aonde o espera

O morador, e os míseros soldados,

Todos ficam com vê-lo consolados.

 

As estâncias visita, e as provê

De mantimento, porque o traz consigo

Em abundância, e certo bem se crê,

Que é pai dos pobres, e leal amigo:

Diz-lhes que em defensão da Santa Fé

Não têm que recear a morte, ou perigo,

Que quem morre em serviço de seu Deus,

Alcança fama, e grangeia os Céus.

 

Todos com raro brio se oferecem

A fazer as heróicas proezas,

Com que por todo o mundo resplandecem,

As valentes espadas Portuguesas:

O socorro oportuno lhe agradecem,

Todos louvam seu ânimo, e grandezas,

Que não se ausente mais cada um lhe pede,

O qual o que lhe rogam lhes condece.

 

Com isto se despede, e vem tomar

Descanso da viagem que fizera,

E juntamente chega a visitar

Sua amada consorte, que o espera:

Detém-se uma só noite, e vai tratar

De celebrar (segundo prometera)

Festas a Santo Antônio Português,

Que mercês tão grandíloquas lhe fez.

 

Traçada a festa, senão quando vinha

De Iguarassu correndo um cavaleiro,

Que o Lucideno deiz que marche asinha,

Se quer o Belga ter por prisioneiro:

Dá-lhe aviso, em como o Belga tinha

Três naus, nas três passagens, que primeiro,

Em tempo de águas vivas, nos serviam

Por onde à Ilha os Portugueses iam.

 

Com esta festa, de que aqui se fala,

Era do glorioso Santo Antônio,

Notai o que ordenou para estorvá-la

O maldito, e Flamígero Demônio:

Lucideno o aviso escuta, e cala,

Qual astuto, e sagaz LacedeMõnio,

Diz-me a Musa, que fale um pouco a prosa,

Pois no escrever é mais compendiosa.

 

(Apostila 11 de Barroco - Literatura Brasileira)