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Fernão Cardim

 

Supõe-se que tenha nascido em 1548 em Portugal. Ainda menino entrou para a Companhia de Jesus. Em 1584 está no Brasil. Percorre as principais capitanias e locais de povoação, até que em 1590 é nomeado reitor do Colégio de S.Sebastião, Rio de Janeiro. Quando retornava a Lisboa em 1601 seu barco foi atacado por piratas ingleses. Seus manuscritos foram confiscados e tempos depois, editados numa versão inglesa com autoria errônea pelo colecionador Samuel Purchas. Só em fins do século XIX graças ao trabalho de Capistrano de Abreu revelou-se a autoria daqueles manuscritos. A obra de Fernão Cardim compreende três livros: Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil; Narrativa Epistolar de uma Viagem e Missão Jesuítica pela Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Vicente, etc. e Do Clima e Terra do Brasil.

Suas descrições e sua narrativa demonstram o espírito de alguém que se encantou pela exuberância da natureza e demonstra também simpatia por aspectos da simplicidade e da ingenuidade da vida indígena. De certa forma é ele também um ingênuo. Sua visão das coisas é primeiramente estética. Obra de um jesuíta embebido por um pensamento mais aberto e humanista.

 

“Há outras castas destes animais que não têm tão mau cheiro; criam-se em casa, e ficam domésticos, e os índios os estimam.

Preguiça – A preguiça que chamam do Brasil é animal para ver, parece-se com cães felpudos, os perdigueiros; são muito feios, e o rosto parece de mulher mal toucada; têm as mãos e pés compridos, e grandes unhas, e cruéis, andam com o peito pelo chão, e os filhos abraçados na barriga, por mais que lhe dêem, andam tão devagar que hão mister muito tempo pra subir a uma árvore, e por isso são tomados facilmente: sustentam-se de certas folhas de figueiras, e por isso não podem ir a Portugal, porque como lhes faltam, morrem logo.” (Do Clima e Terra do Brasil)

 

“Este gentio come em todo o tempo, de noite e de dia, e a cada hora e momento, e como tem que comer não o guardam muito tempo, mas logo comem tudo o que têm e repartem com seus amigos, de modo que de um peixe que tenham repartem com todos, e têm por grande honra e primor serem liberais, e por isso cobram muita fama e honra, e a pior injúria que lhes podem fazer é terem-no por escassos, ou chamarem-lho, e quando não têm que comer são muito sofridos com fome e sede.

Não têm dias em que comam carne e peixe; comem todo gênero de carne, ainda de animais imundos, como cobras, sapos, ratos, e outros bichos semelhantes, e também comem todo gênero de frutas, tirando algumas peçonhentas, e sua sustentação é ordinariamente do que dá a terra sem a cultivarem, como caças e frutas; porém têm certo gênero de mantimentos de boa substância, e sadio, e outros muito legumes de que abaixo se fará menção. De ordinário não bebem enquanto comem, mas depois de comer bebem água, ou vinho que fazem de muitos gêneros de frutas e raízes, como abaixo se dirá, do qual bebem sem regra, nem modo até caírem.” (Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil)

 

“Veado - Na língua brasílica se chama sugoaçu; há uns muito grandes, como formosos cavalos; têm grande armação, e alguns têm dez e doze pontas; estes são raros, e acham-se no rio de São Francisco e na Capitania de São Vicente; estes se chamama suaçuapara, são estimados dos cariós e das pontas e nervos fazem os bicos das flechas, eumas bolas de arremessar que usam para derrubar animais ou homens.

Há outros mais pequenos; também têm cornos, mas de uma ponta só. Além destes há três ou quatro espécies, uns que andam somente nos matos, outros somente nos campos em bandos. Das peles fazem muito caso, e da carne.

Tapyretê - Estas sãos as antas,de cuja pele se fazem as adargas, parecem-se com vacas e muito mais com mulas, o rabo é de um dedo, não tem cornos, têm uma tromaba de comprimento de um palmo que encolhe e estende. Nadam e mergulham muito, mas em mergulhando logo tomam fundo, e andando por ele saem por outra parte. Há grande cópia delas nesta terra.” (Trado da Terra e Gente do Brasil)

 

“Neste Brasil há arvoredos em que se acham árvores de notável grossura, e comprimento, de que se fazem mui grandes canoas, de largura de 7 e 8 palmos de vão, e de comprimento de cinqüenta e mais palmos, que carregam como uma grande barca, e levam 20 e 30 remeiros; também se fazem mui grandes gangorras para os engenhos. Há muitos paus como incorruptíveis que metidos na terra não apodrecem, e outros metidos n’água cada vez são mais verdes, e rijos. Há pau santo, de umas águas brancas de que se fazem leitos muito ricos, e formosos. Pau do Brasil, de que se faz tinta vermelha, e outras madeiras de várias cores, de que se fazem tintas muito estimadas, e todas as obras de torno e marcenaria. Há paus de cheiro, como o Jacarandá, e outros de muito preço e estima. Acham-se sândalos brancos em quantidade. Pau daquila em grande abundância que se fazem navios dele, cedros, pau’angelim, e árvore de noz-moscada;e ainda que estas madeiras sejam tão finas, e de tão grande cheiro como as da Índia, todavia falta-lhes pouco, e são de grande preço, e estima.”(Tratado da Terra e Gente do Brasil)

 

 

(Apostila 2 de Literatura Informativa sobre o Brasil)