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Claude D’Abbeville

 

Capuchinho francês que em 1612 participou da invasão francesa ao Maranhão. Ficou no Brasil apenas quatro meses, mas nesse curto espaço de tempo levantou com argúcia uma grande quantidade de dados que serviram para compor a sua obra: História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas, publicada em 1614. Sua narrativa inclui diálogos entre as personagens tanto em discurso indireto quanto direto. Inclui não só os episódios mais significativos da permanência dos franceses no Maranhão (edificação da cidade de São Luís, por exemplo) mas vários casos do cotidiano dos índios como é o que se pode ler em capítulos como “de uma escrava de Japi-Açu encontrada em adultério” ou “História de um certo personagem que dizia ter descido do céu”. Apresenta também informações sobre a astronomia indígena. Outro aspecto que se sobressai dessa obra é a intenção de Claude D’Abbeville em demonstrar como o índio podia ser batizado e de como isso parecia ser uma condição natural para o salvamento da alma. Em dois episódios intitulados “De um índio velho batizado em Coieup e de sua morte” e “De um menino curado milagrosamente pelo batismo” isso fica evidente. Oswald de Andrade aproveitou alguns trechos do livro de Claude D’Abbeville para compor quatro poemas em seu Poesia Pau-Brasil, mantendo a escrita original em francês.

 

“Atravessamos sem parar Juniparã-Pequeno para mais depressa chegarmos a Juniparã-Grande onde nos esperavam nesse dia.

Os filhos do principal, que é o primeiro de todo o país, certos de que não deixaríamos de vir, vieram ao nosso encontro com alguns outros índios e, apenas nos viram, começaram a abraçar-nos e fazer-nos mil agrados, alegrando-se extremamente com a nossa chegada; assim nos conduziram até a aldeia onde entramos todos juntos. O corneteiro ia à frente, tocando como costumava faze-lo à entrada de cada aldeia; meu companheiro e eu empunhávamos nossos bastões com os crucifixos. E depois de termos feita a volta das cabanas juntamente com o sr. De Rasilly, entramos na residência do principal e de sua família, o qual logo nos veio abraçar com incrível afeição, mandando imediatamente armar nossas redes no lugar das suas colocando a dele junto das nossas.

No mesmo instante vieram todos os índios da aldeia, até as crianças, cumprimentar-nos uns após outros. Beijando as próprias mãos, no-las apresentavam, dizendo muito amistosamente e com brandura: Eré jupé pai, ereicobepe, isto é, ‘chegastes, profetas? Ou sede bem-vindos, meu Pai, estais bom?’ E logo cada qual tratou de obsequiar-nos. Começamos então a conversar com o principal, Japi-Açu, o maior de todo o país, que governa os demais, os quais nunca empreendem coisa alguma importante sem consulta-lo.”

 

“Pensam muitos ser cousa detestável ver esse povo nu, e perigoso viver entre as índias, porquanto a nudez das mulheres e raparigas não pode deixar de constituir um objeto de atração, capaz de jogar quem as contempla no precipício do pecado.

Em verdade, tal costume é horrível, desonesto e brutal, porém o perigo é mais aparente do que real, e bem menos perigoso é ver a nudez das índias que os atrativos lúbricos das mundanas de França. São as índias tão modestas e discretas em sua nudez, que nelas não se notam movimentos, gestos, palavras, atos ou cousa alguma ofensivos ao olhar de quem as observa; ademais, muito ciosas da honestidade no casamento, nada fazem em público suscetível de causar escândalo. Se tivermos ainda em conta a deformidade habitual, até certo ponto repugnante, concluiremos que essa nudez não é em si atraente, ao contrário, dos requebros, lubricidades e invenções das mulheres de nossa terra, que dão origem a maior número de pecados mortais e arruínam mais almas do que as índias com sua nudez brutal e desprezível.”

 

“A certa estrela chamam os índios januare, cão. É muito vermelha e acompanha a lua de perto. Dizem, ao verem a lua deitar-se, que a estrela late ao seu encalço como um cão, para devora-la. Quando a lua permanece muito tempo escondida durante o tempo das chuvas, acontece surgir vermelha como sangue da primeira vez que se mostra. Afirmam então os índios que é por causa da estrela januare que a persegue para devora-la. Todos os homens pegam então seus bastões e voltam-se para a lua batendo no chão com todas as forças e gritando, eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, ‘au,au,au, boa saúde meu avô, au, au, au, boa saúde meu avô’. Entrementes as mulheres as crianças gritam e gemem e rolam por terra batendo com as mãos e a cabeça no chão.

Desejando conhecer o motivo dessa loucura e diabólica superstição vim a saber que pensam morrer quando vêem a lua assim sanguinolenta após as chuvas. Os homens batem então no chão e sinal de alegria porque vão morrer e encontrar o avô a quem desejam boa saúde, por estas palavras: eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé, cheramoin goé, au, au, au, boa saúde, meu avô, boa saúde. As mulheres, porém, têm medo da morte e porisso gritam, choram e se lamentam.

Conhecem também a estrela da manhã e chamam-na jaceí-tatá-uaçu, grande estrela. Dão à estrela vespertina o nome de pirapaném e dizem que é quem guia a lua e lhe vai à frente. Conhecem ainda outra estrela que se acha sempre diante do sol e lhe dão o nome de iapucã, ‘sentada em seu lugar’. Com o início das chuvas perdem essa estrela de vista. Conhecem também o Cruzeiro, bela constelação de quatro estrelas muito brilhantes dispostas em cruz. Chamam-na criçá, cruz.”(História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas).

 

(Apostila 1 de Literatura Informativa sobre o Brasil)