ORFEU SPAM APOSTILAS

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BARROCO – Exemplos para análise.

Gregório de Matos

A UM LIVREIRO, QUE HAVIA COMIDO

UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

Levou um livreiro a dente

De alface todo um canteiro,

E comeu, sendo livreiro,

Desencadernadamente.

Porém, eu digo que mente

A quem disso o quer tachar;

Antes é para notar

Que trabalhou como um mouro,

Pois meter folhas no couro

Também é encardenar.

 

 

Manuel Botelho de Oliveira

SOL E ANARDA

O Sol ostenta a graça luminosa,

Anarda por luzida se pondera;

O sol é brilhador na Quarta esfera,

Brilha Anarda na esfera de fermosa.

 

Fomenta o sol a chama calorosa,

Anarda ao peito viva chama altera,

O jasmim, cravo e rosa ao sol esmera,

Cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

 

O sol à sombra dá belos desmaios,

Com os olhos de Anarda a sombra é clara,

Pinta maios o sol, Anarda maios.

 

Mas (desiguais só nisto) se repara

O sol libera sempre seus raios,

Anarda de seus raios sempre avara.

 

Rocha Pita

:SONETO: “Quem cala vence”

Fala o Mar no contínuo movimento,

O fogo em línguas as Esferas toca,

A terra em terremotos abre a boca,

Em sibilantes sopros silva o vento.

 

Logo como a dizer seu sentimento

Uma alma racional se não provoca,

Quando o silêncio pelas vozes troca

Sem uso de razão cada Elemento?

 

Como pode vencer quem pouco ativo?

Não manda à boca, quanto o peito encerra

E, estando mudo, não parece vivo.

 

Só triunfa em falar, em calar erra,

O racional vivente discursivo

Falando o vento, o Fogo, o Mar e a Terra.

 

Gregório de Matos -

Aos Afetos e Lágrimas Derramadas na

Ausência da Dama a Quem Queria Bem

- Ao mesmo Assunto e na Mesma Ocasião.

Corrente, que do peito destilada

Sois por dois belos olhos despedida;

E por carmim correndo dividida

Deixais o ser, levais a cor mudada.

 

Não sei, quando caís precipitada,

Às flores que regais tão parecida,

Se sois neves por rosa derretida,

Ou se rosa por neve desfolhada.

 

Essa enchente gentil de prata fina,

Que de rubi por conchas se dilata,

Faz troca tão diversa peregrina,

 

Que no objeto, que mostra, ou que retrata,

Mesclando a cor púrpurea, à cristalina,

Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

 

 

Domingos Lourenço de Castro

SONETO QUATER ACRÓSTICO

Do Modulante   Orfeu      Invicto,e       Raro,

O alento       Egrégio    Mova            Eternamente,

Invias         Esferas,   Onde            Instantaneamente

Lustrosos      Xefes      São luso        Reparo.

Lusitânia em   Cântico    Excelso,        E caro,

Uivas cante    Entre      Ñós             Diuturnamente

Sendo assunto  Luzido,    O que           Eminente

Tem sido       Luz do     Rio, e seu      Amparo.

Recite         Europa     Grande a        Nosso intento

Ilustrada      No plectro O mais          Donoso

Ser do         Tonante    Mais            Rarificado

Soberano,      Inclito,   E honroso       Assento

Inste o Rio    Seu        Ser de mais     Ditoso

Mostrando-o em Si na      Fama            Altificado.

 

Anastácio Ayres de Penhafiel

LABIRINTO CÚBICO

I N U T R O Q U E C E S A R

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(Gregório de Matos)

 

(Apostila 1 de Barroco - Literatura Brasileira)