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PADRE ANTONIO VIEIRA  - Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuas avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum (1).
 
 

 

I

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando que orando, dá fim o profeta rei ao salmo quarenta e três, salmo que desde o princípio até o fim não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo, São Jerônimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende a letra de qualquer reino ou província católica destruída e assolada por inimigos da fé. Mas entre todos os reinos do mundo, a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal, e entre todas as províncias de Portugal, a nenhuma vem mais ao justo, que à miserável província do Brasil. Vamos lendo todo o salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna, o que fomos e o que somos.

Deus, auribus nostris audivimus; patres nostri annuntiaverunt nobis, opus quod opera tus es in diebus eorum, et in diebus antiquis (2): Ouvimos — começa o profeta — a nossos pais, lemos nas nossas histórias, e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa onipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdidit, et plantasti eos: afflixisti populos, et expulisti eos (3): Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes, e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua et brachium tuum, et iliuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis (4): Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram, e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente, e a luz e o prêmio supremo de vosso beneplácito, com que neles vos agradastes e dele vos servistes. — Até aqui a relação ou memória das felicidades passadas, com que passa o profeta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confudisti nos, et non egredieris, Deus, in virtutibus nostris (5): Porém agora, Senhor, vemos tudo isto tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo, e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos: Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros; et qui oderuni nos diripiebant sibi (6): Os que tão acostumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos — que, como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas — e, perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum, et in gentibus dispersisti nos (7): Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Possuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his qui sunt in circuitu nostro(8): Não fora tanto para sentir, se perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta, a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente, com as vitórias o afronta, e o gentio, de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim dizem — se vivera um Dom Manoel, um Dom João, o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo profeta, no mesmo salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus et Deus meus, qui mandas salutes Jacob (9). O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire(10)e como Deus é o Rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus — e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes, Jacob — ele, que não se muda, é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista pois desta verdade certa e sem engano esteve um pouco suspenso o nosso profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema.

Exurge, quare obdormis Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum. Não prega Davi ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas, piedosamente atrevido, contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae (11)? — assim estranha Davi reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções da sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge, quare obdormis Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas infinem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis, — e por que se esquece da nossa miséria, e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae. E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lhe dê uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos, com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum.

Esta é — todo-poderoso e todo misericordioso Deus — esta é a traça de que usou para render vossa piedade quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos mais é o mesmo, que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens: mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes; a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. E este o último de quinze dias contínuos em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que, ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa, e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas, como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome: Propter nomem tuum: razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de argüir, vos hei de argumentar, e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós, e acusar as dilações de vossa justiça ou as desatenções de vossa misericórdia: — Quare obdormis, quare oblivisceris? — não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda, também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de argüir, a eficácia com que vos hei de apertar, e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

II

Exurge, quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus, e convencê-lo com razões, não só dificultoso assunto parece, mas empresa declaradamente impossível, sobre arrojada temeridade. O homo, tu qui es, qui respondeas Deo? Nunquid dicit figmentum ei qui se finxit: Quid mefecisti sic (Rom. 9, 20)? Homem atrevido — diz São Paulo — homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial põe-se às razões com ele, e diz-lhe: por que me fazes assim? — Pois, se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: Quare, quare? Como te atreves a argumentar com a Sabedoria divina, como pedes razão à sua providência do que te faz ou deixa de fazer: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a fé e o que deves a criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos; assim o protestamos diante de Vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum (12). Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade, e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos argüir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificatiombus nostris prosternimus preces ante faciam tuam, sed in miserationibus tuis multis(13). Os requerimentos e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que entrepomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus: de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor, quando é grande, sempre arrasta o afeto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer, seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascatur furor meus contra eos, et deleam eos (14). Não lhe sofreu porém o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo: põe-se em campo, opõe-se à ira divina, e começa a arrazoar assim: Cur Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum (Êx. 32,11)? E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo? — Por que razão, Moisés? E ainda vós quereis mais justificada razão de Deus? Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando, que está adorando um animal bruto, que está negando a divindade ao mesmo Deus, e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isto ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus? Sim, e com muito prudente zelo. Porque, ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne quaeso — dá a razão Moisés — ne quaeso dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interftceret in montibus, et deleret e terra (15). Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e quando menos em vossa verdade e bondade. Dirão que cautelosamente e a falsa fé nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos, e nos sepultardes. — E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egito, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém, logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo, e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne quaeso dicant. — Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo, e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et paenituit Dominus mali quod cogitaverat facere populo suo (Êx. 32, 14 ex text. Hebr.): E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomem tuum. Moisés disse-vos: Ne quaeso dicant: Olhai, Senhor, que dirão. — E eu digo, e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. — Já dizem os hereges insolentes, com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis, já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal porque não faltará quem o creia. Pois, é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege — o que treme de o pronunciar a língua — que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois. Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomem tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana que professamos é fé, e só ela a verdadeira e a vossa.

Mas ainda há mais quem diga: Ne quaeso dicant Aegyptii. Olhai Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem. E estes, que dirão? Que dirá o tapuia bárbaro, sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do Batismo, sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura de vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que paga haverá que se converta à fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no católico se castiga a nossa? Pois, se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices nas nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmos chamastes furor, e por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente ofendido do povo hebreu por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes, o que dizem os hereges e o que dirão os gentios não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram deus e deuses a um bezerro, e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?

Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Jó, quando despojados dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me, et opprimas me opus man um tuarum, et consilium impiorum adjuves (16)? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais? E aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência, e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós, e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois, se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aquele pérfidos, por que os ajudais a eles, e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur? A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?
 
 

 

III

Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses, a quem nos princípios as destes, e bastava dizer a quem as destes, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando dais, não vos arrependeis: Sine poenitentia enim sunt dona Dei (17)? Mas, deixado isto a parte, tirais estas terras àqueles mesmos portugueses, a quem escolhestes, entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. — E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo (Jos. 7,9)? E que fareis — como dizia Josué — ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus — que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis — queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvene dormiam, et si mane me quoesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quoesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. — O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.
 
 

 

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa fé, e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos tem ensinado que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc (20). Se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa Providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós, e tão diferente conosco? Quais foram estes convidados, e quais são estes cegos e mancos? Os convidados somos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e os calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois, se nós, que somos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes, em que pudéramos duvidar, se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluis agora, e lançais fora dela, e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa Providência e mudais as leis de vossa justiça conosco.

Aquelas dez virgens do nosso Evangelho, todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes, et dormierunt (21). E, contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as lâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então — que vós sois aquele esposo divino — por que não nos vale a nós também conservar as lâmpadas da fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as lâmpadas apagadas, e que as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, Senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal, que saiam dele no mesmo çaso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as lâmpadas se disse: Nescio vos (22),se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua (23), quem merece ouvir de vossa boca um nescio vos tremendo, senão o herege que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhes retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade. Desta vossa cidade, disse, mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao céu a nossa justa dor, sem vossa demência dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia. Vistes vós também — como se o vísseis de novo — aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade, com tão intrínseca dor: Tactus dolore cordis intrinsecus (24), que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequaquam ultra maledicam terrae propter homines(25). Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais; não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo — que é o que mais sente a piedade cristã — também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo(26). Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas como nos campos, não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem (27). Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses, e chegaremos a estado, que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: — Menino, de que seita sois? — um responderá: — Eu sou calvinista — outro: Eu sou luterano. — Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me (Jo. 21,15 s)? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é — que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas — se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento, e imprimindo nele o caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo, desde aquele mesmo dia, vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum (28)e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Poenituit eum quod hominem fecisset in terra(29)e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Poenitet me fecisse eos (30)e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem, pois essa é a causa por que logo, desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa Sabedoria e Providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Poenitet me fecisse. Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina, e a altíssima razão de estado de vossa Providência, não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento, e sendo também certo, nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias, mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso Corpo e Sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

V

Chegado a este ponto, de que não sei, nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir e convencer destas nossas razões, senão que está clamando, por outra parte, vossa divina justiça, e, com o sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes estes mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo, dado por vós mesmo, para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomem tu um. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim (Sl. 24, 11): Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo — dizia Davi — que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes: Multum est enim. — Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência, que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus, que são muitos e grandes? Sim, e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual, quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é, e mais engrandece e exalta seu santíssimo nome: Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão; a grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum (31). E como a grandeza da misericórdia divina é imensa, e a multidão de suas misericórdias infinitas, e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar, para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes, e à mesma multidão das misericórdias que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae(32)?

Esta mesma razão vos pediu Jó, quando disse: Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam (33)? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que argüisse por vossa parte, enfim se deu por vencido, e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deli quit, non miseretur? — diz São Cirilo Alexandrino. Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades, e com as mesmas palavras pedis razão a Deus porque as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois, se dais a razão, por que a pedis? Porque ainda que Deus, para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habei, obquam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir — responde por ele o mesmo santo que o argüiu — porque se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes, com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi (34)? Como se dissera: — Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer como Deus em me perdoar? — Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? Pequei, que mais vos posso fazer? — E que fizestes vós, Jó, a Deus em pecar? — Não lhe fiz pouco, porque lhe dei ocasião a me perdoar, e, perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer, e ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença nem encarecimento, se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas vossas ações, não digais que nos não perdoais porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes, porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e de tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la, e que grande glória foi de vossa onipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur; ostendis potentiamt (35). Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatot: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas, et destruas, et disperdas, et dissipes, et aedifices, et plantes (36). O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas, mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e, sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória vossa: Propter magnam gloriamtuam: Perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomem tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso profeta: Deus, judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies (37)? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias, nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos, e tantos anos? Sei eu, legislador supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima lei que não passe de um dia, e que, antes de se pôr o sol, tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram (38). Pois, se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós que sois Deus infinito, e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça, cuidei eu que vos chamavam as Escrituras (Mal. 4,2), porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a terra e os homens, mas com o que dirá o céu e o mesmo sol. Quando Josué mandou parar o sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou foram não que parasse, senão que se calasse: Sol, tace contra Gabaon (39). Calar mandou ao sol o valente capitão, porque aqueles resplendores amortecidos, com que se ia sepultar no ocaso, eram umas línguas mudas, com que o mesmo sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o céu lhe lembrava a lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma lei, ordenou que o sol parasse, e aquele dia — o maior que viu o mundo — excedesse os termos da natureza por muitas horas, e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo, mas esteja o sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia. Pois, se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa lei, se fazeis milagres, e tais milagres, para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o sol, por que se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo sol não parado nem emudecido? Que quereis que diga a lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Caeli enarrant gloriam Dei (40)?

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomem tuum. Se o sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o sol por que lhos não estranhe, como pode estranhar vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos, continuados não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois sol, e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios, que se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos, e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos, desde esta hora, perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nosiris. Amen (41).
 

(1) Levanta-te, por que dormes, Senhor? Levanta-te e não nos desampares para sempre. Por que apartas teu rosto, e te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, Senhor, ajuda-nos, e resgata-nos  por amor de teu nome (Sl. 43,23,24,26).

(2) Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: nossos pais nos anunciaram a obra que fizestes nos dias deles e nos dias antigos (Sl. 43,2).

(3) A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a eles; a afligiste os povos, e os lançaste fora (Sl. 43,3).

(4) Porque não com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou, senão a tua destra, e o teu braço, e aluz do teu rosto, porque te comprazeste neles. (Sl. 43,4).

(5) Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão, e tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos (Sl. 43,10).

(6) Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos, e que fôssemos presa dos que nos tinham em aborrecimento. (Sl. 43, 11).

(7) Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro, e nos espalhaste entre as nações (Sl. 43,12).

(8) Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós (Sl. 43,14).

(9) Tu mesmo és o meu rei, que dispões as salvações de Jacó (Sl. 43,5).

(10) Quero estabelecer em e na tua descedência o meu império.

(11) Senhor, a ti não se te dá? (Lc. 10,40).

(12) Tu és justo, Senhor, e é reto o teu juízo. (Sl. 118, 137).

(13) Não fazemos estas deprecações fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. (Dan. 9,18).

(14) Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles, e que eu os consuma. (Êx. 32,10).

(15) Não permitas, te rogo, que digam os egípcios: Ele os tirou do Egito astutamente para matar nos montes, e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(16) Porventura parece-te bem caluniares-me e oprimires-me a mim que sou obra das tuas mãos, e favoreces o desígnio dos ímpios. (Jó 10,3).

(17) Porque os dons de Deus são imutáveis. (Rom. 11,29).

(18) Eles os tirou do Egito astutamente para os matar e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(19) Virgil.

(20) Traze-me cá os cegos e os coxos. (Lc. 14,21).

(21) Começaram a toscanejar todas, e assim vieram a dormir. (Mt. 25,5).

(22) Não vos conheço (Mt. 25,12).

(23) Fechou-se a porta (Mt. 25,10).

(24) Tocado interiormente de dor. (Gên. 6,6).

(25) Não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens (Gên. 8,21).

(26) O flagelo não apriximará à tu tenda. (Sl. 90,10).

(27) As ruas de Sião choram, porque não há quem venha às solenidades. (Lam. 1,4).

(28) E viu Deus que isto era bom. (Gên. 1,10).

(29) Pesou-lhe de ter criado o homem na terra. (Gên. 6,6).

(30) Porque me pesa de os ter feito. (Gên. 6,7).

(31) Segundo a tua grande misericórdia, e segundo as muitas mostras da tua clemência. (Sl. 50,3).

(32) Por que dormes? Por que apartas teu rosto? Por que te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? (Sl. 43,23s).

(33) Por que não me tiras o meu pecado, e por que não apagas a minha iniqüidade (Jó 7,21)?

(34) Pequei, que te farei eu? (Jó 7,20).

(35) Contra uma folha, que é arrebatada ao vento, ostentas o teu poder. (Jó 13,25).

(36) Eis aí te constituí sobre as gentes e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, e para arruinares e dissipares, e edificares e plantares. (Jer. 1,10).

(37) Deus, juiz justo, forte e paciente, ira-se acaso todos os dias? (Sl. 7,12).

(38) Não se ponha o sol sobre a vossa ira. (Ef. 4,26).

(39) Sol detém-se sobre Gabaon. (Jos. 10,12).

(40) Os céus publicam a glória de Deus. (Sl. 18,1).

(41) Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. (Mt. 6,12).