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ma leitura de “A história de Bernarda Soledade – a tigre do sertão” de Raimundo Carrero.

por Renato Lima

1. Resumo

Uma filha durona que resolveu saquear e roubar as terras adjacentes à sua fazenda, conhecida como Puchinãnã. Inclusive a do seu tio Anrique. Este volta liderando um grupo de desalojados, diz que vai trabalhar com o irmão, coronel Militão Soledade, mas mata-o e planeja seduzir e depois destruir sua filha Bernarda Soledade, a origem de todo o mal. Este enredo, do romance “A história de Bernarda Soledade – a tigre do sertão”, o primeiro de Raimundo Carrero, com então 25 anos, revela que é do mesmo autor da obra “O amor não tem bons sentimentos” (Iluminuras, 2007).

Nada de romance açucarado: Carrero tem é desajuste para mostrar. Suas temáticas são fortes, do primeiro ao mais recente trabalho. Quem o conhece como pessoa, e não sua literatura, surpreende-se como figura tão doce e afável se transforma tanto quando artista. Quem conhece os dois Carreros, logo imagina que ser humano complexo se esconde por trás da vasta barba branca…

A história se desenrola em dois planos: o do tempo presente, das mulheres Gabriela (mãe), Bernarda e Inês (irmãs) e o do passado, contando a história de Puchinãnã. O primeiro é sinalizado em capítulos por numerais romanos, o segundo em ordem alfabética.

Todo o tempo presente é dado numa noite e início de dia. Nesse período, uma chuva forte, que atiça os cavalos a relincharem, faz as irmãs e a mãe a temerem pelo pior. Falam em volta dos mortos. E aí se explica quem morreu e como. Sem quê nem porquê, apenas como se fosse uma fonte louca de desejo por poder, Bernarda Soledade desejou expandir os domínios de sua fazenda para muito além, conquistando terras alheias e caçando animais selvagens na localidade. Mesmo sem o apoio do pai, ela comandou homens que avançaram sobre essas terras, deixando muitos incomodados. Estes organizam uma reação, capitaneada por Anrique, tio de Bernarda. Anrique se aproxima da fazenda dela, dizendo que quer trabalhar lá como adestrador de animais (uma função que era exercida pela própria Bernarda). Mas, na verdade, planejava matar Militão Soledade, seu irmão, desvirginar Bernarda e acabar com a fazenda Puchinãnã.

Bernarda é mulher de nascença, mas homem de atitude. Nenhum traço de feminilidade nos revela Carrero em sua protagonista. Assim ela justifica a tomada das terras e de animais: “- Naquelas matas, vamos caçar muitos cavalos. Em Puchinãnã, falta um homem de músculos fortes. Poderia sair do meu ventre. Entretanto, não passo de uma mulher seca. Nenhum homem quis pousar sobre o meu corpo alvo. E os cavalos serão a presença do macho”. Decidida, auto-suficiente e sem sentimentos, assim é Bernarda.

Já trabalhando na fazenda, Anrique mata o irmão enforcado, numa morte, para os outros, misteriosa. Depois vai planejando tudo até que decide se bandear para o lado da sobrinha, logo depois de possuí-la no curral. “Anrique, pequeno e feio, próprio para a domação de animais”, descreve o autor, seria o homem perfeito para tirar a virgindade de Bernarda. “E era assim mesmo que ela desejava um homem. Um homem que fosse, ao mesmo tempo, o domador e o animal, para que sentisse domada e domadora. [...] Ele a beijou nos cabelos, na testa, no busto. Foram brutos, mais brutos que as feras.”

Após o sexo no curral, Anrique conta que tudo fazia parte de uma trama, de revoltosos com a dominação de Bernarda sobre a terra dos outros. E que estes a chamam de tigre. Mas, em vez de dar cabo ao plano e destruir Puchinãnã, Anrique propõe destruir os líderes da revolta. Para isso, teria que voltar a Santo Antônio do Salgueiro na mesma noite, junto com guerreiros armados, e matar os principais líderes – que esperavam Anrique para fazer a destruição da fazenda. “- Pois é, minha gente, não sou mais o chefe dos rebeldes. Não cometo nenhuma traição, porque estou ao lado do meu sangue. Agora, ouçam bem: todos os rebeldes, bem armados, estão na praça do povoado. Aguardam-me para as últimas instruções. Acreditem em mim, confiem em mim. Vamos matar, pelo menos, os quatro chefes mais importantes, os que provocaram e traçaram a rebeldia”, prega.

A matança se dá na cidade, sendo Pedro Lucas, filho de Lucas Geremias (um dos maiores rebeldes) um dos poucos a sobreviver por parte dos revoltosos. Anrique e Bernarda voltam como vitoriosos para Puchinãnã. Mas o desejo de vingança cresce dentro da população de Salgueiro.

Pedro Lucas jura vingar a morte do seu pai e ele tinha contatos com Puchinãnã. Havia namorado Inês Soledade e costumava tomar banhos nus com ela à noite. Ainda que, segundo Carrero, não fizesse nada além de beijar seus cabelos e seios, embora estivessem nus, em alta madrugada, sozinhos…

Pedro Lucas convence Inês Soledade a se vingar de Anrique, tio que virou amante de sua irmã e que já havia matado o seu pai. Inês topa e armam um plano. Ela iria chamar Anrique para um de seus banhos, em alta madrugada, insinuando que se entregaria para o tio, assim como fez Bernarda. O chamado era uma emboscada, pois Pedro Lucas estava preparado para matar Anrique e seu belo cavalo, Imperador, além de destruir Puchinãnã. Só depois de matar o tio e seu cavalo e deixar outros rebeldes atacarem a casa grande da Fazenda, é que ele procura Inês Soledade para um sexo brutal, algo próximo de um estupro. A casa grande é derrotada. O mundo de dominação de Puchinãnã morre, sem Anrique e com os outros funcionários fugindo. Bernarda ainda dá a luz a uma filha, fruto do relacionamento com o tio, já morto. A filha também não dura muito tempo viva.

No plano do presente, a narrativa inteira se dá numa noite de muita chuva. A mãe, Gabriela Soledade, fica louca após a morte do coronel, e toda hora imagina que o seu noivo virá, e fará muitas festas. Enquanto a mãe delira, Bernarda dá ordens, manda rezar, mostra-se uma mulher seca. Inês faz um bordado. No meio da madrugada, em más lembranças, Bernarda vai até o local em que enterrou sua filha, que morreu muito cedo, e foi sempre rejeitada. Bernarda queria um homem para cuidar de Puchinãnã e não mais uma mulher. Inês disse que o destino de Puchinanã era ser cuidado por mulheres, mas Bernarda rejeitava. Até esta noite, no meio da chuva e desespero, ir pedir desculpa ao corpo de sua filha.

Inês sai à procura de Bernarda e, quando as duas voltam para casa, a mãe tinha saído. Encontram-na depois no curral, pisada por cavalos. Bernarda diz que não vai enterrar sua mãe, mas deixar ela apodrecer dentro de casa. Pouco depois, Inês entra em trabalho de parto (embora escondesse da própria família que estava grávida da única vez que fez sexo, com Pedro Lucas – ô homem azarado) e tem o filho sozinha. É um homem, informa Bernada, que depois vem acudi-la. Ela aproveita e joga o menino num rio. Apenas informa a irmã, sem protestos por parte dela, de que agora não queria nenhum homem em Puchinãnã.

2.O enredo de sangue não anula as incoerências e estranhezas do romance.

 A linguagem é por vezes altamente artificial. Diálogos muito rebuscados, coisa mais fácil de imaginar entre juízes do STF do que entre sertanejos na brenha de Salgueiro. Inês, por exemplo, ajuda Bernarda no parto de sua filha. Ao ver a agitação da irmã, num parto no meio do mato, pede para que ela se cale. Isso seria o normal, mas o autor usa: “- Peço-lhe que não fale, Bernarda. Está saindo muito sangue”. E logo depois: “- Ajuda-me, Bernarda. Ajuda-me. Faça força”, diz. Isso é o que é dominar colocações pronominais… Algo que simplesmente não é da nossa tradição nem da força do momento, em pleno trabalho de parto e sem nenhuma ajuda. Outro exemplo: o que na região se entende por capangas ou jagunços, o livro refere-se a “guerreiros” ou “rebeldes”, como se falasse de uma guerra medieval. Só faltou mostrar um cavaleiro das cruzadas…

 Se a vingança de Pedro Lucas e mesmo a traição de Anrique, que preferiu continuar em Puchinãnã, são formados do ingrediente que constitui o humano (raiva, ambição, lealdade de sangue, etc), o mesmo não se pode dizer do fato de Inês ver sua irmã matar o seu filho e ficar calada. Ou do pai, coronel Militão Soledade, que só pedia uma fazenda para ver passarinhos ficar inerte aos desmandos e desejos de ambição da filha, Bernarda, que avançou sobre as terras dos demais homens. Entre outras incoerências e erros menores.

Tais opções podem ter origem no fato deste romance ser enquadrado como armorial, uma mistureba de idéias inspirada por Ariano Suassuna, mas que não possuem um norte definidor claro. A única certeza é que se devem misturar raízes ibéricas com a tradição regional. Regional por regional teríamos um José Lins do Rêgo, podem dizer alguns. Mas esse tipo de diálogo, presente em “Bernarda Soledade” é mais artificial do que armorial – ou um é próximo ao outro. Mas esta era uma obra de um jovem autor, 25 anos, ainda sobre o peso de um movimento recém lançado. Mas que mostra que muito do que exibe o autor consagrado hoje já possuía o estreante. Atualmente, sem o peso de um mestre – a quem ele é muito grato – e a consagração de outros tantos títulos publicados, dando brilho próprio mais do que merecido.

 

Fonte: http://www.cafecolombo.com.br/2007/09/09/bernarda-soledade-de-raimundo-carrero/