ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Lavoura Arcaica - Raduan Nassar - resumo e um estudo

O enredo da obra "Lavoura Arcaica" se constitui numa trama dos costumes de uma família onde é mostrado a fuga de André, um adolescente que sempre fora criado na fazenda sob um duro modelo educativo passado por seu pai, o chefe do modelo familiar.

Tal fuga de casa pode ser entendida pelo grande amor que André sentia por Ana, sua própria irmã. Paixão esta que nunca poderia ser compreendida por seu pai. Assim, ele foge para um vilarejo.

A reação de Pedro, seu irmão mais velho, foi a de ir até a pensão onde ele estava e tentar trazê-lo de volta para sua casa na fazenda, onde sua mãe o esperava com ansiedade, sofria bastante com seu filho longe.

Ao achar André, Pedro começou a contar sobre os acontecimentos que estavam ocorrendo na fazenda sem ele. O irmão o recebeu contando lições sobre questões e preceitos da família como a história de um homem faminto que pediu comida. Demonstrou seus pensamentos, apesar de pouca idade acreditava que não valia a pena esperar em algum momento, em certas ocasiões era necessário agir, e logo. Contudo, nada disse sobre sua volta à fazenda.

Suas irmãs apenas rezavam para sua volta, cumpriam as ordens do pai e da mãe, e esta última apenas cumpria com suas funções de dona de casa.

André acaba voltando para casa, suas idéias não batiam com as dos pais que não entendiam a que se passava com o filho. E ele não aceitava a situação de amar a irmã e nada poder fazer. Porém desabafou ao pai que estava cansado, humilde, entendendo a solidão e a miséria, pedindo o seu perdão e amor.

Seu outro irmão, o Lula, acaba dizendo que também queria fugir de casa, que não agüenta mais aquela vida parada da fazenda.

No dia seguinte à chegada de André foi preparada uma festa por seu pai. E assim como iniciou a obra sua irmã Ana dança sensualmente para ele. Foi nesta festa que o pai percebeu o que realmente passava com os irmãos. Desesperado o pai sofre um ataque de tristeza e morre.

Lavoura Arcaica traz uma narrativa pesada, cheia de confusões; protestos; abstenções; amor de irmão com irmã deixando a narrativa ostensiva e cansativa. André se vê diferente de todos que cheio de pressões resolve fugir de casa, fato que remonta bem à narrativa bíblica do filho pródigo.

A obra é dividida em três partes: a Partida, o Retorno e a Terra. A linguagem é também o instrumento que, com seu rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades sociais pensadas como irremovíveis e a estrutura familiar.

Lavoura Arcaica é um texto onde se entrelaçam o novelesco e o lírico, através de um narrador em primeira pessoa. André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. Lavoura Arcaica é sobretudo uma aventura com a linguagem.

 

Crítica de Pablo Villaça do site Cinema em Cena (http://www.cinemaemcena.com.br)

Dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Com: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Caio Blat, Renata Rizek, Christiana Kalache, Mônica Nassif, Pablo César Câncio e Leonardo Medeiros.

Lavoura Arcaica é uma belíssima poesia de 2 horas e 45 minutos de duração. Dirigido com magistral sensibilidade por Luiz Fernando Carvalho, este é um filme que consegue ser corajoso e inovador sem tornar-se hermético. Ao contrário: como toda boa poesia, ele permite várias leituras diferentes, apostando na inteligência do público, que é levado a fugir da postura de espectador passivo e a assumir uma atitude mais ativa, participativa.

Adaptação fiel do livro homônimo do paulista Raduan Nassar, Lavoura Arcaica gira em torno de André (Mello), que, esmagado pelos próprios impulsos sexuais e ambições de liberdade (condenados pela conservadora comunidade em que vive), mergulha em um implacável cotidiano de auto-flagelação espiritual, renegando a própria 'impureza', mas ciente, de alguma forma, de que tem o direito de exprimir seus desejos – o que o leva a fugir de casa. Aliás, o filme já começa com uma cena forte em que vemos o protagonista aparentemente se masturbando (digo 'aparentemente' porque, pouco mais tarde, descobrimos que ele também poderia estar sofrendo convulsões resultantes de um ataque epiléptico – o que já ilustra um dos temas do filme: a tríade 'prazer-pecado-castigo').

Para contar esta história, Luiz Fernando Carvalho utiliza sua câmera de maneira diligente, mergulhando na psique dos personagens e ilustrando o estado emocional em que estes se encontram (através de distorções na imagem, por exemplo). Ainda seguindo esta estratégia, o talentoso cineasta abusa dos closes fechadíssimos, como se procurasse investigar, através da proximidade com o rosto dos protagonistas, a própria alma destes. Além disso, Carvalho se revela um verdadeiro pintor, criando composições de quadro maravilhosas – sendo auxiliado, nesta tarefa, pela ótima fotografia de Walter Carvalho.

Apesar de seu ritmo pausado, calmo, Lavoura Arcaica jamais deixa de surpreender o espectador graças às inúmeras maneiras que encontra para expressar, através de imagens, todos os sentimentos e intensos conflitos morais/psicológicos experimentados por seu trágico herói. Um belo exemplo pode ser encontrado na cena em que o rapaz se entrega a uma prostituta: em primeiro plano, vemos a sensual e serpenteante fumaça de um cigarro que se queima, enquanto, ao fundo (e fora de foco), o casal de amantes se entrega ao sexo. A riqueza desta tomada impressiona por sua simplicidade, já que ilustra, simultaneamente, a ânsia sexual de André (o fogo do desejo) e seu castigo por fugir do que pregam seus valores (o fogo do inferno).

Até mesmo a paixão desmedida do protagonista pela Natureza revela-se, com o tempo (e logicamente), como um símbolo de sua própria natureza pessoal, de seus próprios impulsos – não é à toa que, embevecido pela visão da dança de Ana (Spoladore), ele tira os sapatos e mergulha os pés na terra fofa (gesto que se repete em diversas ocasiões). A metáfora de sua comunhão com a N(n)atureza, aliás, também é brilhantemente representada na seqüência em que vemos, em ações paralelas, o André-criança capturar uma pomba, enquanto o André-adolescente consuma sua obsessão por Ana (o que ocorre, apropriadamente, em um aposento cujas janelas são bloqueadas por grades). E concluir a representação deste ato sexual proibido com a forte imagem de um arado cortando impetuosamente a terra é a decisão perfeita. (Antes que alguém critique meu 'liberalismo' com relação ao incesto cometido pelo casal, devo dizer que, em minha opinião, este é meramente um recurso dramático que Nassar utilizou para frisar seu ponto de vista: massacrado pelo extremo da repressão, André obviamente se rebela através do extremo da profanidade).

Esta polarização entre liberdade e repressão, simbolizada pelo conflito Natureza-Religião, acaba resultando na cena mais importante de todo o filme, quando André, desesperado pela rejeição, profere um violento discurso em frente a um pequeno altar, postando-se entre a imagem de uma santa (Religião) e um vaso de flores (Natureza) – num retrato vivo de seu conflito interior (o mais interessante, no decorrer da cena, é observar o destino do vaso). Igualmente curiosa é a frase que o rapaz diz ao confrontar a amada: 'O teu amor, pra mim, é o princípio do mundo' – que também representa este dilema ao substituir a Gênese (Religião) por seu amor (Natureza).

Representações gráficas à parte, o fato é que o roteiro, escrito pelo próprio Luiz Fernando Carvalho, também conta com diálogos fortes e igualmente poéticos, como a explicação de André sobre a disposição, à mesa, dos membros de sua família ('O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava, fosse uma protuberância mórbida pela carga de afeto'). Destaca-se, também o amargurado confronto entre pai e filho que ocorre no ato final do filme – único momento em que o conflito é claramente vocalizado (e soberbamente interpretado por Selton Mello e Raul Cortez, numa cena repleta de cuspe e lágrimas).

Por incrível que pareça, até mesmo o título deste filme se presta a interpretações: no início da projeção (e no cartaz), ele é grafado como LavourArcaica, ou seja: entre a 'lavoura' (Natureza) e o 'arcaico' (o Conservadorismo, a Repressão), espreme-se o protagonista da história (cujo nome, André, se inicia com a letra 'a'). Talvez eu esteja apenas divagando, é verdade, mas Lavoura Arcaica é uma obra que nos obriga a refletir, que nos impele a estudá-la. E, como eu disse em meu artigo sobre o belo Magnólia, não é maravilhoso quando um filme nos provoca desta maneira?

P.S.: Alguns críticos defenderam a exclusão de Lavoura Arcaica como candidato brasileiro ao Oscar 2002, alegando que seu ritmo lento afastaria os votos dos membros da Academia, diminuindo suas chances de vencer o prêmio. Minha opinião? Deveríamos pensar menos no que os americanos 'gostariam' de ver e mais no que nosso Cinema tem de bom a oferecer. Talvez Lavoura Arcaica realmente não recebesse a indicação, mas, ao menos, poderíamos sentir um profundo orgulho de provar, de uma vez por todas, que nossa 'indústria' é capaz de produzir verdadeiras obras-primas.

21 de Novembro de 2001

 

(Apostila 46 de Lit. brasileira Contemporânea)