ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Plínio Marcos - Abajur Lilás - sinopse e 4 estudos

Personagens:

Dilma: prostituta que tem um filho. O filho não mora com Dilma.

Giro: dono do prostíbulo, homossexual assumido, controla com rigor o rendimento das prostitutas.

Célia: outra prostituta.

Leninha: outra prostituta.

Oswaldo: capanga de Giro, gosta de torturar as prostitutas que tentam enganar Giro.

Sinopse: Quando o abajur novo, lilás, de Giro é quebrado, as três prostitutas são as suspeitas imediatas. Oswaldo acaba, a mando de Giro, torturando as três. Como ninguém entrega quem foi, Giro resolve descontar o custo do abajur do trabalho das prostitutas. Logo depois, Célia, com raiva, quebra mais alguns objetos no quarto. Nova sessão de tortura. Depois de longa sessão de tortura, Leninha acaba entregando que foi Célia que quebrou o abajur e outros objetos. Oswaldo atira e mata Célia. As outras duas prostitutas, chorando são obrigadas a se arrumarem para continuar o trabalho de prostitutas.

 

Crítica de ALBERTO GUZIK

REVISTA ISTOÉ - 16/7/1980

No Abajur Lilás está um momento de plena maturidade de Plínio Marcos. A peça apresenta uma conjugação equilibrada de qualidades na dialogação, na elaboração da trama, no desenho dos caracteres, na estrutura da ação. Obra poderosa, concebida como um crescendo de violência desfechado em lances implacáveis, O Abajur Lilás se destaca como realização particularmente bem-acabada na dramaturgia brasileira. O texto foi construído dentro do realismo que se transformou, ao longo dos anos, em marca registrada do autor.

As cores da peça são sombrias. As personagens se tornam tanto mais ferozes quanto mais inevitável fica a constatação do desespero de sua visão. Mais do que qualquer outra peça de Plínio, emana de O Abajur uma carga irresistível de emoção. O embate entre as prostitutas, o homossexual cafetão e seu guarda-costas começa na ironia e assume proporções avassaladoras que incluem a tortura e o assassinato. As personagens agem compulsivamente e a obsessão de sobrevivência ou desafio que as anima confere-lhes a estatura de mitos. Mitos modernos, esquálidos, asquerosos. E da obra toda emana igualmente um canto de piedade e amor de Plínio pelos deserdados, marginalizados, espezinhados.

O espetáculo dirigido por Fauzi Arap e muito bem produzido pelo dinâmico Antônio Fagundes é ágil, fluente e adequadamente opressivo.

O cenário de Tawfik e Vigna evoca com precisão a sordidez necessária à montagem. A interpretação de Walderez de Barros é excelente. Bons os trabalhos de Cláudia Mello e Annamaria Dias. Zé Fernandes, um ótimo ator, é que parece não ter encontrado o tom necessário a Giro, o explorador, virtual protagonista da obra. Sua atuação parece vaga, sendo difícil discernir a visão que o ator tem da personagem. Afora esse óbice, o espetáculo é irresistível. Uma montagem apaixonada de um texto que, por direito de nascença, merece lugar entre os melhores da nossa dramaturgia.

 

Crítica de SÁBATO MAGALDI

O Estado de São Paulo, 19/7/1980

UM CONTUNDENTE VEREDITO CONTRA O PODER ILEGÍTIMO

De todas as peças que analisaram a situação brasileira pós-1964, O Abajur Lilás, em cena no Teatro Aliança Francesa, se distingue certamente como a mais incisiva, dura e violenta. Plínio Marcos fundiu nela, mais do que em outras obras-primas, como Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, talento e ira. A estrutura do Poder ilegítimo está desmontada, para revelar, com meridiana clareza, seu ríctus sinistro.

O grande achado de Plínio foi ter criado uma história que se basta em si mesma, autêntica na sua crueza. Têm uma verdade inconfundível as relações entre Giro, proletário homossexual do prostíbulo, seu truculento auxiliar Oswaldo, e as prostitutas Dilma, Célia e Leninha. Embora cada personagem exerça uma função específica na trama, acompanhando de perto modelos sociais mais amplos, não se sente que Plínio tenha feito exercício de laboratório. O microcosmo de Abajur Lilás tem validade própria, impondo-se pela correta psicologia e observação humana, a que a linguagem adequada empresta o justo tom realista.

Na sede de poder, que garante a segurança econômica, Giro tenta explorar ao máximo as três prostitutas. Por meio delas, Plínio mostra algumas formas de comportamento em face do mando. Dilma é acomodada, porque tem um filho para criar e teme as represálias. Leninha pensa obter vantagens, pelo espírito conciliador, mas faz na verdade o jogo de Giro e chega à delação. Célia é a revoltada irracional, que explode loucamente o desejo de vingança, sem pensar em meios e conseqüências. Oswaldo serve aparentemente a Giro, mas, ressentido com a própria impotência, se entrega ao prazer sádico de torturar as prostitutas.

O quadro está completo, as forças se desencadearem, Abajur Lilás existe como vigoroso documento humano, sem falsificações de nenhuma espécie. Plínio não sucumbiu ao lugar-comum de pintar uma prostituta boazinha, vítima da sociedade. Na áspera luta pela sobrevivência, elas se trucidam tanto quanto desejam ver-se livres do explorador. O texto contém a amarga realidade dos seres que se agitam na imanência, distantes de uma vida transcendente. Agudo diagnóstico de um dramaturgo que se intitula “repórter de um tempo mau”.

Em nenhuma outra peça brasileira atual, porém, o microcosmo retratado remete, como em Abajur Lilás, ao macrocosmo de uma certa situação política, vivida nos últimos anos. A leitura metafórica do texto enriquece-o de outras implicações, servindo como desnudamento de um período de terror. Basta uma pequena analogia para essa história simbolizar posturas determinadas, que marcaram o procedimento de expressivas camadas de nossa sociedade.

Pode-se argumentar que Plínio retratou apenas os relacionamentos negativos, deixando de incluir no elenco uma prostituta que, de forma lúcida e positiva, se opusesse a Giro. Deve haver, por certo, uma saída racional para esse universo sufocante. Não se esboçou uma luta inteligente contra o arbítrio do explorador.
Talvez Plínio tenha fugido a essa opção pelo seu seguro instinto de dramaturgo. A peça correria o risco, introduzindo o elemento positivo, de parecer reação de laboratório. Em ficção, as mensagens explícitas assemelham-se sempre ao escotismo intelectual. E Plínio perderia a sua característica mais genuína, que é a de definir-se como um autor de denúncias, que incomodam as consciências apaziguadas. Abajur Lilás expõe sem véus um abcesso. A outros a tarefa de curá-lo.

A produção de Antônio Fagundes e Clarisse Abujamra recebeu os maiores cuidados. O espetáculo mostra um perfeito acabamento profissional. O diretor Fauzi Arap esmerou-se em todos os pormenores, da linha dos desempenhos à iluminação. Ao mesmo tempo que não omite um dado realista, ele transcende-o pelo requintado trabalho artístico. Ritmo, energia, verdade interior valorizam permanentemente a encenação, uma das mais felizes assinadas por Fauzi Arap.
Walderez de Barros apreende todas as intenções de Dilma. Sua criação é pungente, por exprimir a profunda miséria humana que tenta superar-se através de um mito, no caso o filho. Annamaria Dias consegue retratar a desrazão revoltada de Célia. Cláudia Mello sugere o “jeitinho” de Leninha. (Não seria, talvez, uma experiência curiosa Annamaria e Cláudia se revezarem nos papéis?) Zé Carlos Cardoso preenche perfeitamente, como Oswaldo, a função de força bruta. José Fernandes de Lyra atinge um bom resultado como Giro, embora através de meios intelectuais e não emotivos. Na mesma linha de acerto do espetáculo, os cenários e figurinos de Vigna e Tawfik, e a sonoplastia de Tunika.
O Conselho Superior de Censura tomou, há pouco, uma decisão histórica, ao liberar Abajur Lilás, juntamente com Barrela, que estava interditada há 21 anos. O palco brasileiro está podendo apresentar, por fim, o autor mais proibido das últimos tempos e, no seu caso, fica patente que a fama não nasceu dos equívocos da Censura, mas de um real merecimento. A montagem de Abajur Lilás, ao lado de seu valor artístico, se tornará sem dúvida também histórica, por ser o mais contundente veredicto a propósito de um regime.

 

Crítica de CLÓVIS GARCIA

O Estado de São Paulo 09/07/1980

Linguagem livre, em Abajur Lilás

A estréia a peça de Plínio Marcos, “O Abajur Lilás” em cartaz no Teatro Aliança Francesa, tem, antes de mais nada a importância simbólica de uma vitória, pois a sua proibição em 1975 suscitou todo um movimento da classe teatral e de várias entidades culturais. Por coincidência, também “Barrela”, a primeira peça do autor e também proibida, acaba de estrear. Vitória apenas parcial pois, como todos sabemos, a censura econômica, como o teatro vendo todas as suas verbas suspensas, sendo uma arte deficitária em todo o mundo pelo que os países dirigidos com um pouco mais de inteligência destinam subvenções às suas atividades.

Plínio Marcos tornou-se um dos representantes mais característicos das vítimas da repressão, pois houve um momento em que todas as suas obras estavam proibidas. Mas, independentemente desta notoriedade, sua produção teatral, pelas suas próprias qualidades, lhe dá um lugar de importância entre os dramaturgos brasileiros.”Abajur Lilás” conserva todas as características do autor, desde a localização do conflito na faixa marginal da sociedade, a linguagem livre dos personagens, às intenções simbólicas mais amplas de retratar as relações de poder. De fato, numa primeira visão, o que temos é um teatro realista, quase naturalista, em que a realidade do meio é mostrada sem qualquer disfarce ou seleção de fatos. Mas, numa segunda leitura, verificamos que o retrato é das relações entre explorador e explorado, que caracterizam as estruturas sociais dominantes. E, ainda, podemos encontrar um sentido mais profundo, da condição humana, que se corrompe sempre que assume o poder sem restrições. Se o dono do “mocó” exerce sua tirania apoiado, desta vez, na força bruta do personagem “Oswaldo”, também as prostitutas se digladiam, cada uma representando um tipo de reação ao arbítrio; a que tenta reagir desordenadamente e sonha com a sua independência, sendo destruída, a que se procura adaptar para não perder o mínimo de que dispõe, submetendo-se a tudo, e a individualista, sobrevivendo por pequenas espertezas. Por isso não conseguem reagir adequadamente e se libertar na exploração.

 

Fauzi Arap dirigiu a peça dentro da linha realista, apelando para a forma expressionista apenas na morte de “Célia”, e marcando certos momentos em que os personagens se dirigem à platéia, num distanciamento épico. Esse distanciamento se encontra na interpretação de José Fernandes de Lyra, adotando um tom único que por vezes é cansativo. Walderez de barros, uma das nossas melhores atrizes e que, estranhamente, ainda não teve o reconhecimento que merece, está esplêndida, secundada por Annamaria Dias e Claudia Melo, num cenário realista e figurinos de Vigna e Tawfik.

 

 

Crítica de CLÁUDIO PUCCI

Folha de São Paulo 12/07/1980

O ser humano à luz de um abajur lilás

Um atentado à moral e os bons costumes. Foi isso que a censura fez ao proibir em 75 “O Abajur Lilás” de Plínio Marcos, agora em cartaz, sem cortes, no Teatro Aliança Francesa da rua General Jardim. Porque não há moral que se pretenda humana, que possa rejeitar, como quem limpa as caspas no ombro, o conhecimento do ser faz parte dos bons costumes, pelo menos democráticos, deixar que adultos decidam, sem nenhuma “proteção” policial, o que querem ou não querem ver, por exemplo, no teatro.
“O Abajur Lilás”, vítima desse atentado (não é a única), não é a mera reportagem do submundo e suas relações de poder, expostas pela narração da história “banal” de três prostitutas (Dilma, Célia e Leninha) dominadas e exploradas por um homossexual (Giro) com a ajuda, decisiva, de seu imponente e violento guarda-costas (Osvaldo). “O Abajur Lilás” não é também a alegoria da situação política brasileira do fim dos anos 60 (a peça foi escrita em 69) sob a escalada da repressão. “O Abajur Lilás” é uma reflexão em forma de teatro sobre o ser humano, seus limites, paixões, fracassos, esperanças e porque é isso, e é bom teatro, contém o retrato do submundo, a alegoria política, e até mais se quiserem, mantendo-se vivo (também pela permanência, no essencial, dos problemas que levanta) como inquietante transparência deste momento. E fica impossível (bem feito) discutir ainda, dentro desse quadro, se Plínio Marcos é ou não é pornográfico (o pornô é mais embaixo).

Posterior a “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e “Navalha na Carne”, a peça foi escrita onze anos depois do primeiro texto “Barrela”, agora em cartaz no Teatro Taib, depois de quase 21 anos de proibição. E dá uma medida de evolução na obra do autor. A linguagem livre, o compromisso com os marginalizados e a zanga com o que está aí são os mesmos. Mas é evidente a ampliação, pelo menos em relação a “Barrela”, da perspectiva da visão dos mecanismos que comandam, por dentro e por fora, suas personagens, aqui melhor desenhadas, como os conflitos e situações.

Qualquer crítica a um trabalho cultural censurado deve conter, inevitavelmente, uma crítica à censura que proíbe esse trabalho. E a recente liberação de “O Abajur Lilás”, embora importante, só repara parcialmente o mal da tesoura. Não foi só o autor, com seu frustrado investimento de trabalho, dinheiro, imaginação, afeto e tempo, que saiu prejudicado. Como já disse de “Barrela” (no caso “Abajur” com menos peso) foi nossa dramaturgia, nosso teatro e nossa cultura que perderam a influência dessa peça por onze anos, desde 69.

Na época ela nem chegou a ser apresentada formalmente à censura, já que foi possível antecipar o resultado dessa medida. Isso só aconteceu em 75, quando se tentou montar pela primeira vez “O Abajur Lilás”, com o produtor Américo Marques da Costa, o diretor Antonio Abujamra, o cenógrafo Flávio Phebo e os atores Lima Duarte, Cacilda Lanuza, Walderez de Barros, Ariclê Perez e Osmar di Pieri. A peça foi vetada pela Polícia Federal, e mais uma vez vetada pelo próprio ministro da Justiça, Armando Falcão, como atentatória à moral e aos bons costumes, depois de um longo processo e uma empenhada campanha da classe teatral de São Paulo.

Agora, finalmente em cena, “O Abajur Lilás” encontra, sob a cuidadosa coordenação dos produtores Antonio Fagundes e Clarisse Abujamra, uma infra-estrutura adequada ao profissionalismo e emoção do diretor Fauzi Arap. Ele emprime ao espetáculo um latejante desespero de “bichos” acuados, ao som de boleros e chorinhos, sob uma luz meio mágica, vermelha, coada através da porta do “mocó” onde se passa toda a ação. E para isso conta com a boa concepção cenográfica de Tawfik (que asina com Vigna os cenários e figurinos), onde uma imensa cama é o centro estético de uma toca submersa no lixo (dois sentidos) da cidade.

Mas se sente qualquer desacerto na dosagem desse clima. Aqui ou ali, uma marcação a menos, e portanto menos movimento, poderia ser a conta certa, embora se note nisso um intenção de agilizar o ritmo da encenação. O homossexual Giro, “cafetina” das três mulheres, interpretado pelo bom José Fernandes de Lyra, é no espetáculo uma figura quase maquinal em sua bichice tagarela, histérica e meio monocórdia, e não é certo que esse tenha sido o melhor caminho, apesar de conseguir-se, por aí (intencional?) alguma distância e irritação por seu papel repressivo. A prostituta Dilma (mãe de um filho) cautelosa e torturada na sua mal contida resignação, é a personagem melhor resolvida e mais convincente, com Walderez de Barros; e Annamaria Dias faz também viver com verdade sua vira-mesa Célia, que poderia talvez ser enxugada de alguns tiques forçados de cafajestice. Claudia Mello não assumiu até o fim sua Leninha, e Zé Carlos Cardoso consegue escapar do clichê da truculência do guarda-costas grandalhão, conferindo a Osvaldo um sadismo mais pastoso de torturador.
Mas acreditem: “O Abajur Lilás” é um espetáculo obrigatório, bom de ver, que poderá reconciliar mais uma vez com o teatro os possíveis renitentes que andam torcendo o nariz à vida que corre nos nossos palcos.

 

(Apostila 44 de Lit. brasileira Contemporânea)