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Plínio Marcos - Navalha na Carne - 4 estudos

Trecho do estudo de (Taíse Regina Leal dos Santos): Sobre a peça de teatro " Navalha na Carne " de Plínio Marcos -- 05/06/2002 - texto integral em Usina de Letras (http://www.usinadeletras.com.br)

Por que o título "Navalha na Carne" ?

A obra de Plínio Marcos ecoa como se fosse uma navalha na carne das pessoas que a lêem (disse o crítico literário Anatol Rosenfeld- "Navalha na nossa carne"), mostrando toda a pobreza e podridão que existem no submundo da sociedade.

Personagens:
Neusa Suely - prostituta, já com uma idade avançada, que vende seu corpo para dar o dinheiro a seu cafetão. Ela faz a pergunta crucial do texto: "_ Será que somos gente? " Será que todos os personagens que Plínio exibe em seu texto, podem ser chamados de "gente"?

A pergunta de Neusa Suely nos faz refletir se somos alguém na sociedade, ou apenas objetos manipulados por essa sociedade. Ela mesma não se considera como gente, mas sim como um objeto usado por outras pessoas. Tudo o que ela quer é chegar em casa e ter alguém para ampará-la no fim do dia. Ela é uma prostituta que sonha em mudar de vida, pois não considera o seu modo de vida como "normal". E o que seria um modo de vida normal?

Neusa Suely também sofre discriminação, não só por ser uma prostituta, mas também por já estar com idade acima dos 30 anos. A todo momento do texto, Wado, o cafetão, a chama de "galinha velha", entre outros títulos ofensivos. Mas , apesar de toda a discriminação, violência (pois ele bate muito nela) e desprezo que sofre por parte de Wado, ela é submissa a ele, e quando Wado vai embora, ela fica na cama sozinha se lamentando e ainda pergunta se ele vai voltar.

Ela é uma personagem muito interessante, por mostrar a mulher que apesar de tudo o que sofre nas mãos do homem, ainda quer que ele volte. Sofre a discriminação por ser "velha" ( ou seja, a idéia que o homem -representado por Wado- faz da mulher- representada por Neusa-, é que passou dos 30, já não serve pra mais nada), é agredida física e emocionalmente (pois ele a xinga a todo momento), e o desprezo, que no final, é a única coisa que recebe dele.

Wado - É o cafetão de Neusa Suely. Personagem sádico, violento, viciado em drogas e machão (com os mais fracos), mas que em uma cena ambígua, se revela também homosexual.

Wado é o personagem que não tem um mínimo de respeito pelo Ser Humano. É o machão que espanca a todo momento Neusa , e não a respeita nenhum minuto sequer. Está com ela apenas pelo dinheiro que ela lhe dá para sustentar seu vício. Quando acabar o dinheiro, ele procura outra.

A única vez que se mostra fraco, é na cena com Veludo, na qual ele tenta espancá-lo, mas Veludo não se deixa enfraquecer, e acaba travando uma "luta psicológica" com Wado. Ele desafiou Wado, e quando acontece isso, Veludo consegue desmontar Wado dizendo que ele é "macho" apenas com os mais fracos, diz que não é igual a Neusa que aceita tudo dele, e o desafia dizendo que Wado nunca bateria em um homem mais forte que ele.

Veludo- Homosexual que trabalha de faxineiro na pensão onde moram Neusa e Wado. Também é viciado em drogas, por isso, rouba o dinheiro de Neusa para comprar a droga e dar a um menino que trabalha em um bar perto da pensão onde mora. Veludo dá o dinheiro para o menino para ter relações sexuais com ele..

Análise do texto

Em " A navalha na carne", a todo momento existe um personagem que se vende para comprar outro, em outras palavras, comprar a atenção das pessoas, atenção e carinho, que todo ser humano precisa. Wado sabe disso, sabe que Neusa Suely precisa de sua atenção, tanto quanto Veludo precisa da atenção do menino do bar o qual ama. Sabendo disso, Wado acaba se tornando aparentemente o personagem mais forte da trama.

Wado, aparentemente o personagem mais forte, é símbolo de uma sociedade machista, preconceituosa, violenta e que a todo momento ataca para não ser atacado. A todo momento, ele ataca os outros personagens mais "fracos", para impor sua condição de mais "forte", mas quando Neusa assiste a cena em que Wado agride Veludo que não se deixa intimidar desafiando a "coragem" de Wado, ela percebe que pode ser mais forte e também atacar Wado. Veludo sai da cena e nesse momento ocorre uma luta psicológica entre Neusa e Wado. Um humilha o outro, mas Wado não se deixa levar pelas falas de Neusa. Ele conhece o ponto fraco dela e começa a lhe chamar de "velha" e diz que vai deixá-la. Neusa, como num ato desesperado de se libertar daquela pressão e com medo de que ele a deixasse, pega a navalha e diz que se ele não mostrar interesse e cumprir seu papel de cafetão , vai cortá-lo com a navalha. Por um instante ela se mostra mais forte que ele, mas como Wado é muito mais "frio" com relação aos sentimentos humanos, acaba conseguindo virar o jogo, seduzindo-a com palavras doces, e retoma o controle da situação. Ele vai embora, deixando-a sozinha comendo um pão com mortadela e perguntando se ele voltará

A trama de Plínio, mostra uma realidade social brasileira, na qual prevalece a idéia de dominador e dominado, ou seja, o mais forte acaba de uma forma ou de outra, dominando o mais fraco. O mais forte ( o Wado, no texto), se arma de artimanhas para conseguir persuadir os outros personagens, principalmente Neusa, que está totalmente confusa e emocionalmente despreparada para enfrentar uma batalha psicológica.

E a sociedade atual? Será que é tão diferente do que esta, mostrada por Plínio Marcos em "A navalha na carne" ?

 

Crítica de VAN JAFFA

Correio da Manhã 15/10/1967

O TEXTO – Tenso, denso e intenso é Navalha na Carne um texto e um teste de fogo para o jovem dramaturgo de Dois Perdidos Numa Noite Suja. Depois de sua estréia profissional onde denunciava talento e uma vocação inequívoca de dramaturgo, mesmo dentro do seu primitivismo, que nele é uma qualidade essencial, Plínio Marcos retorna pleno e cônscio de suas qualidades, afirmando seu talento e confirmando sua vocação.

Sua Navalha na Carne é intensamente verdadeira. Aquele triângulo existe com muito mais freqüência do que a imaginada. Seu corte transversal naquele mundo submerso, marginalizado pela sociedade e pelo Estado, antes de ser brasileiro é universal de todas as latitudes humanas. Sua fotografia é perfeita e sem retoques. De um realismo que vai até a crueldade ao focalizar a imagem da paisagem sub-humana na sua nitidez feroz e amarga.

Aquele tipo de gente é também como toda gente, só que, em face da ordem social vigente, irreversível por circunstâncias à sua dignidade humana de seres com direito a uma vida “limpa” e menos incrível e negativa do que a que vivem. E este aspecto está bem refletido no diálogo açoitado e fluente de Plínio Marcos que não deixa nem sequer escapar a comiseração que aquela gente sente por si mesma.
Possuidor desta matéria-prima, conhecedor visual do que transformou em sua temática (o que não pode ser inventado, sem cair no artificial) Plínio Marcos manipula personagens e trama com uma espantosa naturalidade, que inventiva alguma pode criar sem ter “vivido”, Aquele punhado de sentimentos que é o de toda gente, arremessado ao desgaste daquele modo de vida, dá ao flash dramático de Plínio Marcos uma grandeza inusitada.

Também nas camadas sociais mais favorecidas, acontecem histórias semelhantes, só que em ambientes requintados e onde a crueldade é também mais requintada. A premissa humana é a mesma, gente com necessidade de amar e de ser amada, de ser querida e querer, a grande lei da oferta e da procura dos sentimentos, de dar e receber, por onde a humanidade tece seus dramas e tramas cotidianos. Tanto tudo é do conhecimento da platéia, conhecimento direto ou indireto que a platéia (nestes casos) reage com o riso (indevido) como se se tratasse de humor negro, quando ignora que existe, como também ninguém faz nada para que mude a vigente ordem social.

A CENOGRAFIA E FIGURINOS - É de um realismo fotográfico a cenografia da Sarah Feres. Excelente nos mínimos detalhes, ambienta e atmosferiza a ação passada exatamente numa dessas “cabeças de porco” em que são transformadas antigas residências. Sarah Feres flagrantizou com enorme beleza a “pensão” onde Navalha na Carne tem ação e razão. Seus figurinos simplesmente vestem os personagens, com uma naturalidade cotidiana, sem artificialismo barato nem estereotipado.

O ESPETÁCULO – A direção de Fauzi Arap é sensível e conduz a trama dentro de uma tensão inteligente. Não achamos razão para o texto lido pelo microfone antes da peça, por considerarmos que a peça se justifica a si mesma. Muito boa e inventiva do flash final (de resto já usado, se não nos enganamos, em Dois Perdidos Numa Noite Suja) e que caracteriza a peça como a sentimos, um flash dramático. Grandioso aquele final pela sua pungente simplicidade, talvez um dos mais patéticos da dramaturgia universal, com a personagem na sua angustiante solidão física e espiritual comendo seu miserável sanduíche, sua ração, seu pão que o diabo amassou.

 

Crítica de YAN MICHALSKI

Jornal do Brasil 19/10/1967

Antes e depois da estréia do espetáculo da Maison de France, já tive oportunidade de manifestar a minha admiração diante desta consagradora confirmação do talento de Plínio Marcos. Não voltarei a insistir, portanto, sobre os aspectos mais obviamente impressionantes dessa excelente peça: a impiedosa autenticidade psicológica dos personagens a clareza da análise dos problemas da sua integração no sub-humano do mundo em que vivem, a extrema densidade do clima, o virtuosismo do diálogo. Poucos dias depois da estréia, toda a Cidade já sabia que “Navalha na Carne” é uma peça à qual se assiste com a respiração presa, e cujo fascínio não escapa nem o público mais conservador “a priori” menos disposto a enfrentar cara a cara a crueldade e a violência dessa “tranche de vie” passada num hotel suspeito de terceira categoria.

Hoje, gostaria de abordar três aspectos de “Navalha na Carne” que me parecem particularmente interessantes, mas que não se enquadram entre aqueles em que a gente repara de imediato, no pleno impacto que a peça transmite.

Em primeiro lugar, a relação, no Brasil entre a concepção – teoricamente ultrapassada – do teatro realista e a eficiência do teatro como veículo de denúncia de injustiças sociais. Como crítico não poso ignorar o fato de que o realismo, como linguagem dramática, está agonizando; e é bom que assim seja, pois a preocupação de mostrar naturalmente no palco a vida como ela é, tolheu profundamente, durante mais de um século, os vôos da arte dramática em todas as regiões da civilização ocidental. Principalmente no que se refere à conscientização social do público, a arte realista, que visa a envolver o espectador emocionalmente e que se limita, via de regra, a mostrar casos individuais dificilmente suscetíveis de serem generalizados, é hoje em dia quase que unanimemente condenada. A verdadeira linguagem social do nosso tempo é, no teatro, a linguagem épica – com todas as suas subtendências, bem entendido – que estimula a participação crítica do espectador e lhe apresenta exemplos que conduzem o raciocínio do particular para o geral. E, no entanto, constato que no Brasil as peças que tem mostrado verdadeiramente capazes de abrir os olhos do público para determinados fatores cruéis e injustos da nossa realidade social tem sido precisamente aquelas que não se afastam dos conceitos formai de um realismo tradicional: Eles Não Usam Black Tie, Pequenos Burgueses, e agora Navalha na Carne. Nenhuma encenação “brechtiana” quer de textos nacionais ou estrangeiros, se tem revelado até agora, entre nós, tão eficientemente “didática” quanto estes três exemplos de obras escritas dentro de cânones que nada tem de “didáticos”. Não me cabe, dentro dos limites deste artigo, estudar o fenômeno; mas ele me pareceu digno de ser proposto à reflexão do público e dos estudiosos.

Em segundo lugar, o domínio técnico da “carpintaria” teatral por parte do jovem Plínio Marcos. “Navalha na Carne” é uma peça estruturada com raro virtuosismo, e que nada fica a dever, sob esse ponto-de-vista, há muitas obras de autores estrangeiros universalmente consagrados que temos visto recentemente. O autor começa a peça em alta tensão e leva essa tensão rapidamente ao paroxismo; mas quando esse paroxismo chega ao seu desfecho, e quando achamos que a densidade da ação vai forçosamente cair, ele encontra sempre um meio de introduzir imediatamente, e com perfeita coerência e naturalidade psicológica, um novo conflito de força. Assim, por exemplo, quando a cena na qual intervém o homossexual Veludo parece ter esgotado todo o seu potencial de violência. Plínio Marcos inverte bruscamente o sistema de forças, fazendo com que Veludo passe de indefesa vítima a dono da situação, e criando margem para a continuação da cena, agora, enriquecida por uma nova injeção de densidade. Da mesma forma, depois da saída de Veludo, quando tudo deixa prever uma queda do “tono” da peça o autor abre magistralmente um novo capítulo, lança e define um novo e intenso conflito, em apenas duas curtas falas:

NEUSA SUELI – Eu tenho moral.

VADO – Depois de velho, até eu...

É digna de nota também a lucidez com a qual Plínio Marcos sabe introduzir em certos momentos de quase insuportável tensão dramática, pequenas explosões de alívio sob forma de recursos cômicos. O mais importante é que não se trata nunca de piadas gratuitas, e sim de falas que surgem como continuação perfeitamente lógica e coerente de ações ou diálogos anteriores.

Em terceiro lugar, quero destacar a qualidade e a intensidade da poesia que Plínio Marcos soube criar a partir do mais sórdido dos ambientes e da mais vulgar das linguagens. Só uma pessoa inteiramente desprovida de sensibilidade pode deixar de se sentir emocionada diante destes três personagens relegados, pelas circunstâncias, a uma existência marginal e “suja” e a meios de expressão primários e grosseiros, mas que lutam dolorosamente por manter viva, nos seus corações, a chama dos sentimentos comuns a todos os seres humanos, independentemente das condições materiais e culturais em que vivem: a necessidade de afeto, de admiração, de dignidade, de segurança, de proteção, a nossa nostalgia da pureza. Estas características estão, é natural, particularmente nítidas ao personagem de Neusa Sueli; mas mesmo Vado, que poderia facilmente descambar para uma espécie de vilão convencional, deixa entreve, nas entrelinhas das suas falas, uma quase comovente insegurança e necessidade de afirmação. Do contraste entre o clima desesperadamente prosaico e o calor com o qual os personagens procuram transcender, embora inconscientemente, esse ambiente, nasce uma estranha poesia, inteiramente isenta de qualquer pieguice, mas extremamente bela e comovedora.


Crítica de SÁBATO MAGALDI

O Estado de São Paulo 12/09/1967

A grande ovação, no final do espetáculo de ontem, no Teatro Maria Della Costa, prova que as autoridades andaram certas, ao liberar Navalha na Carne, depois de tanta incompreensão da Censura. Os aplausos em cena aberta, repetidas vezes, vieram, como uma descarga emocional para equilibrar o incômodo provocado por numerosos diálogos de violenta dramaticidade. A literatura teatral brasileira nunca produziu uma peça de verdade tão funda, de calor tão autêntico, de desnudamento tão cru da miséria humana como essa de Plínio Marcos.

Freqüentemente, o público ria de alguns palavrões ou de réplicas de sabor equívoco. Essa relação chegou a irritar-nos, como se nascesse de uma falta de inteligência do texto. Depois pareceu-nos que essa era uma válvula de escape para os espectadores não mergulharem num terrível mal-estar: um pouco mais de insistência na verdade e seria insuportável o clima dramático.

Plínio Marcos irmana-se a todos os escritores contemporâneos que decidiram fazer uma sondagem completa do homem, investigando em seus meandros menos confessáveis. Esse neo-realismo, que dispensa qualquer imagem embelezadora das nossas motivações, aplica-se com ardor sádico na busca das bases da convivência – um inferno impiedosamente descoberto e exposto. Esse jogo quase monstruoso de todas as personagens se porem a nu acaba, por paradoxo, numa como vida piedade pelo destino humano. Navalha na Carne termina numa infinita tristeza, sem qualquer concessão à melodramaticidade ou à pieguice.

Ruthinéa de Moraes vive a prostituta Neusa Sueli com admirável autenticidade. O corpo arriado, o andar típico, a fisionomia abatida – tudo nela se alia para realizar uma excelente criação, que não fica no lugar-comum ou no pitoresco. Paulo Villaça assume o ar ligeiramente postiço que deve ter o explorador de Sueli, exato desde a expressão fisionômica até a prosódia especial, cantando um pouco as falas. Composição surpreendente é a de Edgar Gurgel Aranha no homossexual Veludo: um ligeiro esgar de deboche na boca, a voz no limite justo que impede a caricatura, os movimentos de ombros reveladores da feminilidade. A maior virtude da encenação de Jairo Arco e Flexa foi s de evitar qualquer artifício, auxiliando a franqueza dos diálogos e das situações. Sem dúvida um ambiente mais fechado no palco teria colaborado para a intimidade e a força explosiva do desempenho.

Três casais retiraram-se durante a representação. Anotamos esse fato, para prevenir as sensibilidades que poderia chocar-se nos próximos espetáculos. Navalha na Carne fere mesmo – como toda verdade lançada com indiscutível talento artístico.

 

No cinema:
NAVALHA NA CARNE – 1ª adaptação

Título: A Navalha na Carne
Direção: Braz Chediak
Atores: Glauce Rocha, Jece Valadão, Emiliano Queiroz,
Carlos Kroebe
Fotografia: Hélio Silva
Duração: 112 min.
Distribuidora: Sagres
Ano: 1969
Formato: VHS - PB

NAVALHA NA CARNE – 2ª adaptação
Título: Navalha na Carne
Roteiro: Neville D`Almeida
Direção: Neville D`Almeida
Atores: Vera Fischer, Jorge Perugorría, Carlos Loffler,
Isabel Fillardis, Marcelo Saback, Pedro Aguinaga,
Guará Rodrigues, Rafael Molina
Fotografia: César Elias
Duração: 105 min.
Distribuidora: Europa Filmes
Ano: 1997
Formato: VHS - DVD – COR

 

 

 

(Apostila 43 de Lit. brasileira Contemporânea)