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Plínio Marcos - Dois Perdidos Numa Noite Suja - resumo e crítica

Paco e Tonho, os protagonistas da peça, dividem um quarto numa espelunca de quinta categoria, além de trabalharem juntos num mercado descarregando caminhões. Paco adora provocar Tonho, encher o saco dele. Fica tocando gaita quando o outro está querendo dormir. Tem um par de sapatos novinhos e fica dizendo, "Meu pisante é bacana paca". Ele sabe que Tonho morre de vergonha dos sapatos que usa, um troço caindo aos pedaços. Um dia Tonho acaba abrindo o jogo, "Se eu tivesse um par de sapatos decentes, conseguia arrumar um emprego melhor, mudava de vida". Ele atribui todos seus fracassos, todas rejeições que vem sofrendo ao fato de não ter sapatos que prestem. Essa ilusão lhe é muito cara e Paco não perde a oportunidade de começar a explorar a humilhação do colega. Se nega a emprestar seus sapatos para que o Tonho vá a uma entrevista de emprego e lhe diz que um negrão lá do mercado tá atrás dele e que quer briga - tudo porque o Tonho supostamente descarregou um caminhão que era do tal sujeito. Tonho, que é do partido de se entender civilizadamente com seus desafetos, está disposto a ir conversar com o negrão. Já Paco quer ver sangue - fica dizendo que se ele não for homem, não se impuser, o negrão vai montar nele, "Deixa barato, vai deixando. Um dia a turma começa a passar a mão no teu rabo, daí vai querer gritar, mas aí já é tarde, ninguém mais respeita". Tonho contra-argumenta, dizendo que ele estudou, que não vai matar ninguém pra depois ir apodrecer na cadeia. No dia seguinte, vai conversar com o negrão e, pra evitar briga, resolve dividir com ele o dinheiro que ganhou - o que faz com que ele passe a ser chamado no mercado de "boneca do negrão". A partir daí o que ocorre é que cada vez mais o Paco o instiga implacavelmente para o mal, para o ódio e para atitudes desesperadas.

Paco sugere a Tonho que façam um assalto, afinal, Paco tem um revólver. Planejam um assalto a um casal de namorados que está num parque à noite. O terceiro ato se inicia já com o assalto realizado, os dois no quarto, discutem a divisão do produto do roubo: relógio, sapato, brincos e algum dinheiro. A divisão é confusa e Paco consegue ficar com a maior parte, deixando para Tonho apenas os sapatos. Discutem durante toda a noite, Tonho chega a chorar, Paco ri do choro do companheiro, xinga-o de bicha, escarnece do medo do amigo em ser descoberto pela policia. Tonho pega o revólver de Paco, põe uma bala, ameaça matar Paco, antes, porém, faz o sarcástico Paco se maquiar, usar brinco, dançar e rebolar sobre a mira do revólver, depois mirando em Paco, dá um tiro e mata-o, Tonho sai de cena se anunciando como “Tonho Maluco! O Perigoso, Mau Pacas!”

 

Plínio Marcos, por Sábato Magaldi

Plínio Marcos (n. 1935) irrompeu na dramaturgia brasileira em fins de 1966 com Dois Perdidos Numa Noite Suja, a que se seguiu Navalha na Carne. Ficavam de lado quaisquer esquemas racionais para exame da realidade social, em benefício do aproveitamento de personagens até então praticamente esquecidas: o lumpesinato urbano, as sobras do processo duro da luta por um lugar ao sol, a marginalidade que os sistemas injustos criam e não sabem como absorver. Violência insuspeitada toma de assalto o palco e se ela se funda em entranhado realismo, supera de longe os limites dessa escola.

Dois Perdidos, cujo ponto de partida é o conto "O Terror de Roma", de Alberto Moravia, se passa num quarto de hospedaria barata, depois de um assalto, patenteando o drama do imigrante deslocado na cidade grande e a inevitabilidade do crime para quem não dispõe de condições dignas de sobrevivência. Navalha na Carne reúne em cena uma prostituta em declínio, o cáften que a explora e o empregado homossexual do bordel. Antes, em 1959, numa única noite de um festival de teatro estudantil, Plínio havia conseguido apresentar Barrela, título que, na gíria, significa estupro ou curra. O texto inspirava-se no caso de um rapaz, detido por motivo menor que, ao ser solto, matou todos os que o estupraram na prisão.

Outro texto expressivo de Plínio é Abajur Lilás: três prostitutas, às voltas com o dono do prostíbulo, simbolizam o comportamento dos oprimidos em face do poder, nos anos ferrenhos da ditadura. Entre outras peças que exprimem uma vertente diversa do autor - o seu lado místico - Jesus Homem retoma a solidariedade evangélica do Cristo primitivo.

Repórter de um tempo mau, como gosta de definir-se, Plínio dramatiza em A Mancha Roxa a história de várias mulheres que, num presídio feminino, descobrem ser portadoras de Aids. Da verificação triste elas partem para o desafio de propagar a doença pelo mundo, em resposta à incúria da sociedade. Em pleno processo criador, Plínio Marcos continua a incomodar o gosto repousado do público, em sua trajetória de permanente rebeldia.

 

Crítica de DÉCIO DE ALMEIDA PRADO

Em Dois Perdidos Numa Noite Suja Plínio Marcos explora um filão típico do teatro moderno, a partir de Esperando Godot: dois farrapos humanos ligados por uma relação complexa, de companheirismo e inimizade, de ódio visível e, também, quem sabe, de afeição subterrânea. Juntos, na chegam a constituir um par de amigos. Mas, separados, mergulhariam na solidão, o que seria ainda pior.

O diálogo que travam é uma exploração constante das fraquezas recíprocas, um intercâmbio de pequenos sadismos. Um deles sente a sua miséria física e moral como um decadência provisória, um estado de envilecimento passageiro do qual é necessário a todo custo emergir. O seu sonho é retornar à vida normal, possuir um par de sapatos decentes (símbolo, a seus olhos, do decoro burguês), recuperar o nível econômico e social que já fora seu, voltar a estudar ou a trabalhar como pessoa civilizada. O outro, ao contrário, está instalado definitivamente e diríamos comodamente na abjeção. Criado em reformatórios, estranhando que alguém possa ter pai e mãe (mãe é natural, pai já é um luxo algo ridículo), não conhece vida diversa, nem valores diversos. Não é um desesperado porque nunca soube o que fosse esperança. O seu modo habitual de expressão é a hostilidade, desde a picuinha, o insulto, o achincalhe, e a intriga, até, se for o caso, o roubo e o assassínio. Qualquer concessão, qualquer generosidade, é sempre interpretada por ele como sinal de fraqueza, quando não de falta de virilidade. As suas normas de existência não admitem a neutralidade: ele está sempre na ofensiva ou na defensiva. Vencedor, procura espoliar e espezinhar o vencido. Vencido, aceita sem pestanejar os termos do vencedor, para poder continuar na luta. Paga, em suma, o duro preço que a vida diariamente lhe impõe mas trata de cobrá-lo dos outros com juros.

O mais inteligente, o mais sensível, o mais corajoso fisicamente, o mais equilibrado dos dois, é também, por uma dialética facilmente compreensível, o mais frágil e o mais vulnerável. A simpatia que sente eventualmente pelo próximo, os laços de solidariedade que ainda os unem aos outros homens, fazem-no ceder sempre ante a obtusidade (disfarçada em esperteza), a total ausência de compreensão do seu parceiro. A exploração do melhor pelo pior, do mais forte pelo mais fraco, eis o tema que a peça desenvolve até a explosão final.

São duas figuras dramáticas – e o desfecho bem o comprovam as visitas freqüentemente pelo ângulo cômico, na medida em que este tipo de maldade é primário, infantil, não concebendo sequer a existência de padrões morais.

A linguagem da peça é tão suja quanto a noite que envolve as personagens, segundo título, certamente a mais desbocada que já vimos em peça nacional (também neste setor sofremos de ligeiros subdesenvolvimento em relação aos Estados Unidos) – mas não poderíamos imaginá-la abrandada porque nível mental e expressão acabam por se confundir. A gíria e o palavrão, em casos como este passam a ser a própria forma do pensamento.

Dois Perdidos Numa Noite Suja inspirada num conto de Moravia (e até que ponto, não saberíamos dizer), está longe de ser uma peça acabada e perfeita. Cremos inclusive que ganharia em consistência e intensidade se os sus dois atos fossem condensados num longo ato único. Mas revela em Plínio Marcos uma poderosa, ainda que incipiente, vocação teatral. Ele tomou uma só situação dramática investigando-a e aprofundando-a até tornar translúcida a relação humana que lhe deu origem.

 

(Apostila 42 de Lit. brasileira Contemporânea)