ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Pedro Nava - Balão Cativo - comentários

Como a Roma rememorada pelo cineasta Fellini, no filme que recebeu também o nome da capital italiana, o Rio de Janeiro de Pedro Nava aparece em sua obra através de várias visões que se sobrepõem umas às outras. Nava já não procura apreender a cidade pelos olhos do menino provinciano que a descobrira recém-vindo de Minas Gerais. É que retornava adolescente, para estudar no Colégio Pedro II, integrando-se na vida da capital. Agora o escritor retoma, pois, sua tarefa de desarquivar poeticamente o Rio de Janeiro. Mas como é o homem vivido que recorda registros de diferentes tempos da cidade, procura desembaraçá-los na memória através do balanço crítico de quanto dela ouviu ou viu. Daí a abundância de pormenores desse quadro humano e urbano. (adapt. De Maria Aparecida Santilli, Lit Comentada, Abril, 1983)

 

Na literatura crítica existente sobre os pensadores do Brasil e sua obra, percebe-se de imediato a relação que há entre cada um deles e o pensamento sobre o "nacional". A partir do final do século XIX, quando as formulações sobre o "nacional" se tornaram mais "politizadas", há uma grande preocupação em definir o Brasil a partir de uma essência tropical, luso-ameríndia e africana. O paradigma nacionalista engendra males e salvações. Claramente, no entanto, os intelectuais brasileiros, das gerações entre 1870 e 1970 estiveram convictos de que era sua a tarefa, ou melhor, a responsabilidade, de construir uma nação.

De uma ou outra maneira, o caminho para fazer isso passava pela imposição de determinados mitos sobre o "nacional". Pedro Nava, no seu segundo livro de memórias, "Balão Cativo", ao ironizar a proposição de tal paradigma nacionalista-tropical, sintetiza um dos grandes conflitos intelectuais brasileiros - aquilo a que se poderia chamar, talvez, de amar o próprio através do outro:

"No colégio ficávamos sabendo que a Inglaterra já nos oferecera as reservas do Banco de Londres para lhe cedermos a música do nosso hino - proposta que o governo repelira a altura. Também que a França, a Rússia, a Bósnia-Hezergóvina e o Principado de Andorra estavam estomagados uns com os outros porque os quatro queriam negociar, com exclusividade, o desenho da bandeira brasileira. Ofereciam a compensação de seus feixes lictores, de sua águias bicéfalas, escudos quartelados, campos de arminho e listas tricolores. O Barão do Rio Branco já nem dava resposta. A França, no fim, abria mão da bandeira e só queria nosso 'Órdem e Progresso', que ela estava disposta a trocar pelo seu desenxabido 'Liberté, Egalité, Fraternité' e mais a Guiana de contrapeso. A resposta fora Não! porque Caiena por Caiena, nós tínhamos o Cucuí... (...) Sabíamos que Floriano escorraçara o embaixador britânico, do Itamaraty, ameaçando-o de pontapés e gritando-lhe do topo da escada como receberia a esquadra da rainha na Guanabara. À bala, à bala! Que o homem mais inteligente do mundo vexara os súditos de Sua Majestade Graciosa pondo na porta da sua casa a placa onde se dizia: Ruy Barbosa - English teacher"

(Nava: 1986, 66-67)

 

Pedro Nava se refere a uma ideologia perpassada pela escola pública em que estudou. Se, nessa esfera mínima de debates sobre o "nacional", o país surgia com tanta força, imagine-se nas esferas que produziam esse discurso, quais sejam, as esferas letradas e intelectuais que, na tradição brasileira, sempre estiveram vinculadas ao poder público. Os intelectuais das gerações entre 1870 e 1920, comprometidos com a queda do Império, com o abolicionismo, com a República e, consequentemente, com as oligarquias regionais que dividiram o Brasil até 1930, aparentemente formaram o coro da nacionalatria que a política adotou como mote na sua missão de compensar certo sentimento de inferioridade, próprio talvez às colônias, e certa mania de perseguição, com a transcendência de estereótipos os mais delirantes - os mitos da brasilidade.

(trecho de estudo O Nacionalismo Intelectual na Transição Democrática, de: Prof. Fábio Castro da Gama, da UFPa. Paper de desenvolvimento de pesquisa. Belém, junho 1997)

 

 

 

(Apostila 40 de Lit. brasileira Contemporānea)