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Osman Lins - O Fiel e a Pedra - resumo.

Narrativa que conta a saga de Bernardo Vieira Cedro. A trama tem início na zona urbana de Vitória, na época histórica do declínio canavieiro do Nordeste. Dali, após a morte de José, seu único filho, Bernardo, a mulher Teresa e Antônio Chá, um amigo fiel, deslocam-se para a zona rural de Pernambuco, para trabalhar como barranqueiro, a serviço de Manuel Benício, no Engenho do Surrão.

A sogra de Bernardo, Suzana guarda rancor dele pelo sofrimento que causa à mulher e ao filho devido à pobreza decorrente do desemprego e da falta de recursos de Bernardo.

Em flash back recupera-se o passado de Bernardo: o pai, Vieira Cedro, Cissone, filha bastarda de Vieira Cedro, de Lucinda, a mãe do herói; de Caetano, que aos dezoito anos abandonou a casa paterna e sumiu no mundo.

No Surrão, Bernardo conhece a Tiago, Vié Nequinho e Precipício, assassinos conhecidos; Cizilão, o Cabo, sádico espancador de mulheres, homem de Maria Genuína, a quem ateara fogo aos cabelos, e Xenofonte, vigia do Engenho.

Miguel Benício, vítima de um aneurisma, morre em circunstâncias estranhas, após haver transferido numa falsa venda, todos os seus bens para Nestor Benício, irmão ganancioso. Tal negócio visava a excluir os direitos de Creusa, esposa infiel de Miguel.

Nestor, violento e desonesto, objetiva também conquistar o gado da viúva, Creusa, este sob os cuidados de Bernardo, que ouvindo sua consciência se recusa a entregar.

Nestor começa a pressionar Bernado com a cobrança de aluguéis não devidos.

Entra em cena Teles de Sá, advogado de Creusa que começa a investigar as condições da venda da propriedade de Miguel para Nestor. Este, porém consegue cooptar o advogado Teles oferecendo-lhe vantagens e dinheiro, depois, Nestor vai acusar o advogado de inépcia profissional e de corrupção. Humilhado, Teles de Sá abandona o lugar. Resolvido o problema do advogado, resta a Nestor um último entrave, Bernardo.

Pressionado pelo fato de a esposa estar grávida, Bernardo não suportando as pressões de Nestor, resolve procurá-lo para vender sua roça e dizer que se dispõe a voltar para Vitória, porém, não consegue encontrar Nestor e na volta é tocaiado, recebendo dois tiros, que, entanto, erram o alvo. Teresa resolve ir para a casa da mãe e ficar à espera da volta de Bernardo e Antônio Chá. Por fim, Nestor Benício cerca Bernardo e faz um balanço dos seus bens: mercadorias do barracão, os animais, a plantação. Bernardo negocia e resolve se retirar do surrão levando um burro selado. Nestor, porém, afirma que o animal não estava incluído na transação. Nestor confiando em seus capangas, entre os quais o misterioso Ubaldo. Nestor atira em Bernardo que ferido tenta se manter sobre o animal, nesse momento Antônio Chá atira em Nestor, matando-o. Ubaldo resolve não agir e deixa Antônio Chá partir com o ferido Bernardo sobre o burro. A seguir, Ubaldo e Marvano - outro capanga - duelam e ambos morrem. Antônio Chá leva Bernardo até um caminhoneiro que o levou, quase morrendo, à casa da sogra, Suzana.

Vinte e cinco anos depois - momento da narrativa - Joana é a filha que foi concebida quando Bernardo e Teresa estavam no Surrão. Tiveram outros três filhos, dois dos quais morreram. O que ficou vivo foi chamado de Ubaldo, em homenagem ao capanga que deixou Bernardo vivo. Bernardo e Teresa ainda se amam, apesar do peso do tempo. Bernardo fez sociedade com o caminhoneiro Hutá Vilarim e montou negócio de gado. Antônio Chá, casado, é pai de cinco filhos.

 

Os silêncios de Osman Lins - MARCIA BLASQUES

Autor admirado pela crítica, mas quase desconhecido do público, comparado, em importância, a Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, Osman Lins ainda é pouco estudado. Em seu livro As Falas do Silêncio, a professora Marisa Simons tenta corrigir um pouco essa situação, com uma delicada e minuciosa análise de O Fiel e a Pedra, trabalho da primeira fase da carreira do escritor

Osman Lins costumava dizer que O Fiel e a Pedra, seu terceiro livro, era um marco em sua carreira. Representava “o ponto para o qual converge tudo o que eu fiz antes e o ponto de onde parte o que vim a fazer depois. É uma plataforma de chegada e de saída”. Intrigada com essa afirmativa e com a força narrativa da obra, a professora Marisa Simons, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, não teve dúvidas na hora de escolher um tema para sua dissertação de mestrado. Uma análise do livro, ainda pouco estudado, poderia ser uma boa contribuição para a divulgação da obra do escritor. Desse trabalho nasceu As Falas do Silêncio em O Fiel e a Pedra de Osman Lins, lançado pela editora Humanitas.

“O trabalho de Osman Lins me fascinava por vários motivos”, lembra Marisa. “Além da escritura trabalhada de alguém que se dizia um ‘artesão das palavras’, o livro tem como mote a morte do filho do protagonista. Eu havia perdido meu filho algum tempo antes, numa cirurgia. Então, para mim, tudo se encaixou." Logo nas primeiras leituras de O Fiel e a Pedra, a professora sentiu a presença do silêncio como tema subliminar do livro. Para certificar-se, voltou um pouco atrás no percurso do escritor e leu seus dois primeiros trabalhos, O Visitante (1955) e Os Gestos (1957). “Percebi que estava no caminho certo: o silêncio também estava presente nesses livros”, conta.

O próximo passo foi identificar os significados do silêncio nas três obras. Para tanto, Marisa utilizou-se, além de elementos da crítica temática, conceitos da teoria psicanalítica, numa abordagem interdisciplinar de O Fiel e a Pedra. Para justificar tal escolha, ela lembra que entre literatura e psicanálise existe um importante ângulo de convergência, “através de procedimentos próprios a cada disciplina que, sem se confundir, estabelecem certos pontos de aproximação”.

Silêncio, impotência e resistência

Seguidor de um projeto literário pessoal (vide box), Osman Lins criava suas obras como se fossem avanços dos trabalhos anteriores. Marisa verificou que em seus três primeiros livros o silêncio é o tema recorrente e que vai sofrendo uma evolução conotativa, adquirindo significados distintos e complexos, de acordo com a situação e a personagem. “Ao lado da palavra, no lugar da palavra, gerado pela palavra, aí pode estar o silêncio pleno de multissignificações semânticas, de ‘falas’ sutis, passíveis de serem reveladas a todos os que intentam penetrar, para além da literalidade do discurso, nas pausas e reverberações do silencioso paradigma”, escreve a professora. Ela verifica que em O Visitante e nos contos de Os Gestos, o silêncio representa a impotência das personagens. Em O Visitante, por exemplo, história de uma professora que mantém um romance secreto com um homem casado, o silêncio da protagonista é resultado de sua incapacidade de assumir seu caso ou de rompê-lo definitivamente: ela tinha “...que suportar tudo em segredo, sem um conselho, uma palavra que a acalmasse”. Cala-se perante os amigos, perante a sociedade e perante o amante. Seu relacionamento tem poucas palavras, na descrição do autor: “Falando pouco, muitas vezes silenciosa e de nenhum modo pronunciando certas palavras que só o hábito do amor torna fáceis, ela se entregava a uma adoração intensa mas quieta”.

Já em O Fiel e a Pedra o silêncio assume múltiplas conotações. Bernardo, o protagonista, também é homem de poucas palavras, mas não se cala por impotência, mas como forma de resistência. Em seus embates com o antagonista Nestor – para Marisa uma personagem de palavras doces, mas que se utiliza do “mel” do engodo para tentar cooptar o adversário –, Bernardo opta pelo silêncio não porque se sente impotente, mas porque prefere não falar.

Mas a resistência não é o único significado do silêncio em O Fiel e a Pedra. Marisa identifica outras “falas”: o silêncio que permeia o amor de Bernardo e de sua esposa, Tereza, o silêncio que o casal guarda a respeito da morte do filho. A professora ainda explica que o silêncio age com o intento de tensionar a narrativa por meio do jogo antitético que estabelece com a palavra, nas diferentes situações de enredo.

Osman Lins e o nouveau roman

Lançado em 1961, O Fiel e a Pedra situa-se num ponto nevrálgico da carreira de Osman Lins. Em entrevista à revista Veja, em 28 de novembro de 1973, o próprio escritor revela: “Com O Fiel e a Pedra encerra-se uma fase da minha atividade como escritor. Até então eu era tributário de uma herança literária clara e definida: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Joseph Conrad, Chordelos de Laclos, Gustave Flaubert e mesmo Ernest Hemingway. Mas eu acreditava estar caminhando para alguma coisa que não era nada daquilo”. Seu livro seguinte, Nove, Novena, de 1966, promove uma profunda ruptura com os modelos da tradição literária, sendo comparado, por alguns críticos, ao nouveau roman francês.

Marisa ressalta que essa comparação é pertinente apenas do ponto de vista da forma, mas que deve ser relativizada pelas visões filosóficas distintas. E cita Sandra Nitrini, no texto Poéticas em confronto: Nove, Novena e o Novo Romance: “A perspectiva idealista platônica de Osman Lins adequa-se ao seu projeto literário de colocar, na ordem do dia, a nostalgia da unidade perdida e o desejo de reencontrá-la; ao passo que o enfoque fenomenológico dos novos romancistas serve, com muita eficácia poética, ao seu objetivo de retratar a realidade em termos de subjetividade, já que para eles a natureza humana e a do mundo é dinâmica e mutável”.

 

(Apostila 39 de Lit. brasileira Contemporânea)