ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Osman Lins - A Rainha dos Cárceres da Grécia - resumo

 

O título é o da narrativa, inédita, que Júlia Marquezim Enone deixara ao morrer. O narrador, seu amante em vida, se dispõe a escrever um ensaio do romance, e começa por sumariá-o. e à proporção que redige o estudo, o professor vai reconstituindo a história passional com a autora, ao mesmo tempo que acompanha, posto que interpretativamente, a via crucis de Maria de França, protagonista da narrativa de Júlia M. Enone, junto ao INPS, e sua loucura. Ao longo dessa tripla imersão no tempo, em mise em abîme, a realidade cotidiana, na sua historicidade jornalística, infiltra-se no corpo do texto que vamos lendo. O final é uma espécie de fusão, surrealista, das linhas de força que conduzem o relato.

Romance de arte, requintado, embora o caso de Maria de França em face da (in)justiça previdenciária faculte ao narrador externar seus ímpetos de revolta surda ante o iníquo estado de coisas, não chega a ser obra engajada: a tônica é a do romance inédito. Vinculado aos pródomos do nouveau roman, é um romance-colagem, ou mesmo um romance cubista. Pela presença da erudição, que de resto já se observava em Avalovara, é um romance à Borges, mesclando erudição autêntica e erudição imaginária. A intenção do narrador parece menos contar uma história que examinar o romance como estrutura, expressão de uma vida e sua importância cultural, social; em suma, meta-romance.

(adapt. De Massaud Moisés, Hist. Da Lit. Brasileira: O Modernismo, 1989, p. 512)

 

Trecho do estudo de Martim Vasques da Cunha:

A Caçada ao Tempo Perdido

(http://oindividuo.com/convidado/martim55.htm)

O Tempo Perdido que Osman Lins caça não é o mesmo do de Proust: para o francês, a obra de arte pode recuperar o que já não existe mais porque sabe que tudo aquilo não passa de uma representação da realidade; os personagens de Osman Lins - na sua maioria, aspirantes a escritores que tentam manter um pouco de sua integridade moral - acreditam que a literatura pode captar a essência da realidade. Este é a armadilha em que cai o ensaísta-narrador de "A Rainha dos Cárceres da Grécia", o último romance de Lins, lançado em 1977. Sob a forma de um ensaio, um professor de Biologia com pretensões literárias tem em mãos o único romance escrito por sua amante, Julia Marquezim Enone, que se chama "A Rainha dos Cárceres da Grécia", e tenta fazer um estudo literário, por dois motivos: um, para divulgar o livro, ainda inédito; e dois, para aplacar a saudade da mulher que lhe deu um pouco de conforto e amor numa vida dominada pela solidão, numa tentativa de querer compreender o seu mistério e a sua vida tumultuada.

No fundo, "A Rainha dos Cárceres da Grécia", o romance de Osman Lins e não de Julia Enone, é uma história de amor. Aliás, a presença da mulher é importante na obra de Lins. Para ele, o relacionamento entre os sexos não é uma mera questão fisiológica ou emocional; é uma união espiritual. As mulheres são como musas, que inspiram ou atormentam os homens, geralmente artistas que tentam impedir o ataque da indesejada através da suposta eternidade da arte. Elas são como a Mira-Celi de Jorge de Lima, imagens da Virgem, da alma em sua totalidade, que ajudam o poeta na sua caçada por um tempo que nunca existiu:

"Há necessidade de tua vinda, Mira-Celi:
Milhares de ventres virginais te esperam
através de séculos e séculos de insônia!
Basta de te entremostrares:
Nós já te pressentimos demais
em certos momentos de mistério
ou sob algumas aparências obscuras.
Há lábios entreabertos esperando:
São os meus irmãos
a quem anunciei que tu virás.
Há palavras de fogo, semi-apagadas:
há janelas desertas, já fechadas;
há ausências inexplicáveis, gestos mortos;
há lagos estagnados sob gritos de luto.
Quando vieres, as árvores ocas darão flores,
e teu esplendor acenderá pela noite dormente
os olhos entreabertos dos semblantes amados".

("Anunciação e Encontro de Mira-Celi")

A Mira-Celi de Abel em "Avalovara" é a Inominável; a do solitário professor de Biologia é Julia Marquezim Enone. A Inominável é o Verbo em carne; Julia Enone escreve um romance que conta a história de Maria de França, demente mental que realiza um verdadeiro calvário para ter direito a uma aposentadoria por invalidez no INPS, se torna prostituta e que conta sua aventura num estilo alucinado, barroco, que comprime o tempo e o espaço, fundindo o Recife dos tempos da invasão holandesa com o Recife dos anos 70, somando-se ainda com características de Olinda, como se estivesse num programa de rádio. Paralelamente, o professor vai se questionando sobre o que passava-se dentro do espírito de Julia Enone enquanto escrevia o romance; uma observação de sua sobrinha - a de que o romance possui muito de suas expressões e seus tiques - fazem o professor imaginar se o romance não seria uma última carta de amor de Julia ao seu solitário amante. A forma de um ensaio disfarçado de diário permite a Osman Lins que o leitor descubra que, afinal de contas, "as grandes mudanças sempre se operam em silêncio". Analisando parte por parte do romance - observando as relações com a quiromancia, a astrologia, a história do Brasil, músicas populares, referências autobiográficas e míticas, principalmente a lenda de uma mulher chamada Ana, que atravessava todas as prisões da Grécia para aprisionar a passagem do Tempo -, o professor vai se transformando, aos poucos, num personagem do livro. Ele se vê como o Espantalho que a louca da Maria da França vai montando conforme o passar do tempo e que simbolizaria o encontro da demente mental com alguma espécie de Eterno que se importa com ela. Identificando-se com o Espantalho, o professor também percebe que sua vida nunca teve muito sentido, exceto aos olhos da única mulher que amou, a misteriosa Julia Enone que se matou embaixo de um caminho em plena Avenida Paulista. A óbvia conseqüência é a morte espiritual de sua personalidade - nada mais que a loucura.
Osman Lins monta um quebra-cabeças para resolver o seu próprio mistério, que foi o próprio "Avalovara". O romance de Julia Marquezim Enone é uma paródia de "Avalovara", com sua linguagem transfigurante e estrutura hermética; o ensaio em formato de diário que o professor escreve compara dados da realidade com os incidentes da ficção, privilegiando este último em relação ao primeiro. Dessa maneira, uma anotação sobre a precariedade do sistema previdenciário existe apenas em função do romance e não porque ele faça parte de uma realidade maior. Pouco a pouco, o narrador vai substituindo a ficção pela sua vida: o seu sentido só se dá quando se transforma no Espantalho que Julia vislumbrou num momento de transfiguração silenciosa. Em "Avalovara" temos um novo Começo; em "A Rainha" um novo Além - mas ambos são sistemas ideais, construídos pela literatura para transformarem a realidade.

Entretanto, tudo isso acontece por um motivo: o desaparecimento da memória. Ao observar um detalhe do romance de Julia Enone que havia percebido desapercebido - o nome do gato de Maria de França e seu singular destino -, o narrador descobre que a chave do enigma sempre esteve em suas mãos e ninguém notou. O gato chamado Memosia ou Mimosia remete à palavra grega mnemósine, que é o nome dado para um ser criado pelo deus Urano e que guardaria os tempos passados dos deuses antigos. Mnemósine é claramente a Memória. O destino do gato de Maria da França é triste: abandonado pela dona por causa de sua demência mental, perde-se nas ruas de Recife e morre entalado num buraco ao perseguir um rato. A morte do gato é a morte da própria memória de Maria da França - e talvez da de Julia Enone que, ao saber disso, se matou e da do narrador, que se fragmenta no discurso incoerente do Espantalho. Mas a morte da memória é também a morte da passagem do Tempo, uma vez que este depende dela para que o ser humano tenha conhecimento do sentido da sua vida e de que ela está marcada para ter um fim. A Memória nos faz relembrar que iremos morrer - e que o sentido da vida ressurge justamente da consciência da finitude. Quando a Memória se perde e desaparece, o Tempo também se esfarela - e o ser humano perde a razão de sua existência. E só podemos perder a Memória se desejamos desesperadamente recriar nosso Começo para ter nosso próprio Além, que não estará integrado ao mistério da divindade. A especulação gnóstica de "Avalovara" se reverte na trapaça da realidade transfigurada de "A Rainha". Quando a vida é vivida como um jogo lúdico, a única conseqüência possível é a loucura completa.

 

 

O solitário professor anota num diário sua paciente tentativa de desvendar os segredos do romance inédito, escrito pela mulher que durante alguns anos trouxe o amor para a sua vida estreita. O livro intitula-se A Rainha dos Cárceres da Grécia e se prende à realidade de hoje. As notas do diário do professor cobrem quase inteiramente os últimos dois anos. A partir desses dados de uma realidade rigorosamente delimitada, Osman Lins cria um romance que desafia tempo e espaço, dos mais livres da ficção em língua portuguesa.

(James Amado, orelha do livro A Rainha dos Cárceres da Grécia, ed. Melhoramentos, 1976)

 

 

trecho:

25 de fevereiro

Temos em A Rainha dos Cárceres da Grécia, um espaço natural (aí estão as avenidas e bairros de uma cidade que todos podem identificar) e contudo arbitrário. Como sempre, a romancista disfarça as suas soluções. Quem conhece Recife, achará absurdo que uma personagem venha pelo Cais de Santa Rita, dobre à direita, passe pela Estação Central e atravesse a Ponte Santa Isabel; que no fim da Rua da Concórdia surja a Praça da República; ou mais ainda que Maria de França, indo pela Rua da Aurora, ao lado do rio, enverede pelo beco das Cortesias ou observe o Seminário, situados em Olinda. Como se não bastasse converter o Recife numa estrutura móvel, que se desconjunta e sem cessar reordena-se, Júlia M. Enone remove a cidade Olinda, anula os seis quilômetros que a distanciam do Recife e faz com que ela invada a capital, trespassa-a.

Surge, da fusão operada, uma cidade fantástica, exclusiva do livro e cuja impossibilidade escapa ao observador não alertado. O recife, cidade rasa e como submersa, recebe as colinas de Olina, alteia-se e os sinos de uma, soando, ecoam dentro das casas de ambas. Contrapondo-se à topografia mutável da cidade invadida, com os seus logradouros que flutuam e ligam-se aos outros - separando-se depois para novas combinações impossíveis -, a Olinda do romance é firme e corresponde fielmente à que podeis visitar. Extraviam-se os habitantes do romance e, indo por uma calçada da zona portuária, galgam em seguida a ladeira do Amparo. Acontece regressarem a outro ponto do Recife ou ao mesmo lugar nas imediações do cais, com os seus cheiros pesados de óleo cru e frutas podres, mas o traçado da Olinda romanesca, estável, repete com exatidão o da Olinda histórica.

Esse espaço híbrido onde um espaço firme e um espaço móvel associam-se, resulta mais sugestivo e intrigante que a opção em favor de uma ou de outra alternativa. Apesar disto, como evitar a necessidade de indagar o que leva a romancista a integrar, no mesmo campo, concepções tão antagônicas? Motiva-a a lei da variação? Quer apenas a escritora, aten ao conselho de Horácio, mesclar “o verdadeiro e o fictício”? Procura confrontar, com as suas obscuras implicações ocultistas, o líquido e o sólido? Não sei responder.

 

(Apostila 36 de Lit. brasileira Contemporânea)