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Mad Maria - Márcio Souza - resumo

Adaptado de Rodrigo Cunha

No final do século XIX e início do século XX, os trilhos de ferro que começavam a cortar o continental território brasileiro e a fumaça das locomotivas que passavam por eles - carinhosamente chamadas de Marias - simbolizavam de certa forma a chegada do progresso ao país. A louca Maria do título desse romance do amazonense Márcio Souza sintetiza a insanidade de um malogrado projeto ferroviário que estendia essa idéia de progresso para uma desconhecida e imprevisível região da floresta amazônica.

Após os conflitos entre brasileiros e bolivianos pela ocupação de uma região que corresponde ao atual estado do Acre, o governo brasileiro se comprometeu através do Tratado de Petrópolis, assinado por Brasil e Bolívia em 1903, a construir uma ferrovia desde o porto de Santo Antônio, no rio Madeira, em Mato Grosso, até Guajará-Mirim, no rio Mamoré, com um ramal que chegasse à Vila Bela, na Bolívia. O edital de concorrência pública para construção da ferrovia foi publicado em 1905 e vencido pelo engenheiro Joaquim Catrambi, mero testa-de-ferro do grupo norte-americano que se encarregou de construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré entre 1906 e 1912.

Em Mad Maria, o romancista Márcio Souza - que também fez filmes e peças de teatro sobre a região amazônica - conta, em forma de ficção, as desventuras dos homens que trabalharam na etapa final da construção da ferrovia. O ponto de partida da narrativa é o verão de 1911, quando o jovem médico de origem irlandesa Richard Finnegan, começa a trabalhar na enfermaria do acampamento onde vivem os trabalhadores da Madeira-Mamoré Railway Company. O calor infernal e sua luta com os escorpiões que apareciam após as rápidas chuvas de verão eram apenas o prenúncio do que ele viveria a partir de então e o levaria, senão à loucura sintetizada na locomotiva que reina sobre os trilhos que ligam o nada a parte alguma - segundo o colérico engenheiro inglês Stephan Collier, que chefia as obras - à dureza de caráter, passando a encarar como rotina os óbitos de trabalhadores que ele atestava e registrava metodicamente em seus relatórios, e a lidar, ao final da narrativa, com os mesmos métodos de intimidação bélica que Collier adotava diante das insanas e freqüentes brigas entre os trabalhadores de diferentes nacionalidades.

 

Obras em trecho da via férrea com betoneiras movidas a vapor em primeiro plano.
Foto: Dana Merrill

 

Dentre os episódios que vão endurecendo o caráter do jovem Finnegan e que ilustram a crua violência que permeia grande parte da narrativa estão as mortes por malária de trabalhadores que vendiam a sua dose de medicamento preventivo para ganhar um pouco mais do que o salário miserável que recebiam da companhia, e o seqüestro do médico por trabalhadores alemães que, após uma tentativa de greve frustrada, resolvem fugir do acampamento e o levam como refém, amarrado dentro de um tonel de gordura carregado por uma mula.

A violência aparece mais explicitamente em cenas fortes como a do negro de Barbados que decepa um alemão que o acusa de furto e tenta matá-lo, e a do índio que tem suas mãos amputadas após ser descoberto como o verdadeiro responsável pelo desaparecimento de objetos pessoais de irrisório valor material no acampamento, que provocava desavenças entre os trabalhadores. A vida desses estrangeiros recrutados para a construção da Madeira-Mamoré se tornou tão desvalorizada pelo baixo salário e pelas péssimas condições de trabalho e de acomodação que eles chegam facilmente à insanidade de - literalmente - perder a cabeça por causa de uma simples camisa ou de se arriscar a contrair malária, abrindo mão do medicamento diário em troca de algum dinheiro extra.

Além do rastro de mortes deixado pela construção da ferrovia, há contrapontos na narrativa que atenuam o ambiente de insanidade infernal no acampamento. Até o sisudo engenheiro Collier, com seu ácido humor inglês, nos diálogos com o amigo Thomas, o maquinista norte-americano que trabalhou com ele em outras empreitadas, se torna uma pessoa amável. O contraponto mais nítido se personifica em Consuelo, a pianista boliviana que é levada ao acampamento após ser encontrada ferida e desacordada no meio da selva, e que uma vez alojada na enfermaria, mantém uma relação ambígua com o índio de mãos amputadas e com o jovem e metódico doutor Finnegan.

A exemplo do que fizeram grandes nomes da literatura brasileira - como Antonio Callado, em Quarup, Rubem Fonseca, em Agosto, e Érico Veríssimo, em O Tempo e o Vento - o escritor amazonense Márcio Souza narra em Mad Maria um momento histórico do país, alternando a saga de personagens fictícios com a trama vivida por personagens reais, como o mega empresário norte-americano Percival Farqhuar, proprietário da Madeira-Mamoré Railway Company e de diversas concessões públicas no Brasil, entre portos, ferrovias e companhias elétricas. Essa trama envolve, além de Farqhuar, as altas esferas do poder público, incluindo o então ministro de Viações e Obras e futuro governador da Bahia, J. J. Seabra, com quem o empresário norte-americano "compartilha" uma amante. Esse, aliás, é um estereótipo usado por Souza para caracterizar as altas esferas do poder no universo do romance: nem mesmo o célebre jurista Ruy Barbosa, já septuagenário e em decadência política após perder a disputa da presidência para o Marechal Hermes da Fonseca, escapa de ter a sua amante.

 

Autoridades em visita a trecho concluído da ferrovia (1910).

Foto: Dana Marrill

 

 

Tirando alguns exageros, como a queda de árvores de cinco metros de raio (!) sobre os trilhos da ferrovia, e o hino norte-americano sendo tocado ao piano com os pés pelo índio de mãos amputadas, Mad Maria ainda assim é um bom romance que resgata esse trágico episódio envolvendo o capital estrangeiro tentando rasgar a selva com o progresso dos trilhos às custas de milhares de mortes. Entre os legados dessa empreitada norte-americana no Brasil está a cidade de Porto Velho, atual capital de Rondônia, erguida em 1907 durante a construção da Madeira-Mamoré e que substituiu a cidade de Santo Antônio como ponto inicial da ferrovia. Sucateada na década de 70, a estrada de ferro teve seus trechos iniciais recuperados para fins turísticos nos anos 80, mas hoje está totalmente desativada. A louca Maria, abandonada, há muito já não reina sobre os trilhos amazônicos e não joga sua fumaça pela selva desbravada.

 

MAD MARIA - mini-série - Globo

No coração da floresta amazônica é construída a estrada de ferro Madeira-Mamoré, concluída pelo empreendedor americano Percival Farquhar. A ferrovia atende a interesses políticos e comerciais de autoridades nacionais e estrangeiras, porém custa a vida de milhares de trabalhadores.

O governo brasileiro investiu na ferrovia para compensar a Bolívia pelo território do Acre. A ferrovia iria superar 19 cachoeiras dos rios Madeira-Mamoré que dificultavam o transporte de borracha da Bolívia para o Atlântico, via Amazonas. Mas, ao ser concluída, a borracha entrava em decadência.

Indo contra os interesses de Farquhar está o ministro Juvenal de Castro, amigo pessoal do então Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca. Planejando derrubar o ministro e tirá-lo de seu caminho, Farquhar descobre o romance extra-conjugal de J. de Castro com a jovem Luiza, e não exita em tirar proveito desse segredo.

Enquanto isso, na Amazônia, o engenheiro inglês Stephan Collier comanda com mãos de ferro a construção da ferrovia liderando um grupo de homens tratados como animais no meio de uma floresta selvagem, ameaçados por toda sorte de infortúnio, principalmente doenças.

A mudar este panorama está a chegada de três novos personagens: o índio Joe Caripuna, que roubava o alojamento dos trabalhadores e ao ser descoberto teve as mãos amputadas. O Dr. Finnegan, um jovem médico idealista que bate de frente com a autoridade de Collier. E a bela Consuelo, encontrada na floresta entre a vida e a morte após o naufrágio do barco onde viajava com seu noivo.

 

Elenco:

JUCA DE OLIVEIRA - Stephan Collier

FÁBIO ASSUNÇÃO - Joe Richard Finnegan

ANA PAULA ARÓSIO - Consuelo

TONY RAMOS - Percival Farquhar

ANTÔNIO FAGUNDES - Ministro Juvenal de Castro

PRISCILA FANTIN - Luiza

CÁSSIA KISS - Amália

OTHON BASTOS - Marechal Hermes da Fonseca

CLÁUDIA RAIA - Tereza

EDWIN LUISI - Alexander Mackenzie

WALMOR CHAGAS - Dr. Lovelace

JOSÉ RUBENS CHACHÁ - Coronel Agostinho

RENATO BORGHI - Rui Barbosa

FIDÉLIS BANIWA - Joe Caripuna

DÉBORA OLIVIERI - Harriet

ELIANE GUTTMAN - Dona Inês

LUCIANO CHIROLLI - Addams

MARCELO SERRADO - Jim

ANDRÉ FRATESCHI - Ted

GENÉSIO DE BARROS - Thomas

EVANDRO SOLDATELLI - Harold

ARTHUR KHOL - King John

BUKASSA KABENGELE - Jonathan

CREO KELLAB - Dick

ESTER JABLONSKI - Maria

GILBERT STEIN - Antônio

CAMILO BEVILÁCQUA - Hans

MARCOS SUCHARA - Günther

MILTON ANDRADE - Gustav

EDDIE JANSSEN - Joseph

ALMIR MARTINS - Juan

GABRIEL TACCO - Alonso

RICARDO BLAT

GLÁUCIO GOMES

CREUSA DE CARVALHO

FELIPE KANNENBERG

HSU BUN LUNG

MÁRCIO RICCIARDI

NICOLAS ROHRING

ANDRÉ BANKOFF

LUCIANO QUIRINO - policial

TÁCITO ROCHA - Vice-Ministro

Trilha Sonora

orquestrada e dirigida por Alberto Rosenblit

 

OS HOMENS E A FLORESTA
VALSA DE LUIZA
CONSUELO E JOE
O TREM DE RONDÔNIA
AMÁLIA
DESPEDIDA DE LUIZA
CONSPIRAÇÕES
CONSUELO
FUGAS E REGRESSOS
SEGREDOS DE TEREZA
NOITE EM SANTO ANTÔNIO

 

(Apostila 28 de Lit. brasileira Contemporânea)