ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

A Moratória - Jorge de Andrade- resumo

Encenado pela primeira vez em 1955, A Moratória mostra como seu autor, Jorge Andrade, tem perfeito domínio do que se espera de uma peça teatral a ponto de conseguir inovar imensamente sem perder de vista a característica essencial do gênero: a valorização da encenação.

Moratória: dilatação de prazo concedida pelo credor ao devolver para o pagamento de uma dívida.
Conforme brilhante resumo de Célia A. N. Passoni da Editora Núcleo, comenta a professora que a peça A Moratória constitui-se em três atos, tendo o cenário dividido em dois planos. Em um, uma sala espaçosa de uma antiga e tradicional fazenda de café; em outro, uma sala modesta mobiliada onde se vê, em primeiro plano, uma máquina de costura. É através desses dois cenários que o autor consegue fazer o presente e o passado próximo. O espectador, em um mesmo instante, através da mudança de planos, entra em contato com duas realidades distintas, ligada somente pelas personagens. Para efeito do resultado, a estória será narrada linearmente.

Quim [Joaquim] é fazendeiro de café, afeiçoado a terra, mas acaba sendo levado à ruína, por maus negócios. Tem setenta anos e representa o orgulho de um nome, já sem encontrar respaldo entre os cidadãos de uma cidade que está transformada com a presença de elementos estranhos à casta tradicional. Diz Joaquim: 'Não sei como, minha filha, mas de repente, senti como se estivesse só naquela cidade. Parecia que todas as portas estavam fechadas para mim. Eu não conhecia mais ninguém. Percebia que atrás das janelas todos me olhavam e... ninguém... ninguém...' Mergulhado em sua solidão, nutrido pela esperança de recuperação, só encontra amparo na família. A mulher Helena é a mais corajosa, soube enfrentar melhor a situação, e a filha Lucília tornou-se o arrimo da família, agora vivendo dos proventos de sua costura, uma vez que o irmão, Marcelo, não se adapta a nenhum emprego.
Fora da família estão Olímpio, advogado, filho do rival político de Quim, mas apaixonado Poe Lucília. Elvira, irmã de Quim, mulher rica e 'caridosa' que entrega café e outras coisas que vêm da fazenda em troca das costuras 'grátis' da sobrinha. Não tem filhos e vive envolvida com a assistência dada a um asilo. Nesse pequeno universo, as personagens vão sendo colocadas à mercê de um destino cruel. Quim, em torno do qual a história gira, alimenta uma esperança de retornar à fazenda, que foi à praça, para saldar as dívidas. A crise do café não permitiu a venda, a florada não foi boa; a chuva tardou, o governo não fixou um teto mínimo para o café, não há dinheiro. Só resta a esperança de poder recuperar a fazenda, a esperança de uma moratória que todos sabem não vir.

A obra de Jorge Andrade constitui um ato de reflexão sobre a realidade paulista em seus aspectos sociais, morais e psicológicos. O tema da decadência dos latifúndios cafeeiro representa o fim de toda uma classe patriarcal e semifeudal de aristocratas sucumbidos à crise econômica de 1929 e a nova ordem social imposta por Vargas em 1930. ao mesmo tempo, focaliza em seu interior o conflito de gerações, o conflito de valores tradicionais em uma sociedade que vive a rápida mudança provocada pelo êxodo rural, pelo dilatamento das cidades e pelas mudanças das elites. Marcelo é o filho desesperançado, inadaptado, aquele que vive uma outra realidade que na a do pai, aquele que é capaz de proferir palavras rudes e no entanto, verdadeiras, apontando a terrível realidade: 'O senhor finge não perceber que não fazemos mais parte de nada, que nosso mundo está irremediavelmente destruído... As regras para viver são outras, regras que não compreendemos nem aceitamos... tudo agora é diferente, tudo mudou. Só nós é que não. Estamos aqui morrendo lentamente...'

Lucília é filha solteirona que vê seu casamento com Olímpio frustrado pelo autoritarismo paterno. Não se entrega aos sonhos e às esperanças do pai, que acha poder reaver a fazenda. É ela que, com força e convicção, recupera a dignidade da família, costurando furiosamente. É ela que procura lutar pela realidade bruta, protegendo o pai contra as intempéries:

'Se a senhora [Elvira] merecesse respeito, teria tido um pouco de amor por seu irmão, piedade ao menos. Gostaria que tivesse assistido à chegada deles, quando vieram da fazenda. Só aí poderia compreender até que ponto sofreram! Com o relógio, os quadros e esse... esse galho de jabuticabeira nas mãos... pareciam duas crianças assustadas, com medo de serem repreendidas. Através de cada gesto, de cada olhar, havia um pedido de perdão, como se eu... eu pudesse censurá-los em alguma coisa. Egoísta! A senhora é uma mulher má. Papai é mesmo de boa-fé, tem bom coração, caso contrário teria posto à senhora daqui para fora. O que eles sofreram, você e tio Augusto hão de pagar.'

Com simplicidade, Jorge Andrade vai chegando ao clímax da peça, a hora da revelação e, conseqüentemente, a hora em que Joaquim se depara com a verdade / realidade, que nós, espectadores, conhecemos desde o primeiro momento. É pujante a dor de homem e a ela estamos irmanados pela indescritível capacidade da arte de fazer o tempo / espaço identificar-se com outro espaço / tempo do espectador.
Trecho:

[Joaquim volta à sala no Segundo Plano e pega o galho da jabuticabeira que havia esquecido em cima da mesa. Torna a sair, procurando não olhar nada. Depois que Joaquim sai, as luzes do Segundo Plano vão diminuindo pouco a pouco até a sala ficar escura.]

PRIMEIRO PLANO

Lucília: [Primeiro Plano] Com certeza, desencontramos
Helena: Procurei o Quim e não consegui encontrar.
Lucília: Deve estar com o Olímpio.
Helena: Fui ao empório onde ele costumava ir, à igreja, a toda parte!
Lucília: A senhora não devia andar assim.
Helena: Se ele pelo menos não fosse tão violento.
Lucília: Precisamos deixar o papai protestar à vontade, e ficar quietas. É um direito que ele tem. Não pense mais nisto.
Helena: [Aflita] Você sabe como é o pai, Lucília! Como não hei de pensar?
Lucília: Não vai acontecer nada, mamãe. Acalme-se.
Helena: Ele já não tem idade para enfrentar essas coisas.
Lucília: Mais uma razão para nos mantermos calmas. [Impaciente] Não podemos se descontrolar. Assim ele não sofrerá tanto.
[Volta á censura]
Helena: [Olhando os objetos em cima da mesa] Não seria melhor guardar tudo isto?
Lucília: Por quê? Não foi ele mesmo quem pôs aí?
Helena: Foi, mas agora... pode ser que...
Lucília: Ele terá que ver um dia; é preferível que veja de uma vez. [Pausa]
Helena: Meu Deus! por que é que demoram tanto?!
Lucília: Mamãe! Tenha calma.
Helena: [Entregando-se ao desespero] Não agüento mais. Não agüento mais, minha filha.
Lucília: [Abraça Helena] Não se preocupe. O Olímpio saberá dar a notícia.
Helena: [Aflita] Preferia... preferia...
Lucília: O quê? Diga, mamãe.
Helena: Gostaria que o Olímpio mentisse.
Lucília: Não! Chega! Vamos enfrentar de uma vez a realidade.
Helena: Tenho medo, Lucília!
Lucília: Precisamos aceitar e não pensar mais nisto.
Helena: Uma pessoa como seu pai não vive sem esperança. E era a única coisa que lhe restava.
Lucília: [Perde a paciência] Mamãe! Não fique pensando nisto, pelo amor de Deus!
Helena: Não consigo.
Lucília: Papai é um homem forte.
Helena: Ele sempre desejou morrer no meio do campo, como o finado Martiniano, e agora...!
Lucília: Onde terá ido? A senhora foi ao ponto das jardineiras? Ele vai lá todos os dias.
Helena: Você também tem medo, minha filha?
Lucília: [Controla-se] Não. Ele gosta de ver as jardineiras que chegam e partem para as fazendas.
Helena: Ele estava lá, mas... [Pára e fica muito excitada]
Lucília: [Temerosa] Que foi, mãe?
Helena: Chegaram!
Lucília: Por favor acalme-se.
Helena: Mãe de Deus, rogai por nós!
Marcelo: [Voz] sente-se papai. Vou chamar a mamãe.
Joaquim: [Voz] Não.

[Ouve-se o barulho de algumas coisas que cai no chão. Lucília fica imóvel, tesa, olhando para o corredor. Percebe-se que Helena continua rezando. Joaquim aparece no corredor, pára e fica com os olhos presos em Helena. Faz um gesto como se pedisse desculpa; há nele uma angústia inexprimível.]
Lucília: [Amargurada] Papai!
Helena: Quim!
[Joaquim vai até a mesa e encosta-se.]
Lucília: Sente-se papai.
Helena: Quim, meu velho! Que fizeram com você?
Lucília: [Procurando se conter] Papai! [Marcelo e Olímpio aparecem no corredor]
Helena: Sente-se, Quim. Não quer se sentar?
Joaquim: [Tentando ser violento] Por que é que todos querem que eu me sente?
Helena: Por nada, nada!
[Joaquim, depois de pegar um trapo na mesa, senta-se, lentamente. Pausa longa. Joaquim começa a desfiar o trapo.]
Lucília: [Avança na direção do pai] Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim,
pelo amor de Deus!
Helena: Lucília!
Lucília: É isso mesmo. Proteste. Proteste, papai. O senhor tem direito, nós temos esse direito. As terras são nossas, sempre foram
nossas. Ninguém pode nos tomar. Papai! Ainda há esperança, daremos um jeito; é preciso que o senhor não aceite, nós
não podemos aceitar.
Olímpio: [Tente segurar Lucília] Lucília!
Lucília: [Repele Olímpio] deixe-me.
Helena: Minha filha respeite o sofrimento de seu pai.
Lucília: Não! Não quero ver meu pai assim. Não quero, não quero. Deve haver um jeito. Olímpio! Diga que há. Minta. É preciso que você minta!
Olímpio: Mentir como, Lucília?
Lucília: Não quero que meu pai fique sem esperança. Não quero. [Bate com as mãos no peito de Olímpio] Não quero! Não...
[Lucília caí sentada à máquina, ainda repetindo 'NÃO'. Pouco a pouco, começa a soluçar.]
Joaquim: [Olha para Lucília] Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha filha. Não precisa ter medo. Eu... eu...
[Lucília não resiste mais e começa a soluçar fortemente. Todo seu corpo é sacudido pela explosão do desespero e ela se agarra em Olímpio. Olímpio leva-á para fora da sala. Helena caminha lentamente e vai ficar atrás da cadeira de Joaquim; põe a mão em seu ombro. Marcelo senta-se no banco.]
Joaquim: [Subitamente aflito] Helena! E as minhas jabuticabeiras?
Helena: Não pense, Quim, não pense mais nisto. Não faltará chuva.
Joaquim: [Pausa] Em que mês estamos?
Marcelo: Em abril.
Joaquim: Abril! [Pausa] O café está sendo arruado!
[As luzes vão abaixando lentamente]
Marcelo: Já não se ouve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!
[As vozes se transformam num murmúrio e as luzes apagam definitivamente.]

 

Comentário (adapt. De Feranet)

Por muito tempo a dramaturgia brasileira cometeu o erro de se concentrar apenas no texto, provocando distorções com obras em que a linguagem das personagens destoava pela falta de naturalidade, com falas gigantescas e cansativas (é obrigatório lembrar exceções como Martins Pena, no Romantismo, e Nélson Rodrigues, no Modernismo). Esqueciam que o aspecto mais vivo do teatro é a necessidade de ter de ser visto, ou seja, é muito mais do que história em si.

Não se quer dizer aqui, no entanto, que A Moratória tem seu valor porque despreza o texto. Muito pelo contrário, pois, quanto a esse aspecto, não há o que questionar na obra. Sua linguagem é muito bem elaborada, de um coloquial fiel e bem estilizado, sem decair nos vícios de linguagem da fala que enfeiariam o produto. Nota-se no autor o que foi apontado como um artesanato na escolha vocabular, do nível de linguagem, no emprego do tom. É aspecto que o torna um clássico do moderno, pois é um texto calculado para fluir natural ao seu leitor/telespectador.

Ainda assim, o tratamento literário não se restringe à transfiguração do padrão coloquial. O autor se permite trabalhar com inúmeras simbologias, sem tornar o texto etéreo, muito menos hermético. Basta lembrar, por exemplo, o galho seco de jabuticabeira que surge no cenário, que claramente consegue simbolizar a força já mirrada da antes poderosa classe cafeicultora.

Nesse ponto chega-se a outro aspecto literário da obra, que é a preocupação em focalizar e analisar questões sociais. Existe como pano de fundo à narrativa a Crise de 29 e a Revolução de 30, que provocaram a queda de um sistema oligárquico velho e que não encontrava mais espaço no novo status quo. Tal sistema fica, na peça, representado na figura de Joaquim, que, apegado a um universo de valores antigos, negocia café a prazo em meio a uma crise e ainda se atola em dívidas.

Chega a desenvolver esperanças achando que sua fazenda não irá à praça para pagamento de dívidas, pois seria arrematada pela irmã, Elvira. Acredita na dignidade de ver seu bem nas mãos de parentes, algo bem melhor do que sob posse de terceiros. Há nesse ponto um elemento que valoriza a dramaticidade da obra. A mulher não o ajuda, o que gera duas conseqüências.

A primeira é que de fato a fazenda vai à praça, acelerando a decadência de Joaquim e sua família. A segunda é a possibilidade que se abre para que possamos enxergar a força de Jorge Andrade, capaz de apresentar de maneira poderosa e convincente o caráter de suas personagens apenas pela ação e diálogos. Nota-se a tensão surda, interna e externa, por que passa Elvira, pois manda constantemente pequena ajuda à família de Joaquim, como café (é extremamente curioso, e chocante, que essa família, antes cafeicultora, passe a mendigar café) e leite. Esta mulher havia sido desprestigiada na divisão da herança, já que a melhor parte da fazenda tinha ficado para Joaquim. Assim, fica no ar a idéia de que, se ela não ajudou, pelo menos pode ter sentido uma ponta de satisfação ao ver a derrocada de Joaquim, sem mencionar que as contribuições dela ficam como um misto de humilhação vingativa com caridade e intenção de compensar uma consciência pesada. É uma pessoa que se sente na obrigação de praticar a caridade (faz até parte de uma entidade assistencial), mas não perde a mania de lembrar suas dificuldades em realizar esse ato, como se estivesse jogando na cara o favor que vem sendo feito aos parentes, apesar das queixas constantes de seu marido, que já havia se estapeado com Joaquim por causa de dívidas.

Na realidade, as mulheres dessa peça mostram-se muito mais adaptadas e conscientes do que os homens. Para corroborar tal argumento não precisamos nos concentrar na figura de Elvira. O destaque merece ser dado à Lucília, que, após a derrocada, amadurece amargamente e passa a sustentar a família, graças às suas costuras, atividade que Joaquim, seu pai, acha indigna (as críticas dele baseiam-se, mais uma vez, num universo de valores antigos. A tarefa de costureira não caberia bem a alguém da aristocracia cafeeira, em nada afeita a servir os outros). Ela é bem diferente do irmão, Marcelo, que sempre fora preguiçoso, sem disposição mesmo até para a escola (não completou os estudos) e que piorou a índole com a queda da família, tornando-se um bêbado que troca constantemente de emprego. Outra mulher forte é Helena, mãe e esposa conciliadora (tem uma enorme tarefa diplomática num lar em constantes discussões e desentendimentos), que se vê na obrigação de ser o alicerce das esperanças principalmente de seu marido, Joaquim, homem de temperamento explosivo, o típico coronel, o que se revela no autoritarismo com que estraga as possibilidades de casamento de sua filha, pois estava apaixonada por Olímpio, filho de um inimigo político.

No fim, Joaquim e Lucília é que são a mola-mestra da obra. Ela é a força por sobrevivência na realidade, o que, como já se diz, a faz eficiente na adaptação ao novo meio, urbano, dispensando os brios aristocratas que já não funcionam mais. Nesse ponto, leva vantagem em relação ao pai, que ainda está fortemente apegado ao passado rural de origem bandeirante. É um homem que se recusa autoritariamente a enxergar ou mesmo discutir a nova situação. No fundo, é uma questão de sobrevivência, pois não há mais espaço para ele.

É talvez por isso que se agarre a uma esperança de reconquista de suas terras, animada por um decreto que permitia moratória (daí o nome da peça), já que a liquidação das dívidas só poderia ter sido feita por meio de todo um processo que contava com publicação em jornais, o que não havia ocorrido no caso dele. Esperar passa a ser a sua vida.

Aliás, esse é um aspecto que dá uma substância assombrosa à obra. Sabe-se que seu autor, Jorge Andrade, tem traços neo-realistas, tornando A Moratória um filho tardio da ficção regionalista da Geração de 30, que tinha como companheiros Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queirós e José Lins do Rego. Mas a obra tem elementos existenciais tão profundos que lembram o modo como o melhor dos regionalistas, Graciliano Ramos, extrapolou os ditames desse grupo, tornando-se universal. De fato, o drama regional da peça acaba representando o drama de toda nossa civilização de esperar um retorno à redenção, à salvação, a um passado glorioso. Transforma-se, portanto, num tema extremamente humano.

O mais trágico é que a salvação não vem. Por meio de um longo processo judicial, Joaquim acaba perdendo, pois os credores acabam encontrando um subterfúgio: a lei obrigava que o processo de liquidação fosse anunciado em jornais, mas como na cidade não havia esse veículo (considerando-se que, de acordo com a etimologia latina, jornal seja de circulação diária), mas semanários, não havia como pleitear moratória e anulação da privação de bens. Fecham-se todas as portas. Instaura-se a derrocada completa.

Em suma, são temáticas pungentes e ao mesmo tempo engajadas. Mas o mais forte na obra está no que se refere à encenação. Tudo isso se passa num palco dividido em dois planos. O da esquerda, um pouco mais alto, é o do passado. Suas ações ocorrem na fazenda, em 1929. O segundo, da direita, mais baixo (símbolo de queda?) é o do presente, que se passa três anos depois, em uma pequena cidade.

O bonito é ver que esses dois planos se comunicam, muitas vezes o passado explicando o presente, ou este reforçando aquele. Há repetição de cenas, de dados, até mesmo o aparente diálogo entre as personagens, que providencialmente trocam de um plano para o outro, o que só faz revelar o apuro artesanal do autor na montagem das cenas.  O fenomenal é ver como esses dois planos vão se relacionando, separados, mas caminhando para um clímax comum. O da esquerda vai em direção à queda representada pela perda da fazenda em conseqüência de dívidas. O da esquerda vai na direção da queda representada na negação da moratória. Tudo confirma a tese de que não há como explicar essa peça – o melhor é vê-la ou, pelo menos, lê-la. É um espetáculo.

Comentário 2: (adapt. De Soc. Lit. Prometheus - http://www.geocities.com/slprometheus)

O elemento estrutural mais importante dessa obra é a sua organização sistematizada em dois planos e três atos:

Plano do presente (1932, aproximadamente), no espaço de uma casa modesta

Plano do passado (1929), no espaço de uma fazenda tradicional.

Além de quebrar a linearidade que tornaria o texto e a encenação um tanto quanto monótonos, essa organização permite aos espectadores Ter acesso simultâneo aos dois instantes fundamentais da história, levando a uma comparação que foi prevista pelo autor, para assim comentar, sublinhar os fatos sobre os quais quer chamar a atenção. Dessa forma, os espectadores não podem contar nem ao menos com o refrigério da dúvida. Sabem, antecipadamente, que toda esperança é inútil. Por isso, pode-se dizer que sofrem mais que as personagens.

Tempo: como todo texto conciso e de forte consciência dramática, a ação se desenvolve próxima do seu desenlace. Temos dois momentos fundamentais, o passado (1929), próximo da perda da fazenda que segue até a perda definitiva; e o da esperança de retorno com base na moratória e no resultado do processo de nulidade (1932), que se encaminha até a decisão final do juiz, com a derrota definitiva, pondo fim a toda e qualquer esperança.

Espaço: há dois espaços fundamentais: a sala de uma modesta casa de cidade do interior de São Paulo e a de uma larga casa da fazenda tradicional. O espaço da fazenda não se manifesta de modo concreto e genérico, mas por meio de pequenos incidentes que perpassam pela conversa como o balaústre que está estragado, os vidros da bandeira da porta que estão pedindo troca, ou mesmo as formigas que tornaram a sair. Importante notar, que esses sinais apontam todos infalivelmente para a ameaça de morte (decadência) que paira sobre a fazenda ou, metonimicamente, sobre essa classe que ela representa, isto é, a classe dominante da época, os donos do café.

Personagens: Helena, pessoa bondosa, humilde, que ama a todos de maneira bem distribuída, procurando compreender cada um e aceitá-lo com suas virtudes e seus defeitos. Como toda mulher daquele tempo é totalmente obediente ao marido. Joaquim, homem sistemático do interior, forte na aparência, mas sensível no interior. Cuida de todos os negócios, não permitindo que as mulheres se metam em atividades que julga serem apenas dos homens. Dispensa todo tipo de ajuda, por isso sofre muito quando a filha precisa costurar para sustentar a família. É preso à tradição, não aceitando as mudanças. Marcelo, filho de classe dominante, nada quer na vida, evitando qualquer esforço físico ou intelectual. Quer desfrutar dos benefícios que a posição do pai lhe proporciona, e, quando tudo desanda, refugia-se na bebida. Lucília, moça forte, de temperamento enérgico e paciente, única no conjunto familiar a estar preparada para a nova vida de sofrimento e luta pelo pão de cada dia. Orgulhosa, no entanto, não gosta de aceitar ajuda dos parentes.

 

(Apostila 22 de Contemporânea da Lit. Brasileira)