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JOÃO UBALDO RIBEIRO - Viva o Povo Brasileiro - resumo, comentário estudo e trecho

O livro é, senão, a saga de um povo em busca de sua identidade e afirmação. A cultura e os costumes do Nordeste servem para o autor criar um romance épico, em que a população do Recôncavo Baiano vira metáfora do povo brasileiro. Apesar da consagração de Sargento Getúlio, é em Viva o Povo Brasileiro que João Ubaldo Ribeiro reforça sua obra como uma das mais significativas e atuantes, do ponto de vista estilístico e político, da Literatura Contemporânea Brasileira.

Romance épico que percorre quatro séculos da história do Brasil. A linguagem de João Ubaldo é sempre bem humorada, envolvente, surpreendente. O autor descreve com habilidade os sentimentos e motivações de personagens tão díspares quanto os holandeses exploradores do século XVI, índios canibais, escravos de engenho, poderosos oligarcas, religiosos, funcionários públicos e políticos, entre outros. São dezenas de personagens, numa história fascinante e bem contada, que anda junto e é coerente com a História do Brasil, inclusive suas incoerências e injustiças.

Grande parte da história de Viva o povo brasileiro, se passa em Itaparica. Ubaldo, que costuma citar moradores da ilha em suas crônicas, fala, no livro, sobre a construção da identidade do povo brasileiro. É na ilha que nasce a heroína Maria da Fé, que desafia o poder dominante para fazer parte, ao lado de outras mulheres e homens, da Irmandade do Povo Brasileiro. É ela que surpreende a todos ao aparecer no enterro de seu avô, com disfarce de capitão, desafiando o Exército.

 

Comentário:

Estórias que fazem a História

João Ubaldo Ribeiro no livro Viva o Povo Brasileiro, fala-nos de personagens que lutaram e que construíram o Brasil.

Conta-nos as suas vidas, os seus feitos, as suas mudanças.

Eu gosto particularmente de livros com finais definidos, em que conhecemos o fim da vida dos personagens e não o fim de apenas um ciclo com a fatídica frase “E viveram felizes para sempre…” (até pela ridicularidade e impossibilidade dessa frase).

No Viva o Povo Brasileiro, descobrimos as pessoas “simples” como “heróis” e aprendemos com as suas estórias, como esta:

“Deve ter sido aí que ele começou a virar criança e, aos poucos, deixou de reclamar com a neta. E não só deixou de reclamar como, um belo dia, chamou-a para uma conversa que ela nunca poderia ter antecipado. Disse a ela que não parecia, mas ele havia chegado a compreender muitas coisas, muitas coisas, entre as quais que a sabedoria da vida tem muitos lados, não um lado só. Por conseguinte, era bem possível que houvesse até muitas sabedorias em vez de uma só, de maneira que ele não estava mais negando o que pensava a neta. Achava errado, mas não negava, o mundo é assim mesmo, cheio de maneiras de ver. Então, sabia ela o que ele ía fazer? Pois lhe diria. Aquele dinheiro que tinha juntado numa vida de trabalho e mais trabalho, era dela, estava enterrado naqueles lugares que ele transcrevera no papel que agora lhe entregava. Tudo era dela, ele estava velho, queria somente ficar ali com sua hortazinha, seu pomarzinho, sua casinha, suas galinhas, seus porquinhos, suas coisinhas, seus brinquedos, seus amigos meninos. Estava velho, bastante velho mesmo, devia ser o sujeito mais velho que ela conhecia, e então o melhor que fazia era permanecer ali mesmo sendo menino, coisa que nunca havia sido e lhe interessava muito, para uma vida completa. E, quanto a ela, agora não tinha mais desculpa para não fazer o que achava que devia fazer, que, aliás, fizesse isso mesmo: o que achava que devia fazer. Era um presente em que ele tinha pensado muito antes de dar a ela e era um presente de grande amor. Não o dinheiro, que ele não tinha ninguém no mundo a não ser ela e, portanto, era sua obrigação cuidar dela direito, pois que ela tampouco tinha alguém por si no mundo. Mas, sim, a liberdade e ser e escolher, coisa para que, pelo menos da parte dele, ela acharia ajuda, embora fosse encontrar dificuldade em todas as outras partes, dificuldade mortal mesmo, dificuldade dura e sem misericórdia. Mas este conselho lhe dava: que não fosse boba, que não confiasse, não confidenciasse e não desistisse com facilidade; que não fosse mentirosa, mas também não imprudente; que não quisesse lutar sempre do mesmo jeito, mas que visse que para cada luta há um jeito próprio, dependendo sempre das circunstâncias; e que gostasse dele, porque ele gostava tanto dela que o coração lhe doía e, se não tinha sido melhor avô, fora porque não soubera, mas tudo o que sabia e procurava aprender tinha feito para ela. Ela gostava dele?”

Comentário Adapt. De Mafalda (http://livroscomletras.weblog.com.pt)

 

Estudo acerca do Livro:

VERDADE OU MENTIRA: A CONSTRUCÃO DA IDENTIDADE EM VIVA O POVO BRASILEIRO - Alcmeno Bastos - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resumo:

A construção da identidade é tema central em Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Os vencedores lançam mão da mentira, fazendo-a passar por verdade, sob o amparo fraudulento da escrita. Os vencidos depositam na história informal os instrumentos com que forjam sua verdade. O discurso do narrador se flexibiliza para dar conta dessa diversidade: naturalismo miúdo no retrato do mundo dos vencedores; realismo poético na representação do “povo brasileiro”.

Viva o povo brasileiro (1), de João Ubaldo Ribeiro, publicado em 1984, é um romance ambicioso. Em suas quase setecentas páginas, três séculos da história do “povo brasileiro” – da chegada dos holandeses à Bahia, no século XVII, até os anos 70 do século XX – são representados ficcionalmente. O título, insolitamente exclamativo, a despeito da ausência do convencional sinal de pontuação, alude não a alguma individualidade marcante, na tradição retumbante do romance histórico tradicional, mas a uma entidade imprecisa, o “povo brasileiro”. Essa personagem¸ se carece de atributos personalizadores, ganha, em troca, acentuada liberdade face a condicionamentos espácio-temporais, mantendo-se permanentemente disponível para a contínua construção de sua identidade. A relativa concentração espacial, na Bahia, em particular na Ilha de Itaparica, de onde partem ou para onde voltam as diversas personagens, é redução metonímica, sem dúvida, mas não invalida o expansionismo do título, pois se trata de modelo em escala que reafirma a integridade do “povo brasileiro”. Ademais, a eleição da Bahia acaba por não ser tão arbitrária, se lida a partir de certos códigos de brasilidade, como o que aponta aquele locus privilegiado como berço da nação brasileira. E tal concentração espacial é compensada por uma inusual distensão temporal: os três séculos de história são trabalhados não linearmente, mas aos saltos, de modo a, sem elidir de todo a cronologia dos acontecimentos, estabelecer vivo contraponto temporal: o ir-e-vir do foco narrativo dá-se, não de um espaço para outro, mas de um tempo para outro. Essa desarticulação da linearidade cronológica impõe uma leitura que minimiza as relações de causalidade aparente em favor de uma percepção circular, abrangente, rigorosamente em consonância com a indicação do título: trata-se não da estória de um indivíduo cuja vida se pautasse pela mecânica inexorável do ciclo nascimento-vida-morte, mas da “vida” em constante devir de todo um povo, por isso isento do fatalismo da morte biológica.

Tratando-se, portanto, da vida de um povo, vida que não se encerra com o ponto final do texto – e vale a pena atentar para a expressividade do verbo, pois “Viva” não inicia apenas uma saudação protocolar e vazia, mas pode ser lido como incitação à permanência, isto é, ao desejo de que viva mais e para sempre o “povo brasileiro” - a questão da identidade afirma-se como tema central em Viva o povo brasileiro. As personagens que, consciente ou inconscientemente, constroem ou tentam construir suas respectivas identidades repetem, no plano individual de suas existências, o jogo de forças que preside, no plano coletivo, o processo histórico em que estão inseridas. A verdade e/ou a mentira são os elementos de sustentação dessas identidades. Para demonstrá-lo, deteremos nossa atenção em quatro delas, pertencentes a um e a outro dos grupos postos em cena: os vencedores e os vencidos, como tal entendidos os que ocupam, de berço ou por elevação social, os lugares mais vantajosos – os primeiros -, e os que são relegados às posições desfavorecidas – naturalmente, os últimos.

Cabe aos vencedores trabalharem a mentira de modo ardiloso, logrando fazê-la passar por seu contrário. Tal transformação é possível com o emprego reiterado da fraude. O primeiro deles a entrar em cena, Perilo Ambrósio Góes Farinha, futuro Barão de Pirapuana, por exemplo, forja sua reputação de “herói da independência” invertendo os sinais de sua participação na luta: foge dos combates,

Nem mesmo o som da batalha chegava-lhes agora como antes, embora antes tampouco houvesse o retumbo tremendo que esperavam. Perilo Ambrósio, que escolhera aquele ponto bem distante da luta para passar o dia, pois aguardava somente que vencessem os brasileiros para juntar-se a eles, temia que o combate não tivesse terminado ainda e que, por azar, fosse obrigado a tomar parte nele. (RIBEIRO: 1984, 23)

Mas se apresenta como destemido guerreiro, “o braço esquerdo numa tipóia empapada de sangue, assim como o jaleco e a camisa” (RIBEIRO: 1984, 25), sangue, na verdade, tirado do negro Inocêncio, a quem Perilo “sangrara à faca” para lambuzar-se “e assim apresentar-se ao tenente” (RIBEIRO; 1984, 27):

- Meu comandante, vinte almudes de sangue tivera, todos os vinte os daria gostosamente, e mais os tivera que os daria pela liberdade – respondeu Perilo Ambrósio, com a voz débil e cortada de ofegos lacrimosos. (RIBEIRO: 1984, 25)

E ao responder à pergunta do tenente, quanto à sua nacionalidade portuguesa, renega-a despudoradamente:

- Sim, meu comandante, foi Portugal onde primeiro vi a luz e entre portugueses fui criado, pois que o são meu pai e minha mãe, como hão de ser também os vossos maiores. Mas, se lá vi a luz, cá no Brasil foi que vi a vida e, se falo desta maneira, isto se deve aos que forcejaram desde sempre por meter-me na cabeça, eis que até aos estudos na Corte quiseram enviar-me, não houvera lutado para não formar-me em meio aos inimigos da liberdade e da Independência. (RIBEIRO: 1984, 25)

 

A vilania de Perilo Ambrósio completa-se com o ato covarde de silenciar para sempre a outra testemunha, o negro Feliciano, cortando-lhe a língua. Tempos depois, misturado aos heróis autênticos, o agora barão recebe, como eles, o reconhecimento da pátria, que lhe dá

patrimônio e fazendas ricas, medalhas e pensões, títulos e concessões, comendas e cargos vitalícios, benesses mais fartas e generosas que a própria terra bendita sobre a qual se desdobrava agora o manto da liberdade. (RIBEIRO: 1984, 33)

Deste modo, mentindo contínua e deliberadamente, Perilo Ambrósio fabrica para si a estátua viva de um notável da pátria recém-libertada. Tanto quanto ele, outras tantas notabilidades certamente nasceram da subversão da verdade histórica, corrompendo o panteão da nacionalidade com tão falso heroísmo. Tanto quanto ele, outros tantos não hesitaram em aproveitar-se do momento histórico, deve-se deduzir. E são exatamente esses que trabalharam a versão da História que mais convinha aos seus interesses os que se logram sagrar-se vencedores em Viva o povo brasileiro.

Contudo, a mentira ardilosa não consegue perpetuar a vitória se outra mentira, ainda mais ardilosa, a ela se superpõe. Assim é que, de modo bem mais requintado, como que a atestar o “progresso” dos métodos fraudulentos com que se forjam as identidades para reconhecimento público, o mulato Amleto Ferreira, guarda-livros do barão, também ascende ao grupo dos vencedores por dois caminhos paralelos e complementares. Em primeiro lugar, acumula fortuna material, desviando, para seu armazém, mercadorias de propriedade do barão, traindo-lhe, portanto, a confiança, até apossar-se de todos os seus bens, após sua morte. Magnânimo, ampara a viúva, agora pobre, numa ação que decerto enobrecerá sua biografia para efeito externo. Combinam-se nele duas “qualidades” estimadas no círculo dos vencedores: a ambição, indispensável aos fortes e vitoriosos, e a generosidade com os que foram feridos pela má sorte, hábil construção destinada a amortecer o conflito inerente ao encontro de vencedores e vencidos. Mas a grande cartada, e esse é o segundo caminho percorrido por Amleto, consiste em ratificar a ascensão econômica – de simples guarda-livros a poderoso capitalista – mediante a fabricação de uma ancestralidade expurgada da indesejável mancha de inferioridade racial devida à herança negróide. Amleto agrega ao nome, valendo-se de uma certidão de batismo falsa, um imponente e eufônico complemento, passando a assinar “Henrique [Nobre] Ferreira-[Dutton]”. Sem constrangimento declina sua suposta ascendência:

Meu nome, por exemplo, é Amleto, escolhido por minha mãe em homenagem a meu pai; Henrique é pela velha tradição de casas reais de Inglaterra – Henrique, Jorge, Carlos, Guilherme, Eduardo e assim por diante -; Nobre porque este é sempre o terceiro apelido de nossa família portuguesa e, finalmente, Ferreira-Dutton, que é o nome correto da nova família, resultado da união anglo-portuguesa. (RIBEIRO: 1984, 234)

Com essa manobra cartorária, como que num passe de mágica, nada mais resta da obscura origem que o próprio Amleto antes não sabia explicar, como se vê no diálogo-interrogatório abaixo, travado com o cônego D. Araújo Marques, em seus tempos de apenas Amleto Ferreira:

- Como disseste que te chamas?
- Amleto Ferreira, para servir ao Monsenhor.
- É nome cristão? Amleto, nunca ouvi.
- Tem origem numa lenda inglesa, segundo sei, num poema ou tragédia inglesa.
- Numa tragédia inglesa, num poema? Temos aqui coisa, então temos coisas! A Inglaterra é excessivamente benévola para com os poetas e as artes frívolas. Se também tivesse músicos, estaria perdida. Então teus pais são leitores de livros profanos ingleses, é assim? Que livros são esses?
- Não sei bem, Monsenhor, o meu pai é inglês.
- O teu pai é inglês? Mas temos coisa, temos mesmo coisa! Mas és pardo, não és? Não mais vigoram as ordenações que vedavam aos pardos as funções públicas, podes falar sem susto, que depois de bem servires ao Senhor Barão, poderá arrumar-te ele um bom cargo de meirinho ou, quem sabe, almocreve da freguesia, para que passes a velhice à farta e sem nada fazer, ha-ha! E onde está esse teu pai inglês, que faz ele?
- Vive na Inglaterra, não temos notícias há muitos anos. (RIBEIRO: 1984, 65-66)

A ascensão da Amleto, seu resgate do grupo dos vencidos, é tanto mais admirável por resultar de ações perpetradas por ele mesmo, como que a demonstrar que, apesar da origem humilde, qualquer um pode elevar-se à altura dos homens “notáveis”. Naturalmente, pouco importam os métodos, mas é interessante constatar que a fraude econômico-financeira não basta para assegurar-lhe o reconhecimento público. A fraude étnico-social impõe-se como corolário natural. É indispensável apagar as marcas que ainda restem da origem “inferior”. O próprio Amleto só se sente legitimamente um dos vencedores quando contempla a certidão de batismo falsa, muito embora o peso de sua fortuna já lhe assegurasse ficar livre dos dissabores reservados aos vencidos. Está agora armado de uma prova material, frágil pedaço de papel, é verdade, entretanto instrumento tão poderoso quanto os bens materiais que acumulara até então. A mentira fez-se verdade pela fraude, mas depende da hipocrisia de aceitar-se que um papel tenha maior poder de evidência que os sinais de inequívoca descendência negróide. A estória de Amleto ilustra, no plano individual, a pretensão coletiva das elites brasileiras de uma identidade isenta do estigma da mestiçagem. Não é de surpreender torne-se ele, Amleto, ferrenho defensor dos valores da cultura a que almeja pertencer – a dos vencedores brancos:

(. . .) Mas, vejamos bem, que será aquilo que chamamos de povo? Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estrangeiro como exemplo do nosso povo. O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, é civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade. Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única que verdadeiramente faz jus a foros de civilização e cultura nos moldes europeus – pois quem somos nós senão europeus transplantados? (RIBEIRO: 1984, 244-245)

No pólo oposto, a verdade dos vencidos escorrega tenuemente ao longo dos três séculos que a narrativa cobre. Vem sempre misturada com o descrédito que normalmente cerca as práticas de sua difusão, sumariamente rotuladas, pelos vencedores, de “crendice”. Uma atmosfera de misticismo cobre diversos momentos do relato, com a clara anuência do narrador. Ao invés do naturalismo miúdo reservado à construção da verdade dos vencedores, tem-se aqui uma forma de realismo poético que não recusa sequer o fantástico. A dicção narrativa assume tom entre solene e parodístico, valendo dizer-se que nem sempre fica claro o limite entre paródia e “seriedade”, como no enigmático final da narrativa:

O sudeste bateu, juntou as nuvens, começou a chover em bagas e ritmadas, todos os que ainda estavam acordados levantaram-se para fechar suas janelas e aparar a água que viria das calhas. Ninguém olhou para cima e assim ninguém viu, no meio do temporal, o Espírito do Homem, erradio mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz da grande baía. (RIBEIRO: 1984, 673)

O grande símbolo da verdade calada dos vencidos – e com ela é possível corroborar a intencionalidade do revestimento difuso que o narrador dá a essa verdade reprimida – é, sem dúvida a Irmandade. Em nenhum momento do relato, seja através de uma personagem, seja pelo recurso da onisciência do narrador, tal Irmandade é definida com exatidão. Na cena em que Júlio Dandão faz uma explanação a Budião, Feliciano e Zé Pinho sobre a Irmandade e a canastra, por exemplo, o tratamento narrativo embaralha as marcas do real e do fantástico:

(. . .) enquanto falava entre seus rolos de fumaça Dandão ficou maior, muitíssimo maior, mais alto do que a casa que o continha, ficou de todas as cores e expressões, ficou até transparente, ficou úmido como o entrepernas de uma mulher e sabido como a raiz de árvore, ficou uma verdadeira paisagem. E então soltou de vez a tampa, que voltou a escancarar-se pendulando até achar sua posição, e de lá principiou a puxar segredos, um segredo atrás do outro, cada qual mais maioral, havendo quem afirme terem sido libertados inúmeros espíritos de coisas, maneiras de ser, sopros trabalhadores, papéis que não se podia ver com os dois olhos para não cegar, influências aéreas, as verdades por trás do que se ouve, sugestões inarredáveis, realidades tão claras quanto o imperativo de viver e criar filhos. (RIBEIRO: 1984, 211-212)

Aquele que, ao nível do enunciado, teria sido o momento inaugural da Irmandade é poetizado através de retórico distanciamento do narrador, que finge não avalizar seu próprio relato, limitando seu conhecimento do objeto de que fala e assim conferindo maior impersonalidade ao que diz, fazendo-se voz coletiva.

(. . .) Foi também tudo muito sonoroso, tão melódico que nada mais se escutou dentro da casa da farinha, dizendo uns que ali, naquela hora, se fundou uma irmandade clandestina, a qual irmandade ficou sendo a do Povo Brasileiro, outros dizendo que não houve nada, nunca houve nada, nunca houve nem essa casa dessa farinha desse engenho desse barão dessa armação, tudo se afigurando muito labiríntico a cada perquirição. Enquanto Júlio Dandão vai aos poucos catando na canastra o que vai mostrar e vai exibindo alguma coisa e explicando outra, essa Irmandade talvez esteja se fundando, talvez não esteja, talvez tenha sido fundada para sempre e para sempre persista, talvez seja tudo mentira, talvez seja a verdade mais patente e por isso mesmo invisível, porém não se sabendo, porque essa Irmandade, se bem que mate e morra, não fala. (RIBEIRO: 1984, 212 – negritos nossos)

 

Percebe-se aí a natureza abstrata da Irmandade, apenas um vínculo imaterial a garantir a união do Povo Brasileiro, espécie de consciência inconsciente – em outros termos, a brasilidade. Além do distanciamento – retórico, porque fingido, dado que o narrador simpatiza claramente com a versão dos que asseguram ter sido criada ali, na casa das farinhas , uma irmandade clandestina -, o jogo do talvez contribui fortemente para negar forma definida à Irmandade. É significativo o contraste entre a formação da Irmandade, apresentada com reservas quanto á sua veracidade pelo próprio narrador, ainda que reservas retóricas, insistamos, a ponto de caracterizá-la como “talvez a verdade mais patente e por isso mesmo invisível” (negrito nosso), e o apego à chancela cartorária com que os vencedores constroem suas verdades, de que é exemplo, além da já mencionada certidão de batismo falsa comprada por Amleto, o “estudo sobre os Ferreira-Dutton feito pelo British-American Institute for Genealogical Research” (RIBEIRO; 1984, 641) com que busca Amleto oficializar, com rigor “científico”, sua mentirosa ancestralidade não-negróide.

A mentira que se faz passar por verdade – a dos vencedores – precisa ancorar-se na verossimilhança. São-lhe indispensáveis as encenações sociais, os documentos falsificados., os recibos por pagamentos não feitos, os estudos genealógicos encomendados a instituições respeitáveis, e respeitáveis sobretudo por serem estrangeiras, enfim, todo o aparato de exterioridades cuja amplificação paradigmática é a própria História oficial. Por outro lado, a verdade que se deixa confundir com a mentira – a dos vencidos - constrói-se descompromissada com o documentalismo, avessa a certidões, e é transmitida oralmente, sempre de modo precário e restritivo:

- Estes segredos – disse [Júlio Dandão] sem tirar a mão da tampa – são parte de um grande conhecimento, conhecimento este que ainda não está completo, mesmo porque nenhum conhecimento fica completo nunca, faz parte dele que sempre se queira que ele fique completo. E faz parte dele também, por ser segredo e somente para certas pessoas, que cada um que saiba dele trabalhe para que ele fique completo. Se todos trabalharem, geração por geração, este é o conhecimento que vai vencer. (RIBEIRO: 1984, 211)

A narrativa se flexibiliza em dicções diferentes para manter-se fiel às duas naturezas conflitantes da verdade e da mentira. Essa duplicidade de tratamento dispensado à matéria ficcional inscreve-se num projeto mais abrangente, qual seja o de corroer a versão oficial da identidade brasileira. Como essa versão oficial sustenta-se principalmente pelo documentalismo, pelo peso da verdade escrita e impressa, o narrador veicula a verdade dos vencidos – autêntica, no seu entender – com as ambigüidades inerentes aos processos alternativos de transmissão, e mesmo de constituição, do saber. A canastra, por exemplo, na qual estariam guardadas as marcas da verdade do Povo Brasileiro, é tratada ao longo do relato como objeto mágico, diferentemente da certidão de batismo falsa de Amleto, objeto mentiroso em sua origem espúria, mas legítimo em relação aos efeitos que produz, e verdadeiro em sua materialidade. Fica patente que apenas em termos simbólicos a verdade invisível contida na canastra poderia ficar sob a guarda de alguém, de vez que a natureza incompleta da verdade, como o dissera Júlio Dandão, exigiria trabalho permanente de construção: “Se todos trabalharem, geração por geração, este é o conhecimento que vai vencer.” (RIBEIRO: 1984, 211)

Patrício Macário, o filho caçula de Amleto, é a personagem que transita do mundo da mentira, isto é, do mundo dos vencedores, para o mundo da verdade, isto é, para o mundo dos vencidos – percurso simetricamente inverso ao do pai. Exemplarmente, é a ele que cabe, na condição de elemento de ligação, ser o último depositário da canastra. Parece existir aí, de parte do narrador, a intenção de mostrar que a identidade do homem brasileiro deve ser mediada pela extinção dos antagonismos, não de modo “cordial”, isto é, à custa de calar-se a verdade dos vencidos, como em Amleto, mas por um audacioso mergulho no espaço fascinante dos vencidos. Patrício Macário renega suas origens e chega mesmo a partilhar com os vencidos algumas de suas práticas. Consuma sua imersão ligando-se a Maria da Fé, um dos mais legítimos representantes do universo dos vencidos. Patrício Macário, na verdade, já cumpria papel contestador lá no seu mundo de origem, e era mal visto pelo próprio pai, sobretudo pela evidência de sua condição de mestiço. Amleto, solertemente, transfere para a família da mulher a herança racial indesejada:

(. . .) – Em segundo lugar, dir-se-ia que Patrício Macário, nos traços fisionômicos e no temperamento, terá puxado – e digo isso sem desdouro, pois sou orgulhoso de minhas raízes brasileiras, ainda que por via matrimonial – ao lado brasileiro da família de Dona Teolina. (. . .) O resultado é aquela aparência acaboclada, aquela pele tisnada e quem sabe aqueles modos rudes e praticamente indomáveis. (RIBEIRO: 1984, 337)

Incômodo aos planos de fidalguia do pai, Patrício Macário é, por isso mesmo, punido: Amleto o manda para o Exército, onde fará carreira, chegando à patente de general. E para narrar o seu envolvimento com o mundo de Maria da Fé, a linguagem do narrador franqueia o texto ao poético e aceita francamente o inverossímil. O romance entre Patrício Macário e Maria da Fé, ligação que fora prevista por Zé Popó, enquanto “cavalo” do caboco Sinique, acontece sem manobras de conquista, sem quaisquer urdiduras, como fatal efetivação de desígnio superior à vontade de ambos.

E nem se admirou quando, levantando o rosto, deparou-se com a figura alta de Maria da Fé, diante dele tão bonita quanto a vira antes, os olhos verdes refletindo a luz das fogueiras, a cabeça emoldurada pelo capuz descido. Então era isto, sim, era isto, estava tudo muito claro, nada requeria explicações, tudo deslumbrantemente claro, e ele estendeu a mão para ela, que o ajudou a levantar-se. (RIBEIRO: 1984, 411)

Superior à vontade de ambos é também o fato de Maria da Fé, a despeito de muito amar Patrício Macário, deixá-lo para cumprir sua missão libertadora. Marcado por esse encontro, Patrício Macário deixará de vez o convívio citadino, as galas mundanas, os privilégios da carreira e se refugiará em Itaparica, em busca da magia do tempo vivido com a mulher amada. Quanto mais Patrício Macário se aproxima do mundo dos vencidos, incorporando suas práticas – a revelação mística, por exemplo -, mais se distancia do mundo dos vencedores, e como o afastamento é deliberado, Patrício Macário torna-se ele mesmo um dos vencidos. Seu discurso final, quando recebe homenagens pelos cem anos de vida, é uma decidida profissão de fé no “povo brasileiro”. Como coroamento da poetização do relato nos momentos em que Patrício Macário penetra o mundo dos vencidos, seu encontro com o filho, Lourenço, encontro promovido por Rita Popó, é trabalhado de modo a deixar ambíguo o próprio fato narrado, pois bem poderia ter sido apenas alucinação provocada pela ingestão do escaldado de baiacu servido no almoço. O narrador o sugere, aliás:

- Estamos mortos? – perguntou depois de erguer o tronco num mundo tornado absolutamente silencioso, onde sua voz era o único som no ar.
Rita Popó voltou-se e ele percebeu que ela também não sabia se estava morta ou não.
- Não sei – disse ela – Talvez um pouco, talvez muito.
- Estamos sentados ou deitados?
- Não sei. Eu me sinto um pouco boiando.
(. . .)
- Será que os outros estão também assim? É também possível que estejamos sonhando juntos? Estamos sonhando juntos?
- Podemos estar sonhando juntos.
Ele a viu levantar-se, não como alguém que se ergue mas como se desdobrasse articulações diferentes das normais, deslizar até a porta e sair, sem que pudesse verificar se ela realmente a abrira ou desaparecera através da madeira. Pensou em fazer o mesmo, sentiu-se girar no ar como uma folha carregada pelo vento, viu-se também articulado de maneira esquisita, mas logo notou que podia ir até a porta se quisesse. Contudo, não chegou a saber se a atravessaria, porque ela se abriu devagar e Rita Popó entrou, acompanhada de um homem moreno e alto, cujos traços o fizeram estremecer. (RIBEIRO; 1984, 604-605)

No final do capítulo, os objetos que Lourenço dera ao pai, lembranças deixadas pela mãe, Maria da Fé, vão aparecer na casa do general Patrício Macário, sem que a empregada da casa saiba como tinham ido parar ali. Assim não se “explica”, para o leitor, se se tratara de alucinação, com que se devolveria ao relato a desejável taxa de verossimilhança, ou se mágico traslado, por decisão de alguma potência sobrenatural. Também a “verdade” que emerge das palavras de Lourenço, pois sua fala tem nítido valor doutrinário, em curiosa inversão da hierarquia familiar: o filho ensina ao pai, é nebulosa, a começar pela confirmação da morte de Maria da Fé nestes termos:

pois morrera, sim, morrera, embora ninguém soubesse como, porque, já bem velha embora forte, um dia desaparecera, depois de ter apenas saído sozinha num barco, pelo mar em redor das escabras da Ponta de Nossa Senhora. (RIBEIRO: 1984, 606)

Maria da Fé é, aliás, a personagem de contornos menos nítidos em Viva o povo brasileiro.. Mesmo ela tem dúvidas sobre sua própria existência:

- Tu sabes – disse ela, muito baixinho, olhando para o lado -, eu mesma às vezes penso que não existo, penso que sou uma lenda, como dizem que sou. E tu, no futuro, talvez venha a pensar assim também, a pensar que sou uma lenda. (RIBEIRO: 1984, 512)

Sua idade é imprecisa, pois nasceu num dia 29 de fevereiro, e essa circunstância de calendário, fortuita em princípio, se estende ao plano da existência concreta: Maria da Fé envelheceria mais lentamente que os demais, e alcança sua relação amorosa falha com Patrício Macário. O fato de ser mestiça, de “olhos verdes”, ter uma coragem incomum, aliando na mesma pessoa perturbadora beleza física ao destemor e à lucidez, tudo em Maria da Fé torna-a depositária por excelência das verdades dos vencidos. O aspecto lendário, na fronteira débil entre o verídico e o inventado, faz dela, dentre todas as personagens, a perfeita ilustração da integridade da verdade que Viva o povo brasileiro intenta resgatar: a verdade que não se encontra nos escritos, nos documentos prestigiados dos vencedores, mas que habita o coração: a verdade “invisível” de que falava Júlio Dandão.

 

Portanto, as discrepantes naturezas da mentira e da verdade são mostradas não apenas no nível do enunciado, nas falas e no comportamento das personagens, mas integram-se à estrutura da narrativa, no nível da enunciação. A construção das verdades que sustentam as personagens de Viva o povo brasileiro faz-se pela inversão do senso comum: verdadeiro não é o que está documentado, nem o que o narrador conta de acordo com a lição tradicional da verossimilhança, nem mesmo o que se explica satisfatoriamente pela razão. Verdadeiro é o que atravessa a consciência, mesmo que mal formada, com a força mágica da subversão. Talvez seja mesmo mais apropriado dizer-se que verdadeiro é o que perpassa o inconsciente, não fora a circunstância de que, em alguns momentos, pela explicitação excessiva deixada na fala de uma ou outra personagem, ou pela nitidez contestadora da epígrafe: “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.”, o romance se aproxima perigosa e lamentavelmente da tese. Todo um capítulo – “Arraial de Santo Inácio, 29 de fevereiro de 1896” – é destinado a uma espécie de resumo do romance inteiro, com a presença em cena de um cego, Faustino, que, de passagem para Canudos, conta, para uma platéia contrita e atenta, uma história que “era de fato comprida, porque começava quando o mundo foi feito, antes do descobrimento do Brasil“ (RIBEIRO: 1984, 514), e chegava até Maria da Fé. Por si, este capítulo redundante embute certa desconfiança do narrador na capacidade de compreensão do leitor quanto ao sentido da narrativa, pois concentra em oito páginas o que se espraia pelas restantes 665, tornando acessível a “mensagem” de contestação da verdade dos vencedores. Além disso, o cego Faustino discursa veementemente contra a História oficial, escrita, reduzindo-a a manipulação dos poderosos:

Mas, explicou o cego, a História não é só essa que está nos livros, até porque muitos dos que escrevem livros mentem mais do que os que contam histórias do Trancoso. (. . .) toda a História é falsa ou meio falsa e cada geração que chega resolve o que aconteceu antes dela e assim a História dos livros é tão inventada quanto a dos jornais, onde se lê cada peta de arrepiar os cabelos. Poucos livros devem ser confiados, assim como poucas pessoas, é a mesma coisa.

Além disso, continuou o cego, a História feita por papéis deixa passar tudo aquilo que não se botou no papel e só se bota no papel o que interessa. (. . .) Então toda a História dos papéis é pelo interesse de alguém. (RIBEIRO; 1984, 515)

Verdadeiro, por fim, é o que o narrador relata deixando livre campo à ambigüidade, alterando sua dicção para um discurso menos prosaico e mais poético. Trata-se, sem dúvida, de um voto de desconfiança nos procedimentos oficiais e consagrados da construção de identidade, individual ou coletiva, este romance que, já no título, alude não a um herói particularizado, mas à entidade nacional do “povo brasileiro”.(1) RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Todas as citações de texto serão feitas com base nesta edição, com indicação, entre parênteses, das páginas correspondentes.

 

Alcmeno Bastos é professor de literatura brasileira nos cursos de graduação e de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Exerce, no momento, a função de Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. Publicou recentemente: A História foi assim: o romance político brasileiro nos anos 70/80 (2000), Outros e outras na literatura brasileira (2001, co-autoria) e Cenas literárias (2002, co-autoria).

 

Trecho escolhido:

AMLETO FERREIRA

Salvador da Bahia, 17 de março de 1839.

Choveu a semana toda e amanheceu um dia tão feio quanto os precedentes. Às cinco da manhã, antes de passar a meia hora costumeira trancado no gabinete diante de uma bacia esmaltada e de um gomil cheio de água alfazemada, areando os dentes e lavando a cabeça, que havia atravessado a noite untada por uma camada espessa de caldo de babosa embaixo da touca para amaciar o cabelo, Amleto Ferreira entreabriu a janela e inspecionou seu jardim com desagrado. Quase sempre escuro sob a fronde emaranhada das árvores, que cobria uma conglomeração cerrada de folhas e ramagens de plantas baixas, o jardim estava ainda mais penumbroso, uma floresta gotejante, grandes bagos de chuva esparrinhando a água dos tanquinhos, onde até mesmo os uapés, as ervas-de-santa-luzia, as damas-do-lago, as jaçanãs, as jipiocas retorcidas como novelos de sucuris e as outras vegetações da água estavam excessivamente molhadas, afogadas na molúria que tornava tudo úmido, escorregadio e lamacento. O martelo contínuo de gotas gordas pingadas das favas dos ingazeiros, sobre as folhas ressonantes dos crótons, cocós e taiobas, reiterava uma espécie de desesperança monótona a um dia que devia ser de festa, e somente as maravilhas, os musgos, os limos, as brilhantinas e demais seres que medram na obscuridade encharcada é que não pareciam mangrados e tristes como as outras plantas. Mundo madefato e sem brilho, em que o colorido das folhagens lembrava adornos de funeral, mundo que trouxe a Amleto um ressentimento redobrado. Decidiu sair para ver o que prometia o tempo, embora não acreditasse que fosse melhorar. Enrolou-se num roupão, agasalhou o pescoço com uma manta de crochê, pôs um barrete na cabeça para não resfriar-se, abriu a porta dos fundos do gabinete, desceu os dois batentes procurando não escorregar, pisou com gosto na alfombra de grama e plantinhas rasteiras, sentiu o pé afundar-se na terra empapada. Não chovia mais, apenas os pingos das árvores continuavam a despencar, às vezes como rajadas de chuva, quando uma lufada agitava as copas. Amleto teve um arrepio de frio, temeu constipar-se, mas assim mesmo resolveu ir até o portão de ferro que dava para o Rosário, para olhar melhor o horizonte e avaliar o clima. Gostava de seu jardim, tinha uma satisfação inexplicável em passar horas sentado em frente às plantas, de olhos fixos nelas como se esperasse acompanhá-las crescendo e florando. E gostava também que fosse sombreado, pois o sol na pele lhe era uma agressão pessoal, caso pensado contra ele, para escurecer-lhe a cor sem piedade como já acontecera, virando-o mais uma vez num mulato. Tinha carinho pelas plantas, andou pela alameda de castanheiras prestando atenção a todos os troncos, levantando a vista para as flores-de-jesus tão leves como se apenas pousadas nas árvores mais ramudas, frágeis como passarinhos de papel, os fetos e samambaias, os jarrões de alvenaria enlaçados por trepadeiras, as estátuas das estações - e Verão, tão estranho, uma forma gregamente delicada, busto suave, ancas onduladas, feição nobre e mansa, fincada entre as raízes elevadas do grande pé de acácia, seria o Verão uma mulher e a Primavera um éfebo maneiroso, como agora se via, muito marmóreo contra o verdume salpicado de encarnado das bromélias? -, as colunas do talhe romano decepadas obliquamente ao meio como em velhos templos das gravuras antigas, a salsugem da água dos tanques, cadáveres de folhas, insetos e flores fanadas, se arrumando suavemente pelas bordas como enfeite, uma cigarra disparando um zizio repentino. Parou para olhar as trepadeiras grudadas na acafelagem rugosa dos muros, alisou algumas folhas, experimentou o molejo das gavinhas com as pontas dos dedos, chegou finalmente ao portão. Para um lado e para o outro, as nuvens continuavam fechadas e baixas, o vento cessara, o ar se tornara opressivo. Amleto arrepiou-se outra vez, fez meia-volta para tornar a trancar-se no gabinete.

Teve, portanto, uma surpresa, ao sair à sala e ver pelas janelas abertas para a varanda principal que o sol havia despontado e uma claridade cortante cintilava sobre as plantas molhadas. Correu à varanda, pôs as mãos na balaustrada, somente uma moldura evanescente de nuvens permanecia em torno do céu, esmaecido como se também lavado pelas chuvas. Sorriu, bateu na balaustrada com satisfação. Estivera sorumbático lá dentro, entristecido pelas injustiças que a vida lhe aprontava. O batizado de Patrício Macário Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, seu sétimo filho, quarto vivo, teria pelo menos um belo dia a servir-lhe de pano de fundo. E também uma bela festa - já podia aspirar o cheiro dos biscoitos assando nos fornos, sabia que se misturavam massas, que se batia o alfitete, que se cozinhava toda espécie de comida. Isto, assim como esta bela casa e todo o seu conforto, não lhe podiam tirar, não podiam dizer que não era direito seu. Pensando sobre como ganhara tanto dinheiro, já nem admitia para si mesmo, a não ser vagamente e a cada dia com menos freqüência, que desviara os recursos do barão e se apropriara de tudo em que pudera pôr as mãos, em todo tipo de tranquibérnia possível. Não, não fora bem assim, precisava acabar com a mania de ser excessivamente severo consigo mesmo, chegava a parecer uma propensão ao martírio. E o tino comercial empregado a serviço do barão, as dificuldades sem fim, as soluções heróicas encontradas para problemas insuperáveis? E o sangue, isto mesmo, o sangue e o suor dados ao barão? E a situação tranqüila da baronesa, hoje empobrecida, é verdade, mas vivendo com toda a dignidade, ainda na mesma casa do Bângala, assistida em todas as suas necessidades e as de seus filhos? Não tinha mais tantos negros, é também verdade, apenas três negras e dois negros, pois a dureza dos tempos atuais e os azares que por todos os lados perseguiram os negócios do barão aconselharam a que a escravatura fosse reduzida ao mínimo indispensável. Que queriam? A pesca da baleia piorava a cada ano, era cada vez mais coisa do passado que o progresso soterraria, e a venda da Armação do Bom Jesus fora um excelente negócio, apesar do preço aparentemente baixo. Não contara à baronesa haver sido ele mesmo, oculto numa associação com dois comerciantes franceses, quem comprara a Armação e agora efetivamente a venderia com bom lucro. Afinal, fora uma venda como outra qualquer e de que maneira iriam enfrentar as despesas que se avultavam, com a crise da lavoura e do comércio flagelando todos os negócios do berço? Alguns amigos da baronesa haviam mesmo concordado em que tinha sido bom negócio, como acontecera com o Bacharel Noêmio Pontes de Oliveira, hoje prestando serviços de advocacia a Amleto, depois de, com a estreita colaboração deste, realizar o inventário do barão - inventário, por sinal, decepcionante, com tantas dúvidas, ônus e gravames que, não fora a dedicação de Amleto, trabalhando à frente de tudo até mesmo sem remuneração durante muitos meses, a baronesa e seus filhos talvez tivessem sorte muito triste. Ela herdara do pai, realmente, mas os negócios dele já de muito vinham sendo prejudicados não só pela doença como pelos grupos de mata-marotos, pelos radicais que chegavam mesmo a atacar corporalmente os portugueses e a depredar-lhes as propriedades. Amleto, num artifício jurídico que laboriosamente engendrou junto com o Doutor Noêmio para salvaguardar os interesses da baronesa contra a ganância dos herdeiros portugueses do pai dela, conseguiu vender com astúcia a maior parte do patrimônio antes de terceiros lhe deitarem as mãos - a preços certamente não tão compensadores, mas as circunstâncias da transação demandavam expediência, depois do fato é que tudo fica fácil. Para não falar nas despesas e negociações delicadíssimas, havidas para obter a compreensão e apoio dos ouvidores e fiscais da Fazenda, da Junta do Comércio e do Poder Judiciário, gente de respeito e trato que não se podia abordar com leviandade. Agora, o Empório e Trapiche, bem como os outros negócios, estavam na posse de terceiros, pois Amleto, depois de comprá-los com Noêmio, através de seu cunhado Emídio Reis, achou mais prudente passá-los adiante do que administrá-los, ainda que por meio de testas-de-ferro. As casas deixadas pelo velho continuavam a render, bem como outras propriedades, mas tudo coisa minguada, uns vinténs que ele usava para pagar as despesas da baronesa, muitas vezes, o Céu é testemunha, tirando algo de seu próprio bolso para inteirar o que não era bastante. Os engenhos, por seu turno, não iam bem, os problemas do açúcar estavam cada vez mais graves, salvava-se apenas a escassa produção de aguardente, mal suficiente para custear o trabalho, no aguardo de melhores dias.

 

- Pois é - pensou Amleto, deixando a varanda para ir tomar café -, a verdade é que estou em paz com minha consciência, nunca fiz mal a ninguém, sou um homem prestante.

E por isso mesmo não deixava de revoltar-se por não poder arriscar-se a chamar a atenção dos maledicentes e invejosos, capazes até de encher os ouvidos da baronesa de falsas insinuações e mesmo calúnias, com gastos à altura de sua posição na sociedade. Não importava que todos soubessem - e todos sabiam, pois havia sido ele mesmo quem contara, embora não fosse verdade, mas disto eles não sabiam - que Teolina herdara uma fortuna de seus tios-avós portugueses de Trás-os-Montes. Assim mesmo se falava, se comentava. Que caminhos ásperos, quantos obstáculos em cima de obstáculos, quantos escolhos insuspeitados! Cuidava-se de uma coisa, aparecia imediatamente outra, resolvia-se um problema, nascia outro logo a seguir. Quanto tempo perdido com os latinórios, as citações e as palavras decoradas, dura senda que não levava a lugar nenhum, a não ser a pobreza agravada pela inveja dos ignorantes, pobres ou ricos. Agora que achara o rumo certo, que cavara com as unhas sua fortuna, ainda tinha de enfrentar o problema da aparência racial, a aceitação das pessoas gradas, as restrições impostas pelos mesquinhos - a ponto de até a festa do batizado de Patrício Macário, que podia ser suntuosa como poucas na Bahia, ter virado, por cautela, praticamente uma festa íntima, para os parentes e amigos mais chegados. E o pior era que não podia evitar que lhe bafejasse a sorte, lhe desse a mão a Providência e o recompensasse o destino pela capacidade de trabalho e tirocínio. Comprara terras no sertão, baratas, quase de graça por causa da seca de 35, agora se falava que o gado por lá faria ricaços da noite para o dia. Plantara fumo na fazenda que adquirira através de Emídio, em São Félix, e já os lucros dos negócios feitos com os alemães se avolumavam. Cortava madeiras de lei nas terras abandonadas do barão e não tinha mãos a medir para as encomendas. Previra que as novas construções, que todos os dias começavam na cidade, iam aumentar em muito a demanda de cal e assim, na contracosta da Ponta das Baleias, demarcara os grandes depósitos de calcário debaixo do mar raso e agora, dia e noite, os negros, manejando pás com a água lhes chegando aos queixos, abarrotavam de cascas de ostras a frota de saveiros que as levaria a caieira de Porto Santo. E até mesmo a cal refinada encontrava serventia a mais da conta, inclusive nas plantações de coco, como a sua mesmo, no Conde, onde em breve estaria fabricando óleo, sabão e gordura sólida, além de vender a fibra para os importadores ingleses.

- Ah! - exclamou com enfado. - Isto um dia vai ser resolvido, isto vai ter que ser resolvido, a vida não pode somente de sacrifícios!

Pensou gulosamente no primeiro almoço. Tivera dificuldade em acostumar as negras da cozinha e a própria Teolina a essa refeição, que não impunha a ninguém mas exigia para si, e revelava freqüente desgosto por não ser imitado pela mulher e pelos filhos, pelo menos a mais velha, Carlota Borroméia Martinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, que educava como uma inglesa, mas que não aceitava seu desjejum de rins grelhados, arenques defumados, mingau com passas, pãezinhos fofos, chá, e torrada com geléia. Havia saído tão branquinha, tão alemoada, com sua tez diáfana, seus cabelos claros e finos, seu porte esbelto e frágil como devia ser o de uma jovem senhora da Corte de São Tiago, era tão dócil de maneiras, mas se rebelava contra aquilo, tinha náuseas, ia escondido pedir broas, cuscuz, mingau de tapioca, bolinhos de carimã e café com leite às negras. Um dia, porém, haveria de aprender, afinal não era mentira, tratava-se de uma inglesa de origem, uma Dutton. Recordou com prazer o dia em que o padre-adjutor do Vigário Geral o procurou no escritório, enfiando com nervosismo a mão pelas dobras da sotaina para sacar a certidão de batismo falsa, tão meandrosamente obtida.

- Aqui a tem Vossa Excelência! - dissera o padreco, um desses velhos que não conseguem rir mesmo quando têm vontade, fazendo apenas uma caretinha débil e fibrilante, os lábios tremelicando como se temessem afastar-se um do outro durante mais que um segundo.

- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minutos antes, tinha relido, no topo da lista das providências: "Certidão Dutton". Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno rasgão numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou, leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton! Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem, soa muitíssimo bem?

O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delicadamente a bainha da manga direita contra os cantos da boca, para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento requeria um comentário menos desentusiasmado.

- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom!

- Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, John Malcolm Dutton.

- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tratar-se de um apelido francês.

- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que parente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E minha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castello.

- De Viana do Castello?

- Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá?

- Não, não, sou ribatejano.

- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.

- Pois. Pois, se bem percebo, Vossa Excelência, antes desta correção, chamava-se tão-somente Amleto Ferreira.

- Sim, pois, vicissitudes, coisas das questões religiosas tempo de Dão João, incúria talvez dos padrinhos, as guerras napoleônicas... Eram tempos conturbados, estas coisas não eram de tão perfeita organização quanto o são hoje.

- Sim, pois.

- Mas a correção é necessária, de há muito que se faz necessária e, graças à compreensão de Vossa Reverendíssima e do Excelentíssimo Senhor Vigário... Vossa Reverendíssima compreende, em primeiro lugar era preciso restaurar a verdade dos fatos, a herança histórica de nossa família - afinal, nossa linhagem perde-se no tempo, tanto em Inglaterra como em Portugal -, que se espelha tão bem no nome. E, em segundo lugar, costumo emprestar grande significado ao nome, grande relevância. Não se deve escolher um nome ao capricho, ao acaso. Meu nome, por exemplo, é Amleto, escolhido por minha mãe em homenagem a meu pai; Henrique é pela velha tradição das casas reais de Inglaterra - Henrique, Jorge, Carlos, Guilherme, Eduardo e assim por diante -; Nobre porque este é sempre o terceiro apelido de nossa família portuguesa e, finalmente, Ferreira-Dutton, que é o nome correto da nova família, é resultado da união portuguesa.

- Sim, pois.

- No caso de meus filhos, que, graças também à compreensão que sempre mereci da Igreja, já pude batizar com seus verdadeiros nomes... - Releu a certidão, beijou-a. - Sim, meus filhos não têm nomes escolhidos ao deus-dará. Nomen est omen, não concorda Vossa Reverendíssima?

- Sim, pois, de certa maneira...

- Os primeiros nomes de meus filhos são os de dois santos: o do dia do nascimento e o do dia do batizado. É assim com Carlota Borroméia Martinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, que nasceu a 4 de novembro, portanto no dia de São Carlos Borromeu, e foi batizada no dia 11, dia de São Martinho. Assim como foram batizados segundo este critério o Clemente André, de 23 também de novembro, o Bonifácio Odulfo e os três anjinhos também, o nome Reis, que vem da minha mulher, da família Reis de Trás-os-Montes, chamados assim imemorialmente por terem sempre estado a serviço real.

- Pois. Muito justo, pois.

Amleto percebeu que o padre podia estar com pressa, tinha até mesmo deixado de sorrir aquele sorrisinho curto a cada anúncio de um novo nome. Sim, claro. Já tinha o envelope pronto, bastou tirá-lo da gaveta, onde tinha estado desde o dia anterior. Apalpou-o ao longo das bordas, entregou-o ao padre.

- Dá-me Vossa Excelência licença? - disse o padre, abrindo o envelope e começando a contar as notas sem esperar resposta.

- Sim, naturalmente. É um modesto óbolo para as obras paroquiais, um contributo de coração.

- Pois - disse o padre, terminando de contar o dinheiro. - Pois, se me concede vênia Vossa Excelência...

Sim, estava no cofre, muito bem trancada, aquela certidão, estava tudo, afinal, a correr muito bem. Sim, por que aborrecimentos? Certo que a vida apresenta percalços a todo passo, mas há também que esquecê-los, num dia como este. Não saiu o sol, não já devia estar tudo praticamente pronto, desde a pia batismal toda burnida, às flores pela casa, às toalhas de linho branco refulgindo, a festa em todo o ar? A esta hora, os rins grelhados sangravam em cima da chapa, a chaleira de ferro sibilava esplendidamente sobre as brasas, o mingau, frio como ele gostava, o esperava numa terrinazinha de porcelana fina, coalhado de passas descaroçadas uma a uma pelas negras. Entrou pela grande copa, a mesa estava posta, a mucama Luzia passou os olhos por tudo quando o viu, para verificar se havia alguma coisa errada.

- Hoje, quero o rim um pouco malpassado - disse ele, sentando-se depois de cheirar as rosas do vaso do centro da mesa.

- Nhô, sim - disse Luzia, e correu para dentro arrastando os pés.

Mordiscando um brioche, Amleto pensou que já chegava a bandeja com os rins, ao ouvir passos atrás de si, na direção da porta da cozinha. Virou-se em antecipação alegre, fechou uma carranca logo em seguida.

- Que é que estás a fazer aqui hoje? Logo hoje? Já não te disse para não vires aqui a não ser quando te chame? Que queres hoje, não tens tudo arranjado?

Uma mulher pequena, mulata escura, cabelos presos no cocuruto por dois pentes de osso, se deteve, fez menção de que ia voltar para a cozinha, terminou em pé diante dele, as mãos encolhidas no colo.

- Eu não vim atrapalhar - disse. - Podes ficar sossegado.

Amleto levantou-se, pareceu não conseguir conter a impaciência, cobriu os olhos com as mãos, ficou muito tempo assim.

 

- Dona Jesuína - falou, como se estivesse repetindo à força alguma coisa que o molestava muito. - Dona Jesuína, que quer a senhora, Dona Jesuína? Que mais quer que diga, que mais quer que fale, que mais quer que dê?

- Chamas-me de Dona Jesuína e estamos sós.

- Pois claro que te chamo Dona Jesuína, pois claro que tive de habituar-me a isto, pois claro!

- Mas disseste que só me chamarias assim quando nos visse ou ouvisse alguém.

- Está certo, está certo, disse-te isto. Mas que há de mais em que te chame respeitosamente de Dona Jesuína, pois que és Dona Jesuína, não te chamas Jesuína?

- Jesuína sou, mas também sou tua mãe.

Amleto estacou, revirou os olhos, levantou as mãos abertas, bateu os pés no soalho. Alguém havia esquecido disso? Que filho tão malnascido quanto este, ou mesmo os bem-nascidos, os muito bem-nascidos, que filho fazia pela mãe o que ele fazia? Tinha casa? Tinha. Tinha criadas? Tinha. Tinha comida farta, da melhor, da mais cara? Tinha. Tinha jardineiro para arrancar-lhe o capim dos canteiros, agora que não podia mais curvar-se? Tinha. Tinha tudo por que suspirava, por que sonhava, por que ansiava? Tinha. Não lhe bastava um bilhete - remeta pelo portador vinte meadas de linha, uma cesta de frutas, um quintal de verduras, dez libras de carne, dez libras de peixe, quatro galinhas gordas, o que lá fosse! - não lhe bastava mandar um bilhete, mandar um recado de boca, para que tudo lhe chegasse? Que queixa tinha, que coisas remoía, seria possível que nunca estivesse satisfeita? Se continuava com sua escola, era porque queria e, por isso mesmo, quanto não custava a ele comprar lousas para aqueles meninos miseráveis e imprestáveis, comprar mais comida que para um batalhão - então, então, então, a Senhora Dona Jesuína fazer ares de que era boa mãe filho mau? Vamos e venhamos, vamos nos enxergar!

Dona Jesuína pareceu arrepender-se de alguma coisa, talvez de tudo. O rosto já se pregueando para chorar, estendeu os braços na direção do filho, pediu entre soluços que a perdoasse, se fazia aquilo era por tanto amor que lhe tinha, por tanto orgulho e admiração que ele inspirava. Se tivesse sabido que seu filhinho, nascido em berço mais que humilde, mestiço e bastardo, chegaria àquelas alturas, um homem importantíssimo, teria estourado de felicidade antes de conseguir criá-lo. Não ficasse com raiva dela, eram fraquezas próprias de um coração de mãe - como poderia ela jamais esquecer o desvelo e a atenção que lhe votava o filho, a preocupação em que nada lhe faltasse? Não, não era ingrata, é que lhe doía tanto, embora compreendesse perfeitamente as razões, que não pudesse dizer a todos, como gostaria, que o comerciante e respeitado cidadão Amleto Ferreira era seu filho, seu próprio filho, por ela parido, amamentado, limpado, curado, sofrido e criado. Já lhe doía tanto que, ao saber do batizado de seu novo neto - como se chamava ele? -, não pôde resistir à vontade de vê-los, mesmo que, como os outros, fosse crescer sem saber que era neto dela, não tinha importância, queria somente vê-lo. Mas agora compreendia como havia sido uma imprudente metediça, por favor a perdoasse, não se aborrecesse, fora somente uma coisa impensada, um ato que não se repetiria nunca, ele podia ter certeza.

Amleto enterneceu-se, tremeu-lhe o queixo, andou para a mãe, tocou-lhe as mãos, quase a abraçou. Ah, senhora minha mãezinha, se pudesse abraçar-te e envolver-te em meus braços, era o que fazia agora! Ah, mãezinha, bem sabes quanto me dói também esta situação, pensas que não tenho sentimentos, que não choro à noite em pensar na minha mãezinha lá sozinha e eu sem poder nem sair à rua com ela! Se não fossem essas malditas negras tagarelas que aqui podem entrar a qualquer momento, ou algum dos meninos, que hoje é domingo e de nada se ocupam, se não fosse isso, cobrir-te-ia agora de beijos e afagos, bem sabes que o faria, adorada mãezinha! Mas não sabes, diz-me, diz-me, por caridade diz-me, não sabes que isto, esta horrível situação, é para o nosso próprio bem? Sabes nada, sempre parece que não sabes! Mas entendes, não entendes, mãezinha adorada? É para o nosso próprio bem, não sabes?

Sim, ela sabia e sabia também dos seus dele sofrimentos, pois lhe conhecia de sobra os bons sentimentos e não lhe ocorria um sequer defeito. Mas não poderia, talvez, assistir ao batizado, mesmo discretamente, à distância, sem se meter nas conversas, sem sair de seu lugar, apresentada talvez como uma ama-de-leite da infância dele, uma criada mais chegada, uma ama-seca ou governanta?

- Governanta? - exasperou-se Amleto, revirando os olhos para o forro. - Senhora Dona Jesuína, meus filhos têm uma governanta inglesa e uma preceptora alemã! Meu Deus do céu, que recheio há na cabeça da Senhora Dona Jesuína? Governanta, essa agora! Meus filhos com uma preta por governanta, não vês, não enxergas a realidade? O mundo não é tal qual o queremos, mas tal qual é!

- Desculpa-me lá, falei errado. Mas uma criada, uma ama-seca...

- Não, não, muito arriscado. Podem bispar semelhança entre nós, é possível que já alguém tenha ouvido um comentário ou outro e agora o venha a confirmar. Não, não, por que não deixas dessas idéias tontas e não vais à tua missa como sempre e depois não vais cuidar de tuas flores? Olha, mando-te umas mudas de cravo que me vieram de Portugal, mando-te uns livros, uns folhetins dos que tu gostas, fica isto esquecido. Então?

- Mas não vejo mal, como criada, como ama velha... Depois, quem ia ver parecença entre nós, tu tão branco, tão alvo, cabelo tão liso...

Amleto passou a mão sobre a cabeça.

- De fato - concordou. - Os cabelos lisos e meus traços, que saíram finos... Mas não, não, ainda acho que seria uma temeridade. Esquece tua idéia, anda, esquece.

- Já não tens o que argüir, bem sabes que a presença de uma ama velha no batizado é até coisa de ricos, coisa de família, de tradição, que agracia seus negros e criados.

Amleto fez uma pausa nos passos que continuava a dar ao longo da mesa.

- Bem, o que não faço por ti? Mas vê lá, hem, vê como te portas, és a ama que me criou e assim te portarás, não te perdoarei se me traíres a confiança!

Os rins chegavam, Luzia pôs o prato na mesa, ficou de pé junto à cadeira onde Amleto se sentou.

- Pois então, Dona Jesuína, pois estamos entendidos - falou ele, enfiando o guardanapo pelas dobras do colarinho. - Agora, se me dá licença, tenho o meu repasto a fazer, esteja à vontade. Luzia, o molho de cheiros-verdes?

 

(Apostila 21 de Contemporānea da Lit. Brasileira)