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João Ubaldo Ribeiro - Sargento Getúlio - resumo

Nasceu em Itaparica, Bahia, mas até os dez anos morou no Sergipe. Fez seus estudos universitários em Salvador, formando-se em Direito. Mais tarde, estudou administração pública na Carolina do Sul. Retornou ao Brasil e dedicou-se com afinco ao jornalismo. Estreou em 1968 com o romance Setembro não tem sentido, mas foi com Sargento Getúlio, em 1971, que alcançou popularidade e reconhecimento crítico.

OBRAS PRINCIPAIS

Sargento Getúlio (1971); Vila Real (1979); Viva o povo brasileiro (1984); O sorriso do lagarto (1989); A casa dos budas ditosos (1999)

Após uma estréia discreta no campo da ficção, João Ubaldo Ribeiro surpreendeu o país com a publicação de Sargento Getúlio, uma legítima obra-prima ficcional, já traduzida para inúmeras línguas, e que deu ao autor justa fama.

Sargento Getúlio

Sargento Getúlio é uma narrativa de complexa formulação pois está centrada em um longo monólogo (quebrado por alguns diálogos) do sargento da Polícia Militar do Sergipe, Getúlio Santos Bezerra. Sua linguagem é a “variante caboclo-sertaneja”, da qual já se valera Guimarães Rosa, porém acrescida de inúmeros vocábulos do padrão culto do idioma, adulterados pela fala ingênua e criativa do protagonista-narrador: “esguincho”, “almospenados”, “sinfetar”, “consumições”,etc.

Getúlio é jagunço (“cabo eleitoral”) de um importante chefe político de Aracaju, Acrísio Antunes, para quem já efetivara “vinte trabalhos”, isto é, vinte mortes. Quando cogita se aposentar, recebe sua última incumbência: prender um adversário político do interior de Sergipe, (um udenista), e levá-lo para Aracaju. Getúlio narra então – não sabemos exatamente para quem – as peripécias da viagem e a sua própria vida. Através dos longos fluxos de consciência do sargento e sob relativa desordem temporal, sabemos que ele era de origem pobre, trabalhara como engraxate e feirante no interior, tornando-se depois soldado. Tendo assassinado a mulher, que o traía, buscara a proteção de Acrísio Nunes, sendo por sua lealdade contemplado com as divisas de sargento da polícia militar.

No plano presente, Getúlio avança com o prisioneiro do sertão para o litoral. Viajam num velho automóvel, um “hudso”, dirigido por Amaro, motorista e amigo inseparável do sargento. Como jagunço, o narrador nada pode ou quer interrogar. Só conhece ordens, as quais deve obedecer. Socialmente, ele é uma vítima do coronelismo ainda remanescente na década de 1950, quando se passa a ação do romance. Individualmente, é um exterminador, corajoso, fiel, inocente, alternando gestos de incrível violência com explosões de humanidade.

O trágico é que Getúlio precisa avançar sempre, incapaz de entender que, em Aracaju, seu chefe, pressionado pela imprensa e por autoridades superiores, resolvera emitir contra-ordem, mandando libertar o prisioneiro. O jogo político e as mudanças que se verificavam no país são incompreensíveis à mente rústica do sargento, que resolve levar a cabo sua missão de qualquer maneira. Neste momento, e sem que ele saiba o porquê, virou um estorvo e precisa ser eliminado.

Uma das cenas marcantes do romance ocorre quando o padre – também ligado à brutalidade do universo sertanejo – adverte Getúlio, a quem admira, de que este deve sumir. A resposta do sargento vem num jorro de palavras que traduzem sua perplexidade:

Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir. Quem some é os outros, a gente nunca. (...) Depois o chefe me mandou buscar isso aí, e eu fui, peguei, truxe, amansei, e vou levar mesmo porque que o chefe agora não possa me sustentar, eu levei o homem, chego lá entrego. Entrego e digo: ordem cumprida. Depois o resto se agüenta-se como for, mas a entrega já foi feita, não sou homem de parar nomeio. (...) Nem que eu estupore. Quero ver esse bom em Aracaju que me diz que eu não posso, porque eu sou Getúlio Santos Bezerra e igual a mim ainda não nasceu. (...) Corro, berro, atiro melhor e sangro melhor e luto melhor e brigo melhor e bato melhor e tenho catorze balas no corpo e corto cabeça e mato qualquer coisa e ninguém me mata. E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma.

Após vários acontecimentos sangrentos, que passam inclusive pela degola de um tenente que fora detê-lo, Getúlio, sempre arrastando o “udenista-comunista”, aproxima-se de Aracaju. Por vezes, perde a lucidez e mergulha em delírios. Chega a imaginar que tem a seu lado um magnífico exército, cujo comandante é tão valente que persegue São Jorge pelo sertão sergipano. Nas imediações de Aracaju, enfrenta uma força militar que termina por abatê-lo. Surpreendentemente, o sargento narra a sua própria morte.

UM HOMEM ENTRE DOIS TEMPOS

Getúlio sai de casa, isto é, de um mundo arcaico, regido por um código semi-feudal de conduta e marcha para um outro mundo, o urbano, onde se celebram acordos e pactos políticos completamente absurdos para sua mente sertaneja. Esta é a viagem mais profunda do romance. Uma viagem entre dois tempos históricos diversos que se chocam sem alternativas de conciliação.

José Hildebrando Dacanal, o principal analista desta perturbadora narrativa, mostra o caráter trágico de Getúlio: A inevitabilidade de sua trajetória. O protagonista percebe que a realidade foge-lhe aos pés, mas não pode recuar:

Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer.

Avançar rumo ao litoral com um homem que não interessa mais ao chefe político manter como prisioneiro é o destino de Getúlio. Para ele, as ordens de Acrísio só podiam ser desfeitas pelo próprio Acrísio. É um código de honra que não tem mais sentido no Brasil urbano. Preso a valores condenados pela modernização do país, só resta ao sargento a autodestruição. E ele morre como símbolo de um mundo condenado ao desaparecimento:

Eu sou sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe. Não sou nada, eu sou é Getúlio. (...) Eu não sou é nada.

Adapt. Do site Educaterra (http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont)

 

Filme: Sargento Getúlio

No final da década de 40, Getúlio, um rude sargento tem a missão de levar de Paulo Afonso à Aracaju, um prisioneiro, que é inimigo político do seu chefe, assim um carro velho atravessa uma péssima estrada e em todo o percurso o preso e o motorista ouvem Getúlio falar sem parar, mas no meio do caminho em virtude de uma mudança no panorama político, recebe uma contra-ordem para soltar o prisioneiro, mas seu temperamento avesso às mudanças decide terminar a missão, que lhe foi confiada, mesmo que tenha de matar para completá-la.

 

Ficha Técnica
Título Original: Sargento Getúlio
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 85 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 1983
Distribuição: Embrafilme
Direção: Hermanno Penna
Roteiro: Hermanno Penna, Flavio Porto e João Ubaldo Ribeiro
Produção: Carlos Augusto Oliveira, Walter Carvalho Corrêa, Cristiano André Macini, Blimp Filme e Embrafilme
Música: Papa Poluição
Som: Mario Masetti
Fotografia: Walter Carvalho
Desenho de Produção:
Direção de Arte: Percival Rorato
Figurino: Percival Rorato
Edição: Laércio Silva

 

Elenco
Lima Duarte
Fernando Bezerra
Orlando Vieira
Flavio Porto
Ignês Maciel Santos
Amaral Cavalcanti
Otavio Sales Fillho
Marieta Fontes
Marcia de Lima
Antônio Leite
Etel Muniz
Carlos Rocha

 

(Apostila 20 de Contemporânea da Lit. Brasileira)