ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

A CASA DOS BUDAS DITOSOS - João Ubaldo Ribeiro

Resumo: Escrito no feminino, o que o autor justifica com a curiosa história de ter recebido um pacote com a transcrição datilografada de várias fitas, gravadas por uma misteriosa mulher, A Casa dos Budas Ditosos é a narração, na primeira pessoa, de uma libertina que narra a história da sua vida inteiramente dedicada ao sexo, ditando-a para um gravador.


 

Putaria: 1 Grande número de putas. 2 Prostituição. 3 Devassidão. 4 Alcoice, bordel, lupanar, prostíbulo. 5 Freqüentação de prostitutas. 6 Assunto obsceno.

Nenhuma dessas definições são tão fieis quanto à descrição minuciosa e trabalhada de João Ubaldo Ribeiro. A putaria definida no dicionário é uma santa virgem perto das declarações da personagem “fictícia” do autor (não há como saber se ela realmente existiu ou não, eu até procurei saber, acredite, mas não tem como provar se ela existiu ou não. Ou autor diz que é real, porém eu não acredito). O interessante do livro não é questionar a veracidade da existência da senhora mais ousada que existiu, e sim entender como o sexo faz parte de nossas vidas. É realmente um daqueles livros que mudam a opinião das pessoas acerca de um assunto. Não digo que depois de ler este livro você vai ser uma pessoa cativa de putarias e surubas, mas posso lhe garantir a abertura para um nova visão sobre o sexo, na sua formatação mais pura.
O livro tira qualquer tipo de pudor existente de seu leitor, deixa até os mais libertinos sem graça. É um verdadeiro grito de liberdade numa sociedade que uma hora nega o prazer carnal e numa outra (muitas vezes as escondidas) explode em adoração ao sexo. A obra aparenta ser um culto a poligamia (defendida pela “personagem” diversas vezes), contudo acredito que seja muito além disso e, digo isso no sentido de acreditar que o autor teve como objetivo a quebra de tabus, e não a difamação da moral. Até porque o sexo ganhou uma atenção exacerbada na mídia atual. Fica claro ao leitor que este assunto não deve ser banalizado e nem encoberto, ele deve ser abordado sempre de maneira leve e descontraída. Muito da proposta do texto se converge a isso, a desmitificação do sexo. Vejo aí a oportunidade de autor em criar uma personagem tão mais tão viciada em sexo que qualquer um de nós mortais seriamos fracos puritanos perto dela. Isso ajuda a entendermos o quanto somos animais, o quanto criamos barreiras invisíveis que só atrapalham nossa visão de mundo (sexualmente falando).
Outro ponto importantíssimo na construção da “personagem” é a posição da mulher quanto ao sexo. É uma visão livre das censuras que perseguem as mulheres pelos quatro cantos do mundo. Se eu pudesse eu daria este livro para todo mundo. Para as mulheres porque muitas dessas ainda se podam desnecessariamente, ou são podadas (que eu acredito que aconteça na maioria das vezes), e pras que não são, para que possam se sentir melhor e mais confiantes da maneira que são (e devem ser, se assim quiserem). E para os homens pra ver se eles se tocam de uma vez por todas que sexo não é papo de homem, e que machismo não faz sentindo algum. Sexo é bom para todos.
João Ubaldo Ribeiro é um mestre das palavras, sem dúvida escreve com uma suavidade incrível. Ler este livro é quase uma viagem no tempo, o tempo passa e você nem sente. O leitor é o confidente da senhora contando sua história com tanta paixão que emociona até os mais insensíveis. O escritor é tão bom que nos deixa na dúvida se ela realmente existiu ou não. Para se ter um efeito tão realista assim, há de ser um verdadeiro guru das letras. 
 

 

 

Pontos Fortes: estórias hilárias, quebra de tabu e originalidade (até a arte da capa e as ilustrações tem espaço único na obra).

Pontos Fracos: Escrito com efeito de oralidade (um pouco confuso), ela existiu ou não afinal? (sou curioso, então vou colocar isso como uma negativa) e apesar do efeito da oralidade, ela fala como se escreve, como se estivesse lendo em algum lugar o que está falando (mas isso é raro no livro).

 

Fonte: http://blogentreaslinhas.blogspot.com.br/

______________________________________________________________________________________

 

O RECURSO IMAGÉTICO DO EROTISMO E DA BUSCA PELO PRAZER NA OBRA A CASA DOS BUDAS DITOSOS, DE JOÃO UBALDO RIBEIRO[1]

Juliana Antunes Barreto[2]

 

RESUMO

O sentido visual está extremamente ligado à arte literária, de forma a construir no leitor uma descrição mais “concreta” do que se lê. Assim, este trabalho objetiva investigar a maneira como João Ubaldo Ribeiro explora os seios e as coxas, numa fragmentação do corpo da protagonista CLB na obra A casa dos budas ditosos, utilizando-se de pesquisa bibliográfica, principalmente as reflexões teórico-críticas de Alves (2012), Branco (1985) e Brandão (2006); e os conceitos simbólicos de Chevalier & Gheerbrant (2009).

Pôde-se concluir que tal recurso imagético traduz erotismo e a busca pelo prazer dessa personagem feminina emancipada do séc. XX.

 

Palavras-chave: Recurso Imagético. Erotismo Feminino. A casa dos budas ditosos.

 

ABSTRACT

The visual sense is extremely attached to literary art, in order to show to the reader a more "concrete" reading. This study aims to investigate how João Ubaldo Ribeiro explores the breasts and thighs, a body's fragmentation of the protagonist CLB in the book The House of Fortunate Buddhas, using research literature, mainly, theoretical and critical reflections of Alves (2012), Branco (1985) and Brandão (2006), and the concepts of symbolisms by Gheerbrant & Chevalier (2009). It was concluded that this feature imagery translates eroticism and pleasure seeking for this female character emancipated in century XX.

Keywords: Imaging Resource. Female eroticism. The House of Fortunate Buddhas.

 

Durante muitos séculos, conforme já sabemos, a mulher ocidental foi vítima do jugo de uma sociedade machista, para a qual atribuímos o nome de patriarcal, de modo que os anseios femininos jamais eram considerados. Se adentrarmos a história da humanidade, perceberemos que a sociedade teve um auge de domínio masculino na Idade Média, período em que as inquisições se voltaram principalmente às mulheres, tidas como bruxas, e desprovidas de qualquer meio de manifestarem sua opinião ou seu prazer.

Em contrapartida, a figura feminina foi ganhando espaço paulatinamente na sociedade, de tal forma que hoje, mesmo com vestígios de um pensamento falocêntrico, fala-se em emancipação feminina e se vê isso de forma mais efetiva.

Na literatura, veremos que a mulher acompanha um simulacro da realidade, ora sendo apresentada como mero objeto de prazer masculino, ora como sujeito ativo da sua própria história.

É com esta concepção temporal da emancipação feminina que este trabalho se propõe a tratar da protagonista da obra A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, mostrando as imagens utilizadas pelo autor para justificar o erotismo e a busca pelo prazer conquistados por essa personagem que foge do estereótipo de “donzela romântica” para se encaixar na liberdade sexual contemporânea.

Para isso, este trabalho se divide em três partes: primeiramente, abordando um breve histórico da figura feminina na sociedade (em paralelo com a arte literária) do patriarcado à libertação das “amarras” machistas; em segundo lugar, apresentando autor e obra a ser analisada; e, por fim analisando a personagem CLB da obra A casa dos budas ditosos, de maneira fragmentada, valorizando o recurso imagético trabalhado pelo autor, com ênfase nos seios e nas coxas, evidenciando o erotismo e a busca pelo prazer.

Vale ressaltar que a metodologia utilizada findou-se em pesquisa bibliográfica e análise textual, citando, principalmente, como base crítico-teórica: Alves (2012), Branco (1985), Brandão (2006), e a análise de simbolismos por Chevalier & Gheerbrant (2009).

Breve histórico da emancipação feminina Tomando como base o fato de a mulher ter passado por fases ora de dominação, ora de subjugação, vejamos uma breve abordagem dessa construção paulatina da liberdade feminina, principalmente no tocante à sua sexualidade, começando do momento patriarcal da Idade Média, até a contemporaneidade.

Escolheu-se a Idade Média como momento a ser demonstrado como ícone do patriarcalismo, uma vez que foi nesse período que a figura feminina foi não só subjugada pelas instituições de força da época, a destacar a Igreja Católica, como também sofreu os mais tristes, humilhantes e doídos castigos físicos e psicológicos.

Vem Lúcia Castello Branco afirmar:

 

A história da sexualidade no mundo ocidental desenvolveu-se estritamente vinculada à noção cristã de pecado. Adão mordeu a maçã e o homem, eternamente manchado por esse deslize original, trazendo consigo o gérmen pecador, perdeu o direito ao paraíso para cair num mundo imperfeito, repleto de serpentes tentadoras. A possibilidade da transgressão sexual tem, assim, como resposta imediata, a condenação a essa terrível sanção bíblica. É compreensível, portanto, que a história do erotismo no mundo cristão se escreva como a história de sua repressão. (BRANCO, 1985, p. 22).

 

Herdeira do pecado original cometido por Eva e, consequentemente, recebedora de punições, a mulher da era medieval não tinha direito ao prazer; sendo consideradas bruxas e hereges quaisquer mulheres que transgredissem as normas ditadas naquele período. O que se deve notar é que tais normas foram deturpadas, baseando-se em fatos contraditórios e pouco eficazes.

É o que percebemos na leitura da introdução histórica feita por Rose Marie Muraro no livro O martelo das feiticeiras[3]:

 

Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. (...) Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas do seu tempo. (...) Mais tarde elas vieram a

representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais (comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. (KRAMER; SPRENGER, 2011, p. 14).

 

Pôde-se perceber que o julgamento a essas mulheres medievais não era algo desinteressado e gratuito, ao contrário, partia de raízes não apenas religiosas, como também sociais, culturais, políticas, e até mesmo científicas. Como se não bastasse a titulação de “bruxas”, essas mulheres eram ainda privadas do sentimento do prazer sexual. Fato que se estendeu ao longo de muitos séculos. “A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato.” (ALVES, 2012, p. 83).

Por terem sido valores deturpados pelos poderes institucionais da época, o erotismo e o prazer femininos foram completamente esvaziados, daí a existência de "posturas moralistas e ‘anti-eróticas’[4]3 assumidas muitas vezes pelas religiões em geral”. (BRANCO, 1985, p. 109).

Apenas com o passar dos séculos e com a incansável luta das mulheres por sua libertação na sociedade que estas passaram a ocupar um lugar de atitude e vontade própria.

Na literatura, especialmente a partir do séc. XIX, observamos a figura feminina mais solta das “amarras” do patriarcalismo, podendo viver cada vez mais intensamente seus desejos sexuais.

a mulher erige seu próprio corpo como uma imagem fálica: ‘Assim, à falta de ter o falo, a mulher cuida particularmente de sua imagem corporal de tal sorte que esta chega a adquirir o valor de falo: à falta de ter um signo identificatório do pênis, ela tem um corpo feminino’[5]. Esse corpo, como um todo, se comporta com o exibicionismo fálico, característica de uma beleza que se erige toda para ser olhada e admirada. (BRANDÃO, 2006, p. 169).

 

A mulher, então, passa a usar do corpo como forma de sedução. É através deste que atrai, erotiza, manipula, conquista. E a literatura em geral, muitas vezes, vai acompanhar as manifestações eróticas ligadas à figura feminina, evidenciando um avanço histórico no que diz respeito à sua sexualidade.

É neste contexto que veremos despertar a sexualidade da personagem CLB, em A

casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro.

A personagem clb como mulher emancipada do século XX João Ubaldo Ribeiro possui vasta obra: romances, contos, crônicas, ensaios, literatura infanto-juvenil, antologias, participações em coletâneas, traduções de obras para diversas línguas, adaptações para televisão, teatro e cinema, além do recebimento de prêmios na área da literatura. Cabe ressaltar que se trata de um autor baiano que ocupa a 34ª cadeira da Academia Brasileira de Letras. O livro A casa dos budas ditosos, de 1999, ganhou versão para o teatro e foi alvo de diversificadas críticas. Pertencente à coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, o livro recebeu de João Ubaldo Ribeiro o subtítulo de Luxúria.

CLB é a protagonista que assina os relatos apresentados em A casa dos budas ditosos. Uma mulher de 68 anos que muito se aproxima do que Brandão (op.cit., p. 89) nos mostra: “O lugar do feminino no imaginário masculino tem de ser caracterizado pelo mais, pelo excesso, pela plenitude que nega a castração”.

É uma personagem que se recusa a ser metade, a ser pouco, a doar-se menos, a receber o insuficiente. É plena e busca realizações sexuais igualmente plenas. À maneira de Lilith[6], CLB captura seus objetos de desejo, conquistados através de vários artifícios de erotização, e, muitas vezes, mostra-se tão fatal na conquista que chega a nos fazer inferir que, mais do que com o objeto em si, ela sente prazer pelo ato de seduzir.

Percebemos na personagem o desprendimento de pensamentos e atitudes moralizantes, consagrados durante tantos séculos na sociedade ocidental, como, por exemplo, na sua sexualidade exacerbada, na ânsia de dominação, escolhendo com quem quer ter relações e como estas devem acontecer, nunca se privando dos seus mais profundos – mesmo que excêntricos – desejos.

CLB convida o leitor a adentrar à sua mais profunda particularidade, uma vez que escancara, sem máscaras, sem preconceitos e sem moralismos, a sua vida sexual, partindo de memórias antigas e recentes, misturadamente. Os relatos dessa narradora libertária possuem descrições e ações de maneira despojada, com linguagem muitas vezes até mesmo ofensiva, mostrando um lado feminino nada compatível com as personagens religiosas, virgens, tradicionalmente românticas:

 

No arraial junto à fazenda da ilha, segundo até meu avô contava, havia uma imagem de São Gonçalo com um falo de madeira descomunal, maior que o próprio corpo dele. O corpo era de barro, mas o falo era de madeira de lei e fixado pela base num eixo, de maneira que, quando se puxava uma cordinha por trás, ele subia e ficava ali em riste. Eu nunca vi, mas as negras velhas da fazenda garantiam que antigamente, todo ano, faziam uma procissão com essa imagem de São Gonçalo e as mulheres disputavam quem ia repintar o falo, era sucesso garantido no mundo das artes, para não falar que a felizarda ficaria muito bem assistida nos seguintes 364 dias. (RIBEIRO, 1999, p. 16-17).

 

Ao lado dos amores escondidos, das relações ilícitas da literatura do séc. XIX, descritos por Branco (1985, p. 49), estão os “amores desvairados”, “as sexualidades periféricas, que não se circunscrevem aos moldes do casamento e não atendem a finalidades procriadoras; ao contrário, opõem-se a essas normas e as desafiam em sua busca irrefreável do prazer pelo prazer”.

 

E por que eu não deixei que ele me comesse na frente também? Bem, primeiro porque achei que não estava pronta ainda, embora me sentisse profundamente lesada em meus direitos elementares, por não poder dar tudo o que era meu e de mais ninguém. (...) Segundo, e mais relevante, é que eu tinha uma fantasia do meu desvirginamento. (RIBEIRO, 1999, p. 57-58).

 

Nesse fragmento, podemos ver os “jogos sexuais” que CLB fazia com suas “vítimas”, ora entregando-se parcialmente, permitindo sexo oral ou anal – nos momentos anteriores ao seu desvirginamento – ora entregando-se por inteiro, captando o ser desejado, homem ou mulher, à sua maneira, sempre fatal. Nisso, podemos compará-la a uma mulher-serpente:

 

Rápida como o relâmpago, a serpente visível sempre surge de uma abertura escura, fenda ou rachadura, para cuspir morte ou vida antes de retornar ao invisível. Ou então abandona os ímpetos masculinos para fazer-se feminina: enrosca-se, beija, abraça, sufoca, engole, digere e dorme. Esta serpente fêmea é a invisível serpente-princípio que mora nas profundas camadas da consciência e nas profundas camadas da terra. Ela é enigmática, secreta; é impossível prever-lhe as decisões, que são tão súbitas quanto as suas metamorfoses.

(CHEVALIER; GHEERBRANT, 2009, p. 815).

 

Ainda em relação a esta postura feminina, Brandão (op.cit., p. 115), ao citar Catherine Clément, em La jeune née, reforça a ideia dos corpos femininos que, presos, são soltos na presença demoníaca. Deixam de ser moças ou mulheres, e passam a ser feras. E é desta forma que vemos a personagem CLB: solta, liberta, desprendida de qualquer impedimento à sua sexualidade.

Com esse panorama, podemos analisar a diferença de postura, uma imposta (como citado, na Idade Média), outra, adotada e conquistada, em relação à mulher. É claro que não estão sendo levados aqui em consideração os contextos que justificavam, ou pelo menos serviam como base para o patriarcado; tampouco se pretende comparar épocas históricas tão diferenciadas. Mas pensamos ser de extrema importância ao leitor que visualize o crescimento da libertação feminina do jugo patriarcal, indubitavelmente longo e sofrido, mas com consequências visíveis hoje em nossa literatura.

 

Análise do recurso imagético dos seios e das coxas em A casa dos budas ditosos

Quando falamos em recurso imagético na literatura, pretendemos associar a imagem, no seu sentido mais concreto, à palavra. Tal recurso nem sempre foi utilizado na arte literária, como percebemos no excerto:

 

Esse diálogo que a arte do século XX estabelece com a escrita, ao mesmo tempo em que a escrita dialoga com a visualidade, reata, de certa maneira, antigos vínculos existentes entre a palavra e a imagem, entre o traço do desenho e o traço da escrita, revelando que a escrita não é apenas um meio de transcrição da fala, mas uma realidade dupla, dotada de uma parte visual. É nesse lugar limítrofe, nessa margem em que a escrita e as artes plásticas confluem, que se encontra um espaço privilegiado para se pensar as relações entre imagem e palavra. Trata-se, portanto, de um olhar a partir das bordas, dos momentos de cruzamento em que uma arte apreende, com a outra, recursos e formas de estruturação, momentos em que a imagem busca a letra e a letra busca a imagem. Esse cruzamento entre a arte e a escrita se dá, portanto, no século XX, através da apropriação de elementos textuais pela produção plástica e também por meio da apropriação de elementos plásticos pela produção textual.

(VENEROSO, 2006, p. 148).[7]

 

A respeito desse diálogo entre imagem e a arte literária, procuramos mostrar na obra A casa dos budas ditosos como João Ubaldo Ribeiro usa das imagens dos seios e das coxas para demonstrar o erotismo feminino em sua busca pelo prazer.

Em muitas passagens de A casa dos budas ditosos, são utilizadas imagens dos seios da protagonista CLB, que, inclusive, opta por utilizar o vocábulo “peitos”. Na busca desenfreada pelo prazer, ela aprendeu a ter orgasmo de todas as maneiras possíveis, sendo uma delas ao receber o contato da boca em seus seios:

 

Mas, para consolar, eu já tinha me desenvolvido extraordinariamente em outras áreas, já desfrutava tomar na bunda e nas coxas com grande competência, já gozava chupando, gozava até quando chupavam meus peitos bem chupados, gozava no dedo, gozava apertando as coxas, não sentia, enfim, falta de muita coisa (RIBEIRO, 1999, p. 57-58).

 

Como, no momento da lembrança narrada pela protagonista, ela ainda era virgem, tinha de lançar mão de outros recursos até que o momento do desvirginamento chegasse, uma vez que, conforme foi demonstrado anteriormente neste trabalho, havia por parte da personagem uma fantasia sobre este momento de sua vida. Desta forma, muitos foram os atos em que protagonizaram os seios:

 

Aí acrescentei que não podia falar aquelas coisas, ficava muito nervosa e botei a mão dele no meu coração outra vez, quer dizer, no meu peito, é claro, e desta vez dois dos dedos dele passaram da blusa e roçaram na borda de meu sutiã – veja como meu coração está palpitando, disse eu, eu vou morrer. E aí – tenha a santa impaciência, não dava mais para agüentar aquela lentidão – dei um beijo nele, um beijinho só, mas ele não se segurou e, para grande surpresa minha, me devolveu o beijo. (RIBEIRO, 1999, p. 71).

 

No fragmento acima fica evidente o caráter sedutor da personagem que usa de falsa inocência para conquistar um professor. O interessante é observar que o toque da mão do homem no seio dela é apenas um dos artifícios de sedução usados por ela, e que ele, na cena narrada, mostra-se muito mais passivo que ativo, não se vê forte o suficiente para livrar-se das investidas da moça desinibida.

Entretanto, a imagem do seio aparece de maneira especial nas narrativas das relações amorosas/ sexuais/ incestuosas de CLB com seu irmão Rodolfo. Sobre esta relação, relembremos um trecho da obra:

 

Em relação a irmão, posso dar meu testemunho pessoal, eu comi muito Rodolfo, meu irmão mais velho, até ele morrer a gente se comia, sempre achamos isso muito natural. Evidente que é natural, a maior parte das pessoas passa pelo menos uma fase de tesão no irmão ou na irmã, só que a reprime em recalques medonhos. Nós não. Norma Lúcia também não. Muita gente também não.

(RIBEIRO, 1999, p. 53).

 

A personagem assume com naturalidade sua relação incestuosa com Rodolfo, descrevendo minuciosamente como aconteciam as trocas de carinho que se tornaram, com o tempo, relações sexuais:

Desde que meus peitos cresceram, nós começamos a brincar de mamãe e neném, mesmo ele sendo mais velho do que eu. Eu me sentava, ele deitava a cabeça no meu colo, eu tirava um peito, punha os dois dedos perto dos mamilos, ele mamava de olhos fechados e mais ou menos gemendo, e ficávamos assim

um tempão. (RIBEIRO, 1999, p. 97).

 

Duas observações devem ser feitas do excerto lido. Primeiramente, a delonga do ato: CLB se delicia do ato de fingir que amamenta o irmão Rodolfo a ponto de permanecer por muito tempo dessa maneira. Assim, podemos concordar com Rubem Alves:

 

Há quem pense que o objetivo dos jogos amorosos é o orgasmo; pelo menos com o orgasmo os jogos amorosos chegam ao fim. Outros pensam que o fim, além do orgasmo, é a fecundação. Mas os corpos dos amantes têm outras ideias. O objetivo do jogo amoroso é estar brincando. (...) é o prazer de estar indo. A caminho dos picos há vistas fascinantes. (ALVES, 2012, p. 28).

 

Se “o prazer tem vida curta”, conforme Rubem Alves (2012, p. 86), é compreensível que a protagonista passasse longos momentos em busca desse prazer, renovando-o a cada instante e, principalmente, usasse da visão erotizada da cena para chegar ao ápice do gozo.

Outra questão é a imagem do seio. A palavra “seio” “faz lembrar amor e prazer: a criancinha suga o seio da mãe, o amante acaricia o seio da amada”. (ALVES, 2012, p. 98).

Chevalier & Gheerbrant (2009, p. 543) validam que se pode relacionar o leite à “vida primordial, e portanto eterna, e o Conhecimento supremo, e portanto potencial”. Quando CLB impõe o seio ao irmão, fingindo amamentá-lo, torna-se detentora, imageticamente, do sinal de adoção, o sinal do conhecimento supremo. De acordo ainda com os autores (p. 809), o seio é símbolo não só de maternidade, mas também de suavidade, segurança, recursos. Da mesma forma, “o desnudamento do peito foi muitas vezes considerado uma provocação sexual: um símbolo de sensualidade ou do dote físico de uma mulher”. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2009, p. 703).

Com estas considerações, não podemos descartar a inferência de que a personagem CLB, mesmo ainda jovem, estava ciente do prazer que causava o oferecimento do seio ao irmão. O que evoluiu, na narrativa, foi a forma como o ato passou a ser encarado, tornando-se relações sexuais frequentes e que exploravam todas as partes do corpo de CLB e de Rodolfo.

É através da imagem dos seus seios que a protagonista se impõe como uma mulher de domínio, emancipada e agente diante do irmão, embora mais velho, como um bebê subjugado. Trata-se, portanto, da inversão de papéis: do patriarcado ao matriarcado.

Igualmente ao que vimos a respeito dos seios, também as coxas são representadas de forma tão descritiva e simbólica que podemos atribuir, na obra em estudo, o recurso imagético à palavra.

Desde o início da narrativa, quando CLB conta a sua experiência sexual, mesmo que limitada, com um negrinho da fazenda, para o qual é dada a impetuosa ordem de um encontro às escondidas, já temos a imagem das coxas da protagonista evidenciando certa importância no acontecimento narrado: “Em todo caso, depois de marchar parado e esfregar as orelhas novamente, ele respondeu que ia, e eu senti uma cócega funda me subindo das coxas para a barriga. Senti muitas outras vezes essa cócega, até hoje sinto, mas nunca como nesse dia”. (RIBEIRO, 1999, p. 28).

Com um certo tom profético, CLB nos mostra que essa “cócega” vinda das coxas poderia vir a ser algo que a conduziria, em muitos outros momentos da sua vida, a situações de erotismo e busca pelo prazer sexual.

Através de sua linguagem sempre despojada, CLB narra ao leitor:

 

Antigamente era muito mais comum a mulher gozar apenas apertando as coxas uma contra a outra, ou quase isso, havia recurso para tudo, havia realmente um certo virtuosismo hoje perdido, pela falta de exploração plena de nossas potencialidades. Enfim, conseguimos transformar o limão em diversas limonadas, transformamos o limão em laranja doce, melhor dizendo. (RIBEIRO,

1999, p. 54).

 

Pertencente a um período em que ainda havia extremas limitações socioculturais quanto à sexualidade das mulheres, a ponto de a sociedade querer privá-las do sentimento de orgasmo, por exemplo, CLB é a representação da mulher que rompe com todos os estereótipos, uma vez que, desde bem jovem, utiliza as coxas para sentir orgasmo e provocar prazer em seus parceiros.

Imageticamente, as coxas da personagem se concretizam na mente do leitor como um órgão sexual feminino, ou substituem-no, porém, de qualquer forma, causando um erotismo que exala das palavras narradas e do descritivismo minucioso, ganhando um ar cada vez mais obsceno nas palavras proferidas por CLB.

Chevalier & Gheerbrant (2009, p. 296-297) apresentam a imagem das coxas de uma forma muito imagética, assim como vemos na narrativa de João Ubaldo Ribeiro: pela função que possui no corpo, a coxa é a força, a firmeza, comparável, inclusive, à coluna.

Desta forma, podemos revelar na obra estudada uma análise erotizada, sexualizada, em que CLB se faz detentora de uma grande força erótica, mesmo que temporária. A narradora de A casa dos budas ditosos revela muitos momentos em que suas coxas protagonizam experiências sexuais análogas às do órgão sexual feminino:

 

“Tomar nas coxas, de que eu já falei tanto, exige know-how, para ser desfrutado decentemente. A mulher tem que treinar a postura, para estar segura de que vai atingir um orgasmo”. (RIBEIRO, 1999, p. 55, grifo do autor).

 

A personagem, livre de qualquer preconceito ou limitação sexual, usava das suas coxas para sentir prazer enquanto ainda era virgem. Explorou todo o seu corpo e de todas as formas que ela considerava possíveis, sempre acreditando na essência do prazer feminino. A imagem das coxas abriu caminho para que a protagonista ganhasse outras experiências, novas aprendizagens:

 

Tive até vontade de dar para um deles, cheguei a começar a abrir as pernas, encostada no pára-lama do carro do pai dele. Mas algo me disse que não. Algo quase sempre mente, mas, mesmo assim, manda a boa paranóia sadia que se dê atenção a ele. Pois é, Algo me disse que não desse, nem nesse dia nem nos subseqüentes, embora adorasse me agarrar com esse rapaz, ele devia ter uns feromônios extraordinários. Ficava ralado de tanto botar nas minhas coxas e eu fazia tudo com ele, exceto deixar que ele metesse, fosse na frente, fosse atrás. Atrás, bem que eu tentei, a primeira vez em pé, encostada no muro do farol da Barra, que, aliás, é meio inclinadinho, e a gente fica mais ou menos reclinada de bruços, grande farol da Barra. Ele passou cuspe, eu me preparei toda ansiosa e, quando ele enfiou, não consigo imaginar dor pior do que aquela, uma dor como se tivessem me dado dezenas de punhaladas, uma dor funda e lacerante, que não passava nunca, me arrepio até hoje. E as tentativas posteriores foram todas desastrosíssimas, experiências humilhantes e acabrunhantes, passei anos traumatizada e decidida a tornar aquilo território perpetuamente proibido e mesmo execrado. Até que Norma Lúcia me ensinou uma coisa. Não. Duas coisas. Não. Três coisas. (RIBEIRO, 1999, p. 56).

 

É claro que CLB venceu suas experiências desastrosas com a ajuda das lições da amiga; e, com isso, “tomar nas coxas” começou a fazer parte de um passado para a personagem. Era preciso explorar todo o restante do corpo.

Observemos que não só na linguagem, mas também no conteúdo narrado, a ousadia das palavras chama a atenção. É preciso lembrar que se trata de uma personagem que vive essa sexualidade no início do século XX, e, mesmo ciente das dificuldades e interditos de sua época, não se deixa dominar. De uma forma ou de outra, CLB vai sempre procurando o seu próprio prazer.

É possível perceber como João Ubaldo utiliza de riqueza de detalhes em suas descrições a fim de tornar a “cena” mais imagética, quase palpável. Com isso, a narrativa consegue fazer com que o leitor consiga visualizar e imaginar as cenas de erotismo e sexo vivenciadas pela protagonista do livro.

No momento do desvirginamento de CLB, as suas coxas também protagonizam parte da cena: “Eu abri, ele curvou meus joelhos para cima, afastou minhas coxas ainda mais - ai, que momento lindo!” (RIBEIRO, 1999, p. 78). Neste fragmento, a imagem do afastamento das coxas, ato que precede a penetração, é um recurso imagético bastante passível de vir à mente do leitor, já que se trata de uma maneira bem comum de posição de desvirginamento.

E, mesmo após o rompimento do tabu do hímen, a personagem não se limitou.

Ora, ousada e emancipada, CLB explorou sua sexualidade através de experiências com homens, mulheres, casais, parentes, enfim, por intermédio de formas que podem ser consideradas tão excêntricas (ex-cêntricas), mesmo em pleno século XXI. Mas o que está em questão neste trabalho é que, com uma maneira peculiar de erotizar, a personagem usou, em vários momentos da narrativa, dos seios e das coxas, principalmente, facilitando a interpretação das cenas e aguçando a imaginação de nós, leitores.

 

Considerações finais

 

Diferentemente da mulher subjugada na Idade Média, ou das “donzelas” do período romântico, a protagonista da obra A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, narra suas aventuras sexuais de maneira livre de qualquer “amarra”, preconceito ou limitação.

Através do recurso da imagem, CLB capta a atenção do leitor com seu erotismo nas narrações e descrições minuciosas dos atos sexuais, em especial quando o que está em questão são seus seios ou suas coxas. É possível, ao fazer a leitura da obra, quase “ver” as cenas de sexo ou de erotismo, de tanto que há um enfoque especificamente descritivo e despojado para esses atos.

Assim, este trabalho nos permitiu concluir que tanto os seios quanto as coxas da personagem são apenas microcosmos que representam todo o seu corpo e toda a sua capacidade de sedução. Funcionam ambos como representações imagéticas do órgão sexual feminino, ou mesmo de todo o seu corpo feminino em riste à maneira de um falo, na busca desenfreada pelo prazer, envolvendo, erotizando, seduzindo, capturando suas “vítimas” tal como uma serpente.

Tudo isso faz dela uma mulher emancipada, sem compromissos com tabus ou princípios pré-estabelecidos pela sociedade, tendo essa mulher a certeza de que, nas suas próprias palavras, até “Deus está rindo” das suas aventuras sexuais.

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. 5. ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil Ltda, 2012.

BRANCO, Lúcia Castello. Eros Travestido. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1985.

BRANDÃO, Ruth Silviano. Mulher ao pé da letra: a personagem feminina na literatura. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos,

costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. 24. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. Introdução histórica de Rose Marie Muraro. Prefácio de Carlos Amadeu B. Byington. Tradução de Paulo Fróes. 22. ed. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2011.

RIBEIRO, João Ubaldo. A casa dos budas ditosos. Rio de Janeiro, RJ: Ed. Objetiva, 1999.

SICUTERI, Roberto. Lilith, a Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

VENEROSO, Maria do Carmo de Freitas. O diálogo imagem-palavra na arte do século xx: as colagens cubistas de Pablo Picasso e sua relação intertextual com os caligramas de Guillaume Apollinaire. Revista Aletria, UFMG, p.147-161, jun./ dez./ 2006. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit. Acesso em: 14 nov. 2013.

 


 

[1] Fonte: Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 4, jul./dez. 2013 

[2] 1 Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, linha de pesquisa Tradição e Modernidade, na Universidade Estadual de Montes Claros/MG – UNIMONTES, e Bolsista da CAPES. E-mail: ahhfalaserio@hotmail.com 

[3] Byington, no Prefácio, explica o Martelo das Feiticeiras – Malleus Maleficarum –, obra escrita em 1484, pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, como a “Bíblia do inquisidor”, na qual se explicam os atos considerados como hereges pela Igreja, bem como a imagem da mulher ligada ao Mal, e as justificativas para considerar suas atitudes como crimes dignos de punições. (KRAMER; SPRENGER, 2011, p. 19-41). 

[4] Optou-se nesta e nas demais citações diretas a prevalência da Ortografia original da obra em questão.

[5] ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? Trad. Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1987 apud

BRANDÃO, 2006, p. 169.

[6] Cf. SICUTERI, Lilith, a lua negra. Lilith, segundo Roberto Sicuteri (1998), foi a primeira mulher de Adão, a qual, desobedecendo às normas do Criador e do companheiro, rebelou-se, exigindo direitos iguais, inclusive querendo superioridade na posição sexual. Por não atender ao que o Criador pretendia ao criá-la do barro para Adão, Lilith é expulsa do Éden e Deus cria Eva. Lilith passa, então, a ser símbolo de sedução e emancipação feminina.

[7] Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit