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João Gilberto Noll - Hotel Atlântico - comentários

JOÃO GILBERTO NOLL (1946) Em suas principais novelas – Bandoleiros (1965); Rastros de verão (1986); Hotel Atlântico (1989); Harmada (1993) e Lord (2004) – João Gilberto Noll vem criando um universo desolado em que personagens anônimos vagam pelas ruas das grandes metrópoles, sem passado, sem futuro e sem qualquer destino a cumprir. Atormentados pela solidão e pelo desejo físico, percebendo a realidade por meio de fragmentos e vivendo quase que exclusivamente na dimensão interior, esses protagonistas submergem no vazio, no sexo, na loucura e na idéia da morte. Como não encontram qualquer saída, resta-lhes apenas a eterna errância. Esse motivo, o do homem desenraizado e desesperançado – básico da literatura moderna ocidental – encontra na ficção de João Gilberto Noll uma de suas mais complexas traduções no Brasil.

Sinopse:

Em um hotel de Copacabana um homem se depara com um cadáver carregado pelas escadas. O acontecimento dá início a um percurso inesperado, onde se encontra repetidas vezes com a morte e com personagens inusitados. Um livro de ação permanente, criada pelo olhar de um homem que se envolve com a paisagem em mutação e encontra pessoas que jamais participam pacificamente da sua vida. A relação de intenso conflito cumpre sua radicalidade quando o autor se entrega para os fatos que surgem pela mão da palavra em movimento, enquanto o narrador desta não-história parece distante do que vive intensamente.

Publicado pela primeira vez em 1989 e tida como uma das grandes obras do autor sacramentado como revelação dos anos 80 e que hoje é parte da melhor literatura brasileira, Hotel Atlântico está sendo adaptado para as telas, com direção da cineasta Suzana Amaral (de A hora da estrela). Este romance pertence ao seco território de uma escrita que chega ao limite em cada livro de João Gilberto Noll. Ao longo de nove romances e um livro de contos, ele acabou forçando a crítica a reciclar conceitos para poder entender a erupção dessa literatura. O seco não se deve à economia ou escassez, mas pela impiedade da abordagem, que não dá margem às manobras comuns da narrativa, e por tabela, às análises literárias. Noll rebela-se contra os conceitos gerados pelo hábito, pelas certezas ou até mesmo pela preguiça. Não quer ser enquadrado como escritor intimista, mesmo reconhecendo suas preocupações com a subjetividade.

 

Resumo: No romance Hotel Atlântico temos o relato em primeira pessoa de uma personagem anônima que empreende uma viagem. O ponto de partida da narrativa - e da viagem - é a cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente, a situação de um hotel, em que a personagem se hospeda para começar sua viagem no dia seguinte. O ponto final da viagem novamente é um hotel, este chamado Hotel Atlântico, localizado na praia do Pinhal, no litoral do Rio Grande do Sul, onde a narrativa termina com a morte do personagem narrador.

A personagem anônima, um ex-ator sem ocupação regular e vivendo momentaneamente da venda de um carro, empreende uma viagem para algum lugar que ela própria não sabe definir. Esse primeiros passos, antes de empreender propriamente a viagem, são incertos. A personagem coloca-se outra alternativas: a loucura (“Se eu encenasse a loucura”) ou o suicídio (“Um tiro, por que não?”).

No entanto, a necessidade da viagem é mais premente, reforçada pela sensação nostálgica de que a viagem devolver-lhe-ia a perdida “intimidade com o chão”. Com a compra da passagem de ônibus, a personagem sente momentaneamente que também tem condições de “chegar a algum lugar”; o bilhete de passagem apresenta-se em primeiro momento como uma “alforria”, para logo em seguida lhe imprimir nova sensação contraditória.

O que poderia ser uma viagem de aventuras comum - aquilo que certamente está no horizonte de possibilidades representativas do leitor -, sob a forma da antinomia, apresenta-se como uma “fuga”, com assassinatos e suicídio, com perseguições, humilhação e mutilação do personagem-narrador para chegar até a sua final aniquilação. A estrutura da antinomia: de viagem de aventuras - cujo fim seria a aventura em si ou o esquecimento momentâneo das contradições existenciais da personagem - para a fuga cujo fim é a morte prematura da personagem.

Na sua marcha para o sul, a personagem encontra todo tipo de desqualificados; igualmente instituições como hospital e prostíbulo estão presentes. Diante dessas situações o protagonista-narrado vai ainda várias vezes representando papéis postiços e gastos, tais como o de conquistador barato e folgazão, de padre, de aventureiro, para chegar a representar o seu próprio papel de ator de telenovelas desempregado, já que a sua figura como ator ainda é lembrada pelas pessoas das cidadezinhas interioranas.

Na pequena Arraiol - onde o médico dr. Carlos, que “salvou” a nossa personagem amputando-lhe a perna, está em campanha para prefeito - a mídia está presente para formar, não cidadãos, mas um mero público. Esse mesmo dr. Carlos faz questão de ser visto ao lado do nosso personagem-narrador - “É o artista da novela que o futuro prefeito salvou”, pois o público, consumidor voraz de telenovelas, ainda se lembra da figura do nosso protagonista. O dr. Carlos espera assim forma uma identificação com o seu público eleitor. Quando o candidato a prefeito, o dr. Carlos, percebe que o passado de ator da personagem não mais está em condições de promover essa identificação e assim lhe granjear votos, ele a descarta e a abandona na reclusão do hospital. A própria personagem externa essa sensação: “a minha pálida carreira do passado já não empolgava os eleitores como ele [dr. Carlos] precisava.”

A partir daí a personagem fica presa ao hospital de propriedade do dr. Carlos, na cidade de Arraiol. Ali conhece talvez a única personagem semelhante a si: o enfermeiro Sebastião. Essa personagem também quer abandonar seu emprego. Sua demissão é igualmente apresentada como fuga. Sob o signo da fragmentação e do individualismo, as próprias relações de trabalho se modificam, as oposições entre as distintas classes colocam-se de uma nova forma.

(adaptado de SEIDEL, Roberto Henrique. Do Futuro do Presente ao Presente Contínuo. São Paulo, Annablume, 2001)

 

Trechos do estudo: JOÃO GILBERTO NOLL E O FIM DA VIAGEM - de:Idelber Avelar - Tulane University

Hotel Atlântico narra o vagabundeio de um protagonista pelo Sul, em pensões e asilos, interrompida por uma amputação de perna ocasionada por uma agressão da polícia. O médico do lugar usa o “sucesso” da operação como triunfo eleitoral em sua campanha para prefeito, enquanto o narrador desenvolve forte cumplicidade com Sebastião, o enfermeiro negro que ao final foge com ele, alimentando a idéia de visitar seu povoado natal. A trajétoria do narrador é indistinguível da deterioração de seu corpo e da atrofia na memória que, por sua vez, é alegorizada fisicamente em contínuas perdas de sentidos e membros. Na busca genealógica de Sebastião de uma casa - guiado por uma foto amarelada, wenderiana - encontram a inevitável decepção: “vimos que ali não havia mais a casa de madera azul que ele me descrevia agora, nos mínimos detalhes, na esperança de eu ajudá-lo a procurar” (HA 90-1). No caminho de outra fracassada busca de origens, o narrador encontra a destituição de seu próprio corpo. Numa praia dos tempos de infância, perde sua audição e visão. As frases de Noll se tornam curtas, áridas, lexicamente pobres, como se tendessem ao silêncio:

Sebastião me sentou na areia. Ficou ao meu lado, com uma das mãos firme na minha nuca.
Aí Sebastião olhou o mar. Eu também, o mar escuro do sul.

Depois ele virou a cabeça para o lado e olhou para mim. Pelo movimento dos seus lábios eu só consegui ler a palavra mar.

Depois eu fiquei cego, não via mais o mar nem Sebastião (HA 98).

Em oposição às estratégias de multiplicação de nomes na obra de, por exemplo, Ricardo Piglia e Silviano Santiago (estratégias bem diferentes entre si, mas que permitem a ambos esquivar a crise da narrabilidade da experiência, ao pôr à disposição da ficção um infinito de experiências apócrifas e impessoais),  a busca falida de origens em Noll encena a impossibilidade de constituir um nome próprio. Como acontecimento iterativo, uma assinatura deve ser sempre repetível mas absolutamente única em cada uma de suas ocorrências. Em Noll nenhum encontro verdadeiro com a alteridade, nenhum momento epifânico, possibilita a reordenação da experiência passada que permitiria a emergência de um sujeito capaz de uma assinatura. O anonimato dos narradores-protagonistas é coerente com o conteúdo da experiência narrada. Para sujeitos já dissolvidos na pura faticidade, o nome próprio se converte numa âncora desde sempre inalcançável, imaginária. Com o nome próprio se desvanece toda interioridade: “Mesmo o que a rigor pertenceria ao universo da subjetividade, do privado, na ficção de Noll se transforma numa espécie de mistura, de lugar de passagem entre a exposição e a intimidade”. A dissolução dos nomes se extende aos substantivos comuns: “Não, meu menino, não, nem tudo tem nome nesta ingrata vida” (H 53). A ausência de uma instância sintetizadora faz com que o mundo e os personagens se arrastem no inomeável. As vitrines que Flora Süssekind indica como cruciais na literatura brasileira contemporânea - “teatralização da linguagem do espetáculo, convertendo-se a prosa em vitrine onde se expõem e observam personagens sem fundo, sem privacidade, quase imagens de vídeo num texto espelhado”  - também representam uma ruptura violenta entre os sujeitos e algum momento de seu passado, ruptura que lhes impede de reordenar sua experiência passada. A oposição entre Piglia/Santiago e Noll seria um contraste entre duas manifestações da impessoalidade na época do declínio do nome próprio. A antinomia (ou contradição em última instância dialetizável?) seria entre a profusão de Piglia e Santiago e a rarefação de Noll. Se em Piglia e Santiago a multiplicação de nomes próprios garante a produção de subjetividades apócrifas, em Noll o sujeito se dissolve na faticidade da experiência. Aqueles se filiam a uma constelação que também inclui Italo Calvino ou Thomas Pynchon - a profusão de histórias, a infinidade do apócrifo, a multiplicação dos nomes, enquanto este evoca outra linhagem, mais em sintonia com Peter Handke, Maurice Blanchot e Pierre Klossowski - a lenta desaparição, o paulatino desvanecimento do nome próprio.

O Bildungsroman em suspenso de Noll seria uma crônica da dissolução desse ponto arquimediano alguma vez representado pelo flâneur moderno. Submersos em acontecimentos cuja significação se esgota em sua mera faticidade, entendendo o tempo vazia e homogeneamente, viajando por terras que já não oferecem outridades a partir das quais afirmar a identidade, os personagens de Noll se enfrentam ao bloqueio da experiência e do nome próprio. Sabemos, por Benjamin, que a experiência em seu sentido forte pressupõe uma incorporação da memória individual aos marcos da tradição coletiva. Este seria, então, o momento de colocar a pergunta pelo estatuto do coletivo nestes textos altamente fragmentados e privatizados.

 

(Apostila 19 de Contemporânea da Lit. Brasileira)