ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Bandoleiros - João Gilberto Noll - resumo

João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre, em 1946. Contista e romancista, já recebeu três prêmios Jabuti e teve obras adaptadas para o cinema e o teatro. Entre seus livros, destacam-se: O cego e a dançarina (1980), Bandoleiros (1985), Hotel Atlântico (1986), A céu aberto (1996).

Trechos do estudo: JOÃO GILBERTO NOLL E O FIM DA VIAGEM - de:Idelber Avelar - Tulane University

Seguindo-se à antologia de contos O Cego e a Dançarina (1980), no universo representado por A Fúria do Corpo, Bandoleiros, Rastros do Verão, Hotel Atlântico, O Quieto Animal da Esquina e Harmada,  os dois primeiros textos estão mais próximos do desenho do romance, enquanto que os outros são narrativas mais curtas, quase novelas, e focalizadas em personagens completamente alheios ao drama psicológico do romance burguês clássico. O comprimento dos textos de Noll é em si um elemento importante para a análise: sua concisão funciona como índice de seu auto-apagamento, de seu impulso ao silêncio. A ficção de Noll se escreve a partir de uma crítica ao romanção, às maquinarias narrativas cosmogônico-totalizantes que encontraram seu apogeu na Comédia Humana de Balzac, modelo privilegiado para as várias sagas realistas, regionalistas ou não, que proliferaram na literatura brasileira moderna. Como sugerem os títulos, os textos de Noll fazem alusão invariável a lugares transitórios, peregrinações, traços e restos da experiência, cenários sem historicidade, esvaziados de progressão e tempo:
Era antigo isso em mim: ter a noção de que eu precisava fazer alguma coisa sem saber exatamente o quê. O meu costume era ficar no meio do caminho, entretido com algum detalhe que acabava mudando meu rumo. Hoje já perdi as esperanças de recuperar a memória do que eu tinha que fazer lá no princípio (RV 60).

(...)

O paradoxo dos textos de Noll é que nada parece permanente, tudo está em fluxo, mas as próprias noções de devir e mudança parecem inadequadas. Noll seria então paradigmático de uma antinomia contemporânea assinalada por Fredric Jameson: "a equivalência entre um ritmo sem paralelo de mudança a todos os níveis da vida social e a estandarização sem paralelo de tudo - sentimentos e bens de consumo, linguagem e espaço construído - que pareceria incompatível com tal mutabilidade”.  O incômodo produzido pelos textos de Noll - a impressão de que tudo está em fluxo mas nada muda, já que a experiência nunca se converte em saber narrável – remete ao deslocamento que impõe a ficção de Noll à tradição moderna e baudelaireana do flâneur. Para Benjamin a figura do flâneur seria uma chave alegórica da crise na transmissibilidade da experiência. Radicalizadores dessa crise, os personagens de Noll pareceriam anunciar um mundo no qual mesmo a experiência superficial e desatenta del flâneur já não seria possível.

(...)

Ao contrário das viagens que constituiram um dos gêneros privilegiados da modernidade, de Swift a Humboldt e Jack Kerouac, as viagens de Noll não adotam nenhuma função liberadora, pedagógica ou edificante. A arquitetura do texto de Noll - a deriva constante, o foco na primeira pessoa, a tentativa individual de extrair significado do passado, a natureza temporalizada de tudo – convida uma aproximação com o Bildungsroman, exceto que nunca se estabelece nenhum Bildung, posto que os personagens perderam a capacidade de aprender com a experiência ou, o que nos leva ao mesmo, a experiência já não pode ser sintetizada para formar uma conciência individual.  Progressão, conflito e resolução são aqui categorias inoperantes. Enquanto a viagem moderna a uma outridade histórica, geográfica ou experiencial forçava o herói a uma síntese do passado e um salto em sua formação, a deriva na ficção de Noll é alheia a qualquer dialética. A irrupção de fragmentos do passado não desloca o protagonista para além da mesmice temporal à qual parece condenado. O processo de formação do sujeito põe em cena uma mirada ao passado que não encontra nada que identificar ou reconhecer.

                Os personagens quarentões, anônimos e sem emprego fixo de Noll se deixam entender, portanto, como deslocadores da tradição moderna do viajante / flâneur: inadaptados, negadores de seu entorno, que, entretanto, não se convertem em portadores de um princípio alternativo. Uma vez que a marginalidade perde o potencial redentor que uma vez teve, estes personagens já não podem encarnar nenhuma afirmação. A literatura de Noll carece, portanto, de toda pulsão restitutiva. A negação de uma realidade insuportável não tem lugar em nome de algo que possa transcendê-la, mas se resigna a ser imanente àquilo que nega. Enquanto o flâneur “mantém sempre a posse total de sua individualidade”  , os personagens cinzentos e anônimos de Noll se dissolveram na faticidade indiferenciada da experiência. Por oposição à memória involuntária em Proust, as reminiscências em Noll não se colocam a tarefa de “produzir experiência sinteticamente”. Daí a sensação de que, apesar da fragmentação e da desordem na memória do protagonista, não há, no final das contas, um quebra-cabeças que reconstruir, já que não importa muito o que ocorreu antes ou depois. Na progressão indiferenciada da esquizo-narrativa, o tiempo não é baralhado, e sim suspenso ou rasurado. Parte da confusão temporal própria às cubo-narrativas modernas permanece, mas seu potencial redentor (modernamente associado à sua relação desautomatizadora com a linearidade do tempo) dá mostras de declínio definitivo.

                 Como em Bandoleiros, romance que inclui uma visita do narrador aos Estados Unidos, depois da qual ele - também escritor – se angustia com a sensação de que parte sem ter nada que contar: “Essa sim ninguém perdoaria: eu ter conhecido a América-América e não ter extraído dela nenhuma ficção” (B 144). Bandoleiros seria uma contrapartida melancólica a numerosas narrativas de viagens em que os europeus regressavam da América enriquecidos em experiência, renovados por um contato de primeira mão com uma alteridade incontaminada. Ao longo de sua estadia nos EUA o narrador só vê réplicas paródicas do mais americano de todos os mitos, a história de vida singular, individual, e escuta os ecos da retórica de uma nova cruzada moral, que sugestivamente recorda o puritanismo e individualismo da era Reagan. Na viagem de volta ao Brasil o protagonista tropeça numa última mostra do pangossianismo da doxa norte-americana, essa crença imbatível de que se vive no melhor dos mundos possíveis:
 A moça me atendeu com a monótona polidez do pessoal de serviço americano. Não que eu preferisse uma moça mal-humorada, mas era indiscutivelmente monótono me confrontar mais uma vez com aquela presteza escorreita, aquela simpatia discreta como quem está fazendo a coisa mais importante do mundo, a crença cega de que cada um dá seu quinhão pela grandeza de alguma coisa que acaba sempre num país (B 152).

(...)

Ao retornar ao Rio o narrador de Bandoleiros reflete sobre o fracasso de seu último livro, Sol macabro, e sobre seu casamento abortado com Ada. Vê também seu amigo João - sua antítesis em tudo, a imagem do escritor de fé militante - morrer lentamente de doença misteriosa, derrota última que oferece um comentário ácido a seu glamoroso otimismo. Recordando “os seres especiais que pensávamos ser na juventude, todos uns perfeitos fracassados” (B 10), o narrador antecipa algumas imagens alegóricas do universo textual de Noll, como a de um vagabundo cego numa pensão tocando saxofone. Sem pagar o aluguel ou ouvir vozes há meses, “[c]omeçava a desconfiar que a pensão não existia mais. Só ele tinha ficado ali, sobrevivente” (B 27). A imagem desse cego tocando o sax só em seu quarto, sem saber se o mundo acabou, deixando-o como único sobrevivente, reaparece para o protagonista como alegoria de sua própria incapacidade de perceber a passagem do tempo como algo mais que um contínuo homogêneo: “é muito estranho alguém desconhecer que se está numa manhã de domingo. Qualquer outro dia pode. Mas se você não sabe que está dentro de um domingo e confessa sua ignorância, você parece que bebeu, pirou - um perigoso vagabundo” (B 12).

                 Depois disso encontramos um homem conhecido pelo narrador em Boston, um tal Steve, americano que passara parte de sua infância em Porto Alegre e “resolveu vir para cá, ver se podia restaurar a casa abandonada, morar ali” (B 38). Steve é um dos muitos fracassados rastreadores de origens dos romances de Noll.  Antigo estudante de Harvard, tinha sido drogado quase até a morte por médicos que tentavam curar sua depressão, e acabara deixando a universidade totalmente amnésico, incapaz inclusive de recordar o então recente assassinato de John F. Kennedy. Enquanto isso Ada, mulher do narrador, vai a Boston fazer um doutorado em “Sociedades Minimais”, novo credo que conquistava o mundo inteiro e ao que começou a dedicar-se religiosamente: “Não via mais na nacionalidade um critério avaliador de qualquer conteúdo humano. As nações sem exceção estavam condenadas. Restava o ingresso nas Sociedades Minimais” (B 45). Explicando como a Sociedade Minimal resolveria o problema da mortalidade - “Depois de morto o cara migra cada vez para uma mais perfeita Sociedade Minimal” (B 46) -  Ada ilustra a degeneração da utopia em paranóia totalizante, dogma religioso defendido militantemente. Alienado do dogma Minimal, o narrador regressa ao Brasil e conhece, no aeroporto, Steve, a quem depois encontrará de novo nos arrabaldes de Porto Alegre.

                 Depois de sua chegada ao Brasil o narrador recebe a notícia do ataque a Ada durante seu sono por Mary, outra militante Minimal que tentava provar uma tese, depois exposta num best-seller, sobre os perigos do sono. O best-seller de Mary é um dos quatro textos inseridos em Bandoleiros, além de Sol macabro, escrito pelo narrador – versão em abismo do romance de Noll e fracasso de vendas -, os manifestos militantes de João e a “poesia da fome” de um jovem mártir que havia decidido cometer o que para ele era o único ato político possível num país como o Brasil: o poema-suicídio. Tomando estes quatro textos como uma caricatura do espectro de possibilidades da literatura pós-catástrofe, os Minimais representariam a acomodação fácil, mesmo que excêntrica e escandalosa, a um mercado ansioso por novidades vendáveis; as “visões de grandezas futuras” (B 77) de João permanecem impermeáveis a experiências recentemente derrotadas e insistem em seguir com os mesmos dogmas militantes; o jovem faquir-poeta, com sua escrita “ingenuamente dolorida” (B 16) se oferece como corpo sacrificial, consumido no mesmo ato de afirmar-se. Steve, o que não escreve, o utópico da pura experiência vivida, termina bêbado e degenerado no vale próximo às ruínas de sua casa de infância. No contexto dessas alternativas - acomodação ao mercado, ativismo ingênuo, martírio auto-sacrificial ou o ágrafo romantismo beat/maldito - o projeto do narrador de uma literatura reflexivamente em processo de luto, corrosiva e cínica mas nunca auto-sacrificial, parece ser a única alternativa de alguma amplitude teórica. Mas o narrador, como a respiração mesma do texto de Noll, se vê num beco sem saída e não sabe como proceder.

 

                 O vazio mnemônico e experiencial dos textos de Noll é alegorizado pela falta de rosto e o anonimato dos personagens. Em Rastros do Verão o narrador-protagonista encontra na rodoviária um garoto para quem “qualquer um poderia aparecer e declarar ser seu pai que ele não teria como acreditar ou não -  a única imagem que tinha dele era a de um homem sem face” (RV 14). A narrativa se desdobra como se faltassem ao protagonista fatos significativos que relatar:

 Eu andara esses anos todos por aí, e que história pessoal eu poderia contar? Por essa geografia rarefeita quem tinha gerado comigo alguma memória duradoura? (RV 22).

Se é verdade que “me animava um pouco o fato de ainda existirem histórias por se fazer” (RV 46), essas histórias já não parecem disponíveis como experiência pessoal: “senti que eu tinha perdido a capacidade de entrar numa história com alguém” (RV 28). Durante suas visitas ao garoto, a medida do tempo é a sucessão de canções no rádio:

Uma locutora falava da carreira atribulada de Elza Soares. Depois Elza cantou um blues . . . [o] garoto falou que eu ouvisse que música incrível do Legião Urbana . . a locutora anunciava que agora vinha Grace Jones, pra arrebentar . . . A locutora dizia que tínhamos ouvido os Garotos da Rua . . . Janis Joplin gania seu Summertime . . . No rádio tocava Marina . . . No rádio tocava Fagner . . . Do quarto do garoto vinha B.B. King (RV 44-60).

Trata-se aqui de uma temporalidade sincopada e segmentada, tempo que se congelou como exterior à experiência. Quando a experiência se arrasta na repetição interminável do mesmo, a única pontuação temporal vem de fora, numa estrutura narrativa que replica a segmentação: os acontecimientos se desenrolam como tomadas cinematográficas bruscamente recortadas, numa sucessão de cenas onde nada se acumula nem se aprende. A dialética da experiência se encontra em suspenso, enfrentando-se perenemente à tarefa de começar de novo.

Bandoleiros - resumo

Relato da sociedade contemporânea, o romance ilustra a situação marginal dos intelectuais, trazendo à tona a profunda solidão em que vivem, seus anseios mais prementes e a tentativa vã de amenizar a dor da existência com o álcool, o sexo ou as drogas. Desse modo, revela-se a total impossibilidade de adequação por parte desses intelectuais ao status quo vigente.

A narrativa transcorre em Porto Alegre, porém é entremeada por lembranças de quando o narrador, protagonista do romance, vivera nos Estados Unidos. Romance em primeira pessoa no qual, do início ao fim, é omitido o nome do protagonista.

Inicia com o protagonista relembrando o amigo doente, que vem a falecer em seus braços a caminho do hospital. O episódio ocorre em Porto Alegre, no verão. Eram velhos amigos. O protagonista viera dos Estados Unidos, onde residia, especialmente para ficar com o amigo. Ada, sua esposa na época, tenta salvar um casamento em ruínas mantendo relações sexuais com outros homens, num apelo desesperado de reconquistar um marido que já não lhe demonstra o menor interesse. Separam-se. Ada vai viver numa praia em Santa Catarina e lá conhece um pescador, por quem apaixona-se.

O protagonista é um escritor. Seu último livro, um romance destacado pelos críticos, não vendera nada. Entrega-se à bebida. Há um mês veste a mesma roupa. Vive de traduções das quais está saturado. Encerrado em seu ostracismo e solidão, sob o espectro do fracasso, vagueia pelas ruas e bares ainda pelas manhãs. Nos bares, bebendo Dreher e com firme intuito de turvar a realidade, sente-se incomodado com conversas alheias. Vê-se obrigado a escutar um garoto que se diz fã dos seus livros. Escuta-o sem o ouvir. Lembra-se de quando Ada era professora numa escola pública experimental, antes de debandar para tantas outras coisas que tentou fazer na vida. Agora Ada aprendia a pescar. Lembranças permeando-lhe os pensamentos: a menina, aluna de Ada, que se sentara sem calcinha à sua frente no dia em que ele apresentara-se de operário para uma de suas aulas de sociologia. Onde andaria a danadinha, pensava.

Bêbado, joga a chave do apartamento num bueiro. Novamente se vê no passado, deitado no degrau de um prédio público. Avista o negro cego tocando sax e chama-o. Conhecera-o há anos, pois era músico. O cego sofria de fome. Mas preferia assim, viver sem calendário. Foram para o bar tomar café. Depois para a rua, à deriva, enquanto o vento soprava forte.

De volta ao apartamento, recebe um telefonema que mal consegue entender, apenas que é de um estrangeiro. Pega o ônibus para Viamão. No fim da linha uma igreja, uma galinha, uma menina vendendo caramelos. No lugarejo olhares esquivos dos habitantes. Sobe o morro bêbado; o ar puro o revitaliza. Está indo para o vale que fica depois do morro. Lá do alto avista uma casinha de madeira, sozinha no meio da vegetação árida lá embaixo. Ao chegar à casa bastante abandonada e sentindo muita sede, chama por alguém. Aparece um homem com sotaque estrangeiro que lhe diz não ter água em casa, só cachaça. Era louro, vestia uma calça branca arregaçada e tinha no peito a tatuagem de um olho.

Beberam duas garrafas de cachaça na casa escura, iluminada apenas por um lampião. O homem, americano, chamava-se Steve e discorria sobre sua vida, sobre o tempo do colégio, deixando seu visitante completamente entediado. Este, perguntado-se se alguém neste mundo ainda poderia lhe interessar. Steve conta-lhe que estudou em Harvad e que durante anos foi dopado por um psiquiatra. Abandonou Harvard, internou-se numa clínica e adquiriu uma grave amnésia. Recebera tantos choques insulínicos que nunca mais recuperara de todo a memória. Estava ali a falar o quanto a clínica o havia aniquilado. A vida tornara-se vil para ele.

Steve prossegue sua história. A vida que tivera em Boston. Fora casado com Jill antes de decidir mudar-se para o Brasil. Reencontrara o amigo Baby Buffalo, que desde os treze anos não via. Baby Buffalo contou-lhe que aos vinte anos estuprara uma mulher em Vermont, passara um tempo na prisão, e estava tentando refazer a vida em Boston. A partir daí voltaram à velha amizade até Baby Buffalo ser preso novamente.

Nosso protagonista começa então a falar sobre a experiência que teve no mesmo parque de Boston em que Steve reencontrou Baby Buffalo. Conta-lhe que pisou num corpo de mulher desenhado a giz no chão. Ao pé do corpo estava escrito que havia sido estuprada. Steve torna-se possesso. Quer matá-lo, inicia-se uma briga que os levará à extrema violência. Steve acaba extenuado e todo ensangüentado, mas resiste ainda. Nosso protagonista, também tendo sido muito golpeado, ameaça-o com uma pedra e acaba conseguindo escapar. Steve fica caído no morro, ao relento.

Na estada em Boston, Ada esteve lendo um livro pelo qual apaixonou-se, chamado Minimal Society. Tratava de uma sociedade auto-suficiente na qual tudo de que se necessitasse seria produzido, abolindo a introdução do comércio exterior. Nesta sociedade autogerida, o sentido de nacionalidade não existia, pois o importante seria ser um cidadão minimalista. Ali se desenvolveria também a crença na reencarnação. E assim cada vez que se morresse, o espírito voltaria para uma sociedade minimalista mais evoluída, já redimido dos erros passados. Por esta época, o protagonista e Ada já andavam entendiados um com o outro. Ada fazia quindins para viver e mantinha uma relação estranha com Alícia, a mexicana com quem dividia o apartamento, que ia além da amizade. Uma espécie de dependência por parte de Ada e paixão por parte de Alícia.

Quanto à sociedade minimalista de Ada, em que todos seriam livres, tudo seria permitido: banhos grupais, troca de casais, etc. O narrador achava que seria uma boa idéia passar por essas experiências, teria muito o que contar nos livros. Mas Ada lhe dizia que por enquanto era melhor mesmo que voltasse para o Brasil.

A bem da verdade, qual o dia que passa sem alguém dissolver minha última esperança? Há sempre alguém a postos para declarar que estou perdido. Que já é outro o rumo das coisas e que eu me atrasei. Que a história marcha e olha como ainda estou cheio de ilusões. Tudo marcha em direção a uma clareza que absolutamente não compreendo. (...) Eu e tudo estávamos sofrendo de um ridículo, mas esse ridículo não me dava vontade de rir mas sim um medo atroz. Então entrei num bar e pensei num porre. Daqueles que eu costumava ter no Brasil. Daquelas noites que no dia seguinte você não lembra de nada. E eu tinha um bom motivo para beber: esquecer por uma noite do ridículo, o mais completamente.

Mary viera do Quênia. Era uma negra forte, de grandes seios. Fora aos Estados Unidos apresentar um vasto relatório sobre pesquisas minimalistas desenvolvidas em seu país. Falava de como os cegos seriam úteis nas sociedades minimalistas, pois através de suas experiências com a escuridão é que se chegaria à luz. Nos ensinariam que só há um único caminho: o da luz. Dizia também que pesquisas recentes sobre o sono afirmavam a importância de não se observar alguém dormindo, porque o ser humano é a única espécie que odeia o seu semelhante, e quando este dorme, sente um desejo intenso de eliminá-lo, embora esse desejo visceral seja reprimido pela moral social. As conversas de Ada, Alícia e Mary giravam em torno da sociedade minimalista. Não havia espaço entre elas para um intruso que não estivesse de tal modo integrado. Foi quando Ada pediu-lhe que voltasse ao Brasil.

Em Porto Alegre, nosso protagonista fala a João sobre a sociedade minimalista. João quer saber como é encarado o terceiro mundo, as relações de produção, os velhos... E irrita-se pelo amigo não ser capaz de responder-lhe. João era um escritor corajoso. Escrevera um romance esperançoso em contraponto à atual sociedade corrosiva. João dizia que era preciso manter a serenidade diante das crises. Morreu alguns dias depois dessa discussão.

Ada retornara dos Estados Unidos numa cadeira de rodas, sobrevivendo de soro e sedativos, sem dizer palavra e incapaz de reconhecê-lo. Nosso protagonista ficou a seu lado até sua completa recuperação. Finalmente curada, Ada explicou-lhe o que acontecera. Alícia tentara matá-la sufocando-a com um saco plástico enquanto dormia. Ada livrou-se de Alícia dando-lhe um empurrão com os pés, jogando-a contra a parede e causando-lhe um dano irreversível. Alícia hoje está sobre uma cama, levando uma vida vegetativa. Mary, que viu o que acontecera, prestou um excelente testemunho, livrando-a da prisão. Mary aproveitou para escrever uma tese sobre o sono minimalista, e foi comprovado o ódio do homem pelo homem e sua irresistível tentação de matá-lo enquanto assiste-o dormir. A tese virou livro, que virou best-seller. Mary comprou uma fazenda no Quênia e lá fundou a primeira comunidade minimalista.

 

O protagonista conhecera Steve na ocasião em que fora "convidado" pelas três mulheres minimalistas a voltar para o Brasil. Tinha ido beber num bar quando Steve, após puxar assunto, convidou-o a conhecer seu refúgio, uma velha casa de campo nos arredores de Boston. No trajeto, Steve contou-lhe sobre a casa abandonada que conhecera em Viamão, lá em Porto Alegre. Contou-lhe também pormenores de sua vida, que pouco o interessou. Steve, muito alcoolizado, entrou em coma alcoólico, e antes defecou na própria roupa. Deitado de bruços sobre a cama da velha casa implorou ao amigo que o limpasse. Este, por sua vez, esgotado com aquela situação insuportável e extremamente nauseado, por um momento desejou matá-lo. Acabou por tirar-lhe as roupas sujas, arrastou-o até o banheiro e colocou-o dentro da banheira. Enquanto banhava-o, alguém abriu a porta da sala e entrou. Era Jill, uma bela mulher ruiva com olhos verdes. Disse-lhe estar cuidando de Steve. Agarrou-a . Houve reciprocidade, então despiu-a. Ficaram ali se bolinando por um longo tempo até que Steve deu um grito e Jill foi até ele. Steve caíra no banheiro e estava sangrando. Trouxeram-no para fora. Jill debruçou-se sobre ele e abraçou-o ali, no chão mesmo.

Nosso protagonista partiu rumo ao Brasil. Já no Galeão só pensava em reencontrar João. Ao avistá-lo, sorrindo por detrás do vidro, a poucos passos, largou a mala que havia exigido-lhe um enorme esforço. Abandonou a mala com todas as suas coisas gastas e foi direto ao encontro de João, sem saber que dias depois...

Porque João sorria, e não importava coisa alguma que ele fosse morrer. João vai. Eu vou. Todos nós vamos morrer. Então, o que importava era aquilo mesmo - eu devolver esse largo sorriso para João, que está ali, do outro lado do vidro, me sorrindo.

Personagens

Protagonista - anônimo brasileiro; narrador da obra; escritor arrasado pelo fracasso do seu livro; alcoólatra; solitário e atormentado.

Steve - americano decadente, alcoólatra, desmemoriado e sem controle até sobre suas funções fisiológicas.

Ada - mulher do protagonista; desequilibrada e visionária.

Alícia - mexicana; amiga de Ada; igualmente desequilibrada e visionária.

Mary - africana, amiga de Ada e Alícia; intelectual também visionária.

Jill - A bela mulher de Steve, ruiva de olhos verdes; apaixonada pelo marido decadente.

João - amigo do protagonista; escritor íntegro e corajoso.

Trecho

Ada começou a cavar sua bolsa para a Boston University ao se apaixonar perdidamente por um livro chamado Minimal Society. É que lá havia um bom curso de PH sobre o assunto. De que assunto se trata? É melhor que eu deixe Ada falar. Porque hoje, simplesmente, eu não saberia dizer uma única linha sobre o assunto. Se é que há algum assunto em pauta na Minimal Society. Mas o fato é que muito se falou sobre isso, e Ada literalmente transpirava toda ao conclamar que encarássemos a era da Minimal Society.

Um núcleo comunitário mínimo, onde só circulassem suas próprias mercadorias, completamente vedado às injeções do comércio exterior.

Quando eu perguntava sobre as possibilidades aí do chamado intercâmbio cultural, Ada me respondia que a Sociedade Minimal congrega todas as potências do Homem, e portanto ela mesma se encarregaria de edificar seus próprios monumentos.

Voltemos à Sociedade Minimal, diz Ada diante de sete ex-alunos. Os garotos adoravam essas palestras informais. Um deles um dia escreveu um bilhete a Ada, confessando que depois das aulas masturbava-se sonhando com a Sociedade Minimal. O bilhete vinha manchado de esperma. Uma noite surpreendi Ada olhando-se no espelho e confidenciando a si mesma que tivera um orgasmo involuntário ao ler o bilhete.

Passou a língua na mancha do papel olhando-se no espelho.

Ada não viu que eu estava ali.

Na Boston University Ada encontrou muitos adeptos da Sociedade Minimal. Vários deles já tinham comprado terras, para lá fundarem um dia suas pioneiras Sociedades Minimais.

Quando cheguei em Boston para visitá-la, ainda no aeroporto, Ada disse que estava pensando entrar depois do curso numa Sociedade Minimal no norte de Massachusetts. Achava que iria emigrar para os Estados Unidos. Não via mais na nacionalidade um critério avaliador de qualquer conteúdo humano. As nações sem exceção estavam condenadas. Restava o ingresso nas Sociedades Minimais.

O fato de ser brasileira ou americana já não a comovia. Ter nascido aqui ou ali era um mero acidente. O futuro viveria das migrações. O cara só tinha de decidir que Sociedade Minimal escolher. E para lá então se dirigir. Não importava que estivesse na Terra do Fogo e escolhesse uma Minimal na Groelândia.

Os Fundos Mundiais lhe garantiriam os gastos da locomoção. Uma vez ingresso na Minimal, o indivíduo entraria num processo gradual de recolhimento. A tarefa era a de reconstruir o Universo no espaço de sua Minimal. Ali o derradeiro refúgio contra os espectros do Mundo Exterior. A Minimal auto-suficiente: pródiga fornecedora das necessidades humanas de cada um. E o indivíduo poderia então morrer em paz: sem rancor, servidão, ou cobiça.

Ada dizia que a morte deixará de ser um problema. Pois que as doutrinas post-mortem das Sociedades Minimais seriam tecidas por seus maiores poetas. Os poetas, dizia Ada, têm as mãos apropriadas para a tarefa. Há previsões de renomados Scholars sobre a matéria: os poetas das Sociedades Minimais voltarão a trabalhar em cima da idéia da Reencarnação.

Depois de morto o cara migra cada vez para uma mais perfeita Sociedade Minimal. Algum eventual prejuízo da vida anterior será regiamente ressarcido na nova Sociedade Minimal. O cara vai fazendo parte da Evolução interminavelmente.

Os poetas das Sociedades Minimais viverão gozosamente, trancafiados em escuras celas privativas: álcool, alucinógenos, mulheres, tudo. Só têm que permanecer trancafiados para sempre na trevosa, mas celeste cela. Não suportariam a luz do sol, eles que tecem o grande painel da morte. Ada deplora a influência atual dos mass-media. Diz que na Sociedade Minimal o poeta não será mais bombardeado pela informação. O poeta será o selvagem da masmorra. Para que jornais? exclama Ada ao entrar no táxi à saída do aeroporto de Boston. No táxi olho Boston pela primeira vez.

Passamos agora por ruas estreitas do Little Italy. Num núcleo seguro, continua Ada, a Informação será ociosa. A informação só tem sentido no perigo. É a ameaça que nos faz conhecer.

As Minimais se aurorarem livres como astros. Não precisam de ninguém.

O que se vê hoje é que ninguém quer saber do que vai bem. O homem passando os olhos por páginas de jornais para ter mais um motivo de horror.

Não podemos continuar nessa via macabra, sempre à espera do pior.

Ada pede ao motorista para parar o carro, e me leva a um pequeno restaurante italiano. Não adianta eu dizer que estou atulhado pelas porcarias da Pan American. Ada quer comer agora naquele amado restaurante italiano, como se precisasse de mais um tempo até me levar para a casa onde morava.
Ada estava me escondendo

Resumo adapt. De Literatura.Net e Feranet.

 

(Apostila 18 de Contemporānea da Lit. Brasileira)