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JOSÉ J.VEIGA - A Máquina Extraviada - Estudo e conto

Estudo sobre A Máquina Extraviada - de José J. Veiga:

Uma Esfinge à Espreita:"A máquina extraviada" ou a multidão em pânico

Em GT - História e Literatura - PUCRS

Goiamérico Felício C. Dos Santos
Universidade Católica de Goiás
Universidade Federal de Goiás


... Onde mora o perigo
é lá que também cresce
o que salva.

Hördelin


Em "O narrador: considerações sobre a obra de Leskov", Benjamin lembra-nos que "por mais familiar que seja o seu nome, o narrador não está de fato entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo de distante, e que se distancia ainda mais".1 Benjamin, ainda nesse texto, fatidicamente faz considerações quanto à pobreza em que se encontra a arte de narrar, pois falta-nos hoje a capacidade de estabelecer trocas de experiências justamente pelo fato de a experienciação da vida ser cada mais escassa, como são cada vez mais raras as narrativas significativas que informam acerca de acontecimentos imediatos, passageiros, verificáveis e que nunca vão além da informação corriqueira, não problematizadora das grandes questões humanas.

Assim, as narrativas tornam-se mais significativas quando aquele que narra o faz a partir da própria experiência vivida ou mesmo capturada da experiência dos outros. Vale lembrar aqui o encontro de Fiodor Dostoiévski, já em leito de morte: um jovem pretenso escritor entregara-lhe alguns manuscritos para apreciação. O que se segue à leitura do grande escritor russo são estas admoestações àquele que tão pouco vivera: "Para escrever bem é preciso viver bem, sofrer muito".

Diferentemente de uma simples informação cotidiana veiculada em nosso dia-a-dia, nas conversas informais ou mesmo através da mídia, com as espetaculares notícias que não nos surpreendem apesar dos escândalos que afloram, inundam o nosso cotidiano, a narrativa literária não explica nada, nada conclui e tampouco se deixa consumir. A narrativa literária é uma matéria que não se entrega facilmente, não se deixa consumir, não se deixa apagar, envelhecer. Ao contrário, ela se reinstaura ao longo dos tempos, qual Fênix, a cada leitura, a cada tentativa de configuração de sentido, provocando sempre novas inquietações, novas perguntas, afetando sobremaneira os virtuais leitores. "A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos"2 .

Essas considerações vêm à tona face à revisitação que fazemos do conto "A máquina extraviada", de José J. Veiga3. De difícil classificação, como de resto, toda a obra de Veiga, esse conto enquadra-se nas zonas limítrofes do alegórico e do fantástico, pois a narrativa apenas tenta recuperar, a partir das constatações de um narrador engajado que observa criticamente as situações estranhas, absurdas e incompreensíveis vividas por personagens nada excepcionais, que fazem parte da vida cotidiana.

Seguindo Benjamim, a narrativa significativa seria aquela que se aproxima da oralidade, como um "causo" que se conta despretensiosamente. O narrador de "A máquina extraviada" parece fazer do recurso de noticiar um fato digno de nota também uma motivação para o exercício do relato. Assim, a plurivocidade dessa escrita para enunciar, sobretudo uma necessidade de narrar, num inequívoco processo de metalinguagem.

A narrativa, em forma de carta, apresenta-se também como um conto, uma anedota, uma fábula, ou mesmo um apólogo. Essas zonas fronteiriças também provocam uma indeterminação quanto ao próprio estilo. A ambigüidade do estilo que se afigura entre o realismo mágico, o fantástico, o simbólico ou o alegórico aproxima-se do absurdo kafkiano emblematizado por um "Odradek".

Essa indeterminação de estilo e de gênero literário faz a narrativa se configurar numa simplicidade falsa, pois todos os gêneros e estilos com os quais se tenta aproximá-lo são por ele mesmo rechaçados pela incompatibilidade de qualquer comparação. Não se trata aqui de um conto-enigma, pois nada falta, não há lacunas a serem preenchidas no relato. O leitor parece que se vê ante um mistério que nada tem de místico e que não estabelece nenhuma relação com forças sobrenaturais ou mesmo com elementos extraterrestres.

O narrador dirige-se a um leitor-ideal, o seu compadre, num tom coloquial e despretensioso de um narrador digressivo. Observe-se a imprecisão quanto à data e também quanto ao espaço inominado, como que sugerindo um lugar e o tempo qualquer, indiciando um acontecimento no qual ele se envolve, mas ao mesmo tempo mantendo numa distância crítica quanto aos fatos que ocorrem no sertão, um lugar à margem dos acontecimentos, onde nada ou pouco acontece de relevante:

Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo mundo. Desde que ela chegou, não me lembro quando, não sou bom em lembrar datas, quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo daqui se apaixona até pelas coisas infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos4.

A imponente máquina chegou sobre três caminhões ao final da tarde e foi descarregada na frente da Prefeitura, lugar dos acontecimentos significativos em cidades interioranas, despertando a atenção do povo do lugar. Como os estranhos e rudes homens que as trouxeram e não a montaram indo embora sem qualquer explicação, "a máquina ficou ali ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendara nem para que servia. É claro que cada um dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto o outro"5.

Instala-se assim o mistério. A máquina-enigma agora, açulando o imaginário local, passa a ser alvo de especulações, todas elas julgadas relevantes, pois ninguém censura um ao outro. O mistério só não é respeitado pelas crianças, mas é esconjurado pelo padre ranzinza do lugar, que parece não conviver bem com a nova concorrência que ele tem no resguardo dos mistérios da vida.

Se o objeto de adoração dos hebreus, forjado na ausência de Moisés, até então constituído no próprio mito do povo por ele guiado na longa diáspora, provocou o castigo dos infiéis que se desviaram da verdadeira fé, o que poderá provocar aquele estranho artefato, uma espécie de Cavalo de Tróia que surge do nada, tal como um presente dos deuses para os troianos? Do seu bojo não sairão guerreiros que na calada da noite promoverão o saque, a destruição da cidadela de Príamo. A ameaça desse bizarro presente não vem de dentro. Ele permanece ali, parado, mudo, sem função, inexorável totem quebrando tabus da comunidade. As leis da pequena localidade, à maneira das leis de Moisés foram quebradas pelo maquinário que parece ter saído das forjas de Hefestos para subtrair a substância da cultura local. E a máquina, diferentemente da esfinge cantora permanece muda, parada, aparentemente sem cumprir a funcionalidade esperada, ao mesmo tempo em que vai aos poucos quebrando as funções rituais até então vigentes.

Constituindo-se num verdadeiro Bezerro de ouro do lugar, a máquina extraviada instala-se mudando os hábitos, as conversas, os interesses da comunidade interiorana, ao mesmo tempo em que desafia com o seu mutismo, a sua não funcionalidade, parecendo estar à espera de que o seu enigma seja afinal revelado. O narrador, por sua vez, manifesta preocupação quanto a uma possível retirada da máquina do lugar e também quanto à aterradora possibilidade de que a máquina venha a funcionar. A partir daí o encanto se desvaneceria, pois a essência da mesma entraria em processo de esvaziamento. No entanto, para alívio da comunidade e do próprio narrador, a esfíngica máquina que fora levada para frente da prefeitura local continuava a cumprir as suas "funções", a ser reverenciada como um monumento em torno da qual gravitacionava toda a vida social da comunidade interiorana. Assim, até um funcionário foi designado para poli-la tenaz e diariamente para que a mesma recebesse bem as delegações de visitantes de outras cidades e de outros Estados.

Até mesmo a tragédia que a máquina provocou foi justificada pelo narrador que relativiza o acontecimento. O argumento é simples, pois a máquina fez apenas uma vítima: um incauto rapaz que, caindo de cima da mesma, enquanto dormia, a acionou com o peso do corpo perdendo a perna moída entre as engrenagens. A par disso, a máquina passou a fazer milagres, fato de que duvida o narrador que aproveita para reafirmar o desejo de que a máquina não passe a cumprir funções para que assim ela não seja despojada do encanto que motiva a cidade.
Não estaria enunciada nessa narrativa a problemática do choque de culturas entre o sertão invadido pela metrópole com a sua técnica, os seus instrumentos tecnológicos (linguagem, hábitos, artefatos) através dos quais todo um processo de aculturação e dominação econômica se processou? Não estaria essa narrativa vaticinando o aterrador impacto das novas tecnologias no sertão que tudo transforma, impondo novos valores, novos costumes?

Segundo Pierre Lévy, a tônica hoje, na imprensa, nos estudos oficiais e acadêmicos, centra-se nos impactos das novas tecnologias da informação que se voltariam sobre as comunidades, as culturas como armas de letal destruição como se as técnicas não fossem elas engendradas no seio da própria cultura humana, não advindo elas de mundos externos. "Não somente as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal (junto com a linguagem e as instituições sociais complexas)"6.

A técnica constituiria-se assim na própria cultura do homem condicionando-a sem uma necessária determinação. Nesses termos,

A prensa de Gutenberg não determinou a crise da Reforma, nem o desenvolvimento da moderna ciência européia, tampouco o crescimento dos ideais iluministas e a força crescente da opinião pública no século XVIII - apenas condicionou-as. Contentou-se em fornecer uma parte indispensável do ambiente global no qual essas formas culturais surgiram7.

 

Seguindo a trilha aberta por Heidegger8, a técnica seria distinta de sua essência. O nosso relacionamento com a essência da técnica não será possível enquanto apenas nos sujeitarmos ou nos moldarmos como obsedados pela técnica considerando-a neutra. No jogo da enunciação de "A máquina extraviada" o narrador, como que num processo de ironia, descreve a sua comunidade recusando-se a entender, a questionar o estranho objeto que agora faz parte e dá vida a um cotidiano desprovido até então de novas significações. Enquanto isso, nós, leitores virtuais somos levados a primeiramente nos intrigarmos com tal fenômeno para depois, caminhando com Heidegger, reconhecermos a técnica como um instrumento, "um meio para um fim". A técnica seria um instrumento, um meio para a atividade do homem, constituindo-se numa forma de "desencobrimento da verdade".
Heidegger pondera que:

Também a técnica moderna é meio para um fim. É por isso que a concepção instrumental da técnica guia todo o esforço para colocar o homem num relacionamento direto com a técnica. Tudo depende de se dominar a técnica, enquanto meio e instrumento, da maneira devida. Pretende-se, como se costuma dizer, 'manusear a técnica'. Pretende-se dominar a técnica. Este querer dominar torna-se tanto mais urgente, quanto mais a técnica ameaça escapar ao controle do homem9.

Constituindo-se num verdadeiro Bezerro de ouro em pleno sertão, a máquina extraviada instala-se mudando os hábitos, as conversas, os interesses da comunidade interiorana. Aquela gente simples, constituída por valores arraigados no passado, através dos quais são construídas as suas identidades, não sabendo como interagir com a estranha máquina que não se dá a conhecer e permanece muda, inerte, provocando a ação dos que dedicam a um interminável culto. Eis uma esfinge em nova mutação. Ela, diferentemente das suas irmãs, não faz ecoar seu canto aterrador desafiando os circunstantes para decifrarem o enigma. O seu desafio se efetua pelo silêncio que desperta a cegueira nos locais. As subjetividades, as noções identitárias daqueles que, não estando de posse dos códigos que possibilitam um diálogo objetivo com a máquina, uma produtividade em termos funcionais, acabam provocando, através do imaginário, novas relações subjetivadas com o objeto e com o meio social: "a cada tipo e sociedade, evidentemente, pode-se fazer corresponder um tipo de máquina: as máquinas simples ou dinâmicas para as sociedades de soberania, as máquinas energéticas para as de disciplina, as cibernéticas e os computadores para as sociedade de controle"10.

Nenhum artefato tecnológico surge impunemente. As marcantes renovações de linguagens constituem-se como respostas às renovações tecnológicas. Os registros históricos nos dão conta do tamanho da fatura que é cobrada das gerações que não chegam a ter ao menos um certo domínio das novas linguagens. Lembremo-nos que o estabelecimento da escrita na cultura grega constituiu-se "como uma peça de tecnologia explosiva, revolucionária por seus efeitos na cultura humana, de uma maneira que nada tem de exatamente comum com qualquer outra invenção"11. No diálogo que Sócrates estabelece com o discípulo Fedro constatamos que a tecnologia tem o poder de transformar tudo o que está ao redor: a linguagem, a concepção de liberdade, de inteligência, fato, sabedoria, inteligência, a história. Só que a tecnologia nunca se dá ao trabalho de nos contar o que ela mesma provocará e quase sempre não nos damos ao trabalho de perguntar. A condição de reféns dessa tecnologia será então o destino daqueles que se calam.

Sujeitados ficamos sob o signo da crise das ordens de representações e saberes em decorrência das formas complexas de produção de enunciados, imagens, pensamentos e afetos. A questão cada vez mais recorrente nos mais diferentes fóruns científicos e filosóficos: o homem e a vida não estariam com suas existências ameaçadas sob o peso das ciências e das tecnologias cada vez mais presente em nossa sociedade? "Se cada sociedade tem seus tipos de máquinas, é porque elas são o correlato de suas expressões sociais capazes de lhes fazer nascer e delas se servir como verdadeiros órgãos da realidade nascente"12.

O narrador de "A máquina extraviada" noticia a novidade da província ao seu compadre que também é do lugar que lhe é familiar não através de uma informação parcial de um acontecimento, um escândalo passageiro, mas como um fait divers de um acontecimento estranho, inesperado, pois "não há fait divers sem espanto (escrever é espantar-se); ora, relacionado a uma causa, o espanto implica sempre uma perturbação"13. Enquanto discorre a sua apologética declaração de subserviência à máquina, aparentemente sem o mínimo questionamento, nas brechas da sua enunciação percebe-se uma sutil ironia, uma inquietação do narrador que consegue vislumbrar espanto, medo ante o fenômeno, mas que deve calar-se em sua comunidade.

A narrativa de "A máquina extraviada", na forma do fait divers, oscila entre o racional e o irracional, nas bordas da realidade e do imponderável, sem uma expressão que se completa. Destarte, o fait divers nos diz que o homem está sempre ligado a outra coisa, que a natureza é cheia de ecos, de relações e de movimentos; mas, por outro lado, essa causalidade é constantemente minada por forças que lhe escapam; perturbada sem entretanto desaparecer, ela fica de certo modo suspensa entre o racional e o desconhecido, oferecida ao espanto fundamental14.

Registrando as razões de um possível pânico que pode tomar conta do lugar, esse cronista de algum lugar do sertão registra e estabelece uma comunicação do seu universo invadido pela máquina como um pretexto para a narrativa da experiência compartilhada junto com a multidão em torno à máquina. Assim, ele acaba revigorando a arte de narrar como sempre ameaçada de desaparição, pois a própria sabedoria (atributo indispensável de um bom narrador) está em extinção15.

Antes de anunciar uma ameaça à sobrevivência da longínqua comunidade, esse relato prenuncia a beleza poética que acena para "um desencobrimento mais originário" fazendo assim "a experiência de uma verdade original" "a ameaça que pesa sobre o homem, não vem, em primeiro lugar, das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera. A ameaça propriamente dita já atingiu a essência do homem"16.
Cuidar tão somente da técnica sem a busca de sua essência pode significar, aí sim, abrigar tanto a salvação quanto a perdição. Somente através do poético a verdade em seu esplendor pode fulgir. A poética narrativa de "A máquina extraviada" acaba por nos remeter à técnica, enquanto construção de linguagem, como possibilidade de desvelar a poesia, como verdade inaugural reveladora da essência do homem.

Vale lembrar com o poeta Hördelin que: "... poeticamente o homem habita a terra".

 

 

1. BENJAMIN, W. , 1987: 197.
2. Idem, 198.
3. VEIGA, J. J. 1968. As edições posteriores a essa data, dão ao conto bem como, à coletânea de contos que entrega o mesmo integra, o título: "A estranha máquina extraviada".
4. Idem: 98.
5. Idem: 99.
6. LÉVI, Pierre. 1999: 21.
7. Idem, 26.
8. HEIDEGGER, Martin, 2002: 11.
9. Idem: 13.
10. DELEUZE, Gilles, 1992: 216.
11. HAVELOCK, Eric A . 1996: 14.
12. PARENTE, André: 1999: 15.
13. BARHES, Roland., 1982: 60.
14. Idem: 63.
15. BENJAMIN, Walter: 200-201.
16. HEIDEGGER, Martin: 31.

 

 

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. "A estrutura da notícia". In: Crítica e verdade. Tradução de Geraldo Gerson de Souza.São Paulo: Ed. Perspectiva, 1982.
BENJAMIN, Walter. "O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov". In: Obras escolhidas I: magia e técnica, arte e política. 3ª ed. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1992.
GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
HEIDEGGER, Martin. "A questão da técnica". In: Ensaios e conferências. 2ª ed. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis/RJ: Ed. Vozes, 2002.
LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2002. LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.
PARENTE, André. Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual (org.). São Paulo: Ed. 34, 1999.
SOUZA, Agostinho Pontenciano de. Um olhar crítico sobre o nosso tempo: uma leitura da obra de José J. Veiga. Campinas/SP: Editora da Unicamp, 1990.
VEIGA, José J. A máquina extraviada. Rio de Janeiro: Ed. Prelo, 1968.

 

A MÁQUINA EXTRAVIADA - conto - José J. Veiga

Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas, quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos.

A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.

Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.

 

A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendara nem para que servia. É claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.

As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima, até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.

Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.

Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mas mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.

Devemos reconhecer—aliás todos reconhecem—que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica caol nas partes de metal dourado, esfrega, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo—e a máquina fica faiscando como jóia.

Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.

Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Mas felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.

A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.

Ate agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.

Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal—por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer saber a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo?

Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso—aqui para nós—eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu—e creio que também a grande maioria dos munícipes—não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.

O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade da máquina, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos) peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.

 

(Apostila 24 de Contemporânea da Lit. Brasileira)