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Zero - Ignácio de Loyola Brandão
 

Mais se assemelha a um poema dadaísta de amontoado de coisas que parece não ter conexões. Depois você vê que há uma conexão. Como se não houvesse coerência, coesão, mas há coerência e coesão. A coerência e a coesão da subversão. O próprio livro sentiu-se vítima de insurgência, o próprio autor e também nós, leitores, que se ficarmos calados podemos ser condenados por omissão.

Quando se inicia a leitura, tem-se a vontade de parar. Desistir por alguns minutos ou horas ou dias, até anos. Mas a curiosidade - dote de um bom leitor - mantém firme minha persistência. Depois do terreno arenoso, não vem a bonança. O livro todo é árduo, árido - leitura dificultosa. Isso não é um ponto negativo, pelo contrário. Sobrevive o mais forte. Talvez esse seja o mote de José, personagem enigmático, carismático, atormentador que comunga com vários personagens da literatura brasileira como Fabiano, de Graciliano Ramos e Macunaíma, de Mário de Andrade. Aliás, ao ler Zero, lembrei-me de Mario de Andrade e seu Macunaíma.

Um texto truncado, personagens plurais, comportamentos indecifráveis e angustiantes, heróis e anti-heróis, destruição da visão romântica do estado de coisa, o caráter sem-caráter. Macunaíma talvez seja a gênese, Zero, o apocalipse. Zero é metalinguístico, pois menciona-se dentro da própria ficção, sendo banido pelos governos autoritários que vislumbravam imoralidade em seus escritos. Não que não haja imoralidade, palavras de baixo calão, cenas de sexo selvagem, escatologias. (É bom dizer que a escatologia de Zero tanto envolve a coprologia, as coisas sórdidas e obscenas as expressões chulas e fecais como a preocupação do destino do mundo, quase profético - e toda a literatura deve ter esse misto de mito profecia - elaborando uma teoria do destino e propósito humano. Mas tudo isso é subjetivo. Tudo é variável, como poderia dizer o próprio José: depende.

O que é tudo isso se não a essência pura quando se encontra a humanidade distante de seu sentido ou próximo ao sentido que se constrói diante uma realidade tão imunda. Então José diz: depende. Zero não é só profético, é religioso e as semelhanças com a bíblia não tem nada de coincidência: quando Gê, Gê é o "messias" que o governo acredita ser comunista (é um comunista), assassina o dono do bar, rouba o vinho e transforma groselha em vinho para socorrer o casamento de pobres noivos, quando Rosa persegue uma família e se guia por uma estrela ou quando o governo manda matar todas as crianças com idade do filho do Gê, o menino com música na barriga, para matar o filho do Gê.

O texto também é poético, com contribuições profundas de versos filosóficos, talvez escritos pelo próprio Zé: "Inscrição de Privada/ (Grafitti) /Cagar é lei deste mundo/Cagar é lei do universo/Cagou dom Jorge segundo/Cagou quem fez este verso" p. 31//"Inscrição de privada:/Neste lugar solitário/Toda valentia se apaga/O mais forte só geme/O mais corajoso se caga" p.67// "Inscrição de privada/ (grafitti) /Neste lugar solitário/Todo valente se apaga/Todo homem geme/Todo corajoso se caga" p. 109.


Fonte:
Artigo por Valdir dos Santos Lopes - sábado, 5 de maio de 2012 -
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