ORFEU SPAM APOSTILAS

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Ferreira Gullar 

(São Luís MA 1930)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Um Pouco Acima do Chão, em 1949. Recebeu prêmio, em 1950, pelo poema Galo, no concurso literário do Jornal das Letras, do Rio de Janeiro. No ano seguinte mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a colaborar na imprensa carioca com poemas e críticas de arte. Publicou A Luta Corporal  (1954) e Poemas (1958). Entre 1955 e 1959 participou da primeira fase do movimento da Poesia Concreta. Em 1959 rompeu com o Concretismo e publicou o Manifesto Neoconcreto no Jornal do Brasil. A partir de 1961 participou do movimento de cultura popular, integrando o CPC e a UNE. Foi preso, em 1968, e seguiu para o exílio político na Europa em 1971. Em 1975 foi publicado Dentro da Noite Veloz; seguiram-se Poema Sujo (1976), Antologia Poética (1977). Em 1977 recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano. Nos anos de 1980 publicou Na Vertigem do Dia (1980), Toda Poesia (1980), Crime na Flora ou Ordem e Progresso (1986), Barulhos (1987); na década de 1990 saíram Formigueiro (1991) e Muitas Vozes (1999), com o qual ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 2000. Inicialmente adepto do Concretismo, Ferreira Gullar posteriormente optou por uma poesia mais discursiva, em que os versos ora incorporam elementos da literatura de cordel, como em João Boa-Morte, Cabra Marcado para Morrer (1962), ora se voltam para as tensões sociais e políticas do homem brasileiro, como em Dentro da Noite Veloz (1975) e Na Vertigem do Dia (1980).

 

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

            O poema, senhores,
            não fede
            nem cheira

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

MADRUGADA

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

SUBVERSIVA

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país. 

No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha 

Tua janela por exemplo
       aberta para o céu
       e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
     a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
       e muitas bocas a te dizer
       que a vida é pouca
       que a vida é louca
       E por que não a Bomba? te perguntam.
       Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
       que a vida é louca? 

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
       que não sabe
       que afoito se entranha à vida e quer
       a vida
       e busca o sol, a bola, fascinado vê
       o avião e indaga e indaga 

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade. 

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim. 

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje 

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Trecho de poema sujo

(trecho inicial) 

                           turvo turvo
                           a turva
                           mão do sopro
                           contra o muro
                           escuro
                           menos menos
                           menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
                           escuro
                           mais que escuro:
                           claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
                           e tudo
                           (ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
                          azul
                          era o gato
                          azul
                          era o galo
                          azul
                          o cavalo
                          azul
                          teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
                                                                  eu não sabia tu
                                                                  não sabias
                                                                  fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
                                                                  entrando-nos em ti 

                         bela bela
                         mais que bela
                         mas como era o nome dela?
                         Não era Helena nem Vera
                         nem Nara nem Gabriela
                         nem Tereza nem Maria
                        Seu nome seu nome era...
                        Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
                        constelações de alfabeto
                        noites escritas a giz
                        pastilhas de aniversário
                       domingos de futebol
                        enterros corsos comícios
                        roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
                        perdido comigo
                        teu nome
                        em alguma gaveta 

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
                                              mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já 

                      um prato de louça ordinária não dura tanto
                      e as facas se perdem e os garfos
                      se perdem pela vida caem
                      pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
                      quanta coisa se perde
                      nesta vida
                      Como se perdeu o que eles falavam ali
                      mastigando
                      misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
                tão reais que
                se apagaram para sempre
                                                               Ou não? 

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
                       ou dentro de um ônibus
                       ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
                       perfeitamente fora
                      do rigor cronológico
                      sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
                        voais comigo
                        sobre continentes e mares 

E também rastejais comigo
                       pelos túneis das noites clandestinas
                             sob o céu constelado do país
                             entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
                             vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
                             dobrais comigo as esquinas do susto
                             e esperais esperais
que o dia venha 

                             E depois de tanto
                            que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
                            te chamo aurora
                            te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
                           nas aparições do sonho
 
                            - E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa) 
E todos buscavam 

                             num sorriso num gesto
                             nas conversas da esquina
                             no coito em pé na calçada escura do Quartel
                             no adultério
                             no roubo
                             a decifração do enigma 

                             - Que faço entre coisas?
                             - De que me defendo? 

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
                            (como pode o perfume
                            nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
                               mais verdes que a esperança
                               (ou o fogo
                               de teus olhos) 

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
                                                                       sob as sombras da guerra:
                             a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento o  blackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
                               pelo meu carneiro manso
                               por minha cidade azul
                               pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais 

Mas a poesia não existia ainda.
                      Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
                      Olhos. Braços. Seios. Bocas.
                      Vidraça verde, jasmim.
                       Bicicleta no domingo.
                       Papagaios de papel.
                       Retreta na praça.
                       Luto.
                      Homem morto no mercado
                      sangue humano nos legumes.
                     Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos 

                              Do corpo. Mas que é o corpo?
                              Meu corpo feito de carne e de osso.
                        Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
                        flexível armação que me sustenta no espaço
                             que não me deixa desabar como um saco
                             vazio
                        que guarda as vísceras todas
                                                                     funcionando
                        como retortas e tubos
                        fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
                              e as palavras
                              e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
       mais sentidos
para explodir uma galáxia
       de leite
       no centro de tuas coxas no fundo
       de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
       graves cheiros indecifráveis
       como símbolos
       do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
       um caco de vidro
       uma navalha
meu corpo cheio de sangue
       que o irriga como a um continente
       ou um jardim
       circulando por meus braços
       por meus dedos
       enquanto discuto caminho
       lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
       dos céus da cidade estrangeira
       com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
        aberto 

                  Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
         que mede 1,70m
         e que sou eu: essa coisa deitada
         barriga pernas e pés
         com cinco dedos cada um (por que
         não seis?)
         joelhos e tornozelos
        para mover-se
        sentar-se
        levantar-se 

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
        meu corpo feito de água
        e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
        e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
        que se desintegra e reintegra
        sem se saber pra quê 

        Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
        dois olhos
        e um certo jeito de sorrir
        de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
       que meu filho identifica
       como sendo de seu pai 

corpo que se pára de funcionar provoca
        um grave acontecimento na família:
        sem ele não há José Ribamar Ferreira
        não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre 

 corpo-facho    corpo-fátuo     corpo-fato 

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
        de rato
        cocô de gato
sal azinhavre sapato
       brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
       nos pentelhos
com meu corpo-falo
       insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
        cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
        de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
        sambas e frevos azuis
        de Fra Angelico verdes
        de Cézanne
        matéria-sonho de Volpi 
         Mas sobretudo meu
                                  corpo
                                  nordestino
         Mais que isso
                              maranhense
        mais que isso
                              sanluisense
        mais que isso
                              ferreirense
                              newtoniense
                              alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
                               ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
                               sob as balas do 24º BC
                               na revolução de 30 

e que desde então segue pulsando como um relógio
                              num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
                              tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
                              entre vitrinas de roupas
                              nas livrarias
                              nos bares
                              tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
                     esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne, 

combatente clandestino aliado da classe operária
                              meu coração de menino

Poema brasileiro

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade 

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

Galo galo
[image]

O galo
no saguão quieto. 

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval. 

De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia. 

Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
- que faço entre coisas?
- de que me defendo? 

                                   Anda.
no saguão
O cimento esquece
o seu último passo 

Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e o duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura? 

Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora? 

Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório? 

Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa. 

Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito. 

Vê-se: o canto é inútil. 

O galo permanece - apesar
de todo o seu porte marcial -
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira! 

Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
             não seria tão rouco
e sangrento 

                  Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

Oswald morto

             Enterraram ontem em São Paulo
             um anjo antropófago
             de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)
As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar 

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional 

NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Bananas podres

Como um relógio de ouro o podre
oculto nas frutas
sobre o balcão (ainda mel
dentro da casca
 na carne que se faz água) era
ainda ouro
o turvo açúcar
vindo do chão
                        e agora
ali: bananas negras
                        como bolsas moles
                        onde pousa uma abelha
                        e gira
                        e gira ponteiro no universo dourado
                        (parte mínima da tarde)
em abril
             enquanto vivemos 

E detrás da cidade
(das pessoas na sala
ou costurando)
às costas das pessoas
à frente delas
à direita ou
(detrás das palmas dos coqueiros
alegres
e do vento)
feito um cinturão azul
e ardente
o mar
batendo o seu tambor 

que
da quitanda
não se escuta 

Que tem a ver o mar
com estas bananas
                              já manchadas de morte?
que ao nosso
lado viajam
para o caos
                   e azedando
e ardendo em água e ácidos
a caminho da noite
vertiginosamente devagar? 


Que tem a ver o mar
com esse marulho
de águas sujas
fervendo nas bananas?
com estas vozes que falam de vizinhos,
de bundas, de cachaça?
Que tem a ver o mar com esse barulho? 

Que tem a ver o mar com esse quintal?
Aqui, de azul,
apenas há um caco
de vidro de leite de magnésia
(osso de anjo)
que se perderá na terra fofa
conforme a ação giratória da noite
e dos perfumes nas folhas
da hortelã
Nenhum alarde
nenhum alarme
mesmo quando o verão passa gritando
sobre os nossos telhados 

Pouco tem a ver o mar
com este banheiro de cimento
e zinco
           onde o silêncio é água:
           uma esmeralda
           engastada no tanque
           (e que
                     solta
           se esvai pelos esgotos
           por baixo da cidade)
Em tudo aqui há mais passado que futuro
mais morte do que festa:
                                        neste
banheiro
de água salobra e sombra muito mais que de mar há de floresta
         muito mais que de mar
                                              há de floresta
Muito mais que de mar
neste banheiro
há de bananas podres na quitanda 

e nem tanto pela água
em que se puem (onde
um fogo ao revés
foge no açúcar)
do que pelo macio dessa vida
de fruta
inserida na vida da família:
um macio de banho às três da tarde 

Um macio de casa no Nordeste
com seus quartos e sala
seu banheiro
que esta tarde atravessa para sempre 

Um macio de luz ferindo a vida
no corpo das pessoas
lá no fundo
onde bananas podres mar azul
fome tanque floresta
são um mesmo estampido
um mesmo grito 

E as pessoas conversam
na cozinha
ou na sala contam casos
e na fala que falam
(esse barulho)
tanto marulha o mar quanto a floresta
tanto
fulgura o mel da tarde 
- o podre fogo -
                          como fulge
a esmeralda de água
                                 que se foi 

Só tem que ver o mar com seu marulho
com seus martelos brancos
seu diurno
relâmpago
que nos cinge a cintura? 

O mar
          só tem a ver o mar com este banheiro
com este verde quintal com esta quitanda
          só tem a ver
          o mar
com esta noturna
terra de quintal
onde gravitam perfumes e futuros
           o mar o mar
com seus pistões azuis com sua festa
          tem a ver tem a ver
com estas bananas
          onde a tarde apodrece feito uma
carniça vegetal que atrai abelhas
varejeiras
          tem a ver com esta gente com estes homens
que o trazem no corpo e até no nome
          tem a ver com estes cômodos escuros
com esses móveis queimados de pobreza
com estas paredes velhas com esta pouca
     vida que na boca
     é riso e na barriga
     é fome 

No fundo da quitanda
na penumbra
                     ferve a chaga da tarde
e suas moscas;
em torno dessa chaga está a casa
e seus fregueses
o bairro
as avenidas
as ruas os quintais outras quitandas
outras casas com suas cristaleiras
outras praças ladeiras e mirantes
donde se vê o mar
nosso horizonte.

(Apostila 16 de Contemporānea da Lit. Brasileira)