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"O Tronco" (1999) -Bernardo Elis - resumo

Bernardo Elis dedicou seu romance O Tronco (1956) “aos humildes vaqueiros, jagunços, soldados, homens, mulheres e meninos sertanejos mortos nas lutas dos coronéis e que não tiveram sequer uma sepultura”. É um livro-denúncia de um período da evolução social do campo de Goiás, por volta dos anos 20.

Os cangaceiros, pressionados no sertão nordestino, procuravam fixar-se no interior do país. Lá voltaram a encontrar as disputas entre os “coronéis” latifundiários: tornavam-se seus instrumentos de opressão. Suas arbitrariedades, entretanto, não eram superiores à da polícia, comprometida com os grupos políticos dominantes.

Nessas lutas não há princípios éticos. É um jogo onde vale a lei do mais forte e os mais fracos e oprimidos estão do lado da lei ou contra ela.

Constituem, na verdade, setores sociais marginalizados pela estrutura de poder político-social.

A história do romance baseia-se em episódios históricos ocorridos em Vila do Duro (atual Dianópolis) nos anos de 1917/18. Essa ênfase informativa da situação social e a utilização de recursos dramáticos (alta freqüência de diálogos e de indicadores cênicos) aproximam a narrativa da novelística da década de 30.

O Tronco divide-se em quatro partes, dispostas linearmente: “O Inventário”, “A Comissão”, “A Prisão” e “O Assalto”.

Adapt. De Benjamim Abdala Jr., Lit. Comentada, Abril Cultural, 1983

Filme:

Sinopse: O filme narra a disputa pelo poder que acontece no início do século entre grandes fazendeiros do sul de Goiás, que comandam o governo, e coronéis do norte do Estado. O coletor de impostos Vicente Lemos, homem de confiança do governo, é enviado para a região norte a fim de combater o domínio absoluto exercido pela família do patriarca Pedro Melo, cujo filho, Artur, é ex-deputado e ex-aliado dos coronéis sulistas. Os Melo incendeiam a coletoria de Vicente, o que obriga o governo a enviar uma tropa com soldados

comandada pelo astuto e carreirista juiz Carvalho, que manda invadir a fazenda. Todos são presos, menos Artur, que escapa, escondendo-se. Temendo a represália, o juiz foge da região, deixando a tropa e os cidadãos sob fogo cruzado. A guerra começa, envolvendo de um lado a selvageria dos jagunços e, do outro, a violência dos soldados, que aprisionam os familiares do coronel Pedro Melo a um tronco, sob a ameaça de matá-los um a um, caso os jagunços não se rendam.

Duração: 109 min.

Roteiro e direção: João Batista de Andrade

Baseado no romance homônimo de Bernardo Elis

Elenco: Ângelo Antônio, Antônio Fagundes, Letícia Sabatela,

Rolando Boldrin, Chico Diaz, Cida Moreira, Paulo Vespúcio,

Henrique Rovira, Mariane Vicentini, Mauri de Castro, Augusto

Pompeu, Cida Mendes, Breno Moroni, Guilherme Reis, Carlos

Careca, Guido Campos Correa, Itamar Gonçalves, Jônatas

Pinheiro, Wellington Dias, Julio Van, André Pimenta, Luzia

Divina, Almir de Amorim, Henrique Cabral, Fernanda Ivar

Prêmios:

Festival de Brasília 1999: Melhor Filme (Comissão Brasil 500 Anos), Melhor Ator Coadjuvante (Rolando Boldrin)

Festival de Recife 2000: Melhor Diretor

Festival de Natal 1999: Melhor Ator Coadjuvante (Rolando Boldrin), Melhor Cenografia

 

Entrevista com João Batista de Andrade (diretor do filme):

O Tronco é baseado no romance de Bernardo Élis, que, por sua vez, ficcionara uma história baseando-se em fatos históricos, uma guerra de jagunços, coronéis e soldados no início do século. O projeto era uma idéia antiga: eu havia lido o livro em 1968 e, naquele mesmo ano, resolvi procurar o autor.

O que mais me atraíra no livro, desde 68, era a fragilidade absurda do personagem central, o coletor Vicente Lemes, fragilidade que me parecia uma representação de nossa própria fragilidade política, da história de inviabilidades da esquerda brasileira até hoje. Vicente Lemes era como uma espécie de embrião de militante, nesse início de século 20 onde parece que tudo se inicia: criação do PCB, Coluna Prestes, Semana de 22, sinais de efervescência da vida urbana, trazendo ideais de liberdade, democracia, modernidade, direitos civis. Pois Vicente Lemes, de forma embrionária é o personagem desse momento.

Ele, como funcionário de um governo de coronéis, vai para o norte do estado de Goiás controlar os coronéis inimigos do governo, os Melo, justamente seus parentes. Vicente tem suas idéias, acha que os coronéis são violentos, que desrespeitam as leis. Tenta impor seus ideais, acaba acirrando o conflito. Vendo-se derrotado pela força de seus parentes, não desiste do que acha justo. Só que ele não possui força própria: para isso tem que apelar para a força do governo. E a força do governo vem, mas para agir de acordo com os interesses e ideais do próprio governo e não os de Vicente. Ele se vê, então, em meio à luta entre os poderosos reais da sociedade, uma luta sangrenta, absolutamente selvagem. O personagem Vicente perde sua fugaz capacidade

dirigente, de personagem principal. Será um mero coadjuvante em meio à barbárie.

 

Texto de O Tronco:

 

O CORONEL PEDRO MELO

No frio da manhã, o coronel Pedro Melo ia pela estrada montado na sua grande mula, a maior de que havia notícia naquela região. Tilintava as esporas, as rodelas dos freios, as fivelas e bombas do arreio e da cabeçada. Atrás iam os dois jagunços, Mulato e Resto-de-Onça, cada qual com sua repetição alceada no ombro. Os cascos batiam nas pedras. Pelos baixos, a neblina ia densa, molhando o capim que pegava a amarelar. Os bem-te-vis cantavam pelos altos angicos.

Pedro Melo dirigia-se para a Grota, ia pôr seu filho Artur a par de tudo que se passava no povoado, queria dar-lhe parte das exigências de Vicente Lemes.

O velho olhava sobranceiro a paisagem que lhe era tão familiar. Quantas vezes já passaram por ali, nem sabia ao certo! Julgava-se o criador daquela paisagem, daqueles caminhos, daquelas cercas, daqueles muros e daquelas pontes. Tudo saíra de suas mãos ou das de seu filho. Era o criador e dono daquilo tudo. No entanto, Vicente Lemes e Valério Ferreira pretendiam governar. Essa era boa! Uns preguiçosos daquela marca! Que é que eles já haviam feito para a região, a não ser fuxicos e mais fuxicos? Pela frente corria a estrada orvalhada e ainda sem sol. Era uma estrada carreira.

Quando o velho era menino, havia ali apenas um trilheiro de jumentos. Bem se lembrava de quando a abriu. Era mocinho, que bons tempos! A estrada antiga nem merecia esse nome. Mal dava passagem para os cargueiros de mantimentos. Para ir a Barreiras era duro. Os comerciantes da Bahia até debicavam:

- Ei, seu moço, esse seu Goiás é mesmo um fim de mundo! Por que é que você não traz carro de boi para levar mercadoria?

Pedro Melo enrolava conversa e ria para disfarçar o embaraço. No fundo, ficava agravado. Na verdade não levava carro de bois a Barreiras porque a estrada não dava passagem. Dava isso para meter os burros pelas grotas e serrotes.

Os comerciantes, entretanto, tanto azucrinaram que um dia Pedro não se conteve:

- Homem, não trago carro porque acho tropa melhor de lidar.

- Quiá, quiá, quiá - estalaram as gargalhadas em redor. - Ô homem de boca dura! Tu não traz carro porque lá não existe estrada - chasqueou um dos caixeiros da Rainha da Barateza, a melhor casa comercial de Barreiras. O Melo sentiu a cara lascar fogo:

- Pois pro ano, por esse tempo, estou aportando aqui com dois carros, de boiada baia.

O dono da Rainha da Barateza, onde conversavam, saltou o balcão para fora, deu dois tapas nas costas de Pedro, mandou um caixeiro trazer a garrafa de vinho-do-porto e cálices, e distribuiu a bebida para todos:

- Olhem, vocês são testemunhas. Se esse goiano entrar aqui, pro ano, com um carro de bois, eu mando dizer uma missa cantada. Já não falo em dois, basta um carro.

De novo as gargalhadas estrondaram, enquanto os cálices se esvaziavam, como selo do trato. Valendo-se da confusão, o moço Pedro Melo despedia-se de todos e passava a perna por riba da mula estradeira, metia-lhe as esporas e saía num trote picado para alcançar a tropa que guizalhava na saída do comércio.

Pelos pousos e estirões, foi delineando o plano. Adestraria duas boiadas de 48 bois crioulos baios, faria dois carros de bois. De cá já ia escolhendo os boiecos: o filho da Beleza mais o da Dinamarca iam para o coice; o filho da Sertaneja e aquele boizinho que barganhara com o mano Antônio iriam para a guia.

Também pensava nos pés de pau para fazer os carros. Ia fazê-los de jatobá, daqueles jatobás enormes que cresciam na beira da serra.

E a estrada? Essa era a mais dura, mas ele já tinha em mente como traçar a danada por aqueles ermos que tanto conhecia. O principal era despender o menos possível.

Daí uns dias, já os machados roncavam pelos vãos de serra, abrindo a picada da estrada. Para trás as picaretas e as enxadas retiniam, aplainando mais ou menos o chão duro. Além, alguns homens davam os últimos repasses numa junta de bois baios que arrastavam toras de madeiras.

Como um general, todo encourado, Pedro ia e vinha, dando ordens, distribuindo o pessoal no trabalho, apressando a picada, pois precisava voltar ao sítio ainda em tempo de ajustar as chedas dos carros, que os carpinteiros lavravam.

- Vamos ver, vamos ver, minha gente! - As enxadas retiniam no terreno pedregoso, enquanto os paus seculares baqueavam lá adiante, clareando a mata.

Numa dessas vezes, Pedro Melo viu um preto alçar a foice para cortar uma vergôntea que se erguia bela e viçosa no meio do sarobal. Pedro segurou-lhe o braço, chamou os demais trabalhadores e se dirigiu ao foiceiro:

- Você sabe o que é isso?

O cabra ficou meio espantado, titubeou, mas o patrão encorajou:

- Vamos, diga, você sabe.

- Apois num é um broto de cedro?

- Isso mesmo - confirmou Pedro Melo, enquanto com o olhar aprovador percorria os demais homens ao redor. Também os outros suspenderam a faina e estavam curiosos pelo desfecho da cena. "O patrão mandava derrubar o mato e depois não deixava torar um ramico daquele!"

- Para que serve o cedro? - continuava perguntando o moço, sem se dirigir a ninguém. Num coro, uma vintena de vozes responde:

 

- Pra fazer cadeira, armário, porta, janela, oratório...

Aí as vozes se calaram, como se tivessem esgotado o rol das serventias. Pedro Melo percebeu a indecisão dos homens e os concitou:

- Vamos, vamos, para que serve mais?

- Com perdão da má palavra, serve pra caixão, meu amo - respondeu um mais afoito.

- Isso mesmo, - aprovou Pedro: - é o pau apropriado pra caixão. - Nesse ponto, perguntou: - E vocês sabem quem sou eu?

Cheios de indecisão, uns três responderam que ele era o patrão, o coronel Pedro Melo, homem poderoso e rico.

- Vocês podem bater em mim?

- Deus me livre e guarde, - disse o coro de homens descobrindo-se.

- Vocês podem me matar?

- Cruz credo, coronel! Larga pra lá essas brincadeiras sem graça.

- Pois esse raminho daí é a mesma coisa que a minha pessoa. Ninguém pode fazer mal para ele. Ele vai crescer, vai ficar um pauzão danado de forte e vai servir para meu caixão... - A frase ficou meio suspensa, enquanto o moço refletia para, a seguir, dizer com uma firmeza impressionante: - Isso, se eu morrer!

O silêncio caiu sobre os homens e sobre a paisagem. Pouco a pouco os cabras foram botando na cabeça suarenta os cacos de chapéu e daí uns instantes as ferramentas retiniam à cadência de uma canção tristemente monótona. Perto do cedrinho, ali ficou o moço Pedro Melo com seu porte arrogante, com seu semblante duro, com sua quase convicção de que não morreria, de que viveria eternamente, de que ninguém jamais o derrotaria em qualquer coisa.

Ante seus olhos agora de velho, uma névoa perpassava. A estrada foi feita, os carros de bois avançaram por ela e chegaram a Barreiras justamente no dia marcado. Foguetes riscaram o céu da cidade e as campainhas da igreja anunciaram a elevação da hóstia, na missa solene que o coronel Lima mandava dizer.

E, na verdade, tudo isso aconteceu, porque no dia exato, nem antes nem depois, precedido de foguetório, o moço Pedro Melo, na porta da Rainha da Barateza, gritava: - Ôa, boi, ôa!

- Espia o sol - gritou Resto-de-Onça.

- Eta rodeira bonita! - secundou Mulato. Estas palavras afugentaram as lembranças do velho coronel Melo, que logo já avistou o bicame e de imediato pensou em Vicente Lemes: Vicente foi sempre homem pirracento. Não sei adonde Artur estava com a cabeça quando encaminhou esse tranca para cargos públicos! Por cima, tinha ainda a velha Benedita para emprenhar Vicente pelos ouvidos com fuxicos sobre Artur e ele, Pedro.

- Foi mole, foi mole sem contia... - esta frase chegada aos ouvidos do velho, fê-lo perder o pensamento. Atrás vinham os dois capangas. Vinham alegres, souberam do caso do inventário, ouviram o velho conversando com Tozão e anteviam lutas. Afinal, estavam voltando os bons velhos tempos. Quem é que foi mole? - indagava a si mesmo o coronel: Seria Artur, seria ele Pedro? Não. Não era um nem outro, que aqueles dois homens de sua confiança não iam nunca falar um absurdo desses. Artur não era mole, nem ele...

- Foi: Damião foi mole - reafirmava Resto-de-Onça e agora o coronel ouviu bem: falavam de Damião, ah, isso sim. O capanga prosseguia: - Falar procê, se compadre Artur tivesse lá, escrita era outra.

Mulato concordou e contou um caso de outros tempos, Resto-de-Onça ainda não trabalhava com eles. Foi em Santa Maria de Taguatinga. O chefe político mais forte de lá era contra Artur, mas era um homem delicado, que não gostava de agravar ninguém. Um dia Artur com seus rapazes entrou no povoado, madrugadinha, dando tiros e gritos, apearam na porta da igreja e desfilaram pelo Largo.

- Menino, o tal sujeito delicado virou um canguçu. Num "vupe" arreuniu seu povo e se nós saíssemos ligeiro, sei não, era aquele sobrosso.

Os cavalos gemiam e arrastavam os cascos, descendo cautelosamente, a passo, a bocaina estreita e inclinada em demasia. Papa-capins e grilos voavam do capim que bordejava o caminho. A Grota estava lá embaixo, no fundo de uma furna. Os arreios ringiam e a conversa calou-se.

Na sombra, um joão-conguinho guinchava. De cá, viam-se as casas, o engenho, as capoeiras pelas encostas mostrando as velhas roças, os currais, oficina de farinha. O velho teve novamente jeriza. Era aquilo que irritava Ferreira e Vicente Lemes, era a capacidade de trabalho deles Melos. Isso que enfezava os inimigos. Afinal, Artur ali era tudo, sempre fora tudo. Desde novinho vivia lendo e estudando cada livrão grosso de meter medo, mas aprendeu: era o médico, o farmacêutico, o advogado, até o padre. Padre, muito bem: padre, porque Artur descobriu aquele tal de espiritismo, que era religião. E Artur era médio, como chamava o padre dos espíritas.

O velho sentia-se orgulhoso do filho, sentia-se envaidecido. "Era um sábio. Nem Francisco Azevedo, o famoso professor da fazenda das Taipas, que possuía um mundão de livros, nem esse podia com Artur que o entupia com duas palavras. Isso que exasperava o dorminhoco do Vicente e o fuxiqueiro do Ferreira."

Se havendo adiantado, Mulato pendurava-se da sela, fazendo correr as varas da porteira, franqueando ao velho a entrada do curral. Um bando de cachorros veio ao encontro dos chegantes, aos latidos, mas reconhecendo-os transformaram a acuação em ganidos de alegria.

Já a pé, Resto-de-Onça segurava com uma mão a camba do freio da mula, com a outra firmava o estribo e ajudava o velho a apear-se junto à calçada da frente da fazenda. Pedro Melo estava ansioso por contar ao filho a exigência absurda do coletor Vicente, mais esse fuxico do diabo do juiz Valério. Ó gentinha!

(O tronco, 1956.)

 

Dissertação de Mestrado da UFMS

A costura da colcha : uma leitura de Bernardo Elis (dissertação de mestrado), Gicelma da Fonseca Chacarosqui Torchi, UFMS (Univ. Fed. Mato Grosso do Sul). 05/12/2001. Orientador: Prof. Dr. Paulo Sérgio Nolasco dos Santos

RESUMO

 

Nosso trabalho propõe uma análise dos contos do escritor Bernardo Élis. Os estudos acerca da obra bernardiana têm privilegiado, até o momento, questões lingüísticas e temáticas, daí a necessidade de um estudo mais aprofundado das técnicas e procedimentos literários da poética bernardiana. Analisamos o processo metafórico representado pela imagem da colcha de retalhos , cujo fio condutor - o ato de costurar - constitui-se um eixo poético da narrativa contista do autor. O corpus deste trabalho delimitou-se em torno das obras Ermos e gerais, Veranico de janeiro , Caminhos e descaminhos, acrescidos da coletânea Caminhos dos gerais, e evidenciam que a literatura bernardiana possui características de uma ficção que segue técnicas do expressionismo e surrealismo, num contraponto marcadamente modernista. Trata-se de uma literatura exploradora de técnicas narrativas como o fluxo de consciência, o monólogo interior, o discurso indireto livre, amparadas pela mais recente tradição da arte literária.

 

(Apostila 11 de Contemporānea da Lit. Brasileira)