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A ENXADA - conto de Bernardo Elis - comentários e trecho:

Trecho:

“Piano investiu até peto de um ferreiro graúdo, colheu uma enxada, revirou para o rancho e foi sacudir Olaia:

-Olaia, Olaia, vigia a enxada.

As labaredas brigavam com as sombras, pintando de vermelho ou de preto a cara barbuda de Piano arcado sobre a paralítica:

-Vigia só a enxada!

Olaia, admirada, passou a mão pelos olhos. Será que não estava dormindo? Por mais que procurasse ver a enxada que Piano lhe mostrava, o que percebia era um pedaço de galho verde em suas mãos. Talvez murici, talvez mangabeira. Mais ferramenta nenhuma ela não via. “O homem tava não regulando, será?’, pensou Olaia otusa.

-Enxada!

Piano avançou com ar decidido, atracou o saco de arroz, num boleio jogou-o ao ombro, as pernas encaroçadas de músculos retesos saindo por baixo do saiote de baixeiro, tão desconforme. O passo pesado e duro de Piano batendo incerto no chão molhado e escorregadio, cambaleando sob o peso dos trinta quilos, afastou-se socando, socando, e se perdeu no engrolo do enxorro na grota do fundo do rancho. Olaia quis seguir com os ouvidos os movimentos de Piano, mas o que vinha do negrume era um mugido de gado triste. Depois, quase sumindo, o latido de um cão, latido esquisito, Olaia jamais haverá escutado um ganir mais feio, até ficava arrepiada na cacunda, upa frio! “Decerto, a morte que passou por perto ou tava campeando alguém”.

-Olha a enxada, Olaia.”

 

 

Longa Metragem: Terra de Deus
Do conto “A Enxada“ de Bernardo Élis
Direção: Iberê Cavalcanti   Elenco:  
Stepan Nercessian,Lucélia Santos, Marcela Moura e Marcos Fayad.

Sinopse:

Saga de um caboclo do interior de Goiás que tem de fazer uma plantação de arroz. Será punido se não terminar na data combinada com o fazendeiro (seu Elpídio), mas ele não tem uma enxada.

 

Trecho do discurso de posse de Evandro Lins da Silva na ABL:

 

O talento de Bernardo Élis tem vocação dirigida para representar o trágico e transmite ao leitor a sensação das angústias, sofrimentos e desgraças dos seus personagens.

Muitos outros contos do nosso homenageado, talvez possamos dizer todos, têm a marca do seu alto poder de descrição. Por exemplo, “A enxada”, que Aurélio Buarque de Holanda considera “o mais aclamado sobretudo (creio) pelo seu alto teor e substância social, pela extraordinária pungência que o assinala. É um ferrete. Conto rico, soberbo, mas igualado por outros...”

Quando Élis morreu, o editor da revista do Diário da Manhã, de Goiânia, Welliton Carlos, escreveu um artigo magnífico comparando “A enxada” a um dos filmes mais importantes do cinema italiano, Ladrões de bicicleta, de Vittorio de Sica. O personagem do filme é um operário que, logo depois da guerra, sem emprego, para sustentar a família, adquire, com o maior sacrifício, uma bicicleta de segunda mão como instrumento de trabalho, mas ele foi roubada no primeiro dia, tirando-lhe o único meio de subsistência de que podia dispor num país que saíra derrotado da guerra. O jornalista mostra a similitude: “A enxada é para o homem do campo o mesmo que a bicicleta representa para o operário da Roma urbana”. O conto de Bernardo Élis é comovente, dramático, é a estória da amargura de um homem que precisa trabalhar e não consegue o instrumento necessário, é “um personagem de fazer inveja aos mineiros de Germinal, obra-prima do mestre Émile Zola... deve ser difícil encontrar alguém no mundo que tenha sofrido tanto como os tipos encontrados nos causos (sic) contados pelo maior escritor goiano”.

Gilberto Mendonça Teles, no seu trabalho O conto brasileiro em Goiás, fala de “A enxada” para dizer que Bernardo Élis aí aparece

novamente em contato com a preocupação social, neo-realista e praxista na sua filosofia literária, agnóstico no caracterizar a vida e a alma das suas personagens, comprazendo-se na exploração do grotesco e desumano, como aqueles farrapos humanos de “A enxada”, cujas mãos se transformam na enxada negada pelo patrão e se exibem como “duas bolas de lama, de cujas rachaduras um sangue grosso corria e pingava, de mistura com pelancas penduradas, tacos de unhas, pedaços de nervos e ossos”.

Esse conto é, talvez, o mais dramático e característico do “humor negro” em Bernardo Élis, preocupado sempre com o fundo social de sua obra, em que as personagens são sempre os párias, indigentes, loucos, agregados miseráveis, enfim, toda uma galeria de personagens neo-naturalistas, teratológicas, com suas taras e problemas, numa visão macabra e terrível do mundo, como se não houvesse, nunca, para o homem pobre a beleza da felicidade material, porquanto a outra felicidade, aquela que mais se identifica com a natureza do espírito, esta parece completamente alheia à obra de Bernardo Élis.

Vale dizer, ainda, para concluir, que o conto “A enxada” termina acentuando e dando continuidade a um estado de vida de conformação na pobreza, de resignação no medo, numa passagem realmente admirável e também cinematográfica – o bobo carregando a mãe nas costas, pedindo esmolas – que não deixa de ter grande semelhança com um episódio dos retirantes, em A bagaceira, numa possível influência de leitura.

 

(Apostila 10 de Contemporânea da Lit. Brasileira)