ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Quarup - Antônio Callado - resumo

Publicado em 1967 e traduzido para várias línguas, Quarup é o livro mais famoso de Antônio Callado. É a história de Nando, um padre que vive em Pernambuco e acalenta a utopia de criar no seio da Amazônia, uma nova terra prometida, um novo paraíso, como teriam sido, em seu tempo, as missões jesuíticas no sul do Brasil.

No tempo em que Nando ainda vive num mosteiro, sem animar-se a sair em busca da sua utopia, conhece Francisca e o noivo desta, Levindo, jovem estudante que trabalha junto às nascentes Ligas Camponesas. Nando passa então a amar platonicamente Francisca e teme não resistir, quando for conviver com os índios, à visão das índias nuas, pecando assim contra o voto de castidade que fez como sacerdote. Winifred, uma amiga inglesa de Nando, resolve tirá-lo do impasse em que se encontra oferecendo-se a ele. Uma vez mantidas relações sexuais com uma mulher, Nando está pronto para enfrentar as outras que aparecerão no seu caminho e pronto para partir.

Antes de chegar ao Xingu passa pelo Rio de Janeiro, onde conhece pessoas ligadas ao Serviço de Proteção aos Índios: Ramiro, o chefe, Vanda, sua sobrinha e secretária, Falua, jornalista e amante de Sônia (por quem Ramiro alimenta grande paixão), Olavo e Lídia, do Partido Comunista, e Fontoura, chefe do Posto Capitão Vasconcelos, no Xingu, e grande amigo dos índios, cuja cultura tenta preservar da destruição causada pela civilização e pelo progresso. Conhecendo-os, Nando conhece também desde jovens mulheres como Vanda até as sensações e “viagens” provocadas pelo cheiro de éter, nas sessões de lança-perfume de que participa com Ramiro e os outros. Fontoura, entretanto, revela-lhe uma dura realidade: a triste situação dos índios, sua pobreza, doenças, sua condição de condenados pelo Brasil “civilizado” que investe sem tréguas, alterando suas vidas, roubando-lhes as terras e a tranqüilidade.

Do Rio, Nando parte para o Xingu. A época é 1954, em plena fase do atentado contra Lacerda e dos últimos momentos do governo de Getúlio Vargas. Em Fontoura e em todos no posto do SPI, uma grande expectativa: a presença de Getúlio, que virá para inaugurar o Parque Nacional do Xingu, assegurando a preservação das terras indígenas. Enquanto esperam, ajudam os índios a preparar sua grande festa aos mortos: o Quarup, que, entre outras cerimônias ritualísticas, é constituído de uma grande comilança. Entre lances de caça, pecas, banhos de índios nus e perseguições de Ramiro a Sõnia, chega ao Xingu pelo rádio a notícia do suicídio de Getúlio, e morre em Fontoura a esperança de ver o posto transformado em parque. Cansada das encrencas dos homens brancos, Sônia foge com Anta, um índio bonito, forte e preguiçoso, para desespero de Ramiro e Falua.

Na parte seguinte do romance, a história tem continuidade ainda no Xingu, mas muitos anos depois, quando todos se reencontram, menos Sõnia, numa expedição ao centro geográfico do Brasil. Participa também Francisca, que voltara da Europa e perdera o noivo Levindo, morto pela polícia. Reacende-se então o amor de Nando, que se descobre correspondido por Francisca. Dessa vez as coisas não ficam no amor platônico, mas chegam ao contato sexual, no centro da floresta virgem, em meio a orquídeas coloridas.

Cada uma com suas obsessões, prosseguem todos na expedição. Ramiro, por exemplo, tem sempre a esperança de encontrar Sônia, vivendo em alguma tribo. Depois de vários riscos, fome e extravios no meio da floresta, enfrentando tribos ferozes ou doentes e famintas, o grupo chega ao centro geográfico, onde é fincado um marco. Autodestruído pela bebida, pois perdera as esperanças de salvar os índios, Fontoura morre em pleno centro geográfico, com o rosto sobre o grande formigueiro que corrói o Brasil, desde o seu coração.

Francisca leva terra do centro geográfico para Pernambuco, cumprindo uma promessa feita a Levindo, antes da morte deste. Nando renunciara ao sacerdócio e volta a Pernambuco com Franscisca, que passa a trabalhar na alfabetização de camponeses. Antes disso, os dois desfrutam uma espécie de lua-de-mel no Rio de Janeiro. De volta a Recife, porém, Francisca resolver afastar-se, sacrificando-se pela memória de Levindo. Nessa época, a luta dos camponeses ganha força, sob o governo de Miguel Arraes, ao qual entretanto se opõe Januário, o líder do movimento. Nando resolve ajudar no trabalho das ligas. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Goulart é deposto e, em Pernambuco, Arraes é afastado. Várias prisões são feitas, os líderes são perseguidos. Nando vai parar na cadeia, onde sofre interrogatórios e torturas mais morais do que físicas, especialmente se confrontadas com o sofrimento dos camponeses, antigos companheiros de luta. Quando o soltam, Francisca havia partido novamente para a Europa. Nando recolhe-se então à sua casa da praia (herança de seus pais) e se entrega a uma espécie de “apostolado do amor”. Tendo finalmente aprendido com Francisca a arte de amar, de maneira a dar prazer à mulher amada, ele agora distribui amor, fazendo sentirem-se belas as mulheres mais feias e ensinando as técnicas amorosas a vários “discípulos” seus. São pescadores que resolvem segui-lo nessa “nova cruzada”, para grande espanto e escândalo de seus antigo companheiros de luta política, em vias de organizarem novamente o movimento revolucionário, desta vez no sertão.

No décimo aniversário da morte de Levindo, Nando resolve comemorar a data com uma espécie de réplica do Quarup, um banquete com todos os amigos, pescadores, prostitutas e antigos companheiros de ligas. A cena do grande jantar (espécie de ritual em que se devora antropofagicamente a figura de Levindo) é simultânea à grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os participantes da marcha, juntamente com a policia, invadem a festa: muitos são presos, alguns fogem e Nando é espancado quase até a morte.

Socorrido por uma prostituta amiga e por Manuel Tropeiro, antigo companheiro de luta, Nando é levado para a casa do padre Hosana, onde se recupera e decide partir com Manuel Tropeiro para o sertão, voltar às lutas. Antes, porém, passa por sua casa, onde encontras cartas de Francisca, e a polícia que o espreita. Conseguindo matar os guardas, despede-se de Recife e da própria Francisca, que agora não é mais a mulher de carne e osso. Ela é o “centro de Francisca”, explica Nando a Manuel e ao leitor. Como precisa mudar de nome, adota o de Levindo e tudo indico que a história se repetirá. Entretanto, o romance termina numa nota alta de otimismo no futuro que aguarda os dois heróis, com Nando vendo “o fio fagulhar ligeiro entre as patas do cavalo como uma serpente de ouro em relva escura”.

Adapt. De Lígia Chiapini Moraes Leite, Lit. Comentada, Abril Cultural, 1988.

 

(Apostila 4 de Contemporānea da Lit. Brasileira)